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17 maio 2019

O pacote de bolacha

A imagem pode conter: sobremesa e comida



Você tem tempo?
Sim.
Sabe aquelas histórias que as pessoas contam dizendo ''mudou minha vida?'', ''foi uma noite definitiva?'', pois é, aconteceu comigo.


Eu trabalhava no bairro do Morumbi, em São Paulo. Estava em um época muito ruim, um casamento desmoronando e trabalhando em uma empresa que não gostava, não era o que eu tinha sonhado. Me sentia estressada, irritada e todos os dias, na volta à casa, eu chorava no meu carro.

Um dia parei no semáforo e um menino de uns oito anos se aproximou, oferecendo chicletes. Eu disse que não iria comprar, ele sorriu e foi embora.
Todas as vezes que eu parava naquele semáforo ele vinha me oferecer chicletes. Um dia se aproximou, bateu no vidro, sorriu e disse ''Tia, tenho uma coisa pra você'' e me deu um pacote pequeno de lenço de papel. Fiquei constrangida, não soube o que dizer, e dei uma nota de dez reais, mas ele recusou. E me disse ''Eu só preciso de dois reais'', procurei na minha bolsa, enquanto o sinal abria, achei a nota de dois reais e dei.

O gesto dele me deixou muito comovida, dali para frente todas às vezes que eu passava nesse semáforo eu dava a ele um ou dois reais. Ele não ia sempre, mas eu separava o dinheiro no carro. Alguma coisa nele mexia com meu coração, a situação dele, na rua, tocava muito a minha alma, apesar de reconhecer que naqueles dias tudo parecia nublado.

Conforme os dias passavam a minha situação profissional e pessoal só piorava. E eu chorava durante horas dentro do carro.

Um dia fui surpreendida pela chuva e fiquei um bom tempo no trânsito. Acho que foi o dia que mais chorei. E ideias assustadoras começaram a atravessar minha mente. Pensava em como terminar com tudo de uma vez, acabar com o sofrimento, tentava organizar na minha mente qual seria o método mais rápido e indolor para me matar quando vi o menino debaixo de um toldo, tremendo de frio. Em um impulso buzinei e disse ''Sobe no carro'' e ele obedeceu. Quando entrou disse ''Hoje ficou tarde, fui jogar bola, depois vim para cá e não consegui vender nenhum chiclete''. Eu disse que o levaria a sua casa e ele aceitou, falou que morava ali perto, em uma comunidade. Ele me indicou o caminho e chegamos logo, a chuva já tinha parado. Me disse para estacionar o carro perto de uma loja e falou ''Tia, vem conhecer meu avô''. Desci do carro de maneira automática, mas enquanto subia uma escadaria pensei ''Meu Deus, vou ser assaltada, vão roubar meu carro’’ e eu estava tão perturbada que logo veio outro pensamento ''Se algo acontecer meu marido vai morrer de culpa, bem feito''.

Passamos por uma loja e a moça disse ''Beto, vai levar bolachas hoje?'' e ele disse ''Hoje não dá''. Falei ''Me dá três pacotes de bolacha'' e perguntei ao menino qual queria, ele escolheu e seguimos caminhando.

Entramos em uma casa simples, de dois cômodos e um senhor cozinhava. O menino foi dizendo ''Vô, tem visita pra janta'', ele me viu e perguntou ''Você gosta macarrão com mortadela?'', disse que sim e ele colocou mais um prato na mesa. Sentamos os três para jantar e o avô perguntou ao menino de onde me conhecia e ele respondeu ''Vô, ela é a moça que sempre passa no semáforo chorando''. Fiquei sem graça e disse ''É, estou em uma fase ruim'' e o senhor respondeu ''Vai passar, parece que não, mas vai passar. Também sofri muito quando a mãe do menino morreu, minha única filha, fiquei tão doente que não consegui mais trabalhar, sou marceneiro. Mas o moleque ficou e tem sido meu apoio, sempre acho que Deus me recompensou com ele. Eu ajudei muita gente a construir seu barraco, dei madeira, nunca cobrei nada, até hoje o pessoal agradece. E fiquei revoltado quando a minha filha morreu, achei que Deus estava punindo uma pessoa boa. Mas os sentimentos deixam de gritar, dor é como chuva, de repente passa, de repente volta em um dia de sol, mas a gente sobrevive. Depois de um tempo a dor acalmou um pouco e percebi que agora sou eu e o moleque, o importante é levar a vida juntos''.

O menino já tinha terminado seu macarrão e em impulso se levantou para ligar a televisão e disse ''Vô, a moça trouxe bolachas''. Eu fui um pouco indiscreta, perguntei do que viviam e ele me disse que tinha aposentadoria, eu falei ''O menino não precisa ir para o semáforo, é um perigo expor a criança assim''. Ele suspirou e disse ''É, eu sei, o conselho tutelar já veio aqui avisar. Mas eu ganho só um salário mínimo, a gente se vira, o pessoal ajuda, mas nem sempre dá, fome ele não passa, mas ...'', o menino interrompeu o avô e disse ''Meu avô é banguelinha e por isso gosta de comer bolacha de noite mergulhando no leite, o dinheiro dá para comprar o leite, mas para a bolacha não sobra'' e o avô falou ''É.....a ideia foi dele, viu os meninos daqui comprando umas balas, chicletes e vendendo no farol e foi atrás. Mas ele não vai todo o dia, nem fica horas ali, é só até conseguir os dois reais da bolacha''.

Comecei a pensar que era muito sacrifício por um pacote de bolacha, mas não disse mais nada. O menino falou ''Vô, o programa vai começar''. E fomos nos sentar no sofá. Era um desses programas de televisão bobos, de ambiente circense, mas o menino parecia encantado, dava risada e dizia ''Olha, vô!''.
O menino se levantou e trouxe uns copos com leite e dois pacotes de bolacha, abriu e dividiu certinho entre os três. Estando ali relaxei, encostei no sofá e acabei dando risada do programa de televisão enquanto bebia o leite e comia as bolachas. O avô acabou dormindo e o menino correu para trazer um cobertor.

O menino sorriu e me disse ''Hoje foi um dia bom. Sempre é, mas hoje foi bom porque consegui trazer as bolachas do meu avô''. Eu disse ''Você gosta muito dele, né?'' e ele respondeu ''Demais. Ele faz tudo por mim, até tirou um empréstimo para me comprar um videogame, é de segunda mão, mas funciona'', se levantou e me mostrou a caixa.
Vi que estava ficando tarde e me levantei para ir embora, mas o menino era agitado e já estava lavando a louça. Ofereci ajuda e ele recusou, pegou uma bolsa de plástico, colocou umas coisas e me disse ''Te levo até teu carro''.

