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12 março 2017

Romeu e sua boneca de papel



 

Nos últimos tempos, digo, anos, aprendi a questionar tudo, penso duas vezes cada vez que escuto alguma coisa e chego a várias conclusões. Me pergunto mil vezes a quem convém o que é dito ou o que pode estar atrás disso.

Pode parecer paranoia, mas em um mundo onde a mulher é carne moída, não me parece errado prestar atenção em tudo que nos cerca.

Aprendi a desconfiar de uma figura bem popular, o famoso  ''Romeu'', aquele ser que amamos e na maioria dos casos decidimos dividir a vida com eles.

Mas Romeus não são grátis, nem transparentes, são humanos e neste caso humanos que cresceram debaixo das regalias dadas ao gênero masculino. Mesmo sem querer eles agem de um jeito misógino, educados e doutrinados nos privilégios e no excesso de direitos, ou de pensar que os têm, eles não são os anjos que pensamos que são.

Eu não critico eles abertamente, entendo hoje que são fruto de uma cultura, mas percebo também que a maior responsabilidade é minha, sou eu que tenho que estar atenta as armadilhas, consequências da educação que eles recebem.
Mas para que isso aconteça preciso tirar meus óculos cor de rosa e deixar de ser romântica, ver Romeu apenas como ele é, um homem que é resultado de uma cultura e age de acordo com isso.
Também não gosto disso, se fosse tudo de acordo as minhas fantasias eu preferiria viver em um mundo onde homens são parceiros legais e eu posso relaxar, sem estar atenta aos detalhes. Gostaria de estar em um planeta onde nada tivesse segundas intenções e não viessem coelhos escondidos na cartola, mas não tive essa sorte, sendo assim a melhor coisa que posso fazer é manter os olhos abertos e a mente flexível, deixar meus óculos cor de rosa enterrado no jardim e seguir a vida.

Veio minha amiga dizer que mudou de ideia, vai colocar silicone. Ela sempre foi magra e com pouco seio, mas dizia estar feliz desse jeito, seguiu um tempo a carreira de modelo e isso parecia ser uma vantagem, o pouco peito. Como viajou bastante conheceu outras culturas e  padrões de beleza, assim nunca se incomodou por ter o peito pequeno.

Ela começou a falar sobre algumas mudanças e falou sobre o silicone. Na hora perguntei a ela se ainda estava namorando e me confirmou que sim.

Minha percepção sobre o assunto mudou na hora. Se uma mulher me diz que vai colocar silicone e está sozinha, eu percebo que foi uma decisão dela, mas se tem um Romeu na história desconfio de tudo, de cada vírgula, de cada palavra.

E faço isso baseada na minha fantástica experiência com homens. Eles são doutrinados para pensar que tem poder sobre nossa aparência, acreditam que decidem o que vestimos ou não e que os seduzimos usando a roupa que eles escolhem.
Como não pode mais ser um jogo tão aberto, para não parecer dominante, o discurso mudou, agora Romeus falam mansinho e começam a frase dizendo ''eu te aceito do teu jeito, mas poxa amor, podia ter mais peito ou ser mais magra né?''.

Se eu namorasse hoje os homens que um dia namorei, com certeza pesaria cinquenta quilos, porque algumas vezes sofri a pressão aberta e direta e outras vezes a voz mansinha que me alertava que eu estava engordando, mas sempre era a voz do macho ditando regras sobre minha aparência.

Eles nos veem como bonecas e nós, mulheres, fazíamos isso com nossas bonecas na infância, cortávamos seu cabelo e mudávamos suas roupas, eles fazem a mesma coisa e acham que têm o direito de modificar algumas partes do nosso corpo para satisfazer suas fantasias sexuais.
E não param, se a mulher der uma folga, eles caem matando, começam a buzinar de leve, seja para que  a mulher emagreça ou coloque silicone, mas eles apertam, se aproveitam do desejo criado nas mulheres em querer agradar os homens que amam, essa é a porta do inferno.

Canso de escutar amigas dizendo ''eu não me incomodo em ser gorda ou não ter peito, mas Romeu me diz que se posso melhorar, por que não fazê-lo?''.
É, por que não fazê-lo?

E até onde vamos por isso? É viável deitar em uma mesa, levar anestesia geral, apenas porque Romeu gosta de mulheres com peitos grandes? Eles valem esse risco? E o que ganhamos em troca? Ele vai fazer um implante para aumentar o tamanho do pênis?

Alguma mulher já sugeriu isso ao seu Romeu, que aumente seu pênis?

Nós temos feito muitas coisas por ingênuas, aceitamos outras por ignorância, mas isso tem que acabar, não podemos continuar dessa maneira, sendo controladas por homens e seus caprichos.

E digo uma coisa, já temos conhecimento para reagir, não somos mais as bobas que tinham o acesso a informação negados,  hoje sabemos que vivemos em um emaranhado social onde somos as presas, tudo é voltado para nos caçar.

E não existem palavras doces de Romeu que não venham carregadas de manipulação e controle, ele pode ser ótimo, mas foi educado para conseguir o que quer em cima de uma mulher, se ele quer peitos grandes, ela vai ter peitos grandes.

E todas aquelas histórias que algumas mulheres me contam, como ''ele me dá apoio'' são mentira, parte de uma fantasia, ora, por que não daria apoio se você está fazendo o que ele mandou?

Se você abrir bem os olhos vai perceber que esse apoio só é dado quando é alguma coisa do interesse dele, não do teu.
Romeus podem parecer fofos e prontos para dar apoio, mas apenas estão vendo o que é conveniente ou não, parecer um cara legal é um bom negócio, dá lucro, ficar de fala mansa na orelha da mulher, dizendo que ''enlouqueceria se ela tivesse peitos maiores'', vai dar resultado.

Sou a favor de todas as mudanças físicas que uma mulher queira fazer, é seu corpo, mas cada vez que sei que tem um Romeu na história, fecho a questão. Posso me ver ali, sendo massacrada pelos meus doces namorados, escutando a mesma coisa.

Uma vez um deles me disse ''olha, você é bonita, mas se perdesse peso seria um escândalo''. Outro dizia ''poxa, pra quê se largar desse jeito, tenta uma dietinha, eu te ajudo''.

Ah, mas também namorei os legais, aqueles que comiam pizza comigo, mas o jogo deles era o contrário, adoravam que eu engordasse para que ficasse mais insegura, porque me excesso de peso me deixava insegura, eu não me aceitava, assim ficava na mão deles para ser facilmente manipulada.

Na frente de um homem, qualquer homem, nossa aparência não passa daquelas bonecas de papel, eles acham que podem cortar, tirar e amassar, até se aproximar das doentes fantasias que carregam.

Chega de colocar a culpa neles, somos nós, mulheres, que temos que acordar e cortar todas essas cordas de manipulação. Romeu quer uma namorada magra? Bom, não sou eu, ele que vá procurar outra se isso é tão importante assim. Quer uma namorada com peitos maiores? Que procure, eu não vou viver em um relacionamento onde não me aceitam como sou. E o principal, que me tratem como eu trato, porque jamais disse a nenhum homem para aumentar o pênis e olha que eu tinha motivos para dizer isso, mas sempre respeitei e nunca tratei ninguém como pedaço de carne.
Por cultura, conveniência e estrutura social, os homens não vão mudar, somos nós que temos que colocar a linha do limite.

Não podemos mais aceitar o controle masculino em nossas vidas e corpos, não adianta fazer textão nas redes e depois correr para colocar silicone porque Romeu pediu.

Se a mulher quer mudar sua aparência, colocar silicone, emagrecer, cortar o cabelo, o que for, tem que tirar os óculos cor de rosa e parar para pensar, abrir todas as janelas, jogar todas as possibilidades na mesa e se perguntar de maneira sincera ''é minha vontade ou a discreta pressão do Romeu?''.
Caso a resposta seja a ''discreta pressão do Romeu'' é fim de linha, melhor mudar de amor.

Amor bom é aquele que nos aceita como somos e não quer mudar nada, isso é amor, o resto é um Romeu criado em uma sociedade doente pensando que mulheres são suas bonecas de papel. Tá na hora de colocar fogo nessa ideia. 



Iara De Dupont


01 março 2017

Não é pra ceder


De vez em quando lembro de alguma história das minhas tias e penso escrever a respeito. Mas logo me pergunto se não está tudo cheio de mofo, se as coisas já passaram e os tempos são outros. Desisto então.

