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28 setembro 2016

O barco fantasma (pulem)


Quando era pequena li o livro ''O barco fantasma'', é uma história simples, uma lenda inglesa sobre um barco no século XVIII que foi encontrado navegando pelo mar sem seus tripulantes.
Até hoje o chamam de ''o barco fantasma'', porque estava vazio quando outro barco o viu, subiram uns marinheiros e se assustaram quando perceberam que na pequena cozinha do barco, na mesa, tinha uma xícara com café quente e um ovo morno, o que os levou a concluir que era um barco fantasma, já que não encontraram rastros de ninguém ali.

Naquela época os registros dos barcos e seus tripulantes não eram tão rígidos, era um barco pequeno, cabiam menos de dez pessoas ali, o que levou todos a pensar que alguma coisa aconteceu no meio do caminho e depois os fantasmas tomaram conta do lugar.

Fiquei fascina pela história, gostava do detalhe do café quente e o ovo morno, pensava sem parar porque fantasmas preparariam um café da manhã?

Meu pai sempre me dizia que esse livro era uma versão da mesma história, de barcos pequenos e grandes, que navegam sozinhos pela imensidão, guiados por fantasmas e acabam alimentando lendas.

Já meu avô me contava que não existe parte no mundo sem lendas do mar, dos rios e barcos fantasmas sempre aparecem.

Fiquei anos pensando sobre o café quente e o ovo morno, até que já adulta li um livro que ''desmontava'' algumas lendas do século XVIII, e estava essa história.

Alguém achou um registro de um casal, talvez os donos do barco, que com alguns tripulantes saíram da Inglaterra, no meio do caminho seu barco foi abordado por piratas, que os levaram como escravos, por isso não tinha rastros de lutas no barco, nem sangue, eles devem ter sido dominados rapidamente. E uma moça aparecia na história dizendo que era a dona do barco, que embarcou com seu marido e confirmou que o barco foi invadido, mas ela ao perceber se jogou na água e começou a nadar, se afastando, dias depois foi resgatada por outro barco.

Lembro que contei ao meu avô e meu tio essa nova versão, eles deram risada e disseram que ''mulher vadia e mau-caráter, abandonou o marido a própia sorte''. Meu pai também achou um absurdo a mulher pular do barco, na base de ''dane-se''.

A mensagem era clara, até porque eu já tinha escutado ela a vida inteira, nós, mulheres, não pulamos do barco.
Nós embarcamos em uma história de amor e ficamos ali, não nos jogamos na água nem quando os piratas invadem.

Em uma conversa recente minha mãe me disse:

-Parece que você não quer ver ninguém casando.

Na hora não soube me explicar, mas depois me veio a imagem do barco fantasma, sou a favor de embarcar e viver a experiência, mas se precisar pular fora, pule. Não sou contra o casamento, sou contra levar a experiência até o fim, se não deu certo.

E escrevendo aqui que simples parece! Ora, qual o problema, pule!

Mas é o contrário do que nos ensinam, se subir no barco, se mantenha firme, sem importar as tempestades, barcos passam por noites perigosas e dias sinistros, mas você, mulher, pode levar esse barco ao seu destino.

Quem pula fora do barco são as ordinárias, interesseiras, vadias, frias e inconstantes mulheres, muitas vezes promiscuas e loucas por novas aventuras, as mulheres decentes ficam no barco, nem que ele encalhe, vire ou pegue fogo.

E somos tão doutrinadas na ideia de não pular fora do barco que perdemos o momento, não temos margem de tempo para pular, é apenas um segundo, ali ou nada, e deixamos passar.

Uma amiga da minha mãe estava vivendo um inferno no casamento, naquela época minha mãe estava no México e vinha para o Brasil, sugeriu a amiga que largasse tudo e embarcassem juntas, depois pensariam o que fazer com esse marido violento.
Ela foi atrás de passaporte, fez tudo escondida, mas ele, era como uma fera, essa parte algumas mulheres desconhecem, mas homens ''sentem'' o cheiro dos nossos movimentos, ele se jogou ao chão e pediu perdão, ela sentou e escreveu uma longa carta a minha mãe, agradecendo o apoio, mas ele tinha entendido a situação e iria melhorar.

Ela não pulou do barco, se enrolou, ficou ali, teve filhos com ele e uma vida cheia de violência, recentemente começou a ter uns problemas sérios na cabeça, o diagnóstico foi ''constantes traumas na região'', resumindo ''apanhou pra caralho de um homem covarde''.

Já outra amiga da minha mãe fez o caminho contrário, conseguiu uma autorização para viajar com seu filho e se escondeu na nossa casa durante umas semanas, até que juntou o dinheiro e saiu correndo, também de um marido abusivo.

E não falo só dos homens que batem e são violentos verbalmente, falo daqueles que não cumprem seu papel na família e levam a mulher a um stress sem precedentes, sustentando a família, encarando a tripla jornada.

Falo de um medo muito comum nas mulheres ''o que meus filhos vão pensar de mim se abandono meu marido? Poxa, ele é ótimo pai''.

Pois é, o que as crianças vão pensar da mãe se a virem pulando do barco e abandonando o homem que juraram amar?

As mães esquecem que os filhos crescem e entendem a situação, eles percebem o massacre que a mãe sofre e se um dia tiverem a cara de pau de cobrar da mãe por ela ter pulado do barco, bom, a vida vai se encarregar de mostrar a esses mimados como as coisas funcionam.

E tenho tantas histórias sobre mulheres que não pularam do barco! Na minha família ninguém pulou, todas navegaram debaixo da tempestade e aguentaram firmes.

O problema é que navegar em águas turbulentas por um casamento ou um homem, não leva a lugar nenhum, não coloca coroa na cabeça de ninguém e nem tem o reconhecimento do Romeu, que acha a coisa mais normal do mundo uma mulher se arrebentar para manter o barco navegando por ele.

Tenho uma amiga que sofreu e sofre horrores no seu casamento, teve o azar de se casar com um ''doce de homem'', um poeta e ela trabalha em um banco, sustenta a casa, teve filhos e agora, apesar de cansada, não quer pedir o divórcio porque seria praticamente jogá-lo na rua, ele não tem família e minha amiga morre de medo dos filhos pensarem que ela é uma mulher fria, que jogou o pai deles no meio da rua, abandonando o rapaz na miséria.

Mas o lado dele ninguém vê nem julga, ele é meigo, eu entendo que seja pintor, poeta, o que for, mas tem filhos para sustentar e deveria se virar, se não faz isso não merece ter uma mulher que faça, mas quem fala alguma coisa, se ele é legal e jamais bateu na mulher ou filhos?

Qualquer movimento que ela fizer será considerado coisa de mulher calculista e vadia, que abandonou o homem que é ótimo pai e um marido fiel, mesmo que isso não coloque um centavo para o pão em cima da mesa.

O barco dela ficou preso, encalhou, qual a solução? O rapaz é uma boa pessoa, apenas não trabalha.

Falei que diante dessa situação existe uma possibilidade de milagre, que ele se encante com uma mulher mais nova, alguém que se deslumbre com suas poesias e vá embora com ela.

Ela teve chance de pular quando estava grávida, ele foi viajar para o Peru e se encantou com o lugar, ela não queria se mudar e resistiu, foi uma chance perfeita para pular, mas ele percebeu que não poderia viver no Peru sem o dinheiro dela e voltou ao Brasil.

E a história do barco fantasma me parece perfeita, se a moça não tivesse pulado, o que teria acontecido? Teria se tornado uma escrava dos piratas e com certeza teria sido estuprada por vários homens ou seja, não vale a pena ficar no barco, nadar sozinha é menos perigoso.

E ao pular escutamos os gritos de todos ''vadia, vagabunda, eu sabia que era piranha, quer dar para o vizinho, pedir uma pensão, ficar com apartamento, tem amante essa vaca, mulher que larga homem não presta!''.

Mas quem grita, quem ofende, não está no nosso barco, não sabe as ondas que enfrentamos e pior ainda, não a vale a pena o nosso esforço.

Queria tanto ter cinco anos de idade, com o conhecimento que tenho e me aproximar de cada uma das minhas tias e dizer ''tia, pula do barco, faça isso já''.

Todas minhas tias que não pularam do barco morreram na praia, abusadas por homens irresponsáveis, aqueles que as teriam condenado se elas tivessem pulado, as pessoas que as convenceram de ficar no barco, nunca ajudaram e já morreram, e algumas ainda enfrentam a recriminação dos filhos que dizem ''se meu pai era um merda, por que você ficou ali?''.

Barcos naufragam, apesar dos nosso empenho e não vale a pena se arrebentar navegando enquanto Romeu pega um sol.

É socialmente condenável uma mulher pular do barco, mas é aceitável o homem que acaba com a vida dela. Não adianta pensar que vamos mudar essa realidade discursando no barco, o jeito é pular.

Pular do barco nada mais é do que salvar a vida a tempo ou o que resta dela.

Iara De Dupont

24 setembro 2016

Amor, segura essa: você não é o sol da minha vida.


Um amigo veio me contar uma história, depois contou outra parte e assim foi, em cada uma ele reagia de uma maneira.

Há dois anos conheceu uma moça em um bar, se apaixonaram e começaram a namorar. Não fizeram planos de casamento nem nada assim, porque tem pouco tempo juntos.

A moça tem um perfil parecido com muitas, veio do interior estudar, sofreu, ralou, aguentou trabalhar de dia e estudar à noite, conseguiu subir no emprego e se mudou para um pequeno apartamento, depois de anos morando ''de favor'' na casa de uns tios mal educados.

O sonho dela é conhecer o mundo, crescer na empresa, fazer sua vida.

Mas no meio do caminho ficou grávida do meu amigo. Ela não queria, está jovem ainda, pensava curtir e viajar um pouco, mas ficou feliz com o bebê.

Meu amigo gosta muito dela, é apaixonado e na hora que ficou sabendo que seria pai disse a moça que se mudasse para sua casa, um apartamento maior.

A moça recusou e meu amigo veio me contar essa história, muito, mas muito surpreso, sem entender o que estava acontecendo, mas nesse dia que ele contou, estávamos na mesa com outra amiga, uma romântica, que argumentou que o pedido foi feito de maneira errada, se ele comprasse um anel e pedisse a moça em casamento, então ela aceitaria.

Achei estranha a teoria, mas pensei que tinha seu fundo de razão, saber que a namorada está grávida e dizer ''então se muda lá pra casa'' dá um ar de informalidade ao relacionamento, como se não tivesse nenhuma importância, parece que o homem está abrindo as portas de sua casa para ajudar uma amiga.

Ele foi atrás do anel, pesquisou, queria um que tivesse algo a ver com a moça. Comprou de uma pedra diferente, não lembro qual, mas tinha a ver com o signo da moça.

E fez todo o roteiro, foram passar um fim de semana em uma pousada, ele ajoelhou, fez discurso e pediu em casamento. A moça riu, agradeceu e disse ''não''.

Meu amigo veio me contar essa parte da história irritado, indignado, com o sangue fervendo, como assim ela não quer se casar com ele?

A explicação da moça fez sentido, pelo menos para mim, não quer se casar porque acha que seria um excesso de responsabilidade e não quer isso, pensa que pode lidar com o bebê com a ajuda de sua mãe, mas não quer ser esposa nem responsável de macho, apesar de jurar de pés juntos que ama meu amigo.

Meu coração é parecido com o dela, entendi perfeitamente essa explicação, mas ninguém está entendendo. A mãe dela acha um absurdo que a filha pense em criar o bebê sozinha, mas ela nunca disse isso, ela quer continuar o namoro, só não quer se casar.

Meu amigo me pediu que eu conversasse com ela, e lá fui eu. 

A moça é um encanto, garante estar apaixonada pelo meu amigo, mas disse que nunca se imaginou nem esposa nem mãe, pode lidar com a maternidade, mas não quer lidar com um matrimônio.

Eu disse a ela que entendo seus motivos, mas uma coisa me preocupa, a folga do rapaz, ou seja, se ele não morar com o bebê vai ficar fácil demais, nunca vai acordar de madrugada, dar banho de manhã, enfim, vai ficar com a melhor parte, ver a criança sempre arrumada, limpa e alimentada, se livra de todas as chatices da madrugada. Ela me disse que tenho razão, mas ela prefere assim e completou:

-Acho que vou me aborrecer menos sabe? Tudo o que um homem faz em casa vem ''cantado'', não tô a fim de escutar nada, meu pai não me deu nada na vida, não tenho irmãos, ninguém me ajudou, só minha mãe, não tô a fim de homem por perto me ''cantando'' as obrigações que cumpre.

Meu amigo é homem, não ia deixar barato, foi lá e terminou o namoro.
Quando ele me contou perguntei o motivo para ter feito isso e me respondeu:

-Você se casaria comigo?

Sim, pensando bem, me casaria.

-Tá vendo? Fulana é louca, estou cansado desses jogos femininos de vocês, sério, não tenho mais porque aguentar. Sou um cara decente, trabalho, não tenho vícios, gosto dela e estou disposto a assumir minha família e o que ela faz? Não quer! Me trata como um bosta, o que ela quer? Um canalha? É isso que todas vocês sonham? Você fica ali no teu blog falando mal de homem, quero ver se vai contar minha história, o cara decente que não serve para marido de uma ambiciosa!

Mas por que ambiciosa?

-É o que ela é! Com certeza não quer se casar para não ter obstáculos na carreira, daqui a pouco se livra do filho!

Ela foi clara, me disse que te ama muito, que quer continuar o namoro, que vai criar essa criança com você!

-Porra nenhuma, não sou otário! 

Ela só não quer morar na mesma casa, nem se casar, mas disse que te ama, vi na cara dela!

-Deixa de ser besta, Iara, onde você já viu uma mulher apaixonada se negar ao homem que ama? Você se negaria a se casar com o homem que ama?

Sim, posso me negar. Eu posso amar ele loucamente, mas eu não quero dividir espaço, qual o problema?

-Você conhece alguma mulher grávida do homem que diz amar, se recusar a casar?

Nunca vi, mas ela é (graças a Deus) dessa nova geração, estão mais conscientes que o casamento é apenas outro método de exploração.

-Ela quer tudo debaixo de suas regras.

Ah, então chegamos a um ponto interessante.

-Não entendo porque você finge não entender a situação, ela não gosta de mim, está querendo pular fora, por isso me adiantei e resolvi a situação.

Vocês, homens, são engraçados e manipuladores ao extremo. Nós, mulheres, aguentamos tantas regras de vocês! Na minha época era o homem que dizia não estar pronto para casar e nós tínhamos que ficar quietas.

Eu fui muito apaixonada por um Romeu mulherengo, sabem o que me diziam? Falavam assim ''Iara, deixa ele gastar a pilha, em uns anos ele volta para você, cansa dessa galinhagem''.

Quantas coisas aguentamos de vocês, quantas regras!
Eu sempre escutei meus amigos dizerem ''não estou pronto para ser pai, não estou pronto para ser marido''.
E agora que nós, mulheres, dizemos isso somos tratadas dessa maneira rude?

-Ela não me ama.

Não estou na pele dela para saber, por instinto digo, ama sim, gosta, respeita, mas ela está fazendo o que vocês, homens, fizeram a vida inteira, querendo levar a vida do seu jeito e pedindo aos outros que se adaptem. 

Qual o problema? É o jeito dela! Tenho tantas amigas, mães solteiras, porque os os homens não estavam ''prontos'' para um compromisso, o que tem de errado a mulher dizer a mesma coisa?

-Então pra você amor é chumbo trocado, já que os homens são assim, querem fazer pior!

Não é chumbo trocado, é consciência adquirida. A moça está certa nos seus limites, não quer se casar, te ama, mas não quer ser tua esposa. No fundo o problema aqui é outro, os homens não admitem não ser mais o centro do nosso universo, isso está enlouquecendo a todos, imagina, uma mulher que não quer seu macho perto na hora de parir! Isso é uma quebra de paradigmas!
Desde que nasci vejo em filmes homens se derretendo quando a mulher aparece grávida, todos felizes e encantados.
Mas poucas vezes vi isso na vida real, a verdade é mais crua, os homens reclamando, insinuando que foram ''pegos'' na gravidez, que não queriam, que não sabiam e que suas vidas tinham acabado.

Vi homens casados, jovens, deixando bebês e esposas em casa, para se divertir em bordéis, e vi as mulheres aguentando tudo isso quietas, porque eram as regras dos homens.

As regras dos homens, as regras dos homens, as regras dos homens.

E quando a mulher coloca as regras dela? É louca! E causa esse efeito que a moça causou, levou um homem de um estado de surpresa, incrédulo ao ódio, raiva e mágoa.

Como assim uma fêmea apaixonada não quer seu macho por perto? Como assim a vida dela pode ser mais importante do que a dele?
Mas um homem apaixonado não é tudo o que as mulheres querem? Um homem que as ame e assuma a família? E agora, elas enlouqueceram? Elas perderam a cabeça, não entendem que um homem na vida delas é um sol?

Vão deixar de tratar o homem como seu sol particular? Meu Deus! A ordem sendo subvertida! Essas mulheres passaram do limite, agora querem colocar as regras, que já tinham sido colocadas antes pelos homens.....

Meu amigo suspirou e disse:

-Não vejo nada de errado em se casar, achei que vocês mulheres fugiam de homens canalhas, mas não sabia que também querem se livrar dos homens decentes.

Não, não, não, ninguém quer se livrar dos homens decentes, pelo contrário, um ''salve'' para eles, o que queremos é viver a nossa maneira, existem mulheres que querem se casar, outras não. Eu me casaria com você, mas não iria morar no teu apartamento, cada um no seu.
E digo mais: não é pessoal com os homens, eu também não quero me casar e não é birra, nem ódio, é uma decisão, uma regra minha.

-Mas ela está grávida do meu filho.

Sim, e muito apaixonada por você, feliz de que vai ser mãe, mas quer viver a sua maneira. Tantas vezes vocês disseram isso, qual o problema em aceitar que o outro lado também tem suas vontades? Ela não quer terminar o namoro, nem vai te proibir o acesso a criança, apenas pensa que vai se organizar melhor sozinha e que não que estar em um casamento.

-E depois vai chorar que a vida é dura, que eu sou um irresponsável, que todos os homens são iguais e nenhum assume os filhos.

Não vai fazer isso, ela é consciente, quer apenas manter seu espaço.

-O filho é meu.

Sim, mas a vida é dela, não vai mudar nada, ela apenas está se recusando a ser esposa, o resto continua em pé, o namoro, o filho.....

-Não tem mais namoro, acabou, não sou palhaço de aceitar mulher que não me quer.

Agora é assim? Se você não me ama como eu acho que deve ser, então tchau?

-É, você aceitaria um homem que te deixa grávida, que não quer se casar? É a mesma coisa! Por isso acho vocês, feministas, engraçadas, reclamam de tudo, mas quando agimos certo, também apanhamos

Agimos certo? É aquela discussão de ''nossa, eu faço o que tem que ser feito e vocês me detonam?''.
Todos fazemos o que tem que ser feito, mas vocês, homens, querem fazer o que tem que ser feito e serem aplaudidos e elogiados por isso o tempo inteiro!
E digo mais, toda essa história só confirma aquela minha teoria de que todos os homens são violentos, só precisam de espaço para isso. Você foi de incrédulo ao se sentir rejeitado, a morrer de raiva, já até ofendeu a moça.

-Tô puto sim, eu não merecia a atitude dela.

Que atitude? Ela é ótima, vai ser uma grande mãe, trabalha duro, qual o problema? Que ela não quer carregar teu nome? Que ela não chorou com o pedido de casamento? Que ela não disse que era o maior sonho dela ser sua esposa? Que você não tem o lugar na vida dela que pensava ter? Que você não é o sol que alimenta o planeta dela? 

-Eu não sei o que vocês querem.

Não sabe porque não te interessa saber, mas queremos liberdade, levar a vida do nosso jeito, queremos amar a nossa maneira, sem imposição nem obrigações, sem amarras, sem cordas sufocando. Queremos o que vocês tiveram a vida inteira, a possibilidade de conhecer o mundo, experimentar a vida, ver um amor como um companheiro, não um carrasco.
Ela te ama, mas é esse amor que ela oferece, não é o que você acha que tem que ser. Esse amor que ocupa até o espaço físico, está sendo modificado, esse amor que é um sol, ilumina o dia inteiro, está sendo transformado, vocês, homens, não são mais o centro do nosso universo, não precisamos de vocês e não temos mais condições físicas nem emocionais de dar esse amor que vocês tanto querem, esses dias acabaram. A mulher hoje tem essa opção, pode em alguns casos dizer ''posso ser mãe, mas não quero ser esposa''.
Ah, frase dita tantas vezes pelos homens! Pago a pensão da criança, mas não caso! Vê lá que eu quero mulher pegando no meu pé! 
Quantas vezes vocês disseram isso e ninguém os recriminou?

O jogo virou e não é pessoal, um relacionamento não é mais sobre uma mulher se esfolando viva para fazer um homem feliz, mas sobre dois seres humanos lutando para serem felizes, cada um à sua maneira, mas finalmente juntos.

E que triste ver os homens reagindo dessa maneira, navegando entre ódio e raiva, se sentindo rejeitados, trazendo à tona um comportamento condenável.
Os relacionamentos entraram em uma rota de nervos, agora são duas pessoas querendo viver a vida debaixo de suas regras, não é mais um homem ditando elas, mas eles não aceitam, não entendem como uma mulher não os vê como o sol na sua vida.

É, meus queridos, vocês não são mais o sol, nem um planeta, nada, nada, nada, mas o comportamento de vocês, homens, ainda é opcional, podem escolher entre respeitar a decisão da mulher ou se transformar no buraco negro do espaço, aquele que puxa tudo e todos querem distância.



Iara De Dupont

23 setembro 2016

Cada macaco no seu galho


É estranho pensar que muitas vezes damos uma situação por resolvida, quando na verdade ela tem que se resolver todos os dias, cada segundo.

Falo constantemente, alerto meus amigos, fiquem atentos com o que chamo de ''outros visitantes'', energias maléficas que se vestem de seres humanos e circulam pelo mundo, se alimentando de nossas emoções ruins.

Muitos dizem que você tem que estar alinhado para encontrar com essas pedras no caminho, mas pelo o que tenho visto não se precisa de tanto, eles estão por todas as partes e procurando confusão, precisam desestabilizar os outros para poder viver.

A quem não pertence a esse mundo sombrio só resta identificar essas energias, esse é o ponto.

Eu vinha caminhando pela rua, em um dia de primavera, uma pessoa cruzou meu caminho, me provocou e eu reagi na hora.

Até aquele momento pensei que essa pessoa, que conheço há um bom tempo, era apenas uma pessoa desequilibrada, perdida no planeta. Não tinha identificado como alguém que não se mexe em energias humanas. Durou minutos a discussão, mas suficiente para drenar minha energia e me irritar por uns dias.

Há pouco tempo descobri isso, argumentar, discutir, brigar com um humano é uma coisa, com outras energias é outra. Humanos nos cansam, irritam, fazem chorar, mas nada comparado aos ''outros'', que nos arrancam a energia, dobram nosso estômago, dão uma sensação ruim cada vez que lembramos deles.

Tem sido para mim uma luta, identificar com quem estou falando, mesmo sendo rápido de saber, ainda bem, se a gente se esforçar consegue perceber que não estamos lidando com energias humanas e a discussão ali entrou em outra sintonia.

Todos os sinais físicos disparam, quando alguém de outros mundos invade o nosso, o corpo sente e reage, muitas vezes essas energias são tão sinistras que nem precisamos falar com a pessoa, só de longe já nós sentimos mal.

E eles circulam pelo mundo, vestidos de gente, sorrindo, mas na hora do confronto trazem a força de mil demônios.

O mais incrível é que depois a gente fica pensando, mas poxa, essa pessoa cruza o caminho, provoca, em troca de que? Da nossa energia, essa que a alimenta.

Só resta ficar atento, com os olhos abertos, atravessar a calçada, não se distrair nem por um minuto.

Saber que os demônios existem e circulam entre nós, não é suficiente, temos que estar acordados todos os segundos, quando se aproximam devemos dar uns minutos de espaço, para ver com quem estamos lidando. Se o corpo começa a avisar, sentir enjoos, coisas assim, então estamos na frente de um demônio. E eles conseguem dominar nossa energia por dias, puxam por todos os lados, lembramos da pessoa e nos sentimos mal.

Eu vejo esse demônio circulando pelas ruas, está perto e não posso fazer nada, mas pelo menos já identifiquei, durante um bom tempo pensei que era humano e suas loucuras nunca me tiraram do sério, mas agora que sei quem é.

E vale aquele conselho, passem reto, nunca se encara o demônio, para que as energias não se liguem pelo olhar, a gente ignora e continua caminhando. É claro que ele reage, surta, vai atrás, mas temos que seguir em silêncio, rezando, até ele se afastar.

Esses demônios não param e não se dão por vencidos, mas a única maneira de escapar deles é ignorando e rezando, não tem de outra.

E alguns são bem difíceis, é simples dizer a uma pessoa ''se você desconfia que fulano é um demônio, se afaste'', sim, mas muitas pessoas trabalham com um demônio ou vivem em uma casa onde tem um, para o nosso azar todos temos demônios por perto, não temos como fugir do convívio deles.

Errei em reagir, me arrependo profundamente, se soubesse as consequências, se tivesse percebido que não era humano, teria ignorado os horrores ditos.

Ter consciência de que existem demônios vestidos de pessoas não é o suficiente, temos que aprender a evitá-los e jamais, jamais, confundi-los com seres humanos, demônios não discutem para convencer o outro do seu argumento, eles brigam para puxar nossa energia.

Quando eu era pequena escutava muito uma frase ''cada macaco no seu galho''.
Ao crescer a frase me horrorizava, me dava a impressão de que pessoas não podiam se misturar entre elas, que diferentes níveis sociais não dialogam e as diferenças separam. No meu conceito de vida isso ia na contramão de tudo que acredito, sou a favor de derrubar todas as paredes e que todos possam conviver com todos de maneira pacifica.

Mas agora entendo a lógica atrás dessas frases supostamente separatistas, os mundos não podem se misturar, em teoria nem deveriam se alinhar, não podemos como humanos permitir a convivência com os demônios, eles que fiquem nas profundezas do inferno, infelizmente não é tão simples, eles precisam da energia humana para circular no planeta.

Silêncio não é resposta, é proteção. Não verbalizar nada na frente deles, não responder agressões, não cair em provocações, tudo isso nos blinda e não dá espaço para eles puxarem nossa energia, quem já passou por isso sabe que eles puxam de maneira tão violenta que podem te deixar com uma dor de cabeça durante dias.

E não dá para caminhar na rua tranquilamente, temos que estar atentos, porque de repente eles pulam na nossa frente como macacos. E vale o ditado, é melhor ficar quieta, não dizer nada e entender o que significa cada macaco no seu galho. Na luta pelas energias, pelo planeta, não resta nada além de cada um ficar no seu galho em silêncio e rezar. E que Deus nos proteja.


Iara De Dupont

19 setembro 2016

Romeu tem um bom caráter (não é o suficiente)


A frase que mais escuto é ''você não é perfeita''.

É fato, não sou, ninguém é, em teoria não posso exigir perfeição a ninguém, mas na prática me exigiram isso e não tive margem de manobra para fugir.

Como mulher sinto na pele as exigências, cada dia parecem mais e não sou perfeita, mas me obrigam a tentar ser.

E dizem ''você exige muito dos homens''.
E o que exigem de mim, não conta? Não sou um ser humano? Porque posso ser massacrada socialmente e eles não?

Ah, porque eles carregam as ''bolas de ouro'' e eu não?
Cansei disso, se tenho me virado nessa corda bamba, aguentado a pressão, eles também podem, são adultos, não são nenéns!

Conversando com uma amiga escutei pela milésima vez a história de um marido ótimo, mas péssimo provedor, a mulher solta aquela frase que me irrita profundamente ''dinheiro não é tudo, o que importa é que ele tem um bom caráter''.

Por questões pessoais prefiro um bom caráter, me sinto mais à vontade, mas para a vida em comum não me parece suficiente.

De tudo que se me exige fico perguntando ''por quê para eles basta ter um bom caráter e assim vão levando um casamento?''.

É o centro da questão, as migalhas que nós, mulheres, fomos acostumadas a receber. Parece demais sonhar com um homem completo, temos que nos sentir sortudas se encontramos um ''bom caráter''.

E não me tira o sono dizer isso, repito, mesmo que muitos e muitas se irritem: homem tem que ser um bom provedor. Pronto, falei.

Não quer ser? Não se case, não tenha filhos, mas se entrar na pista tem que mostrar serviço.

Aguento calada muitas criticas quando digo isso, não apenas no blog, minhas amigas dão risada e dizem ''para a Iara só milionário pode casar!''.
Não, só homens responsáveis deveriam se casar, os outros que encostassem na casa dos pais.

Estou cansada de escutar ''mas, Iara, ele tem um bom caráter''.
Ora, então que pague as contas da casa com o caráter dele!

Meu Deus, nenhuma mulher merece mais do que isso? É o ápice de um homem? Ter um bom caráter e só?

E não adianta me dizer ''então você prefere um cafajeste?''.

Não, prefiro um adulto responsável, alguém que entenda que não sou sua mãe.

Estamos dando voltas no mesmo lugar, na época da minha mãe era ''sorte'' casar com um homem de bom caráter, hoje é uma loteira, vai além da sorte, já vi mulheres com os olhos lacrimejando quando falam do bom caráter do marido, apesar dele não ser um bom provedor.

Vida adulta é simples, casamento exige dos dois, não adianta lavar as mãos e dizer que o homem pelo menos é bom caráter.

Ah, sorte dele, que seja bom caráter lá no seu bairro, não na minha casa.

E qual minha bronca com isso? A mesma de sempre, a falta de autoestima na qual nós, mulheres, somos educadas e a pressão que sofremos.

Não temos espaço social para reclamar de homens que não cumprem com sua obrigação em casa, isso nos faz parecer ''bruxas'', ''exigentes'' ou viciadas em compras que querem gastar todo o dinheiro que o Romeu ganha. Então ficamos quietas, pagamos tudo e dizemos que ele tem bom caráter.

Porra e não merecemos mais do que isso? Um homem que seja responsável e pague as contas da casa? Não? Só merecemos essa gotinha de ''bom caráter''?

Dar graças a Deus hoje é ter um homem de bom caráter e que não te bata? Nossa Senhora da Piedade!

Vejo pelo meu caso, não posso falar disso abertamente, as pessoas não gostam, dizem que critico os homens e fico no meu patamar de perfeita, mas digamos que eu conheço meus limites e as exigências que sofri, caso me cassasse e não trabalhasse, pelo motivo que fosse, ainda assim me arrebentaria na casa, fui educada para sempre estar pensando nisso, meu marido não teria meu dinheiro, mas teria todo meu empenho na casa e mais ainda, e eles?
Nada. Nada. Nada.

Já eles foram educados para merecer mulheres que fazem tudo, nós apenas para sonhar com homens completos e pegar uns restinhos que sobram, o famoso bom caráter.

Mas bom caráter é uma coisa importante, fundamental para a convivência e educação de filhos! É verdade, mas para que mentir? Não é suficiente para a vida em comum, não paga contas.

Não entendo porque tanta complicação, eu não quero ser atleta porque isso envolve treinos e alimentação regrada, então não sou, Romeu não quer ser provedor, então que não se case.

Por outro lado escuto sem dó que mulheres exigem, exigem e exigem, sempre são as malditas da história, colocam freios no homem e tiram seu dinheiro.

Mas eu nunca vi homem subir no altar na ponta da arma, então não dou pilha para essa versão de que eles são prisioneiros das mulheres.

E de verdade estou me lixando para o jeito que são ou deixam de ser, minha preocupação é alertar as mulheres, que percebam como todas as armadilhas estão colocadas para derrubar nossa autoestima e nos dar a impressão de que não merecemos nada além de um homem ''bom caráter'', dizer ''um bom caráter e bom provedor'' é a mesma coisa que dizer ''quero explorar esse filho da puta'', quando na verdade as exploradas sempre somos nós.

Chega de tantas mentiras, fofices e situações que temos que disfarçar, negando a realidade.
Casamento exige muito mais do que ''boas intenções'' e se Romeu já chega patinando, enrolando, bom, então não será um bom marido.

Tive um Romeu que foi muito apaixonado por mim, eu nunca me apaixonei por ele, mas escutei durante anos que ele era perfeito, ótimo caráter, boa pessoa e tal.

Nos anos que fomos amigos não tenho queixas, sempre tive a impressão de que era boa pessoa, houve algum incidente que não lembro, mas nada que me fizesse mudar de ideia, ele parece ser um cara legal, mas alguma coisa me dizia que ele era enrolado e nunca gostei de homem assim, meio sem rumo.

A vida passou, ele casou e teve filhos, mas ainda mora com os pais, nada contra, a casa é ótima, mas isso mostra que no fundo eu tinha razão em sentir que ele era boa pessoa, mas não tinha nascido para ser um bom provedor.

Penso isso, para mim homem casado tem que ser bom provedor, sei quem sou e que cumpro com minhas obrigações, casamento é cheia delas, tenho certeza que posso dar conta do recado, caso eu quisesse, então por que vou querer um homem que não vai dar conta do seu recado?

Quando eu digo ''se eu me casar quero um homem que cumpra suas obrigações e seja um bom provedor'', leva dois segundos para alguém dizer ''então você é uma prostituta"! 

Ah, sim, quando batemos o pé e queremos o mínimo, porque isso é o mínimo, somos umas putas, mas na hora de sustentar homem vagabundo somos uma santas!

Não me livrei de relacionamentos abusivos e exploração econômica pensando em como eram os homens ou deixavam de ser, analisando friamente os Romeus, isso não aconteceu, a mudança veio quando comecei a me perguntar ''eu mereço esse comportamento?'', não posso ter alguém melhor, mais dedicado, mais responsável, que me respeite?

Nessa hora as coisas começaram a mudar sem que eu percebesse.

Percebi como todas essas migalhas do comportamento masculino estavam diretamente ligadas a minha falta de autoestima, alimentada por uma sociedade doente, para todos mulheres que aceitam esses homens ajudam a manter a estrutura social de exploração.

Analisando com calma: se eu me caso sei o que o Romeu leva, e eu, sei o que vou levar? O que é importante para mim? Um homem responsável.

Até tenho uma amiga que dá risada com essa teoria, acha bobagem, mas ela é herdeira e não faz diferença sustentar um homem, entendo que veja isso como problemática de ''classe média'', mas não é só o dinheiro que envolve a autoestima, é o respeito pela vida a dois. Ser um bom provedor é sinal de muitas coisas, não apenas a vida econômica.

E não tenho nada contra mulheres que sustentam homens, se for a escolha delas, meu único alerta é para que elas pensem se é uma decisão ou uma corda ligada a baixa autoestima, aguentar muitas coisas de um homem no fundo significa ''eu não mereço coisa melhor'', é aí que mora o perigo.

Sempre falo do dinheiro porque para mim ele foi um indicador, um guia que me mostrou minha falta de autoestima quando fui explorada economicamente por homem, não  foram os conselhos que me deram que me acordaram, foi o dinheiro que me avisou o que estava acontecendo.

Se uma mulher diz ''para mim é importante o homem gostar de cachorros'', tudo bem, é a vida dela, mas para mim é importante ser um bom provedor, sinal de que é um adulto, não um filho que peguei para criar.

Poxa, se eu posso ir lá e fazer, por quê ele não pode? 

Não aceito mais essas migalhas de homens, não acho bom caráter o suficiente para um casamento, não admito criar filhos dos outros e não mereço tão pouco, é uma questão de autoestima ter um homem completo.

Sou uma mulher completa, não tenho porque aceitar umas migalhas jogadas ao chão.

E ninguém é perfeito, mas eu não sou mais caçamba para aceitar qualquer lixo, fui durante muitos anos, pegava qualquer porcaria.

Bom caráter também tenho, não seja por isso, mas quero mais de alguém, porque só caráter não resolve nada.

E não tenho mais pena de macho, passei dessa fase de ''ele tem um bom caráter, mas péssima sorte nos empregos'', ah, né, e o que eu tenho com isso?

Não é um texto sobre o caráter masculino, é sobre a falta de autoestima das mulheres, que devora suas vidas, consome sua energia, torra seu dinheiro.
Mulheres, pelo amor de Deus, acordem, percebam seu valor, o tempo que vem carregando a família nas costas e justificando seus Romeus, acordem, acordem, acordem, vocês merecem uma vida melhor e ninguém vai dar isso a vocês, só vocês podem gerar a mudança que precisam para viver bem, recuperem a autoestima e suas vidas.

Migalhas de homens são como migalhas jogadas aos ratos, vem com veneno, não parece, mas com o tempo elas vão envenenando e matando. 
Amor em migalha mata. Acordem.



Iara De Dupont

16 setembro 2016

Independência ou morte


Em alguns momentos da minha vida, três, para ser específica, me vi morando sozinha. Estava em outro lugar, longe da minha família, em duas ocasiões nem existia internet para me comunicar e tive que me virar.

A última vez que isso aconteceu nem era feminista ainda, já estudava, mas não tinha consciência de tudo o que envolvia.
Quando as pessoas ficavam sabendo que eu morava sozinha, logo me diziam ''pelo amor de Deus, arranja um namorado''.

Eu não ''arranjei'' um namorado porque por algum motivo a vida não quis, não foi uma decisão minha, as coisas se deram assim.

Passei aniversário, Natal, ano novo e Páscoa sozinha, não tinha amigos nem família por perto.

Mas em nenhum momento levantei a bandeira e disse ''sou feliz morando sozinha, estou bem'', pelo contrário, eu gostava do meu espaço e de estar sozinha, mas sentia o peso da solidão, a falta dos amigos e tinha muita vontade de ter um namorado, porque levava uma vida muito solitária.

Com o tempo percebi que existiam outros problemas em não ter um namorado, se algo quebrasse na minha casa e eu chamasse alguém para consertar, o preço triplicava, sempre queriam me vender serviços desnecessários e vizinhas me alertavam constantemente para o perigo de morar sozinha, para não receber o rapaz da água, da encomenda, do gás, disso ou daquilo.

Fui me acostumando, mas tudo vinha na minha direção, a descoberta do mundo machista, onde até pedir um garrafão de água era perigoso, mas de repente até namorar poderia ser complicado, o homem poderia encostar na minha casa.

Uma vez um amigo me disse ''pena que eu não tô a fim de você, porque nestes tempos sempre é bom morar juntos''.

É! Pois é!

Não escolhi a experiência, mas não renego. Foi necessário e fui feliz aprendendo a viver do meu jeito, mas não foi escolha, pelo menos no começo, me vi obrigada a mudar de lugar e não tinha ninguém para ir comigo, muito menos ficar. Cometi muitos erros, pessoas se aproveitaram, tive amizades que me puxaram para baixo, perdi dinheiro, enfim, mas essas coisas acontecem com todo mundo.

Conclusão: não morri.
Olho para trás e ainda me impressiona ver como resisti a dias tão sombrios, mas resisti.

E se isso aconteceu comigo pode acontecer com muitas mulheres, muitas resistimos sem saber como o fazemos.

Uma vez me disseram que a pior coisa do mundo era ter força e não saber disso, recuar diante de situações por se achar fraca, quando na verdade não é.

Quem disse que só conhecemos nossa força depois de precisar usá-la está certo.

E estes dias aconteceu uma situação que me deixou horrorizada, minha sorte é que algumas pessoas não se ofendem quando digo o que penso, evito falar, mas em alguns momentos isso é mais forte do que eu.

Tenho uma vizinha que ficou viúva há dois anos, justo na mesma semana que meu pai morreu. Falei com ela algumas vezes antes desse episódio e por coincidência nos encontramos no elevador, cada uma chegando de um velório.

Eu não sabia muito dela, apenas que tinha uma menina de quatro anos.

O tempo passou e não a vi mais, até que voltou a circular pelo prédio por esses dias.

Acabei conversando com ela e me contou que depois da morte do marido ficou deprimida, tão deprimida que foi internada e sua filha foi morar com seu irmão no interior.
Conseguiu se recuperar, o irmão colocou as coisas em ordem, mas ela não quis ficar na casa dele, porque diz que são meio ''afastados'', resolveu então voltar para seu apartamento.

Dias depois a encontrei de novo, me falou sobre o chão novo que tinha colocado na cozinha e me convidou para ver o resultado.

Entrei em seu apartamento e me chamou a atenção a bagunça na sala, brinquedos por todas as partes e a cama da filha ali. Perguntei se ela precisava de ajuda para organizar sua mudança, eu poderia ajudar e ela respondeu:

-Ah, não precisa, é que o quarto dela vai ser aqui na sala.

Diante da minha cara de surpresa ela disse:

-Bom, sabe o que acontece? Tenho um amigo há muito tempo, quando eu estava na casa do meu irmão, no interior, a gente se apaixonou e ele vai se mudar para cá, perdeu o emprego e pensamos que aqui vai ser mais fácil conseguir alguma coisa. Mas o apartamento só tem um quarto e como casal a gente precisa de privacidade.

Fui clara e disse que não iria dizer o que penso porque não é minha vida, mas como tem uma criança na história não me segurei, falei que era um absurdo colocar um homem desconhecido dentro da casa com uma menina de seis anos.
Ela deu risada e disse que eu estou vendo muitos programas policiais.

Voltei a dizer a mesma coisa, a menina tem direito ao quarto, é uma criança, não entendo porque jogá-la na sala como se fosse um cachorro.

E por que essa pressa de morar como namorado? É para dividir despesas?
E a resposta foi pior do que eu imaginava.

-Não, ele está desempregado, vem procurar emprego aqui. Eu não preciso trabalhar, meu marido deixou este apartamento para minha filha e uma pensão, não é grande coisa, mas posso viver disso o tempo que precisar, até resolver se faço outra coisa ou não.

Então você tem condições de sustentar a menina sozinha, sem sacrificar nada, sem ter que largar ela em casa de parente, tem teto e comida garantidos, pra quê então colocar um homem dentro de casa?

-Eu me apaixonei. E sabe também? Não sei viver sem homem, gosto da presença masculina, não sei viver sozinha, saí da casa dos meus pais para me casar, fiquei viúva e não sei viver sem ninguém por perto. Jamais teria condições de voltar ao meu apartamento sem um namorado, alguém, não tenho como fazer isso.

Mas você tentou?

-Todo mundo conhece seus limites, eu conheço os meus, sozinha no mundo não dá.

Você ficou com um apartamento e tem uma pensão! Pelo menos dava para tentar!

-Não gosto da ideia. Não dá para mim. E você vê como as pessoas são diferentes, meu marido sempre te via pelo corredor e me dizia que ficava com pena, falava ''poxa, ela está sempre sozinha, fico com dó'', a gente achava que você deveria ter algum problema na vida muito sério, porque sempre está sozinha. Até uma vez pensei que mesmo que você fosse lésbica teria uma namorada, mas nem isso né!

Mas o ponto aqui é colocar um homem estranho na tua casa com uma menina de seis anos e deixar a garotinha dormindo na sala!

-Assim que ele arrumar um emprego vamos nos mudar para um lugar maior. É que antes o berço estava no quarto, mas agora não posso colocar minha cama e a dela.

Mas como mãe você não deveria priorizar a menina?

-Você não sabe como é terrível ser uma mulher viúva, a pressão é enorme para criar uma criança.

Não duvido, mas colocar um homem desempregado em casa não sei no que pode melhorar.

-Ele me dá apoio, me envolvi emocionalmente, preciso conversar, não posso passar o dia inteiro cantando ''Let it go'', criança cansa, preciso da minha parte mulher também resolvida.

Você já tentou redes de apoio? No Facebook tem grupos de apoio para mães e pais, de repente você conhece algum pai viúvo e pode namorar, só não precisa colocar dentro de casa né, esse é o ponto, colocar homem no apartamento.....

-É fácil para você a vida sem homem?

Ah, eu já me acostumei, hoje não sinto falta de nada, mas é claro que tive meus dias ruins, até por bobagens, nem sempre era agradável chegar em casa e saber que só teria as paredes para conversar. Uma vez entupiu o ralo do chuveiro, uma coisa simples, mas eu sentei e chorei por horas, me sentia sozinha, mas a gente supera as situações, nunca gostei daquela frase babaca de ''o que não mata, fortalece'', mas é verdade, as coisas passam e um dia acordamos mais fortes.

Tenta conversar com a vizinha do oitavo andar, ela mora sozinha com sua filha, e olha, sem pensão, também tem a vizinha do primeiro andar, criou a filha com três empregos, o marido foi embora. 
Dá para viver sem homem dentro de casa, eu entendo a parte de querer sair, namorar, ter um companheiro, mas colocar homem em casa com criança, enfim, não me parece boa ideia.

-Bom, eu sou fraca sabe, não posso viver sem homem!

O X da questão. É o que nos dizem a todas, vocês são fracas e precisam de um homem, sozinhas vocês não podem se virar. Também acreditei nisso, que sem um namorado não poderia me virar, mas não tive namorado porque não conhecia ninguém, me vi obrigada a estar sozinha e acabei me virando, só depois, no meio do caminho é que percebi a ideia colocada na minha cabeça, de um mundo machista, de que eu não seria nada sem um homem, as pessoas iriam me olhar pelos corredores da vida e pensar o que você pensou, ficariam com pena, porque estou sozinha.

A primeira ideia para manter a mulher presa é dizer que ela é fraca, que não vai poder sobreviver no mundo sem um macho por perto, nem que seja o pai, tio, mas ela precisa de um homem.

E das histórias que conheço não tenho nenhuma na qual a mulher acordou e disse ''sou forte e vou me virar sozinha'', em todas aconteceu a mesma coisa, a mulher foi obrigada a se virar sozinha, a encontrar sua força no momento em que a vida deu um giro, o marido foi embora, sumiu ou morreu.

E são centenas de casos assim, nunca uma mulher me disse ''eu sei que sou forte'', todas aprenderam a dizer apenas depois de terem sido testadas a altas temperaturas.

Tenho uma amiga que sempre dizia ser medrosa, não gostava de ir nem à praia, saindo do bairro dela já ficava nervosa, mas se apaixonou por um alemão e se mudou para a Alemanha.

Um ano depois do casamento ela acordou e tinha um bilhete em cima da mesa, o rapaz tinha ido embora com uma sueca, mas desejava sorte a ela.
Uma mulher que se dizia medrosa se viu sozinha na Alemanha, sem dominar o idioma, sem dinheiro, família, amigos, e sem saber o que fazer.
O que fez? Se virou, como todas, nem ela sabe como, mas se virou e sobreviveu, a parte mais incrível é que ela não queria sair da Alemanha, estava encantada com o lugar, poderia ter vendido algumas coisas, comprado a passagem, ter voltado a casa dos seus pais e fechado esse capítulo, mas quis ficar por lá e acabou conseguindo.

A regra é igual para todas, vamos ser testadas e nenhuma de nós chega batendo a mão no peito e dizendo ''eu sei que sou forte e bem resolvida'', todas chegamos tremendo de medo, porque passamos anos escutando que não somos boas o suficiente para nada, que o mundo é dos homens e que não vamos saber resolver as situações.

A ironia da história? No fim somos nós, mulheres, que resolvemos TODAS as situações.

Nunca escutei em casa nem na escola que mulheres podem viver sem homens, que podem construir sua vida sem eles. E antes que me digam que estou falando apenas da vida hétero, sim, eu aviso, é vida hétero a que eu conheço, não tenho porque falar de outra vida que nunca vivi.

Não escutei histórias sobre mulheres que foram incentivadas a se fazerem sozinhas, pelo contrário, sempre escuto sobre a importância de ter um homem dentro de casa, como se fosse tão fundamental quanto um fogão.

Uma vez conversando com umas pessoas falei sobre isso, eu arrumo tudo em uma casa, menos a parte elétrica, caso a presença masculina fosse necessária para isso, e uma pessoa me disse:

-Não é sobre questões técnicas, é sobre relacionamentos, você nunca vai ser uma mulher completa até ter uma relação consistente, vai ficar emocionalmente imatura. Ter um ''homem'' dentro de casa não é para trocar lâmpadas, mas para desenvolver teu potencial amoroso, teu crescimento como mulher.

Oi? Tudo isso? Não vou evoluir como mulher sem um homem por perto? E como as lésbicas evoluem?
Não conheço nenhuma mulher que tenha evoluído só porque tem um marido, as pessoas evoluem porque é a lógica da vida, uma necessidade para todos, não é escolha.

A independência feminina não é apenas sobre dinheiro, é sobre não acreditar nessas malditas histórias jogadas na nossa direção, de que somos fracas e dependentes, incompletas quando não temos um homem por perto.

Não vi luz no olhar da minha vizinha, aquele de mulher apaixonada, vi apenas uma moça jovem, insegura e com uma filha, se agarrando a única coisa que disseram a ela que a pode proteger: um macho em casa.

Mas o preço da mentira é alto. Um homem desempregado, em casa com uma menina de seis anos.

E não é culpa dela, todas crescemos com os mesmos medos, todas recebemos a mesma informação, vida sem macho não é segura, quando o perigo é justamente o contrário, um macho na nossa vida.

E sobra dizer o pânico que causa no mundo a força feminina, nós vamos de um lado dizendo a todas ''você é forte, acredite nisso'' e eles vão dizendo do outro ''nenhuma mulher é forte sem um homem''.

Na dúvida só existe um remédio: deixe a vida te testar, a força aparece no momento exato, por pior que seja a situação.

O que não dá é para continuar acreditando nas mentiras, na vida falsa e na necessária presença masculina.

Não sei nada sobre criar filhos, mas acho que um apartamento própio e uma pensão ajudam um pouco, imagino que deve ser assustador acordar e pensar ''sou responsável por uma criança'', mas milhões de mulheres acordam pensando isso e sobrevivem.

A única coisa assustadora no mundo é não conhecer sua própia força, viver uma vida de formiga quando se tem a força de um tigre, viver com medo de estar sozinha, quando já se está, viver dependendo de alguém quando na verdade é a pessoa que depende de você.

Não tem nada mais solitário no mundo do que não se achar capaz de algo, quando na verdade se é.

Negar nossa força é o pior processo interno, que nos leva a decisões erradas.

E não foi comigo, acontece com muitas, sentamos no chuveiro e choramos, mas depois temos que sair dali, secar o rosto e pensar ''tudo bem, não estou sozinha, estou comigo e tenho a força para lidar com o que está acontecendo''. Nesse momento parece que o mundo cai, mas não é isso, é apenas o chão que treme porque sentiu nossa força.



Iara De Dupont

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