E fomos descendo a escadaria em silêncio. Ele quebrou o gelo e disse ''Moça, não chora mais, a vida é boa''. Perguntei à ele se a vida era boa mesmo e ele respondeu ''É, eu tenho onde chegar, janto com meu vô e comemos bolacha com leite assistindo televisão. A vida é boa sim''.

Entrei no carro, agradeci o jantar, pedi que me despedisse do seu avô e o menino disse ''Tia, quando o dia estiver ruim, vem jantar com a gente. Você precisa comer o frango que meu vô prepara''. Agradeci o convite e fui embora.

Chegando no estacionamento do meu prédio desliguei o carro e quando ia sair vi a bolsa de plástico, o menino deixou dentro. Abri a bolsa e lá estava um litro de leite e um pacote de bolacha. Lembrei do sorriso do menino, da gentileza do avô e que sem saber eles tinham tirado da minha cabeça a pior ideia que um ser humano pode ter. A minha vida estava por um fio, mas a imagem do menino debaixo do toldo, no meio daquela chuva, me trouxe para a realidade e evitou que eu fizesse uma besteira naquela noite chuvosa.

Peguei o leite, as bolachas, subi ao meu apartamento, me troquei de roupa, sentei na frente da televisão e resolvi que no dia seguinte mudaria tudo, começaria de novo, seria corajosa, e valente, como o menino e forte e digna como seu avô. Eles resistem às chuvas da vida, então eu também posso.
Tenho onde chegar, um copo de leite, minhas bolachas e a televisão ligada.
Mergulhei a bolacha no leite, comi e pensei, sim, o menino tem razão, a vida é boa. 


Iara De Dupont

12 maio 2019

O céu

A imagem pode conter: nuvem, céu, oceano, atividades ao ar livre, natureza e água


A moça me diz ''Posso te contar a minha história ou você pode resumir tudo em apenas uma frase ''abracem suas mães''.
Prefiro a história.

Eu morava no nordeste com meu pai, minha mãe, minha irmã, e minha avó. Minha mãe tinha uma vida difícil com meu pai, ele bebia, era violento, fazia apenas ''bicos''. Ela trabalhava com renda, tinha mãos de anjo. Quando eu tinha oito anos uma conhecida a chamou para trabalhar em uma loja de noivas em São Paulo e ela veio, prometeu que iria alugar uma casa e voltar por nós. Antes de ir embora disse no meu ouvido ''Vou voltar por você, tua irmã e tua avó, teu pai a gente deixa aqui''. E foi embora.

As coisas deram certo para ela, a dona da loja se encantou com seu talento, ela bordava véus inteiros. Estava morando com a amiga, mas juntando dinheiro para alugar uma casa e voltar por nós. Todos os anos ela ia nos visitar, levava brinquedos, roupas e sempre mandava dinheiro. Meu pai já não fazia nada, só bebia e se enroscava com a vizinha, mas minha avó sempre conseguia separar o dinheiro que minha mãe mandava e a vida melhorou muito, esse dinheiro rendia bastante. Cada vez que minha mãe voltava ela parecia mais bonita, mais feliz, falava dos planos da dona da loja, que queria juntar um grupo de mulheres rendeiras.

Foi assim durante cinco anos e de repente ela parou de mandar dinheiro. E sumiu. Eu tinha doze, treze anos, entrando na adolescência, comecei a sentir uma revolta, por que ela sumiu? Meu pai dizia todos os dias ''Tua mãe é uma vagabunda, a essa hora já arrumou outro homem e outros filhos''. Minha irmã acreditou nisso e ficou muito magoada. Eu não sabia o que pensar, até porque esse dinheiro começou a fazer muita falta, minha avó se virava, mas ficou tudo muito apertado, meu pai continuava bebendo. Minha avó ficava em silêncio, parecia desorientada com o sumiço da filha. Um dia me disse ''Coração de mãe não se engana, eu sei que ela nunca abandonaria vocês''. Mas meu pai repetia mil vezes por dia ''Tua mãe agora é uma piranha de cidade, deve estar com outro macho''.

Quatro anos depois minha irmã começou a namorar um rapaz que trabalhava nos Correios e ele foi transferido para São Paulo. Ela veio, mas antes disso minha avó pediu que procurasse nossa mãe e ela respondeu ''Nem vou perder meu tempo, se ela não me quis, eu também não quero''. Minha avó insistiu, mas minha irmã ignorou.
Assim que minha irmã se instalou em São Paulo conseguiu um emprego em salão de cabeleireiro, era uma rede grande, ela era muito esforçada, logo estava de gerente.

Minha avó ficou doente e faleceu, mas antes me pediu que eu viesse a São Paulo e procurasse minha mãe, ela me disse ''Tua mãe é rendeira, sabe mexer os fios, segue os fios do amor que ela sente por você e tua irmã e vocês vão se encontrar''.
Minha irmã me mandou dinheiro para vir para São Paulo. Meu pai morava com a vizinha, mas uns dias antes se sentiu mal e morreu. Fiquei muito abalada, sem saber o que fazer, mas a vizinha me ofereceu um bom dinheiro por nossa casa e disse ''Vai procurar tua mãe, eu conheço ela há anos, se ela tem um amor na vida são vocês, ela nunca deixaria as filhas, vai procurar por ela''.

Cheguei animada em São Paulo, mas quando vi o tamanho da cidade meu coração congelou, não sei porque pensei que seria fácil encontrar minha mãe, achei que era só sair perguntando pela Dona Neide, a rendeira.
Minha irmã me conseguiu um emprego no salão, ela já tinha terminado com o namorado, estava juntando dinheiro e um dia conversando com uma cliente que era corretora de imóveis ela nos convenceu a comprar um apartamento, juntamos as economias da minha irmã com o dinheiro que a vizinha me deu e demos de entrada. Ficamos sem dinheiro para nada, mas felizes, nem acreditávamos que tão jovens iríamos ter um apartamento próprio.

Comecei a estudar e logo estava trabalhando de assistente social. Meu trabalho era cadastrar moradores de rua, do centro de São Paulo. Um dia, não era inverno, mas a temperatura estava abaixo dos dez graus, tive que substituir uma colega doente, e fui lá perto do Minhocão, tentar convencer alguns moradores para irem a um abrigo. A maioria não queria, estavam bebendo. Eu ia embora quando um deles me disse ''Ó, tem uma véia ai passando mal'', vi uma figura enrolada em um cobertor, em um canto, me aproximei, tentei conversar, mas não consegui, ela não respondia. Na hora chamei a equipe de resgate e a levamos para a Santa Casa.

Chegando lá um enfermeiro me entregou o casaco dela e disse ''Vê se tem algum documento'', coloquei a mão e achei uma bolsa de plástico, de supermercado, abri a bolsa e tirei duas fotos. Minha pressão caiu quando vi as fotos, uma da minha irmã e uma minha, quando éramos pequenas, no verso da foto dizia ''minhas filhinhas''. Corri para a sala de atendimento e disse ao médico que podia ser minha mãe, eu precisava ver bem seu rosto, me aproximei, mexi o cabelo e sim, era a minha mãe, toda destruída pela vida na rua, com a pele queimada, as rugas, a dor. O médico me avisou que a situação não era boa, além da pneumonia tinha outras doenças, mas eles iriam fazer o melhor.

Liguei para a minha irmã, que não acreditou. Fiquei na porta da Santa Casa chorando, sem saber o que fazer. No dia seguinte ela continuava sedada e ficou assim uma semana.
Depois desse tempo o médico a liberou, disse que podia levá-la a minha casa, mas precisaria de muitos cuidados.

A levei para o apartamento, a coloquei na cama, mas ela ainda não dizia nada. Deixei ela dormindo e me afastei. No meio da tarde entrei no quarto, me sentei perto dela e disse ''Mãezinha, o que aconteceu?'', ela abriu os olhos e começou a falar com dificuldade ''A vida, aconteceu a vida. A Dona Aída, proprietária da loja, brigou como marido, ele a matou, foi preso, a loja faliu. Eu tinha meu dinheirinho guardado, morava com uma moça também rendeira. Comecei a procurar outro trabalho, achei logo, mas no dia que ia começar a trabalhar saindo de casa fui atropelada, o carro passou por cima das minhas mãos. Fiquei em casa, fazendo tratamento, o dinheiro acabou. Não sei fazer mais nada além de renda, e fui procurar trabalho de diarista, mas minhas mãos nunca ficaram boas, de repente tremem, soltam as coisas e não consegui mais trabalhar. Uma amiga me ajudou, fiquei na casa dela, mas ela decidiu voltar para sua terra e acabei na rua. E o asfalto me engoliu''.

E por que você não ligou para pedir ajuda, podíamos ter dado um jeito...

E ela seguiu ''No começo pensei nisso, mesmo sabendo as humilhações que me esperavam com teu pai, mas depois fiquei com vergonha, voltar de mãos vazias, sem nada, aleijada, eu ia virar um peso na vida de vocês. Muitas vezes me ofereceram a passagem, as assistentes sociais, mas eu dizia que preferia vocês pensando que eu tinha morrido, do que vendo uma mãe aleijada, sem poder fazer nada por vocês, para que serve uma mãe que não pode fazer nada pelos filhos?''.

Minha irmã tinha entrado no quarto e estava escutando tudo, pálida, muda. De repente se deitou ao lado da minha mãe, a abraçou, e disse ''Mãe serve para dar amor aos filhos, e daí que estava aleijada? A gente teria te ajudado''.
E ela já estava cansada, fazendo muito esforço, falei para minha irmã que ela precisava descansar e minha mãe disse ''Nesse dia que você me achou, eu sabia que era meu último dia no mundo, senti o frio na alma, eu fui para meu canto para morrer como um gatinho, em silêncio. Comecei a rezar e disse à Deus ‘’Pode me levar, mas por favor, me leve para um lugar onde ao abrir os olhos eu possa ver o rostinho das minhas filhas, é a única coisa que te peço, só te pedi duas coisas na vida, que as cuidasse quando eu fui embora e agora ver o rostinho delas. Agora vendo vocês duas acho que já estou no céu''.

E eu falei ''Não, mãe, você está em casa, com a gente''.
E ela disse ''É o céu''.
Deixamos ela dormindo e saímos do quarto. Estávamos tão em choque que não conversamos nada a respeito.

Mais tarde entrei no quarto da minha mãe, me aproximei para colocar um cobertor, ela abriu os olhos e disse '' Perdão por não ter avisado, eu sempre quis ligar, mas tinha tanta vergonha! Não queria que vocês me vissem no chão, fiquei com vergonha''.
Eu respondi ''Esquece isso mãe, a gente vai começar vida nova agora, temos um teto, trabalho, agora você vai ter uma vida boa''. E ela respondeu ''No céu a vida sempre é boa''. Eu sorri e ela falou ''Você tem o sorriso da minha mãe, minha mãezinha linda. Aqui é o céu''.

No dia seguinte, logo no período da manhã ela faleceu.
Eu me sentei e chorei por todos os anos que não tinha chorado, dez anos sem minha mãe, dez anos que ela dormia em um asfalto gelado de uma cidade indiferente. Ela era bonita, vaidosa, trabalhadora e parecia tão frágil agora nos seus últimos momentos, toda maltratada, machucada, sabe Deus o que ela enfrentou na vida. E o salão onde minha irmã trabalhava ficava a poucos metros de onde minha mãe ''morava'' na rua. Quantas vezes devo ter passado por ali e não a vi!

A vida é estranha, ela é longa nos sentimentos ruins, na dor, na mágoa, na vergonha, tudo isso pode passar lentamente durante dez anos, mas o momento do reencontro, do perdão, do amor eterno, dura apenas uns minutos. Agradeço a Deus que escutou os gritos da minha mãe e ela morreu vendo meu rosto e da minha irmã, mas quanta dor ficou no meu coração!
Quantas coisas podiam ter sido diferentes! Para quê tanto sofrimento?
Passei por dez dias das mães sem saber onde ela estava, amanhã vou passar o primeiro dia das mães sabendo que ela está morta. É meu primeiro ano como ''órfã''. Não sei como vai ser. Tudo ainda arde dentro de mim, tudo ainda dói. Passo mal quando penso em tudo o que minha mãe enfrentou sozinha, porque não queria ser um peso para as filhas.

A vida é rápida no amor, lenta na dor. É instantânea para abraçar uma mãe, mas devagar quando estamos longe dela. A gente sempre acha que vai ter tempo de amar, de perdoar, de dar risada, de recomeçar, mas nem sempre é assim, às vezes Deus é generoso e nos dá uns minutos para a despedida, mas é questão de sorte.

Hoje é o dia das mães, penso em todas as pessoas que 
vão ter a sorte de abraçar suas mães, é o céu. E eles nem sabem disso, pensam que é outro dia qualquer. Não é. Abraçar a mãe é o céu, tanto para elas como para a gente. É o céu. Abracem suas mães.


Iara De Dupont

10 maio 2019

As filhas

A imagem pode conter: 2 pessoas, pessoas sorrindo, pessoas dormindo e atividades ao ar livre



A moça me diz ''Talvez você reconheça alguns lugares na minha história porque acho que você os conhece''.

Eu moro na Cidade do México, mas sou brasileira. Vim para cá pelo trabalho do meu marido. Tivemos uma menina aqui e quando ela tinha nove meses eu estava dando um banho quando meu marido ligou. Fui à sala atender o telefone e a deixei na banheira, dentro de uma cadeirinha de segurança. O que eu não sabia é que essa cadeirinha estava quebrada, assim que deixei a bebê, não resistiu ao peso dela e afundou, ela se afogou em minutos. Não vou entrar em detalhes dos dias seguintes porque é impossível narrar a pior dor que um ser humano pode sentir, ninguém merece passar por algo tão forte, tão radical, tão sem cura e sem consolo. Meu marido me culpava por isso e eu o culpava por ter me ligado, nessa culpa os dois nos sentíamos tão mal que logo nos separamos.

Me afundei em uma depressão por seis meses, não consegui sair de casa. Se comia e bebia água era porque tinha uma vizinha que todos os dias me ajudava. Minha família veio me buscar, mas eu estava esperando finalizar o divórcio e vender o apartamento para voltar, queria pegar o dinheiro e esquecer essa parte da minha vida.

Procurei ajuda alternativa depois de dois anos, curandeiros, xamãs, todos esses que você menciona, que encontramos todos os dias no centro da Cidade do México. É um dos poucos lugares no mundo que você pode encontrar um excelente xamã no centro as duas da tarde de uma segunda-feira, por um bom preço a consulta. Um xamã me disse de maneira direta ''Tua dor não tem cura, mas na vida não podemos pensar em quem Deus nos tira, mas em quem fica e para quem você está disposta a abrir os braços. Abra os braços e tua dor será amenizada, tua vida encontrará luz, abra os braços para alguém, abra os braços''.

No dia seguinte recebi uma ligação. Quando eu cheguei entrei na lista de uma ONG para dar um lar temporário a crianças em situação de risco. As pessoas aqui e no mundo têm uma ideia errada do que está acontecendo. Pensam que os indígenas estão saindo do campo por falta de terra e de apoio, mas não é isso que acontece, os traficantes invadiram todo o México, estão tirando as terras dos indígenas e os obrigam a trabalharem regime escravo. Estupram as mulheres, matam os bebês e obrigam a todos a trabalharem na plantação de drogas. No começo dos anos 60 e 70 o êxodo deles foi porque as terras secaram e não conseguiam mais plantar, além do avanço das cidades. Dos anos oitenta para cá são expulsos pelos traficantes. Tem uma ONG que tenta ajudá-los, apesar do difícil que isso é. Tentam tirar as crianças da mira deles, porque são escravizados desde pequenos. Eu e meu marido aceitamos receber uma criança em situação de perigo, mas já tinham se passado quase quatro anos e eu não lembrava mais disso quando recebi a ligação.

Não sei porque, mas disse que sim quando me perguntaram se poderia receber uma menina de seis anos. Não sei porque aceitei e não informei que estava separada e arrumando minhas coisas para voltar ao Brasil.

Quando ela chegou parecia uma boneca, pequena, de cabelo preto, mas com aquela dignidade que só as crianças indígenas tem. Não tinha rastros de choro, nem lamentações, você podia ver no rosto dela o esforço que fazia para se manter forte. 
Pelas regras da ONG eu não podia pedir detalhes sobre o destino dos pais dela ou responsáveis, não podia dar açúcar nem doces, tinha que manter ela o mais próxima de sua realidade.
Ela caminhava de maneira reta e nobre. Era um pouco difícil a comunicação porque meu espanhol não era dos melhores e ela falava um dialeto que eu não conhecia, mas logo comecei a aprender.
Eu tinha um quarto de visitas, dei uma arrumada e ela ficou ali. O quarto da minha filha eu tinha trancado, não deixava ninguém entrar. De noite fui ver se a menina estava dormindo e percebi que chorava baixinho, me aproximei, ela levantou a cabeça muito digna, limpou as lágrimas e ficou me encarando, eu via no seu rostinho a força que fazia para não chorar mais, para mostrar resistência. Tentei explicar a situação, ela estava ali temporariamente, iria voltar para sua casa. Mas eu sabia que estava mentindo e ela não me entendia.

Nos dias seguintes ela foi se adaptando. Eu não colocava desenho em casa, nem novela, só programa do Discovery animal ou coisas assim. No começo ela sentava longe de mim, no outro sofá, mas umas semanas depois já se sentava perto. A alimentação foi mais complicada, ela só comia milho, nem sabia o que era uma maçã, depois descobri que só comia milho porque era a única coisa disponível onde morava, vivia em uma absoluta miséria. Eu a levava a um centro de convivência da ONG, onde havia pessoas e professores que falavam seu dialeto. Ali fiquei sabendo que seus pais estavam ''desaparecidos''.
Eu tinha uma amiga que me dava aulas de espanhol e a menina começou a se sentar comigo na mesa, tentava assimilar tudo, mas desde o começo percebi que sua mente era rápida, ela era brilhante.

Alguns meses se passaram, éramos uma companhia silenciosa uma para a outra, onde eu ia a levava e ela grudava em mim, mas sem aquele desespero, sempre parecia digna na sua dor e solidão. Tentei comprar alguns brinquedos, mas ela não gostava, sua alegria era o chuveiro quente e a piscina do prédio, era um sacrifício tirá-la de lá nos dias quentes.
Ela ia melhorando no espanhol, dizia frases completas, fazia perguntas.

Houve um problema no encanamento do apartamento e no quarto da minha filha tinha uma pia pequena, tive que abrir o quarto e aquilo mexeu muito comigo. Resolvi que era hora de tirar algumas coisas e passar para a frente. Comecei a fazer isso, mas não aguentei e fui ao meu quarto chorar. No meio da noite me levantei, passei no quarto e vi a menina guardando item por item em uma caixa, com toda a delicadeza do mundo. Eu expliquei que eram coisas da minha filha que tinha morrido e a menina me disse ''Se perder um filho é como perder a mãe, eu entendo tua dor'' e me deu um abraço. Tinha seis meses na minha casa e nunca tinha se aproximado de mim. Foi um dos melhores abraços que eu recebi na vida, um dos mais cálidos.

Um dia o pessoal da ONG me visitou, queriam dizer que levariam a menina ao conselho tutelar, para colocá-la em adoção, mas no México o destino das crianças indígenas é o mesmo destino das crianças negras no Brasil, ninguém quer adotar, são as últimas na fila. Por impulso entrei com um pedido de adoção, eu queria ficar com ela. Fiz todo o procedimento e uma juíza mandou me chamar, eu era estrangeira, divorciada, tinha tudo contra, já tinham me avisado que seria difícil conseguir a guarda da menina. Na noite anterior chorei muito, essa era a grande diferença entre eu e ela, eu chorava muito, me jogava no sofá, ela nunca chorava, passava tudo com dignidade e fortaleza.

Chorei e contei à ela o que estava acontecendo. No dia seguinte quando acordei ela estava perto da porta, arrumada, e me disse ''Eu vou falar com a juíza''. Expliquei que era uma criança, que não iria adiantar, mas ela insistiu com aquele olhar decidido, forte, determinado. A levei, contei a situação para a juíza, disse que a menina queria falar com ela, então ela ficou olhando a menina e perguntou ''Por que você queria falar comigo?'' e a menina respondeu ''Porque minha bisavó dizia que as pessoas tem que falar claramente o que querem'' e a juíza perguntou ''O que você quer me dizer?'' e ela disse ''Que eu quero ficar com ela (apontando em minha direção)'' e a juíza falou ''E por que você quer ficar com ela?'' e ela respondeu ''Porque ela precisa de uma filha e eu preciso de uma mãe, sozinhas não podemos fazer nada, mas juntas podemos nos ajudar. Ela chora muito e precisa de mim para levar os lenços de papel, eu preciso dela para ser uma boa adulta''.
Na hora a juíza deu a autorização provisória e sai de lá com ela, minha filha mexicana, essa criança forte, digna, sempre pronta para lutar, nunca se jogou no chão, sempre honrou seu sangue indígena e toda a força que vem nele.

Fiquei no México e minha linda filha mexicana hoje é uma brilhante estudante de antropologia na maior universidade da Cidade do México.

No dia de sua formatura no ensino médio ela fez um discurso falando sobre a importância das suas raízes indígenas, da preservação de sua cultura, do respeito aos seus antepassados. E finalizou contando ''Uma moça tinha perdido seu bebê, procurou por todos os tipos de ajuda, para amenizar a dor, mas nada ajudava. Até que ela encontrou um xamã, uma figura importante na nossa cultura indígena, mas menosprezado no mundo de hoje, e esse xamã disse à ela ''abra os braços para alguém que isso vai amenizar sua dor''. Dias depois eu cheguei à sua casa e ela me abriu os braços. Ela já era mãe, tinha sua filhinha, mesmo que ela estivesse em outra dimensão, eu já era filha, tinha minha mãe, apesar dela estar desaparecida. Éramos uma mãe sem filha e uma filha sem mãe. Mas ela abriu os braços e mudou nossa história. Aprendi a ser sua filha e ela aprendeu a ser minha mãe. Às vezes as coisas mudam na vida, mas continuamos sendo o que já éramos desde o começo. Ela podia ter ficado chorando a perda da sua filha e eu teria outro destino na vida, com certeza infeliz, mas ela abriu os braços e aceitou a outra filha que o mundo mandou, porque ela já era mãe. Quem é mãe uma vez, é mãe mil vezes. Ela foi mãe mil vezes. Da minha mãe que me pariu lembro sua última frase ''se esconda, resista, seja forte, fique em pé''. Ela me ensinou isso. Da mãe que o mundo me deu aprendi que não importa a dor, abra os braços para alguém. O lema da minha vida é esse, a união das minhas duas mães no meu coração, carrego na alma a frase ''Resista, seja forte, fique em pé, abra os braços para alguém''.

Iara De Dupont

07 maio 2019

O porta guardanapos

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A moça respirou fundo e me disse ''Comecei a fazer meditação há quatro anos, me sinto mais tranquila, mas quando essa história vem de novo, meu coração aperta. O nosso discurso é repetitivo, todos dizem ''o Estado é ausente'', ''os governantes roubam'', ''os políticos são corruptos'', ''o poder público inexistente'', ''a máquina massacra a todos''. Também disse isso e hoje me pergunto se somos melhores que tudo isso, estamos acima desse comportamento? O Estado é ausente sim, mas e nós como cidadãos, somos presentes em algo? O sistema nos massacra e nós massacramos quem está ao nosso redor. Não somos diferentes da máquina, ela nos desumaniza e nós desumanizamos uns aos outros.

Tenho uma pequena confecção. Minha avó começou no seu sobrado, já casada costurava enfeites de crochê para o banheiro e vendia entre as vizinhas. Fazia detalhes em crochê em toalhas de mesa, peças para o banheiro, para a sala. Minha mãe cresceu vendo aquilo e começou a trabalhar na mesma coisa. Meu avô morreu prematuramente e minha avó sustentou os filhos fazendo essas peças. Eu cresci no sobrado.

Um dia minha avó comprou uma máquina para agilizar o processo, a colocamos nos fundos, no pátio, mandamos fazer um teto. Mas um dia a chuva invadiu tudo e perdemos a máquina. Nos levantamos com muito esforço e empréstimos.
Na seguinte vez colocamos todas as máquinas na parte de cima do sobrado e morávamos embaixo. Duas vezes a água invadiu nossa casa e levou nossos móveis. Eu me envolvi desde pequena com a confecção, trabalho ali há anos.

Uma dia, eu deveria ter uns vinte e quatro anos, tirei o lixo para fora, no começo da noite. Esqueci uma sacola, entrei para buscar e quando sai vi que tinha uma senhora, idosa, mexendo no lixo que eu tinha colocado, vi quando pegou uns pedaços de pano. Eu não gosto de jogar nada fora, todos os retalhos viram cortinas, tapetes, colchas, o que for, mas alguns pedaços são tão pequenos que não temos como fazer algo com eles, esses eu descarto e vi a senhora pegando, perguntei porque estava pegando esses pedaços de pano e ela respondeu ''Boa noite'', e eu disse ''Boa noite'' e ela falou , de maneira tímida ''É que eu vi na televisão como fazer tiaras, pulseiras e porta-guardanapos com caixas de leite e uns pedaços de tecido. Meu vizinho trabalha em uma fábrica, me conseguiu bastante cola e arame, agora eu junto os pedaços de tecido''.
Perguntei se ela vendia o que estava fazendo, deu risada e disse ''Não, estou aprendendo. Só faço para a minha neta. Minha filha foi embora, caiu no mundo e me deixou minha neta, de seis anos. A menina é criança, cheia de vontades, quer brinquedos, roupas, bolachas. Eu não posso dar nada disso, vivo em um barraco que um parente emprestou e o que consigo catando o lixo para reciclar só dá para comer. Nem para a bolacha que ela gosta eu consigo comprar. Um dia ela estava muito chateada e resolvi fazer uma pulseira e uma tiara, com uns pedacinhos de pano que eu tinha. Ela ficou tão feliz! Me pediu que fizesse uma pulseira igual para sua boneca, é a única que tem, a mãe que deu. Depois a vizinha deu um pedaço de madeira com umas tachinhas, para que ela colocasse suas tiaras ali. Ela adorou! Diz que está colecionando. É pequena, mas vaidosa. De manhã acorda e diz ''Vozinha, penteia meu cabelo que hoje vou usar uma tiara bem linda, você que fez, né''.

Entrei na confecção para pegar uns tecidos melhores. Juntei vários e os dei a ela. A senhora agradeceu e disse ''Não quero abusar, mas será que você não teria uma caixa de leite vazia?''.
Aquilo quebrou meu coração. Ela podia me pedir qualquer coisa, mas queria a caixa vazia para fazer tiaras para a neta. Entrei e peguei dois litros de leite e um pacote de pão e dei à ela. Ela ficou feliz e me disse ''Você é uma pessoa boa''. E foi embora.

A vi algumas vezes por ali nas seguintes semanas, mas nossa percepção visual é tão deformada que vemos as pessoas procurando lixo para reciclar e pensamos que fazem parte da paisagem urbana, que são uma massa que se move à noite, na escuridão. Não os vemos como seres humanos desesperados, pensamos que fazem parte de todo o contexto dramático no qual vivemos e os ignoramos, como se fossem insetos de asfalto.

Eu estava preparando meu casamento e sobraram alguns pedaços de tecido do vestido, um dia vi a senhora ali e me aproximei, mostrei à ela, que gostou muito, agradeceu. Entrei e peguei dois litros de leite. Quando eu estava saindo da cozinha vi em cima da mesa um pacote de bolachas e coloquei tudo em uma sacola e dei. Ela ficou emocionada, me disse ''Nossa, minha neta não vai acreditar! Ela adora bolacha! Mas sabe, às vezes, pegando lixo o dia inteiro, eu consigo juntar um real, dois reais, três, tenho que comprar algo para comer, um macarrão, com sorte um pouco de salsicha, não tenho como pagar dois reais nas bolachas que ela tanto gosta''.

Naquela época minha vida era muito agitada, coisa típica da idade, eu trabalhava na confecção, estudava, saía com as minhas amigas, vivia na correria.

Via a idosa de vez em quando pela rua. Uma vez estava parada perto da minha casa, tive a impressão de que me esperava. Fui falar com ela e a idosa me disse ''Queria te mostrar uma coisa’’ e tirou da bolsa uma tiara e uma pulseira. Fiquei encantada com o trabalho dela, a mistura dos tecidos, e principalmente o acabamento. Quem trabalha com essas coisas sabe da importância do acabamento, não tinha restos de cola, nem tecidos mal cortados, estava tudo perfeito. Na mesma hora disse à ela ''Isso aqui é lindo, você pode vender em qualquer lugar, não precisa mais ficar catando o lixo, dá para vender até na rua, de tão bonito e bem feito que é''. O rosto dela se iluminou e ela disse ''Você acha isso mesmo? Será que alguém pagaria por uma coisa tão simples?'' e eu disse ''Não é simples, é um trabalho artesanal, é bonito, as pessoas gostam de coisas assim'' e ela falou ''Não quero te atrapalhar, mas você poderia me explicar como vender?'', falei que sim, ia começar a dizer quando meu celular tocou, eu precisava pegar uma encomenda, então disse à ela ''Eu preciso ir embora, tenho que pegar uma encomenda porque vou me casar em um mês, está bem corrido porque vou dar uma festa para cem convidados, estou no meio da loucura, mas depois te explico com calma'' e ela sorriu e disse ''Ah, por isso aqueles pedaços de tecido branco tão lindo'' e eu falei ''É, foi o que sobrou do meu vestido'' e fui embora.

As semanas seguintes tudo se juntou, o fim do semestre, o casamento, a confecção e suas entregas. Eu ficava só de manhã na confecção, por isso não vi mais a idosa, que passava no começo da noite.

Um dia antes do casamento passei bem tarde na confecção e a uma funcionária me disse ''Sabe aquela senhora que mexe no lixo? Passou hoje aqui e te deixou um pacote, não sabia nem o teu nome, eu falei para ela, mas me disse que não sabia escrever e queria que eu escrevesse um bilhete para você, anotei o que ela me disse e deixei tudo em cima da tua mesa.
Fui lá ver o que era, abri o pedaço de papel e dizia ''Dora, te trouxe uma lembrancinha de casamento, é simples, mas fiz de coração com aquelas caixas de leite que você me deu, minha neta me ajudou, queria te agradecer as bolachas, gostou muito. Desejo que você seja muito feliz no teu casamento, você merece, é uma pessoa boa''.
Sem assinatura, sem nome. O pacote era uma bolsa de padaria, abri e tinha ali cem porta guardanapos feitos com o tecido do meu vestido! Fiquei emocionada. Liguei para a minha sogra que estava organizando tudo e pedi que viesse à confecção. Ela viu os porta guardanapos e falou ‘’Que trabalho mais delicado, ficaram perfeitos, vão ficar lindos nas mesas’’.

Me casei no dia seguinte e durante toda a festa vi os porta guardanapos e minha mente voltava a história. Eu ficava pensando como era possível alguém catar lixo o dia inteiro, no fim da tarde conseguir menos de quatro reais, jantar um macarrão e sentar para fazer 100 porta guardanapos? Que alma extraordinária era essa senhora! Me perguntei se tinha mesa em sua casa para poder trabalhar melhor, como a neta teria ajudado.
E tive mil ideias sobre isso. Pensei que pediria à ela para colocar seus porta guardanapos no meu site, venderia as pulseiras as minhas amigas, compraria tiaras para todas as meninas que conheço.

Assim que voltei da lua de mel e retornei minha rotina tive isso em mente. Voltei à confecção e esperei a noite cair. Fiquei dando voltas na rua, mas ela não apareceu. Os seguintes dias foram assim, a procurei o tempo inteiro, avisei os vizinhos, conversei com todo mundo, pedi que me avisassem se a vissem. Puxei minha mesa de trabalho para a janela, assim poderia ver a rua. Em um momento me irritei com os rapazes do caminhão de lixo, porque eu estava sempre perguntando por ela, e eu disse ''Não é possível que vocês não tenham visto uma idosa catando lixo! Não é uma cena comum'' um deles deu risada e disse ''Moça, idosos e crianças revirando lixo é a coisa mais comum nesse mundão de Deus''.

Quando meu coração apertava muito eu tentava me consolar, pensava que talvez alguém a tivesse ajudado e ela já estaria vendendo pulseiras e tiaras, sem precisar mais catar lixo para vender e comer.

Peguei os porta guardanapos e os entreguei a um amigo, artista plástico, pedi que fizesse uma escultura com eles. Não contei a história, ele só sabia que os usei na festa. Ele fez uma escultura linda, dois corações. E coloquei na minha sala.

Já se passaram seis anos. Nunca mais a vi. E todos os dias penso nela. Eu sento para tomar meu café e vejo a escultura feita com os porta guardanapos. E penso que todos acreditamos na divisão social, mas vai além, existe entre nós um divisão pior, de pessoas generosas e pessoas não generosas. Eu sou uma pessoa não generosa. Eu estava ali na situação e não fiz nada. Não sou rica, mas podia ter ajudado mais, ter tirado um pouco o peso que essa avó carregava. Eu tenho funcionários e compro pão e leite para eles, para seu café. Eu sabia que a idosa passava na rua duas, três vezes por semana, não me custava nada ter dito à ela ‘’Olha, quando passar aqui na rua, toca a campainha, sempre vai ter um litro de leite para você e bolachas para tua neta’’. Eu não teria morrido pobre se tivesse feito isso. Podia ter juntado roupas para a menina, ter comprado uma boneca, ter mandado algo que as ajudasse. Isso me atormenta.

Quando vejo todos os pacotes de macarrão que tenho no armário lembro dela dizendo que se tivesse sorte conseguia comprar um para jantar. Tenho vergonha do meu comportamento, da minha pressa. Tenho vergonha de ser uma pessoa não generosa. Podia ter ajudado com as vendas das tiaras e pulseira, podia ter feito muito coisa e não fiz nada. 
Dei apenas quatro litros de leite, que ela me devolveu em 100 porta guardanapos, feitos à mão. O sistema é ruim, mas e nós, o que somos? Melhores do que a máquina? Não percebemos a dor do outro e se percebemos ignoramos, e somos melhores do que esses políticos corruptos? Nosso coração é igual ao deles. Quando você é uma pessoa indiferente faz o que eu fiz, pega uns litros de leite e dá. 

Quando você é uma pessoa generosa, de coração aberto, de alma pura, você pega uma caixa de leite vazia e transforma em uma tiara para tua neta que não tem brinquedos e um porta guardanapo para quem te deu um pacote de bolachas. 

Ser generoso não é sobre ter dinheiro e sair distribuindo, é sobre pegar uma caixa de leite vazia e transformar em um presente inesquecível. Foi uma caixa de leite vazia que mudou minha vida, que me faz acordar todos os dias e dizer ''Eu posso ser um ser humano melhor, posso aprender a ser generosa''. Eu dei quatro litros de leite, recebi cem porta guardanapos e a maior lição da minha vida: a generosidade está na alma e precisamos tirá-la para fora.
Precisamos pegar todas as caixas de leite vazias no mundo e transformá-las em amor.

Iara De Dupont

03 maio 2019

O vestido



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A moça me diz ''Eu acho que nós, brasileiros somos extremistas. Pensamos assim ''ah, não posso fazer tudo, então acabamos não fazendo nada, parece que largamos tudo a sua própria sorte, até que um dia levamos um tapa na cara e acordamos''. O vestido.

Quando meu carro está no rodízio, meu marido me leva ao trabalho, mas algumas vezes ele se atrasa, acorda tarde e eu acabo indo de metrô.
Uma vez vi uma menina na porta, vendendo panos de cozinha. Passei por ela e pensei ''Deve ter a idade da minha filha'', mas logo vem aqueles pensamentos que estamos acostumados ''deve ter um adulto explorando'', ''o Estado é ausente'', ''o que eu posso fazer? Nada''.

Segui meu caminho. A vi outras vezes, no mesmo lugar e acabei comprando uns panos. Soube que tinha a mesma idade da minha filha, sete anos. Disse que estudava e ajudava a mãe vendendo os panos. Contei à ela que também tinha uma filha da mesma idade, ela me perguntou o nome dela, falei que era Mariana. Sempre que eu passava por ali a menina me dizia ''Tia, manda um beijo para a Mariana''.

Um dia resolvi que levaria algumas coisas da minha filha para ela, cadernos, lápis de cor. Minha filha era a única neta, sobrinha e criança na família, recebia mais do que precisava, ganhava tudo o que queria. Separei umas coisas e levei. A menina ficou surpresa, começou a chorar e dizer ''é tudo tão bonito, parecem coisas de princesas''.

Me arrependi de não ter levado mais, pensei que estava sendo mesquinha, tinha tando para dar e levei apenas uma sacola.

Nas outras vezes que a encontrei ela dizia ''Tia, manda um beijo para a Princesa Mariana''. E eu dava risada, achava meigo.

Quando minha filha fez oito anos sua avó costurou um vestido de princesa, todo feito à mão, levou dias para ficar pronto, material de primeira qualidade. No dia que minha filha abriu o pacote, não gostou. Não gostava do mundo das princesas, não gostou do vestido, agiu de maneira grosseira e mimada com a avó e a costureira. Fiquei envergonhada, constrangida, já sabia que isso daria pé para um velho discurso familiar que me perseguia, eu trabalhava demais e ''largava'' a menina, por isso ela não tinha limites.

No dia seguinte perguntei a minha filha se queria o vestido, se tinha mudado de ideia. Ela bateu o pé e disse ''não gostei''.
Me deu tanta raiva, tanta raiva, que peguei a caixa do vestido e disse ''vou jogar fora'' e ela levantou os ombros.

Saí de casa com a caixa debaixo do braço, fui pegar o metrô, até esse momento eu não sabia o que faria com o vestido, mas de repente vi a menina do metrô, que vendia os panos e pensei que ela gostaria do vestido, me aproximei e dei a caixa à ela.

Ela abriu e ficou muda, mas lágrimas rolavam do seu rostinho. Ela chamou uma moça que vendia uns doces ali perto e falou ''Vem ver, vem ver''. A moça tirou o vestido da caixa e disse à menina ''Você vai ficar linda nele''. E a menina não encostou no vestido, perguntei o motivo e ela disse ''minhas mãos estão sujas, não quero sujar o vestido''. Tirei da bolsa uma garrafinha de álcool em gel, passei nas mãos dela e disse ''pronto''. Ela pegou o vestido e encostou o rosto nele e disse ''Tia, esse vestido deve ser caro, pode levar minha caixa de paninhos, minha mãe vai entender''. Falei que era um presente e ela agradeceu e disse ''Já até sei quando vou usar''.

Ela tinha oito anos, pensei que fosse em seu aniversário o algo assim. Fui embora pensando nisso, na próxima vez iria trazer coisas de aniversário e comprar um bolo, para que pudesse usar seu vestido de princesa.

Mas durante as seguintes semanas minha vida ficou atrapalhada, meu marido ficou doente, eu me atrasei em uma entrega no trabalho e acabei usando o carro todos os dias, no dia que não podia o meu, usava o do meu marido.

Três semanas depois voltei à minha rotina. Quando comecei a caminhar em direção ao metrô lembrei da menina, me jurei que pegaria o endereço dela e faria uma festinha de aniversário. Chegando perto não a vi, mas tinha pressa e não a procurei. Na semana seguinte também não a vi e procurei pela moça que vendia doces, perguntei pela menina, e ela me disse de maneira direta e crua ''A menina dos paninhos? É a Judith, ela morreu faz umas semanas''.
Como assim morreu?
''Morreu. Estava doente, na verdade, nasceu doente, tinha um problema no pulmão, tentou o tratamento, mas não tinha vagas e nos últimos meses já sabíamos que era questão de tempo''.

Senti na hora que iria desmaiar, meu sangue descia todo aos meus pés, e a moça dos doces percebeu e tentou me ajudar. Acabei sentada na calçada, do lado de fora do metrô, com o coração apertado. Uma segurança do metrô veio conversar comigo, perguntar o que estava acontecendo, e a moça dos doces disse ''Ela ficou assim porque não sabia que a Judith tinha morrido''.

A segurança me ajudou a levantar e disse ''É, a gente gostava da menina também''. Eu tentei me explicar, dizer que queria ajudar, mas não sei porque não ajudei mais, esse medo que temos de nos envolver em situações que desconhecemos e esquecemos que tem uma criança no meio. E a segurança me disse ''É, a gente sabe como é, todos somos reservados diante dessas situações, mas olhe, a menina tinha gente que gostava dela. Ela passou mal aqui na porta, eu fui uma das que a levei ao hospital, já tinha acabado meu turno. Lá tinham o registro dela, consegui o endereço e fui à casa avisar a mãe. Ela não parecia surpreendida, apenas me disse ''Eu sabia que um dia ela não voltaria mais'' e eu perguntei ''Se sabia porque deixava a menina vendendo panos no metrô?'' e ela respondeu ''É a necessidade, eu faço faxina, mas o dinheiro não dá, ela me ajudava, depois da escola ia para lá e me dizia ''Mãezinha, enquanto eu tiver forças você não passa fome''. E depois apareceu por lá uma moça, uma mãe de princesa, que dava umas coisas para ela, e ela ficava emocionada, sempre esperando, achando que a moça iria levar outro presente, até que levou o vestido de princesa. Ela chegou em casa, me mostrou o vestido e eu perguntei ''e onde você vai usar isso?'' e ela respondeu ''mãezinha, vai ser para quando eu morrer, quero que Deus me veja bem bonita, assim quando eu chegar ao céu, Deus vai dizer ''É Judith, a princesa''. Quase queimei o vestido de tanta raiva que me deu! Uma criança  dizendo isso! Mas os médicos falavam na frente dela que tinha pouco tempo. Guardou o vestido na caixa, debaixo da cama e me fez jurar que eu o colocaria nela quando morresse''.

E a segurança dizia ''Não sei quem fez isso, mas para a menina foi uma coisa tão importante! Era como dar um significado a sua morte, uma importância, a esperança de ser alguém em um mundo melhor, chegar lá como princesa. Eu a vi no caixão e o vestido era lindo, cheio de umas pedrinhas que brilhavam na luz, parecia que ela ia se levantar e sair dançando. Foi bom para os irmãos verem ela assim, a última imagem, ela parecia feliz com seu vestido, foi mesmo seu último desejo. Até a mãe parecia enfeitiçada com o brilho do vestido, arrumou o cabelo ela, colocou uma presilha. Todos ficaram tão impressionados com o vestido que se despediram dela como se fosse mesmo uma princesa.

Fiquei tão impactada com a história que contei tudo a minha sogra, que fez o vestido. Eu não tinha dito que iria me livrar dele, não tinha falado nada. Minha sogra escutou a história quieta e disse ''As pedrinhas que brilhavam eram cristais''. Me desculpei por isso, pela birra da minha filha, pela má educação dela. Minha sogra suspirou e disse ''O tecido era seda, importado, as pedrinhas eram de cristais e tudo foi feito à mão, mas o objetivo do vestido era apenas um: fazer uma criança feliz. Eu queria que tivesse sido minha neta, mas ela não gostou. O importante é que foi para uma menina que adorou o vestido, gostou tanto dele que quis chegar ao reino dos céus usando-o. É uma honra ter vestido uma criança para seu encontro com Jesus. Mesmo sem conhecê-la posso vê-la rodopiando pelo céu, cercada de anjos, no seu vestido de cristais. Ela foi tão invisível para todos nesta passagem pela Terra, mas agora com seu vestido de cristais todo mundo deve acompanhar seus passos lá em cima. É preciso levar alguma alegria quando vamos ao encontro de Deus, quando ela abre a porta é  justo que nos veja sorrindo, apesar de tudo. Posso ver a menina dizendo ''Deus, olha que vestido lindo eu trouxe para te ver''.

Iara De Dupont

01 maio 2019

A neta

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Às dez da manhã tocou o celular. A moça me disse ''Minha avó quer falar com você, ela está um pouco velhinha, com 92 anos, mas dá para entender tudo o que ela diz''.
A avó pegou no telefone e disse ''Você é a moça que conta histórias?''.
Sim.
Eu queria te contar a minha, mas se não gostar não precisa colocar, só queria te pedir que mandