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31 julho 2017

Diploma de ódio


Dentro de todas as mentiras que nos fizeram acreditar, uma se destaca: o ódio que uma mulher sente pela outra.
Poucas mentiras tiveram mais poder do que essa, foi escrita nas pedras, desenhada nas paredes e tatuada no chão.

É fato que o ódio existe e navega pelo coração humano, mas não está direcionado a todas as pessoas de um gênero ou outro que cruzem no seu caminho. Odiar uma mulher que um dia te prejudicou não significa ''odiar'' todas.

Mas ódio ensinado é pior do que arma carregada, sempre está ali em alerta, acorda ao menor sinal e não escuta argumentos nem explicações.

Escutei uma conversa entre duas jovens, sobre uma terceira que estava acabando um mestrado. As duas jovens fizeram uma lista de motivos pelos quais o mestrado da terceira não valeria nada, a lista incluía suposições de que ela teria recebido ''ajuda'' de um professor, que a faculdade era ruim, que nem era bom o mestrado, enfim, parecia que tudo levava a mesma conclusão: o importante era odiar a moça.

Depois de um tempo elas voltaram a conversa e começaram a se divertir com uma história, parece que a moça que fez o mestrado tinha ficado muito tempo longe dos estudos, ficou insegura e contratou uma professora particular para dar uma refrescada e assim tentar um vestibular. Ficou dois anos com aulas particulares, e não eram tanto para se fortalecer nas matérias, mas para vencer sua insegurança. Depois conseguiu entrar na faculdade e acabou fazendo um mestrado.

Não sei os motivos da insegurança da moça, mas posso adivinhar um por um, porque são iguais ao de todas. Crescemos escutando que é bom estudar e ser inteligente, mas não é por essas qualidades que o teu príncipe vai te achar e se apaixonar, ele procura beleza e você tem que ser linda para ser amada.

Sem beleza, não tem amor e quem quer viver assim? Cercada de diplomas e sem um Romeu?

E nas ruas o discurso continua, mulheres fortes que entraram na política ou subiram nas carreiras sempre são criticadas pela sua aparência, quantas vezes escutei e li pessoas dizerem sobre mulheres poderosas ''que bom que é alguém na vida, porque com aquela cara e corpo, não vai achar marido''.

Pois é, isso é dito a todas, a cada segundo, a cada minuto, a cada hora, sem beleza não há vida e diplomas são para as feias, as que não tem outro jeito de sobreviver no mundo, já que não vão conseguir um ''macho'' para sustentá-las.


Somos doutrinadas para sonhar em sermos divas e um dia de nossas vidas, nem que seja um dia, entrar em um lugar e ser vista por ''ele'', essa figura mítica masculina que rege nossas vidas.

E quem é incentivada a sonhar com um mestrado, um doutorado? Não dá tempo!

E colocar um negócio propio? Já viu mulher lidar com o mundo real? Não consegue!

Estudar para muitas é um grande sacrifício, não pelo tempo, mas pela crença de que não é boa o suficiente para aquilo, porque a mensagem é sempre a mesma, mulheres são emocionais e não enfrentam bem os desafios acadêmicos.

E o outro lado da moeda também se aplica, o truque é fazer a mulher se sentir mal, então alguém pergunta se ela estudou, responde que não e logo vem o julgamento ''nossa, mas podia ter pelo menos terminado o ensino médio''.

Ah, sim, mulheres que não estudam se sentem mal, mulheres que estudam se sentem mal. É o mesmo jogo. 

Muitas mulheres que não estudam não o fazem por diversos motivos, o excesso de trabalho, responsabilidades, um marido inútil, filhos pequenos, mas o principal motivo é que não se sentem inteligentes o suficiente, se veem pequenas diante de um tubarão que não existe. Essas mulheres levam orçamentos domésticos, mas não se acham capazes de passar em uma prova de matemática, lidam com centenas de problemas todos os dias, mas não acreditam poder cumprir prazos de trabalhos e provas.

E tudo isso é mentira armada, ódio plantado. O patriarcado nunca quis mulheres em bancos de escolas e faculdades, não é do interesse deles nossa entrada a nenhum mundo que os faça perder o controle que tem sobre nossas vidas.

Nossa suposta burrice é mentira inventada, e tem sido assim durante séculos, nos fizeram acreditar que o mundo acadêmico é demais para nossas pequenas mentes. Depois plantaram o ódio que dizemos ter umas pelas outras, e pronto, o dano estava feito. 

Estamos acostumadas a olhar outra mulher com o mesmo olhar que recebemos do patriarcado, de desprezo e ódio.

E era uma história sobre duas jovens que falavam de uma terceira, ironizavam o mestrado que a moça tinha concluído, era ódio líquido que escorria pela boca.

Se a mentira não tivesse atravessado nossa vida seria uma história sobre duas jovens que se inspiraram em uma terceira e resolveram fazer alguma coisa de suas vidas. Pararam de se sentir mal com o que viam os outros fazerem e resolveram se mexer. Podia ser uma história sobre duas jovens que ficaram comovidas com o esforço da terceira, que contratou um professor particular para entrar em uma faculdade. Podia ser uma história de inspiração, uma mensagem extraordinária a todas as mulheres, acreditem na sua capacidade, inteligência e conquistem o mundo.

O bom é que as mentiras são frágeis paredes que um bom martelo derruba e podemos derrubar essa. Não somos burras e podemos estudar, evoluir, ter um negócio, ou ser dona de casa, não importa o que queremos ser, importa não se sentir burra.