Dias depois, como em uma mágica mal feita, aparece outra história que se parece com aquelas das minhas tias, a única diferença é que aconteceu recentemente, como se o mundo fosse um relógio parado.

A moça me contava que sonhava em se casar, daqueles sonhos que ninguém explica, ninguém entende, mas queria a festa, a igreja, o vestido.

Encontrou um Romeu, mas tropeçou em uma pedra, Romeu se dizia um homem refinado, considerava casamentos em igrejas e com festas, uma coisa cafona, de quem não tem classe. Pessoas elegantes, dizia ele, se casam em cerimônias pequenas, com jantares apenas para os próximos, o contrário disso é para gente provinciana.

Mas Julieta sonhava com isso, já tinha economizado, queria a festa. Romeu dizia que não, que era um absurdo gastar tanto, que não valia a pena e o melhor era investir em uma viagem, isso sim era bom.

Julieta ficou na mesma posição que muitas mulheres ficamos no começo, não queremos contrariar, não queremos parecer mandonas e somos obrigadas socialmente a ceder, porque os Romeus sempre sabem mais da vida do que nós, é o que parece estar escrito no livro da existência humana.

Ela tinha o dinheiro, pediu de novo, disse que era seu sonho, mas Romeu não cedeu, não queria festa grande nem a cafonice que envolve um ritual desses.

Fizeram tudo ao estilo fino e elegante de Romeu, uma cerimônia simples, mas chique, uma ida ao cartório, e ponto final, o resto do dinheiro foi gasto na viagem de lua-de-mel, no lugar que ele tinha escolhido.

Julieta tentou evitar se aborrecer, mas aquilo dava voltas por dentro, outra coisa que acontece com muitas mulheres e negamos, mas sabemos bem quando estamos sendo ignoradas e humilhadas, conhecemos bem o jogo de poder que envolve um relacionamento.

A viagem foi tensa, o lugar escolhido tinha bebidas e jogos, e Romeu não se negou a nada, caiu na vida, mas no fim deu certo e voltaram felizes.

O casamento durou quatro anos, que a moça garante que foi feliz, ele era uma pessoa legal, apesar de ter percebido que o rapaz era egoísta.

Quando tudo terminou os dois estavam de acordo com muitas coisas, sabiam que eram diferentes, e conseguiram se separar de maneira amigável, sem rastros de ódio nem mágoas.

Uns anos depois o rapaz a convidou para seu casamento, iria se casar com outra moça, mas desta vez em uma igreja e com festa grande. Julieta ficou intrigada, o que teria acontecido para fazer o rapaz mudar de ideia? Nunca quis casamento grande e agora se casaria diante de mil convidados.

Foi perguntar a ele, movida pela curiosidade e sensação de que talvez, essa moça era o grande amor de sua vida, então valeria a pena se casar com ela na igreja. Perguntou ao rapaz porque tinha aceitado se casar na igreja desta vez e ele respondeu:

-Porque era importante para ela. Deixou bem claro isso, falou que iria preparar tudo e se eu quisesse chegar, tudo bem, se não, ela iria curtir a festa do mesmo jeito.

Mas não é? A moça tinha razão, para ela era importante e não abaixou a cabeça para ordens de macho, por isso conseguiu realizar seu sonho.

A vida é simples, quando a gente não luta pelos nossos sonhos, eles parecem bobagens para os outros e ninguém se mexe. 

Ela foi trouxa em ceder, se queria um casamento na igreja tinha que ter batido o pé, se ele não quisesse que não fosse e caso resolvido.

Não adianta ceder, essa história já foi contada de mil maneiras diferentes, mas é sempre a mesma coisa, a mulher que cede e mais na frente descobre que o homem não cedeu nem vai ceder jamais.

A vida é sobre nós, não sobre eles, nem seu remoto e invisível amor, não podemos continuar ignorando o que queremos apenas porque Romeu não concorda.

É importante para mim? Então eu sigo e quem estiver no caminho que saia dele, porque não vou desviar. 

Temos pouco tempo aqui para gastá-lo cedendo espaço para os outros, mesmo que sejam os amados Romeus.

Minha pergunta é a mesma de sete anos atrás, quando comecei o blog, e eles, cedem no que? Em nada.

Mas ela ia se casar com Romeu, era importante a opinião dele!

E por que seria importante a opinião dele, se para ele o sonho dela não existia?

A resposta é simples: se meus sonhos não te interessam, você também não me interessa mais.

A vida é minha, o tempo é meu, o meu amor eu decido a quem dar e ninguém que passe por cima merece recebê-lo.

Não é mais sobre homens egoístas, mas sobre mulheres que precisam perceber que as coisas mudaram e não temos mais que ceder meio centímetro em nada.

Eles podem continuar exigindo o que quiserem, mas que fiquem sozinhos, falando com a lua.

Mulheres, não desapareçam com seus sonhos, não anulem suas vontades, não sumam na foto. É a vida de vocês e suas escolhas que interessa, o resto é a mesma coisa que existe no planeta há anos, machos ressentidos e controladores berrando por poder.

E não é só fingir que não escutamos, mas seguir nosso caminho a nossa maneira, quem quiser fazer parte dos nossos sonhos é bem vindo, caso contrário, podem descer do trem agora.


Iara De Dupont

14 fevereiro 2017

O quarto da cozinha (história da minha abuelita)


No fundo da cozinha da minha abuelita tinha um quarto, logo depois de onde ficava a parede com o fogão. Pensando bem, acho que era uma espécie de despensa, mas como tinha um bom tamanho e muitas pessoas viviam naquela casa, virou um quarto, colocaram uma cama e umas prateleiras.

Era um lugar abafado, pelo calor constante do fogão, a parede não segurava o ar quente e a janela era pequena. 
Mas uma coisa aprendemos desde pequenos, não era lugar para entrar, isso porque às vezes algum conhecido dormia por lá e minha abuelita não deixava as crianças brincarem ali.

Uma visita frequente era a Benita, a senhora da esquina, ou pelo menos era assim que minha abuelita a chamava, cansei de ver ela ali, eu usava umas fitinhas vermelhas no cabelo, ela me via e dizia:

-Oi, menina das fitinhas vermelhas no cabelo!

Acho que ela dizia isso porque eram muitas netas, nove, e ela não deveria saber o nome de todas.

Voltando de algum lugar à noite, debaixo de chuva, minha abuelita viu uma senhora tremendo de frio, que ela conhecia de vista porque estava sempre nas esquinas do bairro pedindo esmola. Não era uma questão de tempos, minha abuelita era assim, não podia ver uma alma em apuros que ajudava e na hora ofereceu a essa senhora o quarto da cozinha.

A senhora disse seu nome, Benita, e acompanhou minha abuelita até em casa, lá tomou banho quente, se trocou, comeu e dormiu.

No dia seguinte saiu de manhã, comprou pão, voltou e ao ver minha abuelita na cozinha se ajoelhou diante dela e começou a agradecer pela hospedagem. Essa cena quem me contou foi minha tia, dizendo que precisaram de duas pessoas para ''levantar'' a Benita, que se recusava a se mexer, queria continuar ajoelhada.

Benita contou que era uma mulher doente, velha e sem instrução, por isso pedia esmolas nas ruas. Minha abuelita disse a ela que não poderia dar abrigo permanente, mas sempre que estivesse frio, chovendo ou ela não pudesse voltar a sua casa, vivia em um pequeno povoado perto dali, ela poderia pedir abrigo a minha abuelita.

Ela levou à sério o convite e durante seis anos foi uma hóspede constante em dias de chuva e frio.

Minhas tias não diziam nada, mas elas escutavam quando no meio da noite Benita chegava, ela ficava até bem tarde da noite nas ruas, esperando as pessoas saírem dos bares para pedir esmola.

Um dia Benita disse que seu filho iria se casar, ela faria uma humilde festa em seu ''casebre'' e queria convidar a minha abuelita para ser madrinha e queria que toda sua família fosse junto.

Nós fomos. Não lembro bem da viagem, éramos muitos primos, eu era muito pequena, tenho lembranças do lugar, enorme, com jardim, muita comida e música, mas o que ficou marcado foi o dia seguinte, quando escutei minha abuelita e tias rindo sem parar, falando sobre o casamento.

Benita era viúva, mãe de quatro filhos, o marido deixou um terreno e ela pedindo esmolas durante décadas juntou uma fortuna, o suficiente para construir uma casa de três andares com piscina e quadra de tênis. Isso surpreendeu a todos, que esperavam que ela fosse uma pessoa ''humilde e sem recursos''. Lembro que antes de ir ao casamento minha abuelita fez uma lista enorme para os netos, fomos orientados a aceitar tudo o que nos oferecessem, a não fazer cara feia, nem achar nada estranho.

Minha abuelita sabia que todos os netos tinham crescido com o básico, casa, comida, água, mas ela não tinha tido acesso a nada disso, sua família era miserável e cada vez que íamos visitar os parentes éramos orientados a não fazer perguntas nem dizer nada, ela nos controlava com o olhar.

Uma vez me levaram para visitar sua prima, um lugar abaixo da linha da miséria, lembro que cheguei lá e pedi para ir ao banheiro, minha abuelita me puxou pelo braço e me tirou da casa, um lugar construído com tábuas de madeira e disse ''aqui não tem banheiro'' e eu perguntei ''mas eles não fazem xixi?''. 
Não lembro como a situação foi resolvida, mas ficou claro para mim, desde pequena, que desobedecer minha abuelita não era boa ideia, até minha mãe tinha medo dela.

A história do casamento do filho da Benita virou uma grande piada na família, até hoje rolam de rir com essa história, minha mãe sempre conta sobre a cama de madeira talhada, passamos a noite ali, em um quarto gigante, o quarto da Benita. Minha abuelita na época que a ajudou se envolveu com ela, a levou no médico, deu roupas, até quis conseguir um emprego para ela, que não aceitou porque ganhava mais pedindo esmolas nas ruas.

Isso influenciou a todos, porque sempre que alguém da família via alguém pedindo dinheiro na rua dizia ''eu não dou, deve ser como a Benita, pedindo dinheiro para limpar sua piscina''.

Não foi a única vez que fomos a sua mansão, também teve a formatura do neto médico e da neta advogada, o que foi um alívio para meu avô, porque ele era advogado e vivia tirando a Benita da delegacia, no México era proibido pedir esmola nas ruas, ela era levada pela polícia e ligava para meu avô dizendo ''Dom Manuel, eu fui presa, mas o senhor sabe que eu não peço dinheiro na rua, é que as pessoas ficam com pena, me dão dinheiro, e eu aceito, o senhor pode me tirar daqui?'' . E lá ia meu avô.......

Eu lembro das bolsas de pão, no México as padarias são diferentes, eles têm uma preferência maior por pães doces e compram muitos. Várias vezes lembro de ter visto bolsas gigantes de pães doces na mesa e ter escutado minha abuelita dizer ''a Benita que trouxe'', ou seja, ela contribuía com algo.

Depois do casamento Benita sumiu um tempo, estava descansando, mas voltou às ruas e pediu para dormir na casa da minha abuelita. Ela deixou, mas no dia seguinte, assim que Benita foi embora, o circo pegou fogo, minhas tias não concordavam mais com o fato dela ficar ali, a família da minha abuelita nunca teve boas condições econômicas, todos trabalhavam, colocavam dinheiro na casa e começaram a achar injusto dar abrigo a uma senhora que poderia pagar um hotel.

Minha abuelita bateu o pé, disse que Benita era sua amiga e ponto, mas minhas tias moravam ali e não queriam mais a senhora no quarto, achavam que ela não precisava da ajuda que recebia.

Em algum momento as coisas devem ter esquentado, porque a Benita parou de levar as bolsas de pão e minha abuelita contou a ela sobre minhas tias, que não a queriam ali, mas tinha tido uma ideia, cada vez que fizesse frio ou chovesse, minha abuelita deixaria a porta da casa aberta, Benita entraria em silêncio e ficaria no quarto, no dia seguinte iria embora antes de que todos acordassem.

E assim ficou combinado. Minhas tias logo perceberam o truque, porque a luz do quarto da cozinha quando era ligada dava reflexo no corredor, mas não disseram nada.

Mas se minha abuelita impunha a lei do silêncio na sua casa, minhas tias não faziam nada diferente, até hoje são assim, não confrontam ninguém, nem sobem o tom de voz. 

Ninguém disse nada, mas um dia Benita chegou e meu avô reclamou, disse a ela que se era para passar a noite ali que levasse pelo menos Whisky. Ela saiu e voltou com a garrafa mais cara que encontrou. Sentou na mesa com meu avô e disse a ele, na frente das filhas:

-Você não merece a mulher e mãe que tem nesta casa. Eu tenho quase setenta anos e peço esmolas desde menina na rua, já apanhei, já fui presa, já me jogaram coisas na cara e nunca me deram mais de dez reais, sempre me dão as moedas que sobram, que não fazem falta. As pessoas fingem que não me veem, evitam, cruzam a rua, fazem cara de nojo. Te digo que tenho pelo menos 65 anos de rua, de canto a canto, e nunca ninguém parou para falar comigo. Tua mulher parou, me emprestou o guarda-chuva, ofereceu abrigo, me trouxe aqui, me deixou usar o chuveiro de vocês, me deu comida, me tratou como gente. Em 65 anos de rua nunca tinham me tratado como gente.

E meu avô respondeu:

-E pra quê essa lenga-lenga, você ficou rica, está reclamando do que?

-Fiquei rica porque guardei cada centavo que me deram, nunca gastei, a única coisa que eu queria era uma casa para meus filhos, não queria morrer sem dar a eles um teto, e pelo menos um pouco de estudo, porque eu não sei nem ler, eles não sabem que peço esmola, pensam que trabalho na cidade limpando banheiros. E não foi fácil juntar cada centavo, aguentei até gente me cuspindo.
Sempre vou ser grata a sua esposa, não apenas pela cama e banho, mas porque me viu como uma pessoa, viu um ser humano que dormia encolhido debaixo da chuva para não gastar com o ônibus de volta para casa. 
Por isso que fiquei rica, porque não gastava nem em comida, dormia na rua, e esperava a padaria abrir, ia lá ver se tinham pão amanhecido e pedia que me dessem. E sabe por que faço isso? Pelos meus filhos, porque de onde venho é assim, se você pode dar pão a eles, você dá, se você não pode dar nada a eles, você dá tua vida. Cada dia que durmo nas ruas e peço comida é um dia a mais para eles, levando a vida que merecem, com uma casa quente e comida boa. A única coisa que posso dar a eles é minha vida, eu me sacrifico para que eles não conheçam a miséria que eu conheci. Quem não tem pão para dar aos filhos, dá o sangue.

Meu avô se irritou com a conversa e parece que acabou ali. Mas Benita antes de se levantar disse a ele ''sempre vou agradecer o gesto da tua esposa, nunca vi nada assim na vida, ela mudou a ideia que eu tinha das pessoas, me fez acreditar que tem gente boa nesse mundo, depois de 65 anos de rua''.

Depois disso meu avô e minhas tias pararam de falar sobre esse assunto, se minha abuelita queria dar abrigo a uma rica, durante dias de chuva, bom, que o fizesse. E assim se passaram meses, no inverno Benita aparecia todas as noites. Mas ela era reservada, não aceitava jantar com eles, não se sentava no sofá, passava rápido ao quarto e dormia.

Começou a temporada de chuvas e ela ia direto. 
Mas minha abuelita notou uma mudança nela, chegava de madrugada, empurrava a porta, dizia ''boa noite'' e passava correndo ao quarto.

Minha abuelita era uma escrava da casa, por isso ficava acordada as madrugadas, era o único momento que podia estar quieta lendo suas revistas, ficava na mesa da copa, e escutava quando Benita empurrava a porta da casa e entrava correndo para a cozinha, para não ser vista. Algumas vezes minha abuelita estava cozinhando, Benita se aproximava para ajudar e puxava conversa, ficavam as duas mulheres ali sussurrando.

Mas minha abuelita era uma águia, percebia qualquer movimento fora do lugar e um dia convocou a família inteira, queria saber quem tinha sido mal educado com Benita, porque ela entrava na casa e corria para seu quarto, não falava mais com minha abuelita e ia embora antes do amanhecer.

Todo mundo negou ter dito ou feito algo a Benita, ninguém sabia que ela continuava frequentando a casa, de tão quieto que tudo estava. Minha abuelita ficou magoada com isso, tinha certeza que alguém tinha sido grosseiro com Benita.

Mesmo assim Benita continuava aparecendo e se fechando no quarto, minha abuelita disse que morria de vontade de perguntar porque ela estava chateada e não falava mais, mas ficou com receio de escutar que suas filhas e marido tinham sido mal educados, então resolveu não perguntar nada.

De vez em quando a via nas ruas, pedindo esmola, mas não se atrevia a interrompê-la.

Umas semanas depois o filho de Benita ligou para minha abuelita, procurando a mãe, perguntou se sabia onde estava. Minha abuelita estava na cozinha, na noite anterior e viu quando Benita entrou, então avisou o filho que sua mãe deveria estar na cidade, e já voltaria a casa. Mas o filho falou que a mãe ia duas vezes por mês para casa e agora tinha quase três meses sem aparecer.

O filho achou melhor ir à cidade, conversar com minha abuelita. Ninguém sabia como dizer a ele que a mãe pedia esmolas, mas como começaram a procurar em hospitais e necrotérios, tiveram que contar a história que sabiam, que Benita morava na rua e pedia dinheiro. O rapaz entrou em estado de choque, mas teve que se recompor e ajudar a procurar Benita.

Foram duas semanas, com minha abuelita e meu avô revirando os necrotérios e todos os lugares, até hospital psiquiátrico.

A única certeza que eles tinham eram a data, minha abuelita lembrava o último dia que tinha visto Benita em casa, então seriam poucos dias que ela teria de sumiço, mas o filho insistia no período de três meses.

Conseguiram pistas que os levaram a um cemitério de indigentes, pesquisaram pelas datas e viram que uma senhora de setenta anos tinha sido enterrada há três meses, depois de ter ficado um mês no necrotério. 

Foram atrás de uma ordem de juiz para desenterrar, ver se podiam reconhecer. Minha abuelita reconheceu a roupa de Benita, porque era uma que ela tinha dado. Nos bolsos de Benita tinha uma santinha, da devoção da minha abuelita, a Nossa Senhora das Graças.
Benita morreu de pneumonia, deve ter se sentido mal na rua e não teve tempo de pedir ajuda, foi levada a um hospital, mas deve ter sido maltratada, como todos os indigentes são, e isso deve ter acelerado sua morte.

Os filhos deram um enterro de rainha, minha abuelita não foi convidada porque veio à tona um ressentimento deles com ela, o fato dela nunca ter avisado os filhos que a mãe deles dormia nas ruas.

Minha abuelita nos dizia que Benita pediu a ela que nunca contasse nada aos filhos, disse ''se eles não morreram de fome, não quero que morram de vergonha''.

As datas não batiam, se Benita tinha morrido há quatro meses, como era possível que minha abuelita há tivesse visto há duas semanas na cozinha?

O assunto foi encerrado, todos pensaram que era uma confusão de datas, até que meu tio estava no corredor da casa quando viu a luz do quarto da cozinha ligada. Foi lá, viu que não tinha ninguém e desligou. Isso aconteceu durante umas semanas, justo as semanas de inverno.

Minha abuelita continuava deixando a porta da casa aberta, e escutava quando a empurravam de madrugada, todos concluíram que era o fantasma da Benita.

Uma das minhas tia resolveu levar uma amiga médium, mas minha abuelita interrompeu a sessão, ficou possessa quando soube que queriam saber se era a Benita que empurrava a porta da casa de madrugada. Minha abuelita disse:

-No que afeta vocês? Ela não faz mal a ninguém, se a alma dela encontrou paz e abrigo no quarto da cozinha, deixem ela lá!

Ficou decidido que Benita poderia continuar frequentando o quarto, mesmo morta. Não era problema de ninguém.

Quando eu penso nessa história percebo o quanto minha abuelita gostava de Benita, algo viu nela, porque sempre manteve a ideia de que o fantasma de Benita era bem vindo na sua casa.

Acredito que Benita foi sincera no primeiro dia que se ajoelhou e beijos os pés da minha abuelita, eu não consigo entender o tamanho do coração da minha abuelita para abrir sua casa a uma estranha, em um dia de chuva.

O quarto foi de Benita até que chegou Glória, uma moça do interior, que se mudou para ajudar minha abuelita com as tarefas da casa. Ninguém disse nada a Glória, mas minha abuelita percebeu que ela jogava um colchão no chão e dormia ali. Perguntou o que era e Glória respondeu ''é que todas as madrugadas uma mulher vem, se senta na beira da minha cama e não me deixa dormir, ela ocupa a cama inteira, cansei de dizer para ela ir embora, mas ela disse que não vai abandonar a senhora, que deu abrigo a ela em um dia de chuva''.

Ah, a Glória, tenho saudades dela, era muito engraçada, vinha de um lugar distante, não sabia falar bem espanhol, mas como qualquer mexicana sabia lidar com os mortos, não tinha medo, falava cara a cara com todos.

Minha abuelita contou a história a ela, Glória disse que iria conversar com a Benita, tentar convencê-la de dormir no colchão no chão e deixar a cama para ela. Mas não deu muito certo, até que minha abuelita teve uma ideia, ela tinha um sofá no quarto dela, cheio de coisas em cima, tirou tudo, colocou uma manta e disse ''Benita, quando você vier aqui em casa, deixa a Glória no quarto, e dorme aqui comigo''. 
Depois disso Benita parou de sentar na beira da cama da Glória.

Anos depois teve o pior terremoto que a Cidade do México já passou, o quarteirão inteiro foi devastado, apenas o prédio onde morava minha abuelita ficou em pé.

O terremoto foi de manhã, muito cedo, minha tia estava dormindo com sua filha, em um quarto cheio de prateleiras, ela sentiu quando Benita a acordou e disse ''pega a menina e corre'', ela se assustou, pulou da cama, pegou a menina e saiu do quarto, no momento que fez isso o terremoto começou e as prateleiras voaram na direção da cama da minha tia, se ela não tivesse pulado antes, teria morrido soterrada. Minha abuelita também dormia quando sentiu uma mão a puxando, acordou e viu Benita, que disse para que ela se levantasse, Benita gritava desesperada ''senhora, senhora, tem que sair daqui, tem que sair daqui'' e foram todos atrás da Benita, descendo uma escada que tremia, enquanto o prédio rachava por todas as partes. Conseguiram chegar na rua, onde começaram a correr para fugir dos escombros que caiam ao redor.

Minha abuelita disse que só depois de dias, quando o choque passou, lembraram que Benita estava morta há anos, mas na hora ninguém lembrou, tamanho susto.

Uma vez perguntei a minha abuelita se não tinha ficado com medo da Benita e ela respondeu:

-Era tão forte o barulho da cidade caindo que não lembrei que Benita estava morta, mas mesmo que tivesse lembrado não teria mudado nada, eu ainda a teria seguido pelas escadas, não podíamos ver nada pela poeira que se levantava, só lembro dela me segurando. E amor de morto é igual a amor de vivo, não te abandona, eles seguram tua mão do mesmo jeito que seguravam quando estavam vivos. Não tenha medo do amor de um morto, eles não abandonam quem os ama. E aprenda a receber o amor de todos que te amam, vivos ou mortos, não faz diferença, precisamos dos dois para viver. E não duvide nunca da gratidão de alguém, a pessoa atravessa penhascos se precisar, para agradecer o que recebeu.

Passaram uns meses, a cidade começou a se levantar de novo e minha abuelita decidiu ir a casa de Benita, mesmo sabendo que não era bem vinda. Foi até lá mas o ressentimento dos filhos não tinha passado, não a quiseram receber, nem dizer onde a mãe estava enterrada.

Minha tia me contou que minha abuelita ficou na porta da casa, a filha se recusou a abrir, então minha abuelita disse:

-Eu só vim agradecer tua mãe, queria deixar umas flores no seu túmulo, mas tudo bem, eu vou rezar por ela assim mesmo.

E a filha perguntou o que minha abuelita queria agradecer e ela disse:

-Queria agradecer porque um dia vi tua mãe debaixo da chuva, pensei, meu Deus, como é que pode uma senhora estar nesse frio, na chuva, tremendo? A tirei de lá e a levei para minha casa e vinte anos depois ela viu que minha família iria morrer debaixo de escombros, foi lá e nos tirou a todos. Só queria agradecer a ela, dizer que não faz diferença se estamos debaixo de chuva ou de escombros, todos sempre precisamos da ajuda de alguém.



Iara De Dupont

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