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08 julho 2016

O caminho da bruxa (por onde ela passa ninguém mais pisa)

Alameda Central na fim do ano



No centro da Cidade do México tem um lugar que se chama Alameda Central. Foi construído há séculos para ser um parque, cheio de fontes e jardins, inspirados pelos jardins franceses. 
Com o passar do tempo acabou ficando no meio de ruas e avenidas, mesmo assim se manteve uma parte do lugar como uma praça.

Uma das maiores tradições do lugar acontece no fim do ano, quando fica cheio de brinquedos e as crianças podem tirar foto com Papai Noel e os Reis Magos, depois dos pais pagarem um módico preço pelo serviço.

Me levaram várias vezes quando era pequena, tenho fotos e mais fotos tiradas ali, na minha época era mais simples e barato porque só existiam duas opções, tirar foto com o Papai Noel ou os Reis Magos, mas hoje o lugar cresceu e vários personagens invadiram a praça, é possível tirar fotos com todos aqueles que as crianças gostam.

Também se vendem brinquedos baratos, aqueles bem simples, mas com seu encanto. E o cheiro da comida se espalha pelo lugar, é divertido passar por lá quando se é criança, porque tudo parece grande e as luzes das barracas são fortes, parece que estamos em outra parte da cidade.

Mas minha abuelita nunca gostou do lugar, nunca quis nos levar e batia o pé cada vez que alguém pedia para ir, dizia que ali circulavam ''as almas das bruxas'' e algumas delas eram más, roubavam crianças ou puxavam sua energia, deixando-as doentes até morrerem.

Minha abuelita dizia que onde uma bruxa passa ninguém mais pisa e ela se recusava a ir a Alameda Central, acho que foi o único lugar que nunca levou os filhos nem os netos, se negava e ninguém a fazia mudar de ideia.

Uma vez perguntamos porque as bruxas de lá eram más, ela disse que nem todas eram más, o problema é que o sofrimento muda as pessoas e algumas delas tinham sofrido tanto que ficaram más e roubavam as crianças nesse lugar.

Muitos anos depois tentei levar meu primo menor à Alameda, mas a mãe dele não deixou, alegando que na Cidade do México é o lugar onde mais desaparecem crianças, principalmente nesse evento de fim de ano, onde vai uma multidão e não existem suficiente segurança para todos. Já me disseram que esse evento de fim de ano foi cancelado há um bom tempo, devido a violência.

E o nome correto é Alameda Central, mas minha abuelita a chamava de Alameda das bruxas, mesmo fora da época do natal não passávamos ali, ela dava toda a volta se fosse preciso, mas nunca cruzou a praça. E isso é bem complicado, porque foi construído no meio da praça o Palácio de Belas Artes, onde acontecem exposições, shows e eventos, então para ir até lá tínhamos que dar a volta no quarteirão, para não passar pelo corredor principal da Alameda, onde as bruxas esticavam suas mãos e nos puxavam, segundo dizia minha abuelita.

Uma vez eu estava cansada, a praça é enorme, equivalente a uns quarteirões, achei mais prático atravessá-la e minha abuelita reclamou:

-Já avisei para dar a volta, não cruza a praça, não ande pelo corredor, depois as bruxas te levam e vai acabar chorando! 
Não se pisa o chão que uma bruxa pisou! Você tem que respeitar o caminho das bruxas!

Já na vida adulta eu ia a um médico ao lado da Alameda e às vezes que ia de metrô não tinha outra saída, tinha que atravessar a praça e seguir pelo corredor, sempre que fiz isso me senti mal, como se estivesse traindo o que minha abuelita tinha dito.

Cheguei a comentar com ela que tinha atravessado a praça das bruxas, lembrei dela dizendo para não fazer isso e ela respondeu:

-É, cansei de dizer, mas até teu tio diz que é bobagem.

Mas por quê não podemos pisar no mesmo lugar que elas pisaram?

-Porque elas fazem história, elas são história, todos os lugares que pisam deixam suas pegadas e temos que respeitar isso, elas indicam o melhor caminho para ser seguido. E na Alameda estão indicando que não é um bom lugar para pisar, por outras bruxas que ainda estão lá esperando por vingança. As bruxas boas sabem quando outras são más e avisam, ali está cheio de almas de bruxas que sofreram muito e estão cheias de ódio.

Minha abuelita tinha mania de codificar tudo o que dizia, nem sempre era clara, ela nunca explicou porque a Alameda era um lugar cheio de almas de bruxas querendo vingança.

Resolvi procurar um amigo que sabe de todas as histórias que envolvem a Cidade do México, comentei com ele sobre essa obsessão que minha abuelita tinha em relação a Alameda, não podíamos ir lá nem de dia e ele respondeu:

-Ah, é história bem antiga, assim que os espanhóis invadiram o México e se estabeleceram por aqui trouxeram a Santa Inquisição e a fogueira ficava exatamente na Alameda Central, no corredor principal, no começo era o pátio de um convento, mas estava aberto, ali foram queimadas todas as bruxas que existiam no México durante trezentos anos e como era parte de uma praça todos na cidade vinham assistir quando uma bruxa era queimada, foi um espetáculo que durou três séculos. 
Dizem que se você passar na Alameda de noite ainda escuta os gritos delas e você já reparou que é uma área livre de moradores de rua? É porque eles dizem que de madrugada dá para ver as chamas das fogueiras acesas.

Meu Deus! Então minha abuelita tinha razão e agora percebo como deve ser irritante para as almas dessas bruxas ver o lugar cheio de luzes e crianças no natal.

É, parece que minha abuelita estava certa, onde as bruxas pisam ninguém mais deveria pisar, caso contrário só desperta o pior que existe no lugar.

Bruxas deixam pegadas, abrem caminhos, indicam atalhos, avisam sobre os perigos. Mas seus caminhos são invisíveis, muitas vezes parecem traiçoeiros ou que já chegaram ao final e nem sempre é assim, às vezes estão apenas começando em outra direção.

O caminho das bruxas só segue quem consegue ver as pegadas invisíveis, não tem placas avisando, nem gente gritando nas esquinas, é apenas um caminho, diante de muitos, aberto a milhões de possibilidades, de infinitas estradas e largos passos. É o caminho da bruxa, aquele que marca o chão sem avisar, afunda na areia e o mar leva embora.

Por onde uma bruxa passa ninguém mais pisa, às vezes não fica nem a memória, nem se escutam os gritos e não se veem as chamas das fogueiras, mas a bruxa passou por ali, indicando os caminhos que muitos podem seguir.

A história de uma bruxa não se apaga, não se escreve, não se inventa, nem se conta, apenas se vive. O que foi dito por ela, as nuvens escondem, a lua traz de volta de vez em quando. Tudo o que se entendeu no que foi escrito, será mantido, tudo o que se leu no que não foi escrito, será revelado. 
É parte do caminho das bruxas riscar o chão e mostrar algumas portas, mas também é parte do caminho ser um sol que se esconde depois de um dia quente, uma onda que volta ao mar.

Minha abuelita dizia que bruxas são parte da natureza, mulheres que sabem ser parte de tudo sem ninguém notar, se transformam em árvores, animais e água. Podem voar, se converter em bolas de fogo que atravessam o ar, podem ser muitas coisas ou podem escolher ser nada, durante uns segundos. Dizem uma coisa pensando outra, fazem uma coisa querendo outra, parte da dualidade de quem vive no meio de dois mundos, o de cá e o de lá.

Bruxas são assim, estranhas, sem explicações, mas com todas as respostas necessárias para abrir caminhos e passar por eles.

E caminhos gostam das bruxas, se abrem aos seus passos, acordam aos seus suspiros. Caminhos e bruxas sempre estiveram juntos, são séculos na mesma direção, elas pisam e eles se abrem.

Mas não se pode pisar duas estradas ao mesmo tempo, não se viaja em duas nuvens nem se mantém um pé aqui e outro lá, é necessário ter o eixo no mesmo lugar e os caminhos vão se abrindo, fim de um, começo de outro. E no meio só fica o chão, esse que as bruxas passam e ninguém mais pisa.


Iara De Dupont

                       

07 julho 2016

Coração de menina


Muitas coisas ainda me tiram do meu centro, mas uma me arrancou do ponto de estabilidade, me fez passar dias inteiros me perguntando o que tinha acontecido.

Minha visão sobre o ocorrido é míope e relativa, eu apenas conhecia um lado da história, nunca tinha visto o outro.

Tenho uma prima que desde pequena mostra um caráter dúbio e instável, não se pode dizer que é boa pessoa.
Com o tempo ela aprendeu a disfarçar, mesmo assim era só olhar para o fundo dos seus olhos para ver a sombra.

No fim da adolescência e começo de vida adulta ela resolveu ''grudar'' em mim, fiquei com pena, ela me parecia perdida e tentei orientar, mas eu sempre soube quem ela era, apesar dos meus esforços em negar isso. E minha família incentivava a amizade, parecia importante que ela seguisse a ''prima mais velha''.

Eu tinha uma amiga que era dona de uma companhia de teatro e pedi que desse um emprego a minha prima, ela era rápida, ágil e resolvia as coisas. Minha amiga aceitou, mas depois de conhecer minha prima me disse:

-Não quero te ofender, mas tem alguma coisa nela que não bate.

É a idade.

Elas ficaram amigas e a primeira impressão foi superada, mas minha amiga percebeu desde o começo que minha prima tinha esse temperamento ambíguo.

Pouco tempo depois minha prima se enroscou em uma história ordinária, que envolvia fofocas sobre um primo, uma vizinha e quando ela foi prensada sobre como soube da história, ela disse sem pestanejar que eu tinha dito a ela. E como estávamos sempre juntas ficou claro para toda a família que ela tinha dito a verdade.

Fiquei com raiva, mas não me surpreendi, eu sempre soube quem ela era, desde pequena, estava ali a semente ruim, besta fui eu que dei espaço, mas a sombra dos seus olhos sempre me acompanhou, não foi surpresa saber do que ela é capaz.

E isso se repetiu várias vezes na minha vida, a pessoa me sacaneava, mas desde o começo eu sentia algo errado, uma espécie de aviso.
Minha abuelita dizia que a maldade era fria e cheia de sombras, a gente percebe quando a pessoa traz isso, mas negamos, dizemos que não é bem assim ou corremos para cima daquele argumento católico ''é que fulano sofreu muito, ficou meio carregado, mas é boa pessoa''.
É mentira, a pessoa pode até ter sofrido horrores, mas se ela é mau-caráter, vai continuar sendo.

Não consigo lembrar de um filho da puta que tenha cruzado meu caminho sem que eu não sentisse algo estranho no ar. 
Nem com os Romeus, principalmente com um, terrível, fomos colegas de escola, eu era amiga de sua irmã, ele apareceu em uma festa e começamos a sair, o peguei na mentira bem no começo do namoro, ele tinha mania de dizer ''pequenas mentiras'', era daquele tipo de machista que pensava ''não importa o que a mulher pergunta, sempre negue''.

Quando a corda arrebentou e ele tentou me agredir em sua casa, era apenas o final de uma situação confusa que começou com mentiras, ele sempre foi uma pessoa fria e cheia de artimanhas.

Outro Romeu também mostrou desde o primeiro dia que tinha um temperamento mimado e não gostava de ser contrariado, quando acontecia algo que ele não queria ou eu dizia algo que o irritava me dava ''gelos'' de dias, não atendia o telefone e sumia. Isso quando não se arrependia e aparecia na minha casa chorando, dizendo que eu o tinha magoado de maneira irreversível.

Quando ele planejou e executou uma vingança em contra de mim não me surpreendi, sempre me pareceu que poderia fazer algo assim e no fundo sempre tive medo dele, até hoje.

Mas também conheci outro tipo de Romeu- pensei isso- um deles, o primeiro e mais marcante, desde que o conheço defendo seu caráter, o garoto mais doce que já conheci, o único homem prestativo que vi na minha vida, sem rastros de mau caratismo.

E não era criança quando cruzou minha vida, já tinha vinte anos, uma idade que ninguém mais esconde quem é.

Não fui a única que percebeu esse temperamento puro e encantador dele, todas as pessoas que o conheceram mantém a mesma memória, ele é um doce de pessoa, meigo e gentil.

Mantive isso na lembrança, é a única pessoa que conheço que ainda arrasta uma corrente de elogios de quem o conhece, navegou durante anos tranquilamente no posto de favorito da minha abuelita, que sempre lamentou nossa separação.

E recentemente durante uma discussão sobre um assunto específico, um tema isolado, uma troca de mensagens, ele resolveu dizer tudo o que pensava ao meu respeito.
Cruzou assim as linhas que os amigos não cruzam, muito menos ex-namorados, é a famosa lei do histórico, se a pessoa briga com você pelo argumento atual, é amizade, mas se ela começa a te lembrar de ocasiões passadas e eventos que ocorreram há séculos, bom, é ódio armazenado, é alguém que não gosta de você, nunca gostou e estava esperando uma ocasião assim para se livrar.

E parece que Romeu tinha muito ódio de mim, coisa que me surpreendeu porque nunca tive uma discussão com ele, foi a primeira vez que divergimos em um assunto e ainda por cima nem era um assunto ligado a ele ou a mim, era um posicionamento político.
Eu tinha orgulho em dizer que ele foi meu único namoro sem brigas, nem gritos, nem berros, sempre mantivemos o bom entendimento, sem loucuras nem portas batendo, mas de repente o barco virou.

Ele foi mau-caráter e disse coisas que jamais poderiam ter sido ditas, inclusive usando situações que a consciência dele sabe que não aconteceram como ele disse, porque estava ali e viu. 

Fiquei perdida no meio do chumbo, primeiro porque não o reconheci e depois não imaginei que poderia ir tão longe, jamais pensei que era tão filho da puta, já que nunca vi pegadas nem rastros disso. E isso sempre surpreende, ver alguém se transformar em um monstro diante de você congela tua espinha.

De todos que conheci, de todos os Romeus, jamais teria pensado que ele fosse capaz de surtar assim, de soltar o passado como se fosse uma ofensa pessoal, me surpreendeu demais, guardava ele junto com outros dois Romeus, que sempre foram impecáveis no mar de canalhas que conheci.

Fiquei em choque e acabei conversando sobre isso, sem parar, eu queria saber, tem jeito de alguém virar um filho da puta? Qual é o limite de contaminar nossa alma? É possível uma situação anular tua essência real e você se transformar em um filho da puta? É possível nascer mau-caráter e esconder isso de todos durante anos?

Um amigo espiritualizado me disse que não, nada encosta na base da nossa alma, o que pode ter acontecido é que Romeu descobriu que é melhor ser filho da puta neste mundo do que não ser, é fato, mas ao mesmo tempo os filhos da puta amadores não atacam os amigos e familiares, sabem que seu ódio tem que ser reservado aos inimigos.

Como é possível alguém pular de uma alma limpa a uma alma assustadora e fora de controle? 
Porque a crueldade dele ao me dizer o que disse é doentia, não é coisa de um minuto, é algo fermentando durante décadas.

Isso me empurrou a um abismo mental o dia inteiro, como era possível que eu não tivesse percebido no que ele se transformou?

Algumas pessoas me disseram que sempre souberam que ele era uma babaca, um canalha, sim, é fato, eu já tinha percebido uma sutil mudança em sua personalidade, mas existe um abismo entre ser babaca e ser um filho da puta no grau mais alto, cruzando o nível de profissional.

Achei que para ser filho da puta assim se precisasse nascer com essa essência podre, cheia de larvas e não era o caso dele, pelo menos não quando o conheci.

Ser filho da puta no estágio que choca as pessoas próximas, exige muito preparo, não é uma coisa que aconteça naturalmente com a pessoa.

E as coisas ditas por ele foram usadas como uma faca, sabia bem colocar os verbos e as vírgulas, foi exato ao falar sobre um fulano, uma beltrana, uma sicrana, foi cirúrgico em lembrar os meus calcanhares de aquiles para mencioná-los e foi determinante em dar a sentença, sem dó, do que ele pensa ser minha vida.
Foi tão preciso que houve até uma ordem matemática no assunto, ele foi numerando o que dizia, de uma maneira psicótica e sem remorso.

Não achei em meu registro mental nenhuma história parecida, todas as vezes que passei por algo assim no fundo eu me dizia ''tinha certeza de que era um filho da puta''. 
E algumas vezes errei, conheci um Romeu que me pareceu filho da puta, pela maneira como falava de seu divórcio, mas nunca foi filho da puta comigo e terminamos de uma maneira clara e direta, doeu muito, mas ele não disse nada para me magoar, apenas terminou o namoro de maneira elegante.

O contrário nunca conheci, a pessoa que eu defendo o caráter pular do nada e virar um monstro na minha frente, nunca vivi isso antes, não conheci um filho da puta sem aviso prévio, herança da minha abuelita, os olhos de bruxa, como ela dizia, que captam a energia no ar.

O incrível da história é que duas noites antes disso acontecer sonhei com ele me segurando pelos braços, tentando me agredir. Contei isso à minha mãe dando risadas, imagina, ele jamais me agrediria, sempre foi um Romeu decente. 
É, talvez sou vidente e não sei disso, mas sonhei com a agressão dois dias antes e me senti exatamente como no sonho, surpresa de vê-lo diante de mim, tentando me empurrar.

Fiquei no meio da pista, sem saber o que dizer ou pensar. No começo a surpresa foi tanta pelo o que disse que fiquei muda, só depois quando o tempo começou a passar que chorei, percebendo que aquilo ali realmente tinha acontecido.

Pensei que talvez fosse minha culpa porque não sou filha da puta e isso me impede de ver quem é ou quem se tornou filha da puta com a velocidade que se precisa. Perceber quem é filho da puta é uma questão de segundos, não de décadas.

Atrás de qualquer coisa que fizesse meu coração voltar a bater, procurei um amigo bruxo, contei a ele o que tinha acontecido e ele me disse:


-Você alguma vez me disse que ele te avisou que não era mais o mesmo, que agora era um filho da puta.

É, mas pensei que isso era com o mundo, não com as pessoas que ele gosta e além disso ele não foi filho da puta comigo, foi além disso, não tem nome as coisas que ele me disse.

-Mas por que ele não seria um filho da puta com você?

Porque não tem motivo, tinha espaço para uma discussão boba ou algo assim, mas não para dizer as coisas que disse, nós, segundo eu, não tínhamos um histórico de ódio, nunca brigamos, nem nos desrespeitamos, não ficaram buracos de raiva nem de mágoa, era preciso uma bagagem com muita dor para dizer tudo o que ele disse. Nunca o magoei e nem fui magoada por ele. Não existia entre nós nervos expostos, nem poças de sangue, pelo contrário, éramos amigos. Para pular do jeito que ele pulou em cima de mim se precisa sentir fome da pessoa, entende? Sabe quando você está faminto de raiva? Ele não tinha motivos para isso, por isso me surpreendeu sua falta de critério ao me atacar.

-E filho da puta tem critério?

Tem! Pelo menos os que conheço, eles não vão para cima à toa, mantém o respeito pelos amigos e familiares, tenho amigos filhos da puta e não me atacam!

-O que te dói tanto?

Não ter percebido em quem ele se transformou, não ter visto a cauda do dragão, jamais pensei que fosse capaz de dizer o que disse, assim, na maior tranquilidade, certo de que estava rasgando cada centímetro da minha alma. Nunca tive mágoa nem ódio dele, pelo contrário, só senti amor, até hoje só sentia amor por ele.
E tudo isso me puxou a um centro de gravidade, percebi a urgência que tenho de me transformar em uma filha da puta, caso contrário até meus ex-amores vão me fazer pedaços.

-Você acha que a solução para não passar por isso de novo é virar uma filha da puta?

Acho. Se eu fosse filha da puta teria cheirado a situação antes de acontecer ou talvez não teria sentido tanta dor, a vantagem de ser filho da puta é essa, você vai ficando imune a dor que os outros tentam te causar.

-Você sabe por quê ele se tornou um filho da puta?

Ah, ele me contou alguns pedaços da história, mas nada fora do comum, problemas em casa, fora dela, enfim, aconteceu com ele o que acontece com todos os que têm a alma morna, boa e mole, a vida te pega na porrada, até te arrebentar.

-Então ele virou um filho da puta?

É, segundo ele sim.

-E você teve uma vida melhor do que a dele? Ficou isolada das surras que todos levam?

Não, uma vez até falamos disso, como nossas vidas eram parecidas nesse sentido, mas diria que ele acordou antes do que eu, demorei mais tempo para reagir, ele percebeu logo que tinha que se tornar um filho da puta.

-E por que você ainda não virou uma filha da puta?

Porque sou trouxa.


-E ele é esperto?

É, está provado em todos os setores que é bem mais esperto do que eu.

-E você pensa que a tragédia da situação é que você não é filha da puta e isso te impediu de ver o que estava acontecendo?

É.

-Não é uma tragédia um amor nos dizer coisas ofensivas? Isso não doeu mais do que o fato dele ser filho da puta?

Tudo doeu, mas nada doeu mais do que ter visto uma pessoa que eu não conhecia, um filho da puta possuindo o mais doce Romeu que já conheci. Me senti naquele filme '' O exorcista'' quando a mãe tenta convencer os médicos de que a filha é um amor de pessoa, enquanto ela pula enfurecida.

-Agora toda tua dor está concentrada no que ele te disse e no fato dele ser um filho da puta. Mas será possível se transformar em um filho de puta se a semente do mau caratismo não estivesse ali? Você já pensou nisso, que talvez errou ao julgar o rapaz, dizendo que era boa pessoa?

Não. Tenho poucas certezas na vida, não sei agora, mas na época que o conheci o caráter dele estava acima de qualquer dúvida, tinha os olhos transparentes, não era um bebê, já era adulto, não tinha nem sombra dessa semente, mas aceito a teoria, com certeza deveria estar lá, em algum canto de sua alma.

-É, não temos como saber, de repente já tinha essa semente podre, de repente não. 
E agora tudo o que ele te disse vai te atormentar durante meses, as frases vão dançar na tua frente porque você está com os sentimentos errados.

Qual seria o certo?

-Não existe certo nem errado, mas pena e compaixão são os mais próximos aos adequados.

E por que eu deveria ter pena dele? 

-Não tem? Você é igual a ele? Não te dá pena uma pessoa que é capaz de dizer o que ele disse a uma garota que só o amou? Você acha que ele sabe receber amor? Não te dá pena alguém assim? Não tem compaixão de uma alma que se perdeu desse jeito?
Você é boa pessoa e sabe o preço disso, então pode imaginar o preço que ele pagou para virar outra pessoa, você nem consegue cruzar a linha que ele cruzou, tem ideia de como isso deve ter causado dor a ele?

Não consigo ficar com pena, pelo contrário, se ele tiver remorso pode se afundar nessa emoção, seria merecido!

-Espero que você tenha errado na tua percepção e a essência dele seja podre, porque se ele é uma boa alma que se tornou um filho da puta, a culpa vai perseguir ele.
Não lembre mais dessa história com dor, pense no lado positivo.

E tem?

-Tem um lado incrível, luminoso. Pensa em vocês dois, duas vidas que se cruzaram, que passaram por experiências similares, penso no que ele se tornou e em quem você se mantém. Você ainda tem coração de menina, isso é maravilhoso de ver. Perceba a grandeza disso, nada te contaminou, nada te intoxicou, você parece uma menina reclamando de que não consegue fazer um rabo de cavalo. Ele se perdeu no meio da estrada, apodreceu, talvez tinha o mesmo coração do que você e veja no que ele se transformou.
Tuas experiências te levaram a pensar, criticar, mas não a magoar quem te ama, já ele fez o caminho inverso, odeia quem o ama, isso é sinal de um coração que se afogou na própia dor.

Ainda não consigo ter pena dele.....

-Então não tenha, mas pense nisso, vocês saíram do mesmo ponto e fizeram escolhas diferentes, mas você conseguiu se preservar, ele não. Toda tua dificuldade em lidar com a vida adulta, tua maneira de ser e viver, tudo isso indica que apesar de da vida  teu coração de menina continua batendo e mandando na tua vida mais do que você pensa.
Vi isso desde o primeiro dia, quando a gente se conheceu. Você vinha de puxar minha irmã para a montanha russa, não sei quantas vezes subiram ali e quando você deu a última volta disse ''agora chega porque quero comer batata frita''.
No momento pensei ''tem coração de menina''. Todas as garotas estavam correndo para o banheiro para ajeitar o cabelo, passar batom, porque íamos a uma festa e você só queria saber onde comprar batata frita no parque, não parecia se importar com os adultos ao teu redor, foi comendo batata frita no carro, enquanto as garotas te diziam ''arruma esse cabelo, tá zoado'' e você nem se mexeu.
E já disse mil vezes, os teus fracassos com Romeus se devem a que você sempre procura algum que entenda teu coração de mulher, mas não percebe que não tem um ainda, precisa entender que tem coração de menina e não adianta fingir ter o outro, eles se aproximam, mas ficam perdidos porque não acham teu coração real.
Não te digo para procurar Romeu, nem para perdoar, pelo contrário, enterre ele, esqueça, vá a missa de sétimo dia e nunca mais mencione seu nome, mas não perca seu tempo sofrendo por uma dor que pode te derrubar, vocês dois estão em lados diferentes do mesmo sofrimento, você ainda é uma alma nobre e ficou chocada com as ofensas, se ele foi uma alma nobre deve ter seu grau de sofrimento ser filho da puta, não pense nele como alguém que te magoou, mas como alguém que foi mais fraco do que você e se contaminou, se estragou no meio do caminho.
Não temos que ter pena de quem cai, temos que ter pena de quem se transforma em algo pior, porque essa energia que ele criou é a que vai girar sua vida.


O problema é esse, não acredito que os filhos da puta se fodam, acho isso no fundo herança da moral católica, aquela velha história de que ''Deus castiga''.
Porra nenhuma, não castiga ninguém, os filhos da puta são os que mais fazem festa neste planeta!

-Deus não castiga, nem a vida, mas eles se regem por outras leis e isso tem seu preço, não é grátis ser uma boa pessoa, nem ser um filho da puta, os dois pagam pedágio.

Vou ser sincera, para mim ele está ótimo, ninguém com uma vaga noção de remorso ou culpa diz o que ele foi capaz de dizer, tenho certeza que nem lembra o que disse. 
E pensar que se tornou um ser humano pior não muda nada, a vida dele continua andando pra frente, neste mundo não existe essa competição de quem é um ser humano melhor do que o outro, não tem prêmio para o bom caráter, pelo contrário, os decentes só apanham da vida.

-Você gostaria de estar no lugar dele e dizer a alguém o que ele te disse?

Deus me livre! Quem conhece o peso das palavras sabe que não se faz isso, ele estava no seu direito de falar o que quisesse, mas cruzou a linha e o dito por ele foi pesado, arrastado, se era para sujar alguma coisa, sujou seu carma.
Eu senti a falta de remorso, essa energia chegou a mim como uma onda, não parecia humano sabe? Sem sinal de arrependimento, nem a voz, sempre tão cálida, parecia a mesma.

-Partindo da ideia de que você não gostaria de estar no lugar dele, então ele é uma pessoa infeliz, porque você não quer estar ali.

Deus me ampare! Para que eu pudesse dizer a outro ser humano o que ele me disse, a pessoa teria que ter arrancado de mim um ódio eterno, uma força do mal que nem eu conheço. 
Sei o peso das palavras e eu morderia a língua antes de jogá-las na direção de alguém, principalmente se a pessoa não me fez nada.

-Você vai ter que digerir a dor de outra maneira, não permita que entre o que ele te disse, nem lembre do que foi dito, apague tudo, não repita, não mencione.
Te dou apenas essa sugestão, a pena não é um sentimento humilhante, nem é para sair dizendo isso, é só um jeito de lidar com a situação, vocês dois eram iguais e agora são diferentes, mas você conseguiu se preservar no meio de tanto lixo, ele não, virou um ser cruel, egoísta e insano, você pode dizer o que quiser, mas isso não me parece a receita da felicidade.
Não cultive o ódio pelo o que ele te disse, tenha pena de em quem ele se transformou. O que ele te falou não muda nada, se você não quiser, não te afeta, abandone as palavras no ar, seja lúcida e perceba que não importa o tamanho da agressão, nada nem ninguém te contaminaram, você pode olhar nos olhos deles e dizer ''ainda sou a mesma que você conheceu'', mas ele não pode dizer isso. 
E sabe, o amor é isso, depois de anos, décadas, séculos, poder parar na frente de quem amamos e dizer ''ainda sou o mesmo que você conheceu e amou'', é isso que todos queremos escutar de quem amamos. 
Você pode parar na frente dele e dizer isso, ele não, prova que você realmente o amou e que triste ele não poder sentir mais essa emoção, se ele parar na tua frente agora você corre, assustada com o que viu. E não te parece digno de compaixão isso? Um homem assustar a mulher que tanto o amou? Me parece um castigo terrível ver a mulher que um dia se amou horrorizada ao perceber em quem você se transformou. 
Se eu tivesse na frente da minha mulher gostaria que sentisse orgulho de mim, não medo.
Quanto mais falo do teu Romeu, mas pena tenho do rapaz.

Ainda não sinto isso.....

-Você está magoada, vai passar se tiver cabeça fria, a sensação ruim ficará um tempo, não é uma coisa simples de superar, mas você tem escolha, dar poder ao que ele disse ou perceber que ele se perdeu no meio do caminho, é um resto podre do que você conheceu. 
Nós, seres humanos, somos como frutas, também apodrecemos, também podemos cair cheios de vermes no chão e morrer ali.
Você e teu coração de menina vão se recuperar, pode levar algum tempo, mas um dia você vai perceber que foi apenas um jogo de espelhos, tudo o que ele te disse estava apenas dizendo a si mesmo e que condena terrível, se ele se trata assim, tenho pena dele.
E mesmo que ele não tenha culpa nem remorso, fez uma péssima escolha, trocou teu coração de menina, esse que o podia acompanhar em tantas coisas, pelo ódio e desprezo da mulher. É a pior troca de todas, ter o coração da menina e escolher a indiferença da mulher.
Mantenha dentro de você apenas os dias felizes com ele, o garoto de vinte anos, o doce que tanto te derrete, o resto finja que não viveu, nem conheceu. Não dê eternidade ao ódio, esqueça tudo o que aconteceu recentemente, o que foi dito, até porque a história chegou a um ponto irreversível, não importa o que aconteça daqui para frente, ele nunca mais vai ter teu amor nem respeito, não existe amanhã ou ''deixa o tempo passar'', o que aconteceu foi a tampa do caixão, tudo acabou, não tem mais nada a se consertar, nem a se dizer, essa história acabou. E que penoso para ele, saiu de mãos vazias.......

Ah, você acha que faz falta? Não está nem aí......

-Esse é um ponto da vida individual, você pensa que não faz falta, mas um dia pode fazer.....
Mude a perspectiva, se concentre, mais uma vez teu coração de menina levou um chute e continua em pé, depois de pensar nisso venha me contar quem ganhou a briga de vocês dois.

Ninguém ganhou, os dois perdemos, cortamos as cordas que nos uniam e colocamos um fim em tudo, podíamos ter ficado com uma boa lembrança e a única coisa que ficou foi raiva, eu nunca vou perdoar o que ele disse, será parte para sempre do meu ódio cósmico e se eu tiver uma chance de colocar o pé na sua vida e vê-lo cair, bom, farei isso na maior alegria. 

-O tempo vai te dizer o que aconteceu, se é que te importa saber, mas eu diria que é mais uma prova de resistência vencida pelo teu coração, apanhou e continua igual. 
Já ele você não sabe o preço que vai pagar pela surra que te deu, não acho que seja tão indiferente, mas entendo teu ponto de vista, quem ama não fala o que ele teve coragem de dizer, concordo com isso.
Só não ignore uma coisa: tudo nessa vida tem um preço, ele vai pagar o preço de sua atitude com você, assim como você vai pagar o preço por ter sido ingênua e não ter percebido em quem ele se transformou.
Não importa como, mas todos pagamos o que somos.
Agora o ponto é o seguinte: esse Romeu não existe mais para você, nem na tua vida, só restou você e teu coração de menina e me diga se estou errado, mais uma vez você sobreviveu, sem se contaminar. 
Os filhos da puta comemoram quando derrubam alguém, aprenda então a comemorar quando você não cai ou logo após cair consegue se levantar rapidamente.
E dever ter alguma lição nisso tudo.

Teve uma bem interessante. Ele falou horrores e no fim disse ''se cuida''.
É, a mensagem foi dada, se cuida.

É o que mais me faz falta na vida, me cuidar de filhos da puta como ele, de gente ordinária, de vermes humanos, de larvas que parecem pessoas. E olha, a minha ingenuidade deve ser bem visível, porque até ele, um filho da puta, me disse ''se cuida''.

-É, cuide bem do seu coração de menina. E se cuide sempre, porque filhos da puta estão à solta no mundo, são multidões. 

É o que eu digo, se um filho da puta te diz ''se cuide'', é porque a coisa está feia, eles vem pra cima mesmo, sem dó.
E faço questão de dizer para todas as pessoas que tem um bom coração: se cuidem.


Iara De Dupont

06 julho 2016

O ódio merece o mesmo respeito que o amor


Comentando sobre uma novela a pessoa me disse ''ah, é aquela história de famílias que se odeiam durante séculos e os filhos se apaixonam, argumento bem batido''.

É, parece comum, mas não é tão simples.
Herdamos muitas coisas dos nossos antepassados e fazemos questão de ignorar, como se fossem frutos de tempos de ignorância.

Também pensava que essa história de famílias que se odeiam era muito usada em peças de teatro e filmes, uma ideia desgastada, diria até que primária.

Mas uma vez minha abuelita me disse ''o ódio exige o mesmo respeito que o amor''.

Eu escutei? Não.

Meu avô passou por uma situação penosa com sua família, eu cresci escutando que nenhum deles prestava, todos tinham herdado o sangue podre de uma pessoa e eram ladrões profissionais.

Isso foi dito e marcado por uma geração, a distância era exigida, já que a separação tinha acontecido e ninguém se aproximava.

No velório de um familiar vi muitas pessoas da mesma idade que eu, desconhecidas para mim, perguntei ao meu avô quem eram e me disse ''é o lado de lá, são teus primos, mas não se aproxime''.

Alguns anos depois a vida deu um giro e o lado de ''lá'' se aproximou, pedindo ajuda, precisavam de uma informação. Naquele momento a briga parecia já ter queimado seu efeito, a maioria dos que se jurou jamais dirigir a palavra tinham morrido e entre os vivos restavam mais semelhanças do que diferenças, sendo assim a aproximação foi natural.

Pra quê cultivar o ódio? Pra quê viver em função de uma emoção ruim e gerada por outros? Será que não somos capazes de superar o passado e criar um novo presente?
Pensei isso e acreditei que alguns pensavam assim, pela maneira como falavam comigo.

Não sei quanto tempo levou essa aproximação, talvez menos de dois anos, mas foi devastadora, porque aconteceu comigo a mesma coisa que tinha acontecido com meu avô, abriu a porta para ajudar sua família e foi roubado.

O pior é que eu não tive colo para chorar, cresci com meu avô me avisando sobre ''essa gente'' e seus poucos princípios, mas pensei que eram brigas antigas e não fazia o menor sentido continuar dando corda a uma coisa dessas.

Fiz o pior que se pode fazer, ignorei os avisos do meu avô, não entendi que ódio é como dinheiro, se herdamos é por algo, não é à toa.

O dinheiro roubado não me tira o sono, nem todas as coisas que fizeram, porque sei que estão condenados a perder sete vezes mais do que eu e em piores condições, essa é uma coisa que os ladrões ignoram, pensam que todos são otários e ninguém reage, mas em algum momento eles se aproximam para roubar a pessoa errada e vão se arrepender por isso.
Não sou eu que tenho que sujar minhas mãos, alguém pior do que eles vai resolver a situação.

Hoje entendo tudo o que meu avô dizia e minha abuelita também, temos que respeitar o ódio como respeitamos o amor e assim que aparece o ódio não adianta querer ignorar e jogar água de rosas, aquilo vai perdurar um bom tempo ainda.

Guerras não duram uma semana, podem se arrastar por gerações.

E Deus sabe tudo o que eu teria evitado se tivesse escutado meu avô sobre ''aquela gente''.

Uma das minhas primas um dia me perguntou sobre ''essa gente'', eu disse que não tinha nada demais, eu era muito amiga de uma dessas pessoas, me identificava demais com seu pensamento e minha prima disse ''pra você nem aviso serve né?''.
Que aviso? Uma briga do meu avô há mais de cem anos? E eu vou arrastar isso?

Não quis a arrastar a briga, mas ela me arrastou, 
pelo simples motivo, gerações carregam o mesmo sangue, o deles está podre, meu avô já dizia isso e será assim por sempre, é sangue podre.

Não tive respeito pelo ódio do meu avô, nem por suas razões, ele que tanto tentou me proteger. E deu onde tinha que dar, uma briga que se arrastou por anos e ainda guarda suficiente pólvora para outro século, com uma grande diferença, a primeira vez que a guerra aconteceu meu avô foi pego desprevenido e demorou para perceber quem eram as pessoas ao seu redor, isso ajudou a acalmar os ânimos, já no meu caso foi diferente, a guerra arrebentou e eu ao contrário do meu avô, fiquei com sangue nos olhos, doida para ver o outro lado se arrastando no chão, tenho mais fome do que meu avô de ver todos eles de joelhos. É isso que acontece quando se ativa uma guerra que estava parada no tempo, quem entra tem mais fome de vingança do que a geração anterior.

Mas aprendi a lição, herança vai além do que carregamos nas veias e no bolso, também inclui entender os ódios fermentados e manter a distância, não me arrependo da guerra iniciada, mas se pudesse voltar no tempo e jamais ter cruzado palavra com ''essa gente'' teria sido melhor para mim.

E não é novela, filme, livro, nem peça de teatro, é a vida de muitos, que ignoram os ódios passados e acabam ativando sem querer uma guerra.
Ódio exige respeito, o mesmo que o amor.

Hoje entendo cada linha escrita dessas obras, o horror que os pais mostram quando o filho se apaixona pela filha do inimigo, percebo como não é uma história de amor, mas de ódio e como não pode florescer nada bom no meio de tanta raiva.

No meio da confusão, do roubo que sofri, dos seis meses que dormi no chão porque não tinha um centavo para comprar um colchão, de todos os apertos que passei por culpa do roubo só me restou fazer uma coisa: fui ao cemitério conversar com meu avô, jurei na tumba dele que isso não iria ficar assim, que se eles querem guerra, é o que vão ter. E seu ódio hoje está triplicado e vou me encarregar de manter minha família afastada ''daquela gente'' nas próximas mil gerações, vou manter o ódio fervendo até criar um abismo entre essas pessoas e minha família. E cada vez que um deles cair, seja pelo motivo que for, eu levo flores ao cemitério e uma bebida para meu avô celebrar. Todos os fracassos ''daquela gente'' são alvo de comemorações de nossa parte, ficamos felizes, realizados, é de uma alegria imensa ver como um filho da puta se fode, motivo de festas que duram três dias.

Não respeitei ódio do meu avô em vida e paguei muito caro por isso,  mas agora vou levar isso até a morte.
Aprendi que você respeita o ódio que alguém da tua família carrega ou se arrepende disso. 
Porque ódio é como ouro, se herda por algum motivo.


Iara De Dupont

05 julho 2016

Se eu quiser sobreviver vou ter que aprender isso


Eu não sei como acontece, mas acontece.
De repente alguém que conheço é filho da puta e eu fico paralisada, me perguntando ''mas é sério isso?''.

É. Ser filho da puta neste mundo é uma coisa corriqueira, não precisa de muito para se chegar nesse ponto.

O problema sou eu e não é resistência minha, mas ainda não consegui desenvolver essa parte, tão importante e fundamental para uma boa vida neste planeta.

Há anos saí da frequência de me perguntar porquê as pessoas eram filhas da puta, entendi que isso era necessário para sobreviver e pessoas que não são filhas da puta (como eu) se arrependem amargamente de não o serem.

Já tentei ser filha da puta, mas ainda não consigo cruzar a linha que cruzam tão facilmente comigo.

Uma vez um amigo me disse ''você não é filha da puta porque ainda não apanhou o suficiente, o dia que apanhar vai se levantar com ódio nos olhos e nunca mais vai ser como é''.

A vida levou a sério isso que ele disse e me deu uma surra homérica, dessas que duram anos. Eu me levantava, mas continuava sem sangue nos olhos.

Uma amiga falou ''teu caráter é ótimo, mas só vai funcionar lá no Nosso lar, o suposto lugar onde vamos quando morremos, aqui neste planeta é olho por olho, dente por dente''.

E não tenho como fugir disso, o mundo me lembra todos os dias onde estou porque não sou filha da puta. E quando esqueço o universo é rápido, manda alguém que eu gosto ser filho da puta comigo, para ver se eu acordo e reajo.

É fato neste mundo, teoria comprovada, situação concreta, pessoas que têm uma boa índole são ótimas para cozinhar, a energia que desprendem deixa a comida maravilhosa, mas na vida real essas pessoas são facilmente engolidas por outras.

O incrível da história? Que ainda me surpreende quando alguém que eu não imaginava se comporta assim comigo, me mostrando que é um filho da puta.

Posso criticar? Não, a pessoa segue as regras do planeta e sua vida mostra que está certa, a errada sou eu, sempre fui e lido com isso todos os dias.

As coisas me atormentam, se fico com um troco errado aquilo me amassa a mente até voltar na loja e devolver. 
Dizer algo horrível a um amigo? Não consigo, tem que merecer muito e ainda assim não tenho esse veneno pronto para sair a qualquer hora.

Não choro nem me jogo no chão dizendo ''por quê Deus, por quê, o ser humano pode ser tão filho da puta?''.

Já não faço isso, o máximo é me jogar na cama e perguntar ''por quê Deus, por quê não consigo ser filha da puta como os outros?''.

E nem adianta jogar açúcar, todos sabem a verdade, filhos da puta triunfam nesta vida, porque tem o necessário para isso, muita energia e poucos sentimentos. E se for uma pessoa sem empatia, já era, vai chegar no topo.

Não preciso ir longe, posso fazer a matemática com minhas primas.
As mais sensíveis, decentes e corretas se foderam em tudo, as filhas da puta estão ótimas.

E não tem julgamento moral, é como dizia uma tia ''se você vai fazer uma prova e não leva caneta, vai reclamar do outro que passou na prova, que tinha levado caneta?''.

É isso, a caneta, a pessoa tem o que se precisa nesta vida.

Não tenho ranços católicos, nem posso subir em uma caixa de laranjas dizendo ''sou uma boa alma e Deus vai me recompensar''.

Ah, pois é, não tem recompensa, se bobear é capaz de Deus me dar uns tapas por ter sido tão otária.

Não ser filha da puta é como subir em um ringue para lutar com um profissional, a surra é desse tamanho.

Cada vez que cruzo com um filho da puta me lembro como preciso evoluir na vida, tenho que crescer e me superar, não adianta ficar a vida inteira chorando e me perguntando porquê não posso ser tão filha da puta como a vida exige.

Quando era adolescente me apaixonei loucamente por um cantor, via ele na televisão e achava a coisa mais linda do mundo.
Ele carregava na imagem de legal, fofo, doce, a mesma imagem que tem até hoje, se envolveu em causas humanitárias e reforçou sua vida pública de ''bom rapaz''.

Anos depois conheci um músico que trabalhava com ele, contei sobre minha paixão, como esse cantor era meigo! E o músico me disse:

-Ele tem um talento incrível, é boa pessoa sim, mas você não imagina o filho da puta que ele pode ser, já vi coisas nos bastidores que ninguém acreditaria.

Como o que?

-Ele namorou durante dez anos uma garota, era sua amante porque ele era casado, todo mundo sabia disso. Um dia a garota foi ver um show dele, sem autorização, não perguntou nada a ele. Eu vi quando ele mandou os seguranças tirarem ela dali, como ela resistiu os seguranças puxavam pelo cabelo, uma cena lamentável de se ver. Você seria capaz de fazer isso? Mandar arrastar tua amante pelos bastidores depois de dez anos de pular na cama dela?
E a menina nem queria escândalo, ela só queria assistir o show dele.
Ele está onde está porque seu talento é do tamanho de sua frieza na hora de agir, é a medida certa.

Esse mesmo músico, que se tornou meu amigo, sofria com o mesmo problema que eu, uma dificuldade enorme em se transformar no que o mundo exigia. Ele tem um talento enorme, mas faltou sangue nos olhos, aquela vontade que te faz passar em cima de muitas coisas e não conhece a ética nem a moral.

E pra quê negar? Todos nós, em algum momento vamos ser testados nos nossos limites morais e sociais, ninguém escapa disso.
Eu até diria que é um filtro da vida, para separar quem vai chegar a ser alguém e quem morre no meio do caminho.

Não tenho nem o direito de chorar, eu fui avisada tantas vezes! E tantas e tantas!

Em algum momento disse a um diretor que meu problema era emagrecer e ele respondeu:

-Você que pensa. Emagrecer é até simples, quero ver é ter o caráter que a vida exige.

É, não tenho, mas eu luto para ter, não abaixei a cabeça, sempre me pergunto ''Deus, o que posso fazer para ser filha da puta?''.

Não me resignei e sei que tudo na minha vida depende desse giro, de aprender a ser filha da puta. Isso me daria forças para passar por cima de quem tenho que passar e ficaria imune a filhos da puta, porque eles se reconhecem e não se aproximam uns dos outros.

Deus nos deu a capacidade de ser bons e maus, por algum motivo ele colocou isso no nosso coração, bom deve ser para amar, mau deve ser para viver.

Só existe no homem o que Deus cria, se os sentimentos estão ali, então é assim que deve ser .

Já me perguntaram se eu tenho medo de acordar e descobrir a força da minha filha da putagem. 
Não, não tenho, porque sei que essa força seria capaz de mudar minha vida.

Todos temos um desafio na vida e parte do meu é esse, aprender a ser filha da puta, não apenas a identificar quem é filho da puta.

Tem gente que me diz ''não fala isso, Deus gosta de gente com coração nobre como o teu''.

É, Deus gosta, mas o mundo não! 
Caramba, regras são regras, está escrito em todas as paredes do planeta ''quem não for filho da puta não vai sobreviver aqui''.

Os mais otimistas ainda dizem ''todos os filhos da puta se fodem no final''.

Ah, mas peraí, o filho da puta se fode só no final? Tá valendo, é melhor do que se foder antes, durante e depois, como os que não são filhos da puta.

Minha amiga me diz ''eu não sou filha da puta e não quero viver desse jeito, Deus me livre''.

Também acho! Mas o problema é o seguinte: não sou filha da puta, mas isso não impede que filhos da puta sejam filhos da puta comigo! E isso dói!

Não choro nem lamento, apenas acordo e penso que tenho que acelerar meu desenvolvimento neste mundo, dar um jeito de sentir menos e fazer mais, sendo filha da puta, assim como penso em malhar para ficar um pouco menos flácida, sei que tenho que trabalhar duro para ser uma filha da puta.

É o único jeito de conseguir as coisas e não sofrer tanto.

A pessoa foi filha da puta comigo e contei isso a um amigo, que é extremamente filho da puta, ele deu risada e disse ''mas você falou pra essa pessoa aquilo e aquilo, que você sabe?''.
Não, não quis descer o nível!

-Se fodeu por isso, já que iam te machucar você deveria ter machucado antes!

Né! Devia ter dito essa coisa que eu sabia antes, deveria ter perfurado os olhos da pessoa e ter colocado no seu sangue todo o veneno possível.

E meu amigo me disse:

-Iara, você tem uma ideia errada das coisas, ser filho da puta não é uma coisa ruim, te faz egoísta, te concentra na tua vida, nas tuas coisas e dispensa todo mundo que você não quer por perto, não ter dó, nem empatia é um puta negócio, principalmente para quem quer ser alguém na vida. Se você vai continuar do teu jeito se isole, compre uma casa no topo da montanha e desapareça por lá, mas se resolver ficar neste mundo tem que acordar já, porque teu tempo está acabando.

É, culpa dos meus pais sabe? Me educaram para estudar, fazer as coisas, ser limpinha e educada, não me ensinaram a ser filha da puta.

-Eles eram?

Não e se foderam.

-Bom, então está na hora de aprender. Sem filha da putagem você vai continuar onde está e ainda por cima chorando quando alguém é filho da puta com você.

É, vida estranha, a gente aprende tanto com as pessoas né? Eu achei que tinha que emagrecer, malhar um pouco, parar de comer tanta batata frita, me organizar em outras coisas, mas agora vejo que todo meu problema está centrado em apenas um: não aprendi ainda a ser filha da puta.
Mas depois da surra de hoje, de ter me surpreendido tanto com uma pessoa, vou começar a me concentrar nessa missão, até por sobrevivência.

E sabe, não sou invejosa, mas tenho inveja de quem é filho da puta. A pessoa pode te dizer horrores e sair andando, nem culpa sente. Deve ser bom viver assim! Já dizia algum filósofo que a ética e a moral são dois freios anti-naturais na vida.

Tudo o que nos foi dito é mentira, não é importante trabalhar, estudar, comer comida orgânica, nem se exercitar, nada disso serve se você não for filha da puta! A regra no mundo é igual para todos!

Vida simples, eu que complico tudo. É só aprender a ser filha da puta que a minha vida vai melhorar. É só isso.


Iara De Dupont

04 julho 2016

SMM EM ÁUDIO: O PADRE FÁBIO DE MELO É FOFO?



Semana passada o Padre Fábio de Melo se meteu em uma polêmica e foi chamado de machista, recebeu tantas críticas que se desculpou pelo o que tinha dito e todo mundo achou fofo.
Mas gente, ele é padre! Pertence a um sistema machista e misógino, como pode ser fofo? Não é!
Click no link abaixo:

O PADRE FÁBIO DE MELO É FOFO?




Iara De Dupont



O pão que virou bolacha e minha paciência que acabou


Um dia desses acordei com uma vontade maluca de fazer um pão, mas me faltava um ingrediente: fermento.
Resolvi ligar para um amigo que sabe muito de pão, para ver se ele tinha alguma ideia para substituir. Me disse que não se substitui o fermento, que existem receitas na internet mas nenhuma dá certo.

Resolvi procurar no Google e achei algumas, tentei uma e não deu certo, não saiu um pão, saiu uma bolacha gigante, que depois de ser quebrada com um martelo ficou comestível.

Corri para contar ao meu amigo sobre o pão que virou bolacha.
Ele me explicava sobre como fazer pães, fez um curso e de vez em quando gosta de fazer em sua casa.
E de repente me disse:

-Se um dia você resolver ter filhos, vai ser uma boa mãe.

Por quê?

-Porque você gosta de cozinhar, eles vão ter isso na memória, depois se você for avó também vai criar esse memória. Acho triste uma criança crescer sem comer a comida da mãe ou da avó.

Não acho! Comida é energia, se o pai cozinha, o avô, enfim, se é feito com amor está tudo bem, não entendo porque sempre a mulher tem que ser a responsável por tudo.

-É, eu sei, mas minha mulher me frusta nesse sentido, você sabe que ela não esquenta nem água, tenho pena dos meus filhos!

Já sei! Já escrevi um post sobre isso! E vou lá de novo!

Até quando Jesus, até quando seremos cobradas constantemente? 
Não basta ser uma boa mãe, nem trabalhar, agora é também necessário ser ótima cozinheira para deixar a memória de comida da mamãe na criança!
Caramba, podemos respirar um pouco? Muito obrigado!

-Você se cobra muito e vive com essa paranoia que todos estão te cobrando!

É, também achei que era paranoia, até perceber que sou cobrada por todos e por tudo, não é minha imaginação.

Vi um amigo durante uma semana e nos últimos dias apareci com rabo de cavalo e ele me perguntou porque eu tinha feito isso e respondi:

Meu cabelo é liso e embaraça com qualquer vento, então fico de saco cheio e faço um rabo de cavalo.

-Mas teu cabelo é tão lindo, deixa solto.....

Para deixar solto preciso tratar, tem que pentear, passar um negócio que se chama ''controlador de frizz'', enfim, exige uma paciência que nem sempre tenho....

-Rabo de cavalo é  sinal de descuido sabe?

Sei! Tudo o que uma mulher fica de saco cheio de fazer é sinal de descuido! 

Toda vez que não somos como devemos ''ser'' é porque estamos sendo descuidadas!

Estamos sempre na mira!

Você é casado com uma ótima mulher, uma pessoa incrível, mas sabe, ela não cozinha! 
Porra, isso vai traumatizar as crianças!

-Não fui tão longe, nem falei em traumas. Apenas penso em mim, eu fui feliz com a comida da minha mãe, até hoje não comi nada melhor e me parece triste que meus filhos não conheçam isso.

Mas eles conhecem a comida do pai?

-Sim, alguém tem que cozinhar naquela casa!

Então está ótimo! Eu conheci a comida da minha mãe, mas meu pai nunca cozinhou, a vida é assim, quando não vem de um lado vem de outro, criança precisa de amor, se o pai cozinha com amor tem o mesmo efeito que a comida da mãe!

-Uma vez você disse que a mulher é o centro espiritual da casa, lembro bem.

É verdade, explicação longa, mas posso resumir, a energia feminina é um pilar espiritual, porque é a energia ligada a terra, mas isso não dá espaço para que a mulher seja cobrada em todas as frentes. 
A energia feminina é diferente, mais intensa, você pode reparar em casas onde moram dois homens e seus filhos, a presença feminina é poderosa ali, seja a avó das crianças, a moça que trabalha na casa, enfim, os homens têm outro tipo de energia, ele é mais dispersa, não tem a capacidade de se centrar como a feminina, a energia das mulheres é uma energia concentrada.
Tenho um casal de amigos, é muito interessante, eles moram em um apartamento com seus filhos, mas cada vez que chega a irmã de um deles, a energia muda, ela muda o foco.
Não importa a condição sexual da pessoa, nem quem escolhe para dividir sua vida, mas as energias femininas e masculinas são necessárias para o crescimento de uma criança, ela pode ter duas mães ou dois pais, mas precisa de uma tia, tio, avó, avô, por perto, para que as energias se misturem.
O que fica claro para mim é que a energia feminina vem sendo explorada até a última gota e continuamos responsáveis por tudo o que acontece na casa, como se morássemos sozinhas.

-Tudo isso porque disse que minha mulher não sabe e não quer saber de cozinhar.....

Não, tudo isso para que vocês, homens, nos tirem os olhos de cima.
É só isso. Em vez de chorar pelos cantos pensando que teus filhos não vão comer comida feita pela mãe, se concentre na tua energia de pai, vá cozinhar o que eles gostam, conheça novas receitas, enfim, crie a memória deles com você e saia do cangote da tua mulher, deixa ela respirar.

-Não posso dizer nada sobre estar frustrado com ela?

Não! Não! Não! Chega dessa merda, até quando vamos aguentar ''homens frustrados''?

Não importa que tua mulher não cozinhe, não faz diferença, qualquer movimento dela se presta a críticas, apenas porque é mulher. Ela poderia ser uma ótima cozinheira, mas ainda assim seria criticada por alguma coisa, é o que eu aprendi nesta vida, sendo mulher não tem saída, a crítica vai vir, querendo ou não!

Conheço o lado de vocês de cor! Sempre frustrados com as mulheres porque não somos magras o suficiente, taradas como vocês gostam, nem vivemos para cozinhar seus pratos favoritos. E nossa bunda nunca é grande o suficiente!

-Ou seja que nenhum homem tem o direito a se expressar?

Não, chega desse direito! Abusaram muito dele! Vocês podem estar frustrados, mas não têm mais o direito de dizer nada, porque esse é um problema enorme, vocês não calam a boca, estão sempre dizendo o quanto estão frustrados com as mulheres.
Quer escutar minha versão? Nossa, eu estou tão frustrada com os homens! Tão, tão, tão frustrada!

-É, no blog dá para ler.....

Pois é! Mas eu vou para lá, quantas ficam quietas? Nenhuma amiga me liga e me diz que está frustrada com seu marido, elas ficam em silêncio. Nenhuma diz ''estou frustrada com meu casamento porque ele é péssimo marido, péssimo provedor, péssimo pai, péssimo na cama...'' 
Nunca me disseram isso, mas o contrário acontece.
Às vezes pergunto a um amigo ''e, aí, tá feliz na vida de casado?'' e começa a ladainha, a mulher não faz tanto sexo, vive cansada, trabalha muito, enche o saco, quer isso, quer aquilo.......
Vocês, homens, simplesmente não calam a boca!

-A solução é essa? Calar a boca?

É, até as mulheres aprenderem a dar o troco. 
Liga pra tua mulher agora e pergunta se ela está frustrada com alguma coisa em você, se apertar ela responde e posso apostar, você nem imagina a resposta, vai cair de costas.
É coisa de mulher, a gente fica quieta, está errado ser assim, mas fomos ensinadas a ser dessa maneira. Quero ver você aguentar escutar as frustrações que tua mulher tem de você, vai doer mais do que tortura chinesa.
Vocês não aguentam um minuto do que nós, mulheres, aguentamos a vida inteira!

-Você já fez isso, de falar o que te frustra?

Fiz, mas errei. Eu fico quieta durante um bom tempo sabe? Mas de repente, não sei o que é, eu explodo e falo tudo sem rodeios, não gosto de fazer isso, porque parece que sai do fundo da pior parte da minha alma.
Tenho pelo menos uns três ex-namorados que me odeiam profundamente por isso, porque explodi da maneira errada, eu poderia ter dito a mesma coisa, em um tom baixo, sentada em uma mesa, ter colocado a frase de ''eu me sinto frustrada porque você tal coisa e tal coisa....'', mas eu não fiz isso, eu apenas estourei e disse horrores, de uma maneira ofensiva e me arrependo, bom, pelo menos um não, o resto ainda me sinto mal, sei que foi desnecessário.
Mas a vida é assim, a gente apanha tanto que na hora que vai bater em alguém quer ver sangue.
Mulheres somos criadas para ignorar todos os erros masculinos e segurar a língua, já vocês, homens, são educados para nos linchar verbalmente o tempo inteiro, tudo é alvo de críticas.

Você tem esse espaço para dizer que tua mulher te frustra porque não cozinha para as crianças, eu sei disso, ela sabe disso, tua família sabe disso. Mas e o que ela sente, quem sabe? Tua família sabe o que a frustra no casamento? Não, porra nenhuma, não sabem porra nenhuma, porque nós, mulheres não somos educadas para detonar nosso marido, pelo contrário, defendemos e jogamos qualidades que sabemos que ele não tem.

E por quê isso acontece? Porque as mulheres não reagem. Você disse na frente de todo mundo, em um churrasco, tua sogra levou comida e você falou ''ainda bem, pelo menos assim as crianças vão conhecer um pouco de comida de vó, já que não conhecem comida de mãe''.
Eu estava lá e vi o olhar de tristeza da tua mulher. Você não levou em conta o sofrimento dela, que teve que voltar ao trabalho quando os filhos eram bebês, ela que me contou sobre aquela história de gastar uma fortuna em uns protetores que se colocam nos seios quando a mulher está amamentando. Disso ninguém fala, do sofrimento da mulher que se separa dos filhos, ainda bebês, porque tem que trabalhar e fica pingando leite o dia inteiro.
Ah, quem se importa né?
Mas ela não saber cozinhar, bom, aí é foda, não tem como salvar a moça, vai para a fogueira.

Tenho uma amiga que cozinha como uma fada, mas quando teve filho o leite secou.
E ela foi criticada, porque falaram que o leite secou porque ela era nervosa, isso e aquilo, ou seja, as facas estão sempre na direção da mulher.

Mas quem se importa? Vocês, homens, vão mudar? 
Porra nenhuma.

Somos nós, mulheres, que temos que acabar com essa festa de críticas e ofensas.
O que falta na tua vida é tua mulher dizer ''você está frustrado comigo benzinho, porque eu não cozinho? Bom, senta aí, eu vou te contar no que você me frustra''.
E quero ver se depois dessa pancada você vai continuar com vontade de bater.
E se ela disser que se sente frustrada na cama? Vai dar para encarar? 

Não critico mais os homens, se eles abrem as pernas e usam o espaço é porque nós, mulheres, permitimos e aceitamos ser alvo de suas constantes críticas e exigências, enquanto a gente não aprender a levantar a voz e colocar eles no lugar, nada vai mudar.

Se a conversa começa para nosso lado com ''você me frustra'', tem que ser virada na hora para o outro lado do ''você também''.
Você não cozinha!
Pois é, e você não é bom provedor, nem me faz gozar.

É só assim que eles vão recuar, caso contrário vamos continuar como estamos, exaustas, sendo levadas à loucura e sempre escutando críticas, seja de um marido porque a mulher não cozinha, seja de um amigo porque a mulher usa rabo de cavalo.

Não ficou claro para os homens ainda que mulheres são seres humanos, somos vistas apenas como depósitos de sêmen e de críticas, seres silenciosos que estão sempre à mercê dos ''conselhos masculinos'' e suas frustrações.

E sempre digo o mesmo, o mundo conhece todas as frustrações que os homens sentem em relação as mulheres, mas nem imaginam o tamanho das nossas frustrações em relação a eles.

Eles não têm a mulher gostosa, tarada e ótima cozinheira e ficam frustrados, nós não temos os homens que são bons companheiros, parceiros e também estamos frustradas.

A diferença da frustração é que nós, mulheres, somos discretas, criadas no silêncio, condenadas a não dizer nada, enquanto eles berram e gritam o que pensam de nós e escutamos tudo isso quietas.

Estão errados eles em dizer o que pensam, estamos erradas nós, em ficarmos quietas. Só o verbo pode quebrar essa parede.

É como aquele pão que virou uma bolacha gigante e teve que ser quebrado com o martelo. 
É tempo de quebrar o silêncio.


Iara De Dupont

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