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19 abril 2018

Eu sou gostosa!


Na atual momento que todos enfrentamos, na luta para evoluir, cada um tem seu desafio material, porque é o principal, o norte do nosso futuro. Do que precisamos desapegar para evoluir de maneira menos dolorosa?

Essa tem sido uma pergunta muito complexa para as pessoas, no que estamos agarrados materialmente?

Passei meses trabalhando nisso, o que me segura materialmente nesta dimensão? Achei que era meu amor pela matéria, mas conversando com seres evoluídos percebi que não era o amor que estava me enforcando, mas o ódio quase secreto que mantive durante anos com meu corpo e nem era tão secreto assim.


Fui educada desde pequena para odiar meu corpo, desde o começo quando entrei ao ballet, tinha três anos e as professoras não escondiam a má vontade de ensinar uma menina ''gordinha'' que jamais seria bailarina. Parece que rezavam para que eu faltassem as apresentações, porque estragava seu quadro perfeito, as meninas pequenas e magras sempre ficavam na frente.


Dali em diante tudo foi cimentando esse ódio, a adolescência em um grupo de meninas magras, o erro ou acerto, não sei, de entrar ao teatro com dezesseis anos e enfrentar outra realidade, que ainda não tinha consciência, não existem atrizes gordas e jovens, e isso seria jogado na minha cara durante anos.


Os relacionamentos abusivos que tive, com misóginos, enrustidos, que lidavam mal com o corpo feminino, até porque nem era o gosto deles. O isolamento no consumo, não existiam roupas do meu tamanho.


E todos os julgamentos que vieram com o peso, me diziam que não tinha disciplina, não era constante, não era dedicada, porque pessoas focadas emagrecem, quem é gordo é folgado e sedentário.


Foram tantos anos aprendendo a me odiar que mesmo em épocas que estava mais magra eu não reconhecia meu corpo, parece que era sempre o mesmo peso.


Não lembro de ofensas ao meu caráter, nem maneira de ser, quando queriam me ofender usavam o peso, tudo parecia culpa do peso, a falta de namorado, a falta de trabalho, a falta de amor própio.


Todos os meus fracassos eram culpa do peso. E não tinha como ser diferente, criei um poço de ódio, me anulei durante anos, no fundo me sentia incompetente, pensava que se tivesse disciplina aguentaria passar fome e poderia ter uma vida normal.


E esqueci o assunto, até começar a separar os pontos que me dividem de onde estou para onde quero chegar, o que acelera ou atrasa minha evolução e esbarrei com isso, o ódio do meu corpo.
Me recomendaram o melhor tratamento espiritual que existe, funciona até nesses casos extremos, de auto-ódio, era necessário apenas trabalhar a aceitação.


É isso. Aceitação. Aceitação. Cheguei ao mundo com esse corpo ou ele se formou ao longo do caminho, não sei, mas é o que tem para hoje. É o que sou. E eu aceito. E não é aceitar o presente, é aceitar um passado que não posso mudar. Aceitar as oportunidades profissionais que perdi porque não consegui perder trinta quilos em dez minutos. É aceitar o que aconteceu. Aceitar que não eu não sabia o que era gordofobia e não soube me posicionar. Aceitar que deveria ter me aceito desde o começo. 


Trabalho aceitação todos os dias, a parte mais dura é aceitar o passado. O presente não me afeta mais, levou anos mais entrei no jogo de ''vocês não me querem? Agora quem não quer sou eu''.


São meses trabalhando a aceitação, aceitando minhas decisões, meu corpo, o que errei, o que acertei. E não mudou meu peso, não emagreci, nem engordei, não é uma receita mágica.


Mas trabalhar duro sempre traz alguma recompensa, depois de meses comecei a reparar uma coisa que não tinha reparado: meu Deus, eu sou gostosa! Eu nunca fui gostosa, mas agora estou gostosa! Tenho o mesmo peso que tinha antes de começar, mas agora estou gostosa!


Aceito que perdi tempo, mergulhei no ódio que me impuseram, cresci em um mundo cruel, mas a aceitação leva a portas que se abrem e nos mostram a realidade.

Aprendi como é fácil aceitar as mentiras em relação ao nosso corpo e duvidar da verdade, aceitar a verdade: eu sou gostosa.

Iara De Dupont

16 abril 2018

A história das bolachas



Tem gente que me diz ''poxa, você não conhece nenhuma história fofa com marido e mulher?''.


É, eu conheço uma, só uma, por isso nunca contei, porque é a única, aconteceu com uma amiga da minha prima.Ela se casou com um rapaz e tudo ia bem, eles trabalhavam na mesma empresa, houve cortes e os dois foram demitidos. Continuaram procurando trabalho, mas ela engravidou e resolver pegar uma receita que tinha e começou a fazer bolachas. E o marido continuava procurando emprego, enquanto ela vendia bolachas para os amigos, vizinhos e parentes.

Um dia ela recebeu uma encomenda enorme, uma grande empresa faria um evento e queria dois mil pacotinhos, com cinco bolachas cada um. A moça pediu emprestado o dinheiro para comprar o material e foi para a cozinha, fazer as dez mil bolachinhas. Mas ela estava feliz, porque o pessoal da empresa disse que iria colocar o nome dela no papel, que estaria amarrado a uma cordinha no pacote, com o logo da empresa, ela pensou que assim conseguiria divulgar seu trabalho e pegar mais encomendas. A mãe, a sogra, o marido, as irmãs, todo mundo ajudou a fazer as bolachas.
No dia do evento ela ficou esperando que alguém da empresa viesse para pegar os pacotes, e trazer as etiquetas para grudar nos pacotinhos, mas ninguém chegou. Ela ligou para a empresa, ninguém atendeu, começou a ligar aqui, ligar ali, e chegou em uma pessoa que disse ''olha, a empresa é uma multinacional, não sei que confusão deu, mas a central americana não autorizou o evento, está cancelado, depois te aviso como vai ser resolvido''.

A moça começou a passar mal, levaram ela no hospital, foi a pressão que subiu, mas foi medicada e voltou para casa. Sentou e chorou, não iria receber o pagamento e tinha na sua sala caixas com dois mil pacotes de bolachas.

O marido de aproximou e disse ''amanhã a gente resolve o que fazer'' e a esposa disse ''vamos resolver como? Precisamos pagar o empréstimo e as bolachas têm data de validade''.

E foram dormir. No dia seguinte a moça acordou e o marido tinha deixado um recado, dizendo que iria demorar. Lá pelas onze da noite ele ainda não tinha voltado, ele ligou e disse que iria demorar mais um pouco. Chegou em casa a uma da manhã e disse ''vendi quinhentos pacotes de bolacha'' e a mulher perguntou ''como?'' e ele respondeu ''acordei de manhã e fui para o semáforo, depois fui mudando de lugar, quando chegava alguém e dizia que era proibido vender ali ou tinha dono, eu ia para outro, amanhã eu volto e vendo mais quinhentos pacotes''.

Parece uma ideia genial, mas existem camadas de preconceito que se espalham nos diferentes níveis sociais e isso impede muitas pessoas de reagirem, ficam com vergonha, pensam que vão ser humilhadas, ou que só pelo fato de terem um diploma deveriam estar imunes as curvas da vida. O marido era engenheiro, garoto de classe média, sem a malícia da rua, mas meteu a cara, não teve vergonha de ir para os semáforos.

No dia seguinte conseguiu que seu irmão e cunhado fossem com ele, antes das duas da tarde todos os pacotes de bolacha já tinham sido vendidos. E ele ficou tão feliz com o que aconteceu que parou de procurar emprego, abriu uma empresa de bolachas com a mulher e contratou gente para vender nos semáforos, porque ele dizia que pessoas compram café, mas não as bolachas e depois que estão no carro lembram das bolachas e querem comprar.

Pois é, o marido agiu como os maridos deveriam agir, mas é a única história boa que conheço.


Iara De Dupont

09 março 2018

Os olhos do Seu Paco não queriam se fechar.....



Tenho uma tia que bate portas sem dó, de preferência acompanhada daquela famosa frase ''homem não presta''.
Ela brigava com meu tio e toda a vizinhança ficava sabendo. Minha avó levantava os ombros, mas nunca disse nada, nem defendia os homens da família.


Uma dia minha tia bateu a porta de novo e eu disse ''ela tem razão, homem não presta'' e minha avó disse ''é, penso isso, mas lembro do Seu Paco e fico confusa porque ele era um bom homem''.


Seu Paco foi um dos maiores traumas de adolescência da minha avó, não podia falar dele sem chorar, e quando já estava em idade avançada repetia sempre essa história. Não sei quantas vezes escutei sobre ''Seu Paco''.


Minha avó morava no interior, uma cidade pequena, todos se conheciam e tinha um casal que morava lá, Seu Paco e a esposa, eram um casal de idade avançada e tinham um filho, um rapaz que nasceu com algum problema físico, cresceu em uma cadeira de rodas e tinha algum atraso mental.
O casal se dedicava a cuidar do filho, tinham umas vaquinhas e vendiam o leite e o queijo que faziam. 


Todo mundo conhecia o casal, eram quietos, religiosos, não se metiam com ninguém. Mas a esposa adoeceu, não conseguiram nenhum tratamento e ela faleceu, então Seu Paco se dedicou mais ainda ao filho e as suas vaquinhas.


Um dia ele caiu do cavalo, foi levado para sua casa e alguém concluiu que ele estava morrendo. Não tinha médico por perto, nem hospital, e ainda por cima no meio da revolução mexicana.


Ele tinha quebrado alguns ossos, levou uma pancada na cabeça, e tinha muitas dores. O colocaram na cama e chamaram o padre, para a extrema unção.
Algumas horas depois o padre foi a casa da minha avó, uma menina de doze anos e disse ''você pode me acompanhar?'' e ela foi para a casa do Seu Paco. Um pouco antes de chegar lá o padre disse a ela ''vamos prometer ao Seu Paco que seu filho será cuidado por todos''. Minha avó entrou no quarto, viu Seu Paco na cama e o filho ao lado segurando sua mão, então ela se aproximou e disse ''Seu Paco, nós amamos seu filho, vamos cuidá-lo''. E Seu Paco respondeu ''filha, é muita responsabilidade, eu sei que assim que morrer vão jogar ele no lixo''.


Minha avó só lembrava essa parte da conversa, o resto foi o trauma que carregou. Ela disse que Seu Paco olhava para o filho, as lágrimas desciam pelo rosto, e ele não conseguia fechar os olhos. O padre disse mil vezes ''Seu Paco, vá tranquilo, nós vamos cuidar do garoto''. Mas o pai não conseguia fechar os olhos, sabia que se fechasse morreria e seu filho seria jogado no lixo.
De todos os jeitos o padre insistia, disse ''Seu Paco, pense que vai encontrar a sua amada esposa'' e ele respondia ''mas e meu filho?''.


O padre saiu do quarto e deixou minha avó lá, sozinha, com seus doze anos de idade, no meio daquela situação. Ela lembrava que o pai chorava e o menino apertava sua mão, ao pouco tempo os dois choravam juntos. E isso durou a noite inteira e metade do dia. Minha avó não dormiu, aquilo começou a ficar impresso em sua mente, o pai que resistia em fechar os olhos. O rapaz não falava muito bem, era difícil de entender, mas em algum momento disse ''pai, pode ir'' e o Seu Paco não fechava os olhos.


O padre voltou e disse a mesma coisa ''Seu Paco, fique tranquilo, nós ficaremos com o menino'', mas ele não fechava os olhos. Às vezes fechava por uns segundos e abria novamente, procurando o filho, manteve durante horas seu olhar de agonia, não soltava o filho.


Ele resistiu quase dois dias sem dormir, sem fechar os olhos, no meio das dores. Minha avó contava a história mil vezes, ficou traumatizada com o olhar do Seu Paco, a resistência em abandonar o filho a propia sorte, a briga com o destino. Minha avó passou fome, viu uma revolução, assistiu os militares aprontando tudo, matando crianças e deixando todos morrerem de fome, mas nada disso marcou sua alma, o que a fazia chorar e encomendar missa todos os anos era o Seu Paco e seu olhar desesperado ao saber que o filho ficaria sozinho no mundo, sem poder se defender.


De vez em quando ela dizia que talvez os homens prestassem, porque lembrava do Seu Paco, falava dele e terminava dizendo ''nunca vi um homem resistir tanto em abandonar um filho, nunca vi uma morte tão dolorosa, uma partida tão lamentada, nunca vi alguém lutar tanto por um filho''.
Minha avó nunca soube o destino do filho do Seu Paco, estavam no meio de uma revolução e logo ela seria descartada por sua mãe, que se casou novamente e deu um jeito de se livrar da filha. E 


Seu Paco nunca soube que minha avó rezou por ele e seu filho durante mais de setenta anos. E também nunca soube que ela sempre disse ''se eu morrer sese eu morrer sem passar pelo sofrimento que Seu Paco passou, vou considerar que tive uma vida feliz''.
Graças a Deus morreu sem passar por isso.


Iara De Dupont

26 fevereiro 2018

O pacote inteiro



Cresci em uma casa de ateus, mas apaixonados por arte sacra. Tinha um altar, várias imagens e quadros. Sempre tinha na minha direção o olhar doce de alguma estátua de Virgem ou Santa, até no meu quarto.
Eu não sabia o significado, mas como cresci com isso sempre gostei dessas imagens.

Um dia caminhava pelo centro quando vi uma estátua maravilhosa, não sei qual era, mas talvez fosse a Virgem da Consolação, lembro dos vários anjos de cerâmica ao redor dela. Era uma estátua grande, talvez sobrevivente de alguma igreja e o preço não era alto, menos de mil reais. 

Paquerei essa estátua durante meses, pensava que um dia compraria e a levaria para casa, até que um dia caminhando por ali caiu uma chuva pesada, a rua era uma ladeira e a água corria na calçada como se fosse um rio. O dono do antiquário me viu tentando escapar da água e me disse para entrar na sua loja, onde estava a estátua. Sentei na sala que tinha ali e fiquei um bom tempo conversando com ele, comentei minha vontade de levar a estátua da Virgem, e ele me perguntou se eu era católica. Disse que era batizada, mas não fui educada na igreja, pelo contrário, eu nem sabia o nome da estátua que queria. Ele me disse que era a Nossa Senhora da Consolação.

Ah, eu acertei! 

Voltei a comentar meu interesse nela e ele respondeu:

-Vai levar o pacote todo?

É, quando puder, eu levo.

-Ela tem um bom tempo aqui e já foi devolvida umas quatro vezes, vai e volta, mas eu aviso que não devolvo o dinheiro.

E por que devolvem ela?

-Porque é o pacote inteiro.

Mas o que é o pacote inteiro?

-É uma estátua antiga, quase cem anos. A igreja foi demolida e alguém a comprou, depois veio parar aqui. Não é uma peça de decoração, é uma peça de devoção e isso carrega muitas coisas, você pode imaginar quantas pessoas, durante cem anos, ajoelharam e pediram misericórdia? Algo deve ter ficado ali, na estátua, e as pessoas levam sabendo disso, mas depois reclamam.

Mas reclamam do quê?

-Ah, elas dizem que depois que levaram a estátua escutaram vozes na casa, pessoas chorando, rezando, enfim, como se estivessem em uma igreja, sabe aquele silêncio de igreja, mas que você escuta um zum-zum de gente rezando? É isso.

A estátua vem com fantasmas?

-Não sei se são fantasmas, cada um dá uma explicação, dizem que é energia, um pouco das pessoas que tanto pediram ajuda a estátua, podem ser almas que se apegaram tanto que não soltam mais. Arte sacra é assim, às vezes nas mãos de ateus e às vezes nas mãos de devotos, mas antes disso era objetos de devoção de muitas pessoas. E o que essas estátuas devem escutar? Quantas pessoas ajoelham e contam suas tragédias? Tudo vai ficando no ar, ao redor da estátua.

E aqui não aparecem fantasmas?

-Nunca vi. E só fico aqui durante o dia, é muito barulho externo, não escuto nada nem vi nada estranho, mas talvez durante a noite seja possível escutar algo.

E seria melhor se ela fosse levada à casa de algum católico, alguém que seja devoto?

-Já tentei, mas ela foi devolvida. Esteve em quatro casas, três eram de apaixonados por arte sacra e um era devoto dela, mas acabou devolvendo porque disse que apareceram sombras e ele rezou, rezou, e não foram embora, então trouxe a estátua de volta.
Sempre digo isso, é uma estátua, mas leva o zum-zum de uma igreja, de tantas missas, tantos pedidos, tantas orações. 

Minha avó dizia a mesma coisa, guardava suas imagens de santos e santas e não dava para ninguém, mas sempre dizia que gostaria que ficassem em  família, infelizmente, por esses azares da vida, foram cair nas mãos de uma neta indiferente, que para está altura já deve ter jogado tudo no lixo, apesar dos apelos das tias. 

No desespero almas grudam no que conhecem e a Nossa Senhora da Consolação é uma figura acolhedora, deve arrastar um sem fim de devotos.

Fiquei olhando para a estátua e desisti de comprar. O dono tinha razão, é um pacote inteiro, não é uma peça de decoração, carrega todas essas energias da qual foi objeto toda sua vida. E não se pode culpar ninguém, também já me vi ajoelhada pedindo algo a uma Santa, também joguei um pouco de minha energia no ar que a envolvia.

E de repente o dono me disse:

-Tem horas que não quero vender, acho que ela ficou bem aqui, sossegada, talvez estava cansada de tantos pedidos, e parece que gosta daqui, ninguém a incomoda aqui.

Olhei de novo e dei razão a ele, realmente ela parecia ter um ar tranquilo, sereno, ali no meio da sala, em um antiquário no centro.

Seres humanos perturbam tudo ao seu redor, desde a natureza até os santos, todos precisamos folga dessa humanidade neurótica.

Objetos, estátuas, imagens, tudo se contamina com a presença humana, com suas descargas energéticas desequilibradas, seus impulsos histéricos.

A estátua em si é maravilhosa, mas vem com essa energia humana, esses gritos abafados, paciência.

De vez em quando eu passo na mesma rua, vou lá dar uma olhada e digo a Nossa Senhora da Consolação, você é maravilhosa, uma das mais lindas que já vi e vou embora.

Queria ela na minha casa, mas sem todas essas pessoas que ela carrega ou esses restos de energia. 

E conheço bem o coração humano, sei que é uma energia pesada porque poucas pessoas ajoelham e agradecem o milagre, o que elas fazem é se desesperar e pedir as coisas, mas na hora de receber nem lembram a que santo pediram. Sei de todas as correntes de dor e angústia que o ser humano carrega e tenta jogar em cima dos outros.

É uma linda estátua, pena que esteja tão saturada com a energia humana, ela não merecia isso. Espero que encontre um pouco de paz naquele antiquário, longe do desespero humano.



Iara De Dupont

22 janeiro 2018

É mais fácil planejar a vida do que um casamento



Há uns dois anos uma amiga decidiu que iria se casar. O namorado, naquele comodismo masculino, disse que eles não tinham dinheiro, era melhor esperar um pouco, mas ela quis se casar.

Pensou na cerimônia, na festa, no lugar, nas flores, no vestido. E fez as contas, que ficaram bem apertadas. O namorado disse que iria ajudar, se pudesse, mas ele batia o pé insistindo que era ela que queria se casar, então navegava naquele ''se vira''.

Ela tinha só seu salário, morava com os pais e economizou durante um tempo, mas fez um trato com os pais de não colaborar na casa durante os dois anos, e eles aceitaram.

Uma vez fui com ela a uma rua de comércio popular, porque ela procurava velas e arranjos de mesa. Em cada lugar que entrávamos a cabeça dela começava a funcionar, dizia em voz alta ''são tantas mesas, tantas colunas para as flores, e tal'', fazia contas e resolvia tudo na hora.

Ela tanto procurou que achou um salão de festas gratuito, na verdade era de um parente, que tinha comprado um apartamento em um prédio quase vazio e emprestou o salão para seu casamento.

Quando eu vi as planilhas que ela tinha feito comentei que deveria fazer uma faculdade ou curso de contabilidade, porque era tudo muito organizado. Ela olhou, suspirou e disse:

-Vontade eu tenho é de uma faculdade, queria fazer administração.

E por que não faz?

-Porque ficaria pesado pagar, e se fosse uma pública teria que fazer um cursinho, agora com o casamento não posso nem sonhar com isso, mas talvez depois.

Em dois anos planejando o casamento aconteceram mil coisas. O pai ficou doente e isso exigiu driblar os gastos e tirar um pouco do dinheiro que tinha guardado. O país entrou em crise, o namorado perdeu o emprego. E ela ali, fazendo suas contas, mantendo em pé o sonho do casamento, sem mudar as datas.

Não sei quantas pessoas a aconselharam a adiar o casamento, esperar a poeira abaixar, mas ela alegava que já tinha jogado o barco no mar e agora daria mais trabalho cancelar tudo.

E passou dois anos no lápis. Fez tudo sozinha, seguindo conselhos que achava no Google. Procurou a igreja, conseguiu um buffet, economizou para as bebidas, e até sua avó entrou na roda, costurando o vestido.

Minha única reserva nesse assunto era vê-la tão envolvida e o namorado em postura neutra. Mas a mãe dela me convenceu de que o sonho era da moça, e sonhos se vivem sozinhos, não embarcamos ninguém neles. Se para ela era importante ter sua festa e estava lutando por isso, bom, que fosse feliz.

E há três semanas aconteceu a festa, os dois anos passaram voando, e o dia chegou. E tudo foi perfeito, a igreja estava linda, com umas flores pequenas e bem iluminada, o salão era bem localizado, fácil de chegar e a comida estava maravilhosa. Tudo foi feito como ela queria, simples, mas de maneira elegante.

O padrinho deu uma viagem de lua-de-mel, e dias depois que ela voltou, a encontrei. Conversamos muito e acabamos caindo no assunto da faculdade, bom, se já casou, tudo está pago, por que não pensar em um curso, um sonho dela? E ela me respondeu:

-Tem uma hora na vida que somos obrigados a aceitar nossos limites. Eu sou boa em vendas, mas não tenho a capacidade intelectual que uma faculdade exige.

E que capacidade seria essa?

-Não sou ''tão'' inteligente.

E quem disse que faculdades são celeiros de pessoas inteligentes? Muito pelo contrário, é tão raro inteligência ali dentro que quando aparece uma mente brilhante se destaca logo. Faculdades são como qualquer lugar no mundo, se focar e estudar, consegue, tudo está desenhado para a mente humana, não existem grades curriculares ali feitas por alienígenas.

E ela continuou....

-Mas não sei se conseguiria ficar lá dentro os três, quatro anos que se precisa, não sei se poderia me comprometer.

Mas não se comprometeu com um casamento durante dois anos? Qual a diferença? Foca e vai.

Por que mulheres acreditam nisso? Que podem organizar um casamento com uma perfeição inglesa e orçamento brasileiro, mas não conseguem terminar uma faculdade ou passar em um vestibular?

Isso acontece porque nos fizeram acreditar na coisa errada, dá a impressão que todas as mulheres podem planejar um casamento perfeito, mas não podem passar em um vestibular!

Precisamos sair dessa egrégora, que nos segura, nos faz pensar que somos desenhadas apenas para planejar e viver casamentos como o evento mais importante de nossas vidas, quando na verdade não são mais.

Chega de pensar que somos as rainhas do planejamento de bodas, mas incapazes de fazer nossa vida correr em uma direção melhor.

E a grande diferença está na frente de todas, casamentos acabam, não dão em nada, mas diplomas ficam, alegria de ter vencido outra etapa fica.

Quem planeja um casamento pode planejar uma vida melhor, sempre. E sem homem por perto enchendo o saco.


Iara De Dupont

12 novembro 2017

Não faz mais diferença


O medo é uma parede socialmente construída para as mulheres e talvez leve anos conseguir começar a derrubar tudo o que nos cerca.

Fico me vigiando, policiando, uso a técnica que os budistas me ensinaram, a prática da auto-correção, tento não sentir medo, mas de repente parece que as coisas escapam da minha mente.

Me chamaram para apresentar um trabalho e um pagamento foi combinado.
Chegando no lugar me informaram que houve uma confusão de datas, uma sucessão de erros e só iriam me pagar metade do combinado, por um equívoco causado pelas pessoas que tinham feito o acordo.

Quando isso foi dito eu estava em uma sala, com outras cinco mulheres, que também estavam apresentando seu trabalho. Na mesma hora pensei em levantar e dizer que aquilo não me parecia certo, não era meu problema se tinham errado nas datas ou na logística, tinham que me pagar o combinado. Mas logo me segurei, presa a um trauma de infância e um inferno de adolescência, às vezes que me levantei e disse ''isso ou aquilo não está certo'', escurei que era problemática, briguenta e difícil de conviver.

Isso criou mágoas na minha alma porque eu não me sentia tão ''difícil'' assim, mas cada vez que me colocava escutava a mesma coisa.

Pensei que se reclamasse naquele momento sobre o pagamento, ganharia a má vontade de todos, e eu ainda nem tinha apresentado meu trabalho, logo seria taxada de como aquela que cria confusão.

Fiquei quieta e apresentei o trabalho, mas na saída, por uma dessas coincidências, as seis mulheres, todas nós, pegamos o mesmo elevador. Uma delas parecia aborrecida e perguntei se não tinha gostado do trabalho, me respondeu que sim, mas estava frustrada com o dinheiro, porque não recebeu o combinado. Perguntei a ela porque não disse nada, se tinha reparado que tinha algo estranho, e ela respondeu:


-E vou pagar de louca sozinha? Fiquei com medo, se uma de vocês tivesse dito algo, eu apoiaria, mas quando vi todas em silêncio, achei melhor não dizer nada.

Outra comentou a mesma coisa, ficou irritada com a quantidade menor, quis questionar, mas pensou que seria taxada de ''cri-cri'' e isso poderia azedar contratações futuras.

Todas tínhamos um perfil em comum, com informações suficientes sobre como se defender nesse mundo machista e se posicionar, mas todas ficamos congeladas, tivemos a mesma ideia, se abrimos a boca e falamos que não estão sendo honestos, seremos taxadas de ''conflitivas'' e cortadas no próximo trabalho.


Já conversando com calma no elevador, chegamos a mesma conclusão. Quem contratou deve ter pago a quantidade mencionada, mas atravessou alguém e o dinheiro foi reduzido, aquelas curvas que acontecem em países como o Brasil. E então começamos a ter mais raiva da situação, ficamos quietas por medo de começar uma confusão, mas fomos roubadas na cara dura!

A conversa se prolongou para fora do elevador, levou uns quarteirões a mais, porque virou uma montanha de russa, começou com a sensação de não querer incomodar, para depois ter se arrependido de não ter dito nada, até perceber que a pessoa que nos roubou se favoreceu do nosso silêncio. E a conclusão de todas foi a mesma ''se eu soubesse que iria passar tanta raiva, tinha dito um monte''.

Pois é. Mas ficamos presas ao medo social, aquele que nos tortura desde criança, que julga as mulheres que dão ''escândalo''.

É uma luta interna gigantesca, porque ao mesmo tempo que sabemos que temos que nos posicionar, estamos cientes que o mundo não mudou e muitas vezes, quase sempre, falar é um perigo, coloca a mulher na linha de tiro.

Todas ficamos chateadas com nós mesmas, decepcionadas de ver que nos demos conta de uma situação e não reagimos a ela, porque tivemos o mesmo medo, o mais bobo de todos, de sermos chamadas de ''complicadas''.

Pensei o mesmo que todas, já que era para perder dinheiro, pelo menos deveria ter me posicionado, até porque se fosse ao contrário, ou seja, eu cancelando o compromisso com a empresa, eles não seriam tolerantes.

Tudo isso são cordas do patriarcado, que sabe o peso do seu julgamento e seu poder. Eu sabia que se reclamasse do pagamento, me cortariam para o próximo trabalho, mas isso não justifica meu silêncio, meu medo nem era ser cortada do próximo trabalho, mas de pegar uma fama de ''causadora'', que já tive em alguns lugares e sempre me prejudicou.

Levei anos para entender que essa fama de ''vai aprontar'' é direcionada a todas as mulheres, é um mecanismo para calar a todas, caso alguma se levante e fale.

E não é só nos trabalhos que isso acontece, também na vida pessoal, com namorados e família, todas as mulheres que abrem a boca para dizer o que pensam ou reclamar, logo são taxadas de ''ovelhas negras da família'' ou a ''briguenta''.

O fato é que esse medo criado tem funcionado, feito que milhões de nós recuemos, intimidadas pelo o que pode acontecer.

Mas o pior de tudo não foi o silêncio, nem o dinheiro roubado, foi a sensação que todas tivemos de que falhamos com nós mesmas, nos decepcionamos, a raiva de ficar quieta, o ódio de ter aguentado algo que não era necessário.

Isso foi o pior do dia, da semana, do mês. Saber que caímos (de novo) na armadilha do medo, o pânico de não querer se ''queimar'' e esquecemos o mais importante, algo que já deveria estar tatuado na nossa pele: não importa o que fazemos ou deixamos de fazer, somos julgados da mesma maneira e levamos todas as etiquetas possíveis, ficamos quieta para não ''causar'' e perdemos dinheiro, mas não seremos chamadas pela empresa de novo porque já nos roubaram uma vez e não vão se arriscar a chamar de novo, ou seja, deu nas mesmas. Se tivéssemos reclamado na hora sobre o dinheiro, talvez eles teriam percebido e evitado um escândalo, mas ficamos quietas e perdemos o dinheiro e ficamos com raiva.

Tento lembrar disso todos os dias, não importa o que eu diga ou faça, para um mundo patriarcal sempre vou ser uma bruxa histérica, fora do padrão, que anda pelas beiradas do sistema. Posso fingir ser outra coisa, ainda assim serei criticada e julgada.

E talvez exista liberdade nesse julgamento, porque já que estamos devidamente cadastradas, já fomos julgadas e condenadas, então quer dizer que somos livres e podemos fazer o que tivermos vontade, porque o julgamento já saiu, não faz diferença o que fizermos agora.

A nossa margem de manobra é essa , a certeza de que já nos julgaram, então vamos esquecer essa parte e fazer nossa vida do nosso jeito.


Iara De Dupont

28 setembro 2017

Se caiu de cabeça quente, se levante de cabeça fria




Uma das piores coisas que aprendemos na vida é a parar no meio do caminho para ficarmos lamentando o erro cometido, a estrada equivccada, o atalho que nos levou a perder tudo. Ficamos ali congelados, sem saber o que fazer, vendo o tempo passar enquanto tentamos entender na nossa mente o que nos levou até ali.

Levei anos para aprender a perceber a importância de me mexer logo, de não perder tempo tentando decifrar o que não iria mudar minha história, mas ainda me cuido, porque sei que posso cair a qualquer momento e passar largas décadas lamentando a queda, parada no mesmo lugar.

O problema não é cair, isso é um fato que vai acontecer com todos, mas ter a cabeça fria de ver como vai se levantar.

Sempre penso na história de uma amiga de minha mãe. Ela perdeu os pais muito nova, ficou morando com uma tia, se apaixonou loucamente aos dezoito anos e se casou, tudo feito na emergência de sair da casa da tia, de ter vida própria, de começar outra existência mais feliz. Se enroscou na decisão, engravidou logo e quando acordou tinha cinco filhos.

Trabalhava antes na loja de uma amiga, mas com tantos filhos foi obrigada a ficar em casa, para cuidar a todos.

Os anos passaram, talvez dez anos, doze anos, não sei, mas ela se viu presa no erro, cheia de filhos, sem estudos e com um marido que se revelou um pesadelo. O rapaz era trabalhador, mas bebia, jogava e gostava de mulheres, pagava as contas da casa, mas continuava se comportando como se fosse solteiro, pior, adolescente.

Então ela resolveu sair do casamento. Mas teve uma ideia brilhante, uma luz que deve ter aparecido depois de tanta dor. Se tinha entrado no casamento tão apaixonada, tão cabeça quente, tão impulsiva, agora seria outra para sair, faria tudo tranquilamente, de cabeça fria e sem colocar sentimentos na mesa.

Comentou a algumas amigas a ideia que teve, de sair devagar do casamento, todas fizeram questão de dizer que era um absurdo, que elas poderiam ajudar, mas essa ideia não era boa. Pra quê fazer isso, planejar sair de um casamento como se fosse uma questão secreta de algum governo? Pede o divórcio e pronto.

Mas ela entendeu sua situação, não tinha pais para ajudar, tinha cinco filhos, nenhuma formação e que tanto as amigas poderiam fazer por ela? Finalmente cada uma tem sua vida.

Ela pensou no divórcio e analisou a situação. Resolveu que precisaria primeiro de um emprego e começou a procurar um. Como não tinha formação, encontrou espaço na área de vendas, começou a vender seguros. O marido não dizia nada, a essa altura já chegava sempre bêbado em casa e não sabia nem o que tinha acontecido durante o dia.

Conversou com o marido sobre a importância de deixar a casa que ele ainda estava pagando no nome dos filhos, era mais seguro assim e o marido aceitou.

Já vendendo seguros, trabalhando nas ruas, começou a escutar outras pessoas, ter ideias novas e percebeu que precisaria pagar um plano de aposentadoria.

Foi fazendo isso, aumentando sua autoestima, tinha que se arrumar para sair de casa, deixava a filha mais velha cuidando dos menores e começou a planejar sua saída do casamento. Procurou um advogado e entrou com o processo de divórcio, o marido quando foi avisado deu um escândalo, berrou dizendo que não pagaria um centavo de pensão e ela poderia ficar com a casa, porque de qualquer jeito iria morrer de fome com as cinco crianças.

O marido não sabia do caixa 2 que a mulher tinha feito vendendo seguros, não sabia que ela já tinha calculado sua renda sem o dinheiro dele, nem que estava bem estabelecida vendendo seguros.

O marido foi embora, levou anos para conseguir tirar dele uma pensão, mas ele enrolou tanto e conseguiu escorregar da justiça centenas de vezes, que quando foi determinado o valor, os filhos já eram maiores de idade, então ele se livrou da pensão, mas concordou em pagar a faculdade deles.

O impressionante desta história não foi o marido que sumiu por anos e a deixou sem pensão, mas que entre o plano de se divorciar e o fato acontecer, se passaram quatro longos anos.

É isso que faz a história tão extraordinária, uma mulher que percebe como errou ao entrar em uma situação de cabeça quente e decide que vai sair dela, mas de cabeça fria.

Ela planejou tudo com calma, sem erro, mas não deve ter sido fácil, isso a obrigou a conviver com um marido que não amava mais e lidar com situações penosas, mas teve a tranquilidade de perceber que um movimento errado seria pior, ter a cabeça quente e sair correndo do casamento a levaria a passar fome com cinco crianças, mas pensando de um jeito frio, ela conseguiu se segurar quatro anos. E todas as amigas dizendo que aquilo era um erro, que era melhor pedir o divórcio e esquecer o assunto, mas ela resistiu até o fim.

O fim da história foi justo, os filhos cresceram respeitando a mãe, entendendo o tamanho do seu sacrifício e visão, ela se aposentou bem, não precisou mendigar dinheiro de marido, conseguiu dentro de sua área fazer uma carreira que nunca permitiu grandes luxos nem viagens, mas pagou as contas e colocou o pão dentro de casa.

Ela errou uma vez, jovem, sem família, mas não se permitiu errar novamente, e muitas pessoas dizem que a história deu certo para ela porque não amava mais o marido, mas isso é uma suposição, quantas mulheres não amam mais o marido e mesmo assim saem dos casamentos de cabeça quente? A grande maioria faz isso.

Outras pessoas dizem que ela aguentou o casamento porque ele não era violento, mas isso depende da perspectiva, eu acho violento um homem que chega caindo pelas tabelas todos os dias, está sempre bêbado e ofendendo a mulher.

O que ela fez foi por instinto, não tinha ninguém para ajudar, nem dizer como fazer. Nem acredito que ela tenha tido na época a clara noção do que tinha decidido fazer, sair de cabeça fria de uma situação que entrou de cabeça quente.

Mas o que muitas vezes nos mantém presos a uma situação é que entramos nela de cabeça quente, caímos de cabeça quente e queremos nos levantar de cabeça quente, como se isso fosse possível.

Quando eu era pequena caí durante uma patinação no gelo, e comecei a chorar, um professor se aproximou e disse ''respira fundo e tenta se controlar, assim é mais fácil se levantar''.

Não foi porque tive uma fratura exposta, mas hoje entendo o que ele quis dizer, na queda choramos, nos desesperamos e não pensamos em nos levantar respirando fundo, de cabeça fria, e perdemos um tempo sagrado ali, no meio do ataque de histeria.

A isso somamos o tempo biblíco, aquele espaço que damos para nos julgar, mutilar e começamos a autopunição, como se isso fosse adiantar alguma coisa. Diante do erro perdemos tempo nos lembrando que poderíamos ter evitado essa queda, prendemos nossa mente ao momento e esquecemos de tudo, a queda vira um tombo gigante e parecemos incapazes de reagir.

Algumas pessoas disseram ''mas ela levou quatro anos para sair do casamento? É muito tempo''.

Sim, é bastante tempo para tolerar alguém que não amamos mais, mas quanto tempo ela teria levado, caso não estivesse preparada? O marido sumiu com o pedido de divórcio, ela teria ficado sozinha com os filhos e sem renda, quanto tempo teria levado para se organizar novamente? 

Quatro anos parecem muito tempo, mas com certeza se ela tivesse pulado fora de cabeça quente o tempo consumido teria sido maior.

Pode acontecer em muitas situações, levamos um minuto para entrar e anos para sair, mas é melhor levar esses anos tentando sair de maneira fria, do que ficar presa mais algumas décadas, estrebuchando de cabeça quente.

Caiu? Respira fundo e pensa em sair de cabeça fria. Se caiu de cabeça quente, espera esfriar. Cair de cabeça quente é uma coisa que acontece, mas todos podemos esfriar a cabeça para sair da situação.

E talvez venha disso o aprendizado, quando dizem que não saímos das situações da mesma maneira que entramos, que tudo nos transforma. Talvez a transformação venha da temperatura das nossas cabeças, quente para entrar, frio para sair.

O ideal é nunca ter cabeça quente, até na hora de entrar em situações ruins, é sempre bom pensar com calma, mas o ser humano não é assim, a cabeça esquenta, a pressa de mudar a vida aparece, o momento aperta e nos jogamos sem esfriar as ideias. Acontece. Mas a regra é, se caiu de cabeça quente, se levante de cabeça fria.

Iara De Dupont

04 setembro 2017

Uma vida no forno à lenha



Durante uma viagem me ofereceram um pão feio em um forno à lenha. Nunca tinha comido nada como aquilo, fiquei fascinada, o sabor era intenso, diferente, o melhor pão que já comi.

Fui procurar a pessoa que o fez, eu queria a receita, e ela me perguntou ''você tem forno à lenha na sua casa?''.

Não, eu não moro em casa, moro em apartamento e tenho um fogão.

E ela respondeu:

-Então não adianta te dar a receita, os tempos são outros.

É, os tempos são outros, mas ainda insistimos em viver em tempos passados, querendo cronometrar tudo como era antigamente.

Uma amiga se divorciou recentemente, foi uma decisão- segundo ela- consciente e discutida, os dois acharam melhor terminar em paz do que seguir em uma guerra.

Ela parece tranquila, mas de vez em quando se joga na cama e chora, lamenta a sorte, fica horas dizendo a mesma coisa:

-Poxa, meus pais ainda estão casados, todos os casais enfrentam problemas e superam, por quê eu fracassei nisso? E minhas tias? Continuam casadas! Eu gostava do meu marido, acho que poderíamos ter trabalhado mais duro nessa questão, não paramos para pensar em tantos casais que já passaram por situações ruins e conseguiram superar.

É fato, casais passam por momentos tensos e tem que decidir se continuam juntos ou cada um segue seu caminho.

Mas qual o nosso parâmetro? O das mulheres da família? Casamento dos pais ou dos tios? Ou talvez dos avós?

Essa é a nossa perspectiva de vida conjugal, baseada no que vimos em família.

O casamento da mãe da minha amiga me parece uma merda, um marido histérico, nervoso, e ela sempre tentando colocar panos quentes. Que vida é essa?

Em um ato suicida de romantismo esquecemos o contexto que estamos e o contexto no qual estavam nossas tias e avós.

Não construímos mais nossos relacionamentos da maneira que elas construíram, tudo mudou, é como a história do forno.

Talvez seja a primeira vez na história da humanidade que começamos a ver o tempo como realmente é, talvez relacionamentos são feitos para durar no máximo dez anos, depois disso não funcionam mais, não sei, pode ser.

Pensamos que algumas mulheres da nossa família, casadas há décadas estão ali porque são felizes e tiveram sorte, mas talvez só estão ali porque resistiram a coisas que nós não temos que aguentar.

Não temos mais uma sociedade nos julgando por sermos ''divorciadas'', nem somos proibidas de entrar nas igrejas. O divórcio é um processo simples e não precisa mais do consentimento do homem, pode correr à revelia.

Durante muitos anos me perguntei se seria capaz de aguentar tantos anos de casamento, como as mulheres da minha família, mas quando comecei a olhar de perto percebi como eram escravas, infelizes e como tinham tolerado coisas que eu não aguentaria.

Tenho uma tia que se casou há cinquenta anos e sempre faz uma festa para comemorar. Eu achava lindo, o marido dela parecia apaixonado e paciente, tudo brilhava.

Mas ao me aproximar fiquei sabendo que minha tia amava outro homem, mas ele se casou com outra mulher e ela em um momento de ódio, de raiva, aceitou o pedido do meu tio, que era aquele eterno amigo apaixonado. Minha tia se casou sem amá-lo, nunca se envolveu ali e acabaram se acostumando a viver assim, ela sem amar e ele mendigando esse amor.

Durante umas férias com eles percebi que nem se dirigiam a palavra, mal se falavam, evitam compromissos juntos e podiam passar horas sentados no sofá sem olharem um para a cara do outro. E vivem assim há cinquenta anos.

Outra tia é casada há quarenta anos, coisa que ostenta com orgulho, mas engoliu um marido que a traiu e gastou seu dinheiro com prostitutas. Minha tia aguentou quieta, foi sua decisão.

E minha avó? Para onde iria correr, caso quisesse se separar? Era semi analfabeta, com filho de colo, não tinha para onde ir, não tinha como se livrar do marido mulherengo e irresponsável. Mas seu casamento durou a vida inteira, quase setenta anos.

E fazemos as contas da nossa vida amorosa usando as mulheres de nossa família como parâmetro! Essas mulheres infelizes, que sofreram horrores nas mãos dos seus maridos, que não podiam ir embora porque dependiam do ingresso econômico dele, não tinham estudos, presas na ignorância religiosa, julgadas por uma sociedade machista e misógina.

Não podemos continuar pensando que se não aguentamos um casamento quarenta anos é porque fracassamos!

Fracassamos no quê? Em não querer viver anos infelizes nem aguentar tudo de um homem?

Fracasso é ficar, insistir, alegando que não quer ser a única da família com um divórcio nas costas.

Nossa vida amorosa não é mais um forno à lenha, lento, cozinhando nosso tempo a favor de um homem, as coisas mudaram, hoje nossa vida é um forno de um fogão moderno, que ligamos quando queremos e não é para favorecer nem ''queimar'' pecado de marido.

Salvo casos em países arcaicos, nenhuma mulher mais tem que ficar com um homem a vida inteira, talvez nem seja a natureza humana viver essa experiência, já que casamento não é uma situação biológica, mas uma imposição social.

O casamento durou um ano? Cinco anos? Dez anos?
Tá bom, o tempo que durar, tá valendo.

Não façam as contas intoxicadas pelas histórias mentirosas da família. Quem nunca escutou ''sabe aquela tia, a Mariquinha? Nossa, ela se casou e foi tão feliz durante os cinquenta anos que seu casamento durou''.

É? Você estava ali para ver o que a Mariquinha enfrentou cinquenta anos?

Ah,meu Deus, mas talvez deveríamos ser mais fortes e lutar pelos nossos casamentos, como elas fizeram.

Pelo amor de Jesus, o que elas aguentaram? Homens violentos, abusivos, bêbados, mulherengos, jogadores, cafajestes, que as ignoravam de dia e estupravam de noite. Algumas também aguentaram homens que nem colocavam dinheiro em casa.

Elas não tinham saída, nós temos. E vai muito além do feminismo, é sobre felicidade, é sobre dizer, isso aqui acabou para mim, fui feliz enquanto durou, mas agora quero outros caminhos.

E será que existe alguém que aguente um casamento por quarenta anos? Pode ser que sim, tem louco pra tudo nesse mundo.

Quer se jogar na cama e lamentar o fim do casamento? Faça isso, chore, se desespere, mas nunca use o tempo das mulheres da sua família, não bata a cabeça na parede pensando na sua mãe que tem sessenta anos de casada. O tempo dela era outro, o nosso é o de agora. Fim de relacionamento sempre causa um pouco de dor e pensar que fracassamos só piora.

Não tem fracasso em tempos que se encerram e tempos que começam. Precisamos estar livres para recomeçar e devemos agradecer essa oportunidade, essa que foi negada a todas as mulheres da nossa família. Podemos decidir ficar ou ir embora, um privilégio que tantas não tiveram, por isso é uma bênção. Sempre.


Iara De Dupont

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