O outro problema que o ódio traz é a conta alta, sim, pagamos pelo ódio que sentimos, ele nos puxa para baixo. Cada vez que vemos o sucesso de alguém e pensamos que poderia ser o nosso, vamos para baixo. Ódio não inspira, pelo contrário, te faz sentir mal.

A moça ao lado estudou, mudou de emprego, viajou, começou do zero?
Especular sobre como conseguiu isso e querer diminuir, não ajuda ninguém. Bom mesmo é olhar para o lado e se inspirar, pensar que se ela conseguiu, bom, eu posso estar mais perto do que quero. Foi possível para ela? Pode ser para mim. Em vez de jogar ódio e ressentimento, é melhor se aproximar e puxar uma conversa, conhecer um pouco inspira mais.

Mulheres são inspiradoras pela alta resistência a tudo, pela profundidade do seu amor e intensidade, e porque seguem em pé, apesar de tudo.

Quem está perto e muda algo, te prova que isso é uma coisa possível, sim, podemos reconstruir nossa vida, apesar de toda a terra que é jogada no nosso rosto.

E tenha a certeza, nenhuma mulher teve nada fácil nesta vida, todos escutamos as mesmas bobagens, recebemos as mesmas cargas de ódio e somos convencidas desde pequenas do nosso fracasso.

Quando odiar uma mulher sem motivos se pergunte se é real ou uma reação ao ódio que foi ensinado, se não é apenas um resto do lixo que carregamos. 

E pense duas vezes, se inspire, é mais fácil enfrentar um dragão quando sabemos que alguém já fez isso, do que ficar paralisada sem acreditar que pode fazer isso.

Todas as mulheres tiveram e têm os mesmos desafios, se inspire nas diferentes maneiras de enfrentá-los, de vivê-los.

Era uma história que poderia ser sobre duas jovens falando de uma terceira e no fim dizendo ''poxa, escutei a história dela e me senti inspirada para mudar minha vida, porque ela é parecida a mim, talvez seja eu, talvez seja eu lá na frente, quando tudo já deu certo''.


Iara De Dupont










11 julho 2017

Sem explicações



Nasci nos anos setenta e cresci no auge de uma nova ''pedagogia'', que incentivava os pais a conversarem com os filhos e respeitarem suas decisões.

Meus pais acreditaram nisso, foram ingênuos ao pensar que crianças ''sabem'' o que querem e podem verbalizar isso com perfeição. Assim fui educada, como se fosse um adulto em miniatura ou uma anã. Tudo que eu dizia ''sim'' ou ''não'', meus pais me pediam longas explicações, como se eu pudesse no alto dos meus seis anos me expressar como Platão.

Mas me acostumei a isso e meu cérebro correu atrás da ideia, comecei a falar cedo e sempre mostrei um bom vocabulário.

Verbalizei a vida inteira, até que percebi o óbvio: não adianta me pedir explicações se nem eu sei o que está acontecendo.

Nunca me dei esse direito, de dizer ''não sei''. Tentei explicar a ex-namorados porque queria sair dos relacionamentos, a chefes porque largava o trabalho, a diretores porque estava indo embora, mas na realidade aquilo era uma cortina de fumaça, porque nem eu sabia sempre o que estava acontecendo.

Levei anos para entender que eu precisava respeitar duas coisas na minha vida, uma era o fato de não ter uma explicação e a outra era não ter que dar nenhuma explicação, não importa se sei ou não, eu não devo explicações. 

E então comecei a perceber como o mundo era maior do que isso, e não eram apenas os rastros de uma educação pedagogicamente falida, mas a questão espiritual, meu direito de não tentar ter uma explicação diante das coisas que me acontecem.

Parece instável, mas é só um ser humano sendo ser humano, o direito de se levantar e dizer ''vou embora''.

Mas precisa explicar! Será que precisa mesmo?

Quantas vezes chorei pela mesma situação, homens que sumiam da minha vida sem nenhuma explicação, mas alguns séculos depois percebi que não era preciso dar essa explicação, a situação em si se explicava.

Olhando para trás me pergunto, que vantagem teria sido escutar uma explicação mentirosa? Teria trazido alívio para a dor? E por que acreditar que as pessoas têm explicação para tudo, se eu não tenho? E por que perder o tempo com explicações, se no fundo sabemos mais do que pensamos e sentimos mais do que aceitamos?

É um direito espiritual que temos e não usamos, o de levantar da mesa e ir embora sem dizer nada.

Ah, mas quantas pessoas podemos magoar? Muitas.
Mas que explicação damos diante do inexplicável em nossas vidas? Será que sabemos e podemos explicar nossas ações?

Perdi tempo e energia inventando explicações que não existiam, verbalizando o invisível, desenhando sombras.

É terrível se levantar e ir embora sem dar explicações, é ruim estar no lugar de quem faz isso ou quem está ali vivendo a situação, mas as coisas acontecem, o ser humano é imprevisível e explicações nem sempre são bem vindas.

Nem mil verbos podem explicar a alma humana e seus movimentos, nem mil frases decifram o que sentimos, muito menos explicam o porquê de nossas ações.

E pode parecer cruel, mas é honesto dizer que não vai dar explicações porque não sabe explicar. Ponto. É simples assim.


Iara De Dupont


26 junho 2017

Dá pra pegar leão no colo?


Algumas histórias se repetem, mas com o passar do tempo nossa interpretação muda, começamos a perceber aspectos que ignorávamos e abrimos os olhos para detalhes que não pareciam importantes antes.

Há uns anos uma amiga se casou com um homem incrível, mas o casamento durou menos de três anos.

Eu tive a impressão na época que ela deveria estar escondendo alguma coisa, porque sempre disse que amava o marido, mas tinha algo errado no casamento.

De fora parecia certo, ele a tratava bem, a vida era mansa, mas ela não estava à vontade e pediu o divórcio, mesmo alegando que ele era o amor de sua vida.

Sei que existem segredos que não contamos a ninguém porque nem nós acreditamos no horror que são, algumas frases não conseguimos nem formular na mente, quanto mais falar disso.

Pensei que minha amiga estava nessa posição, talvez alguma coisa assustadora tinha acontecido no casamento e ela não queria falar sobre o assunto.

O marido nunca entendeu o pedido de divórcio e saiu do casamento espumando de raiva, desceu do patamar do amor ao mais profundo ódio. Era tão forte o que ele sentia que saiu da casa com a roupa do corpo, nunca mais quis voltar, nem brigou por nada.

Há pouco tempo aconteceu a mesma coisa com a irmã da minha amiga, se casou com um rapaz, aparentemente ótimo, e não durou muito.

Tenho visto umas situações assim e agora não penso mais em segredos nem informações ocultas, penso que pode ser outra coisa, de novo bato na mesma teoria, o que foi ensinado as mulheres, a maneira como fomos e somos construídas socialmente.

Estamos acostumados como sociedade a falar sobre relacionamentos abusivos, violência doméstica e homens descontrolados, mas existe uma parcela mínima, talvez abaixo disso, de relacionamentos que ficam desconfortáveis e estranhos por um outro elemento, e ninguém fala sobre isso, até porque é um assunto invisível.

Mas o ponto é o seguinte, nós, mulheres, sabemos receber amor? 

Não. Ninguém nos educou para receber coisas boas, principalmente em relacionamentos e nós agimos de acordo ao que nos ensinam, não ao que é certo ou errado.

A grande maioria das mulheres cresce em ambientes violentos, onde a autoridade masculina não pode ser questionada e os homens têm seus meios de conseguir o que quiserem, seja no grito, intimidação ou violência física. E quem pode aprender a receber amor assim?

Ninguém aprende, por isso tudo vira lixo.

Os psicólogos tecem milhões de teorias sobre o assunto, garantem que mulheres que cresceram com pais violentos repetem a mesma violência com os parceiros, mas eles ignoram o mais importante, as mulheres não conhecem a violência apenas em casa, mas em todos os lugares, recebemos tudo dos homens, menos amor.

Desde pequenas estamos cercadas por homens que nos desprezam, sejam professores, colegas de escola, depois no trabalho, somos assediadas e acossadas nas ruas e ensinadas a temer a presença masculina.

Por isso pode ser tão estranho de repente se apaixonar um homem que saiba dar amor, nos parece coisa de outro mundo e fica desconfortável.

Passei por essa situação algumas vezes, conheci um homem amoroso, mas minha mente não conseguia decifrar nem entender seu comportamento, por isso eu me sentia deslocada na relação. Fui à psicólogas que me garantiram que isso tinha cura, era apenas reflexo da minha educação, aquela famosa síndrome de algumas mulheres que só se apaixonam por canalhas.

Durante anos pensei que eu era assim, estava errada, achava que tudo era culpa do meu ambiente familiar, por isso eu escolhia os homens errados.

Levei anos para perceber que os homens ''errados'' me cercavam e não envolvia relacionamentos, eram professores, amigos, desconhecidos, por todos os lados conheci apenas a violência masculina, então como poderia ensinar meu cérebro a receber amor de um deles? É possível convencer a mente de que isso existe? Não seria como dizer que se você tiver sorte pode encontrar um leão que te deixe pegar ele no colo? 

Quando entendi toda a violência masculina que me cercava percebi que não era eu a errada, e que até nosso modo de amar precisa ser modificado, porque aprendemos errado.

Hoje entendo quando uma mulher diz que se sentiu desconfortável com um homem amoroso, até porque agora eu navego na desconfiança, quando vejo um assim fico logo pensando em que intenções esconde, fruto da cultura violenta que cresci, duvido de todas as 'fofices' masculinas.

Mas aprender a receber amor é uma das coisas mais importantes do mundo para uma mulher, porque não sabemos fazer isso de nenhum jeito, estamos tão condicionadas a sempre dar amor, que receber parece coisa de outro mundo.

Quando algo assim acontece não penso mais como um dia me disseram para pensar, diziam que eu não merecia amor, por isso acabava sem saber o que fazer quando recebia. Hoje entendo que não era questão de merecimento, mas de aprendizado, eu não aprendi a receber amor do homens porque eles nunca aprenderam a dar.

Eu tinha vergonha antes quando as pessoas diziam ''nossa, essa Iara só se apaixona por canalhas'', mas agora penso que quem deveria sentir vergonha é o mundo, por criar seres como os homens que não sabem amar e só querem receber amor. É a sociedade que deveria se envergonhar de viver em um modelo que aceita a violência masculina como algo natural.


Muitas mulheres têm que aprender a receber amor e não se sentirem desconfortáveis com isso, mas eu diria que todos os homens deveriam aprender a dar amor, pelo menos respeito.

O que vivemos agora é consequência de todos os erros na educação de todos, a tolerância com a violência masculina, a exigência de submissão às mulheres, os relacionamentos tortos e abusivos.

Amor é uma energia vital, uma força divina, mal utilizada pelos humanos, desperdiçada por todos.

E no fundo é um alívio dizer que não sou mais aquela garota com diagnósticos de psicólogos nas costas, aquela que amava canalhas. Sou uma mulher normal em um mundo doente.


Iara De Dupont






05 junho 2017

Não é sobre o queijo



Poucas coisas me surpreendem nos relacionamentos, mas ainda assim acontecem. 
Uma delas é a tolerância de algumas mulheres em relação a má educação de seus maridos e namorados. Já gastei litros de tinta falando sobre esses homens grossos e sem noção, que são a  maioria.

É parte da cultura que vivemos dizer que ''homem é assim mesmo'', é o jeito deles de reagir a vida, falam de maneira curta e tosca e mulheres são educadas para entender e tolerar essa maneira de ser.

Desde pequena escuto que se quero educação, então que procure mulheres, homens são diretos.

O que ainda me choca é ver a quantidade enorme de mulheres que aceitam conviver com seus maridos ou namorados, que as tratam na ponta do pé, mas todos dizem que eles têm um bom coração, o jeito rude é porque são homens.

E atrás da má educação existe um conjunto de fatores, desde um homem mal educado, até a insegurança e o fato de não ser maduro para viver uma situação, então reage no grito.

Vejo muito isso com amigas, seus namorados são grossos, mas me passam a impressão de que carregam milhões de complexos e não sabem lidar com a vida adulta, muito menos a vida a dois.

Uma amiga se casou com um designer, um rapaz encantador, mas já veio com aquela sensação da nova geração, ou talvez seja algo de sua idade, mas pensa ser maior que todos, e não precisa de um emprego, ele pode se virar sozinho, pode se construir sem estar dentro do sistema.

Concordo com ele, é talentoso, e sim, pode desenhar e criar fora do sistema, o problema é que ele esqueceu que até para isso é necessário ser maduro e pensar bem as coisas. Mesmo sabendo que não tem entrada de dinheiro fixa, pediu a namorada em casamento, uma ingênua que aceitou.

No começo os pais dele ''ajudavam'', perceberam que seria impossível levar uma casa apenas com o salário da moça, e resolveram dar uma mesada ao moço. Durante esse começo, o moço foi um encanto, o melhor marido do mundo.

Tudo parecia bem, até que algo causou uma irritação no pai do rapaz, que decidiu cortar a mesada. 

Minha amiga disse que não faria muita diferença, os pais dele já tinham dado um apartamento, e o salário dela poderia cobrir os gastos, até o marido se estabelecer um pouco e ter uma cartela maior de clientes.

Mas esbarram no queijo. No queijo. O rapaz é como um rato solto, louco, fanático por queijo, não consegue ficar sem queijo, precisa comer todos os dias, só que pela educação que recebeu está acostumado a queijos finos e exóticos, daqueles que custam duzentos reais o quilo.

Durante um tempo o rapaz jogou suas compras no cartão de crédito, mas em algum momento arrebentou e não deu mais.

Um dia minha amiga estava fazendo compras no supermercado e viu um queijo mussarela em oferta e resolveu comprar, pensou que agradaria o marido, na falta de queijos melhores pela situação econômica, o mussarela poderia ajudar.

Ela chegou em casa e disse à ele, contou sobre o queijo. O que ele fez? Explodiu! Disse quem nem os porcos comem esse queijo!

Com quem a moça pensa que se casou? Com um idiota que come queijo mussarela? Quem come queijos, conhece queijo, entende de queijos, sabe que o mussarela se joga aos porcos! 

Ah, sim, eu não sabia, mas ele disse que é assim.

Minha amiga disse que ele (aos gritos) respondeu:

-Tudo bem que você não entende nada de queijo, mas já está comigo há tempo suficiente para saber que o queijo mussarela é uma merda! 

E a coisa foi aumentando, chamou a esposa de ''suburbana'', ''classe média que acha que só existe queijo mussarela e queijo prato'', disse que ela tinha ''refinamento de supermercado'', no pior dos casos se come provolone, na miséria total roquefort! Mas mussarela e seu ar ''classe média baixa'' não se jogam nem aos porcos!

Não precisa ser rico, disse o rapaz, precisa ser refinado e sua esposa ainda não tinha aprendido a diferença entre um brie e um gorgonzola!

É, a moça é classe média, ainda estudou em colégio particular, mas nunca foi à França, já o marido ia uma vez por ano, nas feiras de queijo. A  moça está acostumada a comprar queijo em padaria e não daquelas finas, mas padaria de esquina, compra o queijo, o presunto e o pão.

Mas o marido também não perdoou o pão, disse que só ''faltava'' ela ter comprado pãozinho francês, o símbolo máximo da pobreza e falta de refinamento!

A moça ficou magoada, bem chateada mesmo, e contou à sua mãe, que a consolou dizendo que ''homens são assim'', dizem as coisas sem pensar, mas não tem nada a ver com o que sentem, ele a ama, nunca quis ser mal educado, mas é homem e eles não sabe se expressar (nesse caso quem seria o porco que come mussarela?).

Como tem um bom relacionamento com a sogra, disse à ela o que tinha acontecido, a sogra respondeu que entendia, mas era importante a nora entender que seu marido está se sentindo pressionado, não tem nada a ver com o queijo, o rapaz está frustrado pela falta de dinheiro, mas é uma ótima pessoa (obrigado por avisar, eu estava na dúvida).

Inacreditavelmente, a moça não saiu do casamento, imagina abandonar um marido apenas porque ele a chamou de suburbana, sem refinamento e a acusou de comprar queijo que se joga aos porcos.

Ela ficou ali, continua no mesmo lugar. Pegou trauma do queijo mussarela, começou a prestar mais atenção em outros tipos de queijo, levanta as orelhas quando alguém fala sobre queijos, Deus a livre de ter outro enfrentamento com o marido por culpa de um queijo.

E venho eu, humildemente dizer o seguinte, homens não assim, não agem como ele agiu, quem age dessa forma é um babaca, idiota, mimado, e imaturo, incapaz de lidar com as mazelas da vida doméstica.

Ah, esqueci de contar um detalhe. Bom, ficou tão chato a história do queijo mussarela, que seu pai retomou o apoio econômico, voltou a dar mesada, entendeu como era injusto deixar seu filho comendo queijo mussarela, aquele que se dá aos porcos.

E por que uma mulher aceita e aguenta esse tipo de comportamento? Porque escuta que homens são assim.

Não são e chega de cimentar essa ideia, quando o homem é idiota merece ser abandonado.

E avisei minha amiga, que se prepare pelo o que vem pela frente, se o rapaz já é imaturo para lidar com a falta de queijo no café da manhã, o que vai ser lá na frente quando a vida apertar? Porque isso é um fato, a vida sempre aperta, de um jeito ou de outro.

Minha amiga respondeu ''você nunca perdeu a cabeça e disse algo que não queria? É justo ser julgada por isso?''.

Ah, mas foi um pouco demais né? A esposa pensa nele, gasta dinheiro e ainda escuta desaforos e ofensas? 
Uma coisa é se jogar no chão, frustrado e dizer ''vou comer o queijo mussarela, mas queria mesmo o provolone, paciência, assumo meus erros, assumo minha vida e o fato de não ser um bom provedor, mas mantenho minhas escolhas. E graças a Deus tem um pão francês para acompanhar, é melhor essa comida de classe média baixa do que passar fome''.
Outra coisa é ofender a esposa, chamá-la de suburbana, mentalidade de padaria, gosto de mulher de bairro, compradora de lixo e tal....

Bom, ele é um canalha, e vai se revelar pior, eu já avisei.

E vou morrer sem entender porque mulheres toleram esses homens, tentam agradar a esses doentes, relevam seus ataques e chiliques, e ainda pensam neles como ''homens de bom coração''.

Não me interessa se tem um bom coração ou não, o que interessa em um homem é como ele te trata, e se não for com respeito, amor e devoção, não serve de nada.

E chega dessa história de ''homens são assim'', estamos apenas dando licença social para que continuem agindo como moleques e não assumam a responsabilidade da vida que se meteram, porque até onde sei ninguém obriga um homem a se casar.

E mulheres, por favor, se respeitem, não aceitem esse tipo de comportamento, não caiam nessa armadilha de achar que ele perdeu a cabeça, mas é uma ótima pessoa. Não é, homens imbecis não são boas pessoas e ponto.

E não é sobre o queijo. É sobre não permitir mais ser tratada dessa maneira, porque teu marido pode saber muito sobre queijos, mas não sabe nada sobre como tratar uma mulher, isso reduz ele a um porco, daqueles que comem queijo mussarela.

Iara De Dupont

02 abril 2017

O dia que mudei de lado



Há uns anos um Romeu terminou o namoro comigo. Eu estava apaixonada, apesar de saber que o relacionamento não tinha futuro.

Meses depois encontrei o Romeu e sua nova namorada. O que senti ali é impossível de descrever, como se meu coração tivesse quebrado em mil pedaços. Passei a noite toda analisando sua nova namorada, me mordendo de inveja, ciúmes e raiva.

Gastei um bom tempo na vida com ódio dessa moça,  me perguntando o que ela tinha.

Mas eu ignorava e escondia os motivos pelo fim do namoro, as coisas tinham desandado entre nós porque eu descobri que Romeu era viciado em pornografia e não quis lidar com aquilo.

Eu sabia que ele era boa pessoa, mas seu vício ia contra meus valores e me mostrava uma face assustadora dele, até onde se pode confiar em um homem viciado em pornografia? Se eu tivesse uma filha com ele, até onde eu poderia acreditar que ele seria um bom pai?

Viciados em pornografia são antes de tudo, uns machistas, que mesmo negando, acreditam que a mulher serve como objeto, não conseguem olhar para uma mulher como ser humano, é apenas uma boneca para eles.

Ocultei a verdade de mim e por um bom tempo odiei a nova namorada de Romeu, minha alma se partia em dois quando os via juntos.

Não tive boa vontade com ela, nem tentei ser simpática.

Eu agia assim porque não conhecia o feminismo e o lado das mulheres não tinha meu apoio naquela época, a culpa da minha dor era da nova namorada e ponto, eu não via nada além disso.

E tive essa mesma sensação com outras namoradas de ex-Romeus, me sentia menor, diminuída e com o sentimento de que elas deveriam ser melhores do que eu, porque quem estava se mordendo de ciúmes era eu, não elas.

Eu desmontava a situação, mas nunca os Romeus.

De repente minha vida começou a mudar, quando descobri o feminismo e percebi que eu vivia em um ciclos de relacionamentos abusivos, assim que percebi isso comecei a sentir uma enorme empatia pelas novas namoradas de Romeu, porque percebi que elas eram tão vítimas quanto eu e estavam entrando no mesmo poço que eu tinha entrado e a duras penas consegui sair.

Recentemente apareceu na minha vida um ex-Romeu, voltei a me encantar com ele, para logo me desencantar. Não era a pessoa que amei, não sei quem era, mas eu não conhecia sua nova personalidade e acabamos entrando em um conflito que levou a um fim triste, deprimente e ofensivo.

Fiquei muito chateada com ele, achei que agiu de má fé e poderia ter evitado tanta tensão.

Mas poucos dias depois fiquei sabendo que ele estava com outra mulher, o que me levou a pensar que criou uma situação ruim para se livrar de mim e ficar com a outra.

Pensei que morreria de raiva da outra, mas em vez isso senti uma enorme pena, quase uma dor. Poxa, ela parece tão meiga e ele é tão tosco emocionalmente, que mesmo sem querer posso imaginar o pior.

Foi a primeira vez na minha vida que vi a situação por outro ângulo, que percebi que tinha mudado de lado, eu não via mais o Romeu como um santo e sua nova namorada como a ''bruxa'' da história, agora é diferente, posso perceber o abuso e me dar conta que esses Romeus doentes trocam de namoradas, mas tratam todas da mesma maneira abusiva, porque eles são assim.

Mas tive que mudar de lado para entender que se eu fui vítima de um homem a abusador, elas também vão ser. Fico com uma vontade louca de mandar mensagens e dizer que tomem cuidado, que observem, esses homens não mudam.
Ver algumas apaixonadas aperta meu coração, porque sei como serão tratadas e exploradas.

Antes de mudar de lado eu via tudo de maneira simplista, Romeu terminava comigo e ia atrás de outra namorada, uma maldita, mas ao perceber a dimensão de tudo me dei conta que a história é outra, é sobre um Romeu abusivo que termina comigo e vai atrás de outra mulher para abusar e magoar.

Mulheres, mudem de lado. Percebam que estamos vivendo do lado errado e vendo os Romeus como os santinhos e nós, mulheres, como as más. 
Só que a maldade e o abuso estão do lado deles, o lado de lá.



Iara De Dupont

12 março 2017

Romeu e sua boneca de papel



 

Nos últimos tempos, digo, anos, aprendi a questionar tudo, penso duas vezes cada vez que escuto alguma coisa e chego a várias conclusões. Me pergunto mil vezes a quem convém o que é dito ou o que pode estar atrás disso.

Pode parecer paranoia, mas em um mundo onde a mulher é carne moída, não me parece errado prestar atenção em tudo que nos cerca.

Aprendi a desconfiar de uma figura bem popular, o famoso  ''Romeu'', aquele ser que amamos e na maioria dos casos decidimos dividir a vida com eles.

Mas Romeus não são grátis, nem transparentes, são humanos e neste caso humanos que cresceram debaixo das regalias dadas ao gênero masculino. Mesmo sem querer eles agem de um jeito misógino, educados e doutrinados nos privilégios e no excesso de direitos, ou de pensar que os têm, eles não são os anjos que pensamos que são.

Eu não critico eles abertamente, entendo hoje que são fruto de uma cultura, mas percebo também que a maior responsabilidade é minha, sou eu que tenho que estar atenta as armadilhas, consequências da educação que eles recebem.
Mas para que isso aconteça preciso tirar meus óculos cor de rosa e deixar de ser romântica, ver Romeu apenas como ele é, um homem que é resultado de uma cultura e age de acordo com isso.
Também não gosto disso, se fosse tudo de acordo as minhas fantasias eu preferiria viver em um mundo onde homens são parceiros legais e eu posso relaxar, sem estar atenta aos detalhes. Gostaria de estar em um planeta onde nada tivesse segundas intenções e não viessem coelhos escondidos na cartola, mas não tive essa sorte, sendo assim a melhor coisa que posso fazer é manter os olhos abertos e a mente flexível, deixar meus óculos cor de rosa enterrado no jardim e seguir a vida.

Veio minha amiga dizer que mudou de ideia, vai colocar silicone. Ela sempre foi magra e com pouco seio, mas dizia estar feliz desse jeito, seguiu um tempo a carreira de modelo e isso parecia ser uma vantagem, o pouco peito. Como viajou bastante conheceu outras culturas e  padrões de beleza, assim nunca se incomodou por ter o peito pequeno.

Ela começou a falar sobre algumas mudanças e falou sobre o silicone. Na hora perguntei a ela se ainda estava namorando e me confirmou que sim.

Minha percepção sobre o assunto mudou na hora. Se uma mulher me diz que vai colocar silicone e está sozinha, eu percebo que foi uma decisão dela, mas se tem um Romeu na história desconfio de tudo, de cada vírgula, de cada palavra.

E faço isso baseada na minha fantástica experiência com homens. Eles são doutrinados para pensar que tem poder sobre nossa aparência, acreditam que decidem o que vestimos ou não e que os seduzimos usando a roupa que eles escolhem.
Como não pode mais ser um jogo tão aberto, para não parecer dominante, o discurso mudou, agora Romeus falam mansinho e começam a frase dizendo ''eu te aceito do teu jeito, mas poxa amor, podia ter mais peito ou ser mais magra né?''.

Se eu namorasse hoje os homens que um dia namorei, com certeza pesaria cinquenta quilos, porque algumas vezes sofri a pressão aberta e direta e outras vezes a voz mansinha que me alertava que eu estava engordando, mas sempre era a voz do macho ditando regras sobre minha aparência.

Eles nos veem como bonecas e nós, mulheres, fazíamos isso com nossas bonecas na infância, cortávamos seu cabelo e mudávamos suas roupas, eles fazem a mesma coisa e acham que têm o direito de modificar algumas partes do nosso corpo para satisfazer suas fantasias sexuais.
E não param, se a mulher der uma folga, eles caem matando, começam a buzinar de leve, seja para que  a mulher emagreça ou coloque silicone, mas eles apertam, se aproveitam do desejo criado nas mulheres em querer agradar os homens que amam, essa é a porta do inferno.

Canso de escutar amigas dizendo ''eu não me incomodo em ser gorda ou não ter peito, mas Romeu me diz que se posso melhorar, por que não fazê-lo?''.
É, por que não fazê-lo?

E até onde vamos por isso? É viável deitar em uma mesa, levar anestesia geral, apenas porque Romeu gosta de mulheres com peitos grandes? Eles valem esse risco? E o que ganhamos em troca? Ele vai fazer um implante para aumentar o tamanho do pênis?

Alguma mulher já sugeriu isso ao seu Romeu, que aumente seu pênis?

Nós temos feito muitas coisas por ingênuas, aceitamos outras por ignorância, mas isso tem que acabar, não podemos continuar dessa maneira, sendo controladas por homens e seus caprichos.

E digo uma coisa, já temos conhecimento para reagir, não somos mais as bobas que tinham o acesso a informação negados,  hoje sabemos que vivemos em um emaranhado social onde somos as presas, tudo é voltado para nos caçar.

E não existem palavras doces de Romeu que não venham carregadas de manipulação e controle, ele pode ser ótimo, mas foi educado para conseguir o que quer em cima de uma mulher, se ele quer peitos grandes, ela vai ter peitos grandes.

E todas aquelas histórias que algumas mulheres me contam, como ''ele me dá apoio'' são mentira, parte de uma fantasia, ora, por que não daria apoio se você está fazendo o que ele mandou?

Se você abrir bem os olhos vai perceber que esse apoio só é dado quando é alguma coisa do interesse dele, não do teu.
Romeus podem parecer fofos e prontos para dar apoio, mas apenas estão vendo o que é conveniente ou não, parecer um cara legal é um bom negócio, dá lucro, ficar de fala mansa na orelha da mulher, dizendo que ''enlouqueceria se ela tivesse peitos maiores'', vai dar resultado.

Sou a favor de todas as mudanças físicas que uma mulher queira fazer, é seu corpo, mas cada vez que sei que tem um Romeu na história, fecho a questão. Posso me ver ali, sendo massacrada pelos meus doces namorados, escutando a mesma coisa.

Uma vez um deles me disse ''olha, você é bonita, mas se perdesse peso seria um escândalo''. Outro dizia ''poxa, pra quê se largar desse jeito, tenta uma dietinha, eu te ajudo''.

Ah, mas também namorei os legais, aqueles que comiam pizza comigo, mas o jogo deles era o contrário, adoravam que eu engordasse para que ficasse mais insegura, porque me excesso de peso me deixava insegura, eu não me aceitava, assim ficava na mão deles para ser facilmente manipulada.

Na frente de um homem, qualquer homem, nossa aparência não passa daquelas bonecas de papel, eles acham que podem cortar, tirar e amassar, até se aproximar das doentes fantasias que carregam.

Chega de colocar a culpa neles, somos nós, mulheres, que temos que acordar e cortar todas essas cordas de manipulação. Romeu quer uma namorada magra? Bom, não sou eu, ele que vá procurar outra se isso é tão importante assim. Quer uma namorada com peitos maiores? Que procure, eu não vou viver em um relacionamento onde não me aceitam como sou. E o principal, que me tratem como eu trato, porque jamais disse a nenhum homem para aumentar o pênis e olha que eu tinha motivos para dizer isso, mas sempre respeitei e nunca tratei ninguém como pedaço de carne.
Por cultura, conveniência e estrutura social, os homens não vão mudar, somos nós que temos que colocar a linha do limite.

Não podemos mais aceitar o controle masculino em nossas vidas e corpos, não adianta fazer textão nas redes e depois correr para colocar silicone porque Romeu pediu.

Se a mulher quer mudar sua aparência, colocar silicone, emagrecer, cortar o cabelo, o que for, tem que tirar os óculos cor de rosa e parar para pensar, abrir todas as janelas, jogar todas as possibilidades na mesa e se perguntar de maneira sincera ''é minha vontade ou a discreta pressão do Romeu?''.
Caso a resposta seja a ''discreta pressão do Romeu'' é fim de linha, melhor mudar de amor.

Amor bom é aquele que nos aceita como somos e não quer mudar nada, isso é amor, o resto é um Romeu criado em uma sociedade doente pensando que mulheres são suas bonecas de papel. Tá na hora de colocar fogo nessa ideia. 



Iara De Dupont




01 março 2017

Não é pra ceder


De vez em quando lembro de alguma história das minhas tias e penso escrever a respeito. Mas logo me pergunto se não está tudo cheio de mofo, se as coisas já passaram e os tempos são outros. Desisto então.

Dias depois, como em uma mágica mal feita, aparece outra história que se parece com aquelas das minhas tias, a única diferença é que aconteceu recentemente, como se o mundo fosse um relógio parado.

A moça me contava que sonhava em se casar, daqueles sonhos que ninguém explica, ninguém entende, mas queria a festa, a igreja, o vestido.

Encontrou um Romeu, mas tropeçou em uma pedra, Romeu se dizia um homem refinado, considerava casamentos em igrejas e com festas, uma coisa cafona, de quem não tem classe. Pessoas elegantes, dizia ele, se casam em cerimônias pequenas, com jantares apenas para os próximos, o contrário disso é para gente provinciana.

Mas Julieta sonhava com isso, já tinha economizado, queria a festa. Romeu dizia que não, que era um absurdo gastar tanto, que não valia a pena e o melhor era investir em uma viagem, isso sim era bom.

Julieta ficou na mesma posição que muitas mulheres ficamos no começo, não queremos contrariar, não queremos parecer mandonas e somos obrigadas socialmente a ceder, porque os Romeus sempre sabem mais da vida do que nós, é o que parece estar escrito no livro da existência humana.

Ela tinha o dinheiro, pediu de novo, disse que era seu sonho, mas Romeu não cedeu, não queria festa grande nem a cafonice que envolve um ritual desses.

Fizeram tudo ao estilo fino e elegante de Romeu, uma cerimônia simples, mas chique, uma ida ao cartório, e ponto final, o resto do dinheiro foi gasto na viagem de lua-de-mel, no lugar que ele tinha escolhido.

Julieta tentou evitar se aborrecer, mas aquilo dava voltas por dentro, outra coisa que acontece com muitas mulheres e negamos, mas sabemos bem quando estamos sendo ignoradas e humilhadas, conhecemos bem o jogo de poder que envolve um relacionamento.

A viagem foi tensa, o lugar escolhido tinha bebidas e jogos, e Romeu não se negou a nada, caiu na vida, mas no fim deu certo e voltaram felizes.

O casamento durou quatro anos, que a moça garante que foi feliz, ele era uma pessoa legal, apesar de ter percebido que o rapaz era egoísta.

Quando tudo terminou os dois estavam de acordo com muitas coisas, sabiam que eram diferentes, e conseguiram se separar de maneira amigável, sem rastros de ódio nem mágoas.

Uns anos depois o rapaz a convidou para seu casamento, iria se casar com outra moça, mas desta vez em uma igreja e com festa grande. Julieta ficou intrigada, o que teria acontecido para fazer o rapaz mudar de ideia? Nunca quis casamento grande e agora se casaria diante de mil convidados.

Foi perguntar a ele, movida pela curiosidade e sensação de que talvez, essa moça era o grande amor de sua vida, então valeria a pena se casar com ela na igreja. Perguntou ao rapaz porque tinha aceitado se casar na igreja desta vez e ele respondeu:

-Porque era importante para ela. Deixou bem claro isso, falou que iria preparar tudo e se eu quisesse chegar, tudo bem, se não, ela iria curtir a festa do mesmo jeito.

Mas não é? A moça tinha razão, para ela era importante e não abaixou a cabeça para ordens de macho, por isso conseguiu realizar seu sonho.

A vida é simples, quando a gente não luta pelos nossos sonhos, eles parecem bobagens para os outros e ninguém se mexe. 

Ela foi trouxa em ceder, se queria um casamento na igreja tinha que ter batido o pé, se ele não quisesse que não fosse e caso resolvido.

Não adianta ceder, essa história já foi contada de mil maneiras diferentes, mas é sempre a mesma coisa, a mulher que cede e mais na frente descobre que o homem não cedeu nem vai ceder jamais.

A vida é sobre nós, não sobre eles, nem seu remoto e invisível amor, não podemos continuar ignorando o que queremos apenas porque Romeu não concorda.

É importante para mim? Então eu sigo e quem estiver no caminho que saia dele, porque não vou desviar. 

Temos pouco tempo aqui para gastá-lo cedendo espaço para os outros, mesmo que sejam os amados Romeus.

Minha pergunta é a mesma de sete anos atrás, quando comecei o blog, e eles, cedem no que? Em nada.

Mas ela ia se casar com Romeu, era importante a opinião dele!

E por que seria importante a opinião dele, se para ele o sonho dela não existia?

A resposta é simples: se meus sonhos não te interessam, você também não me interessa mais.

A vida é minha, o tempo é meu, o meu amor eu decido a quem dar e ninguém que passe por cima merece recebê-lo.

Não é mais sobre homens egoístas, mas sobre mulheres que precisam perceber que as coisas mudaram e não temos mais que ceder meio centímetro em nada.

Eles podem continuar exigindo o que quiserem, mas que fiquem sozinhos, falando com a lua.

Mulheres, não desapareçam com seus sonhos, não anulem suas vontades, não sumam na foto. É a vida de vocês e suas escolhas que interessa, o resto é a mesma coisa que existe no planeta há anos, machos ressentidos e controladores berrando por poder.

E não é só fingir que não escutamos, mas seguir nosso caminho a nossa maneira, quem quiser fazer parte dos nossos sonhos é bem vindo, caso contrário, podem descer do trem agora.


Iara De Dupont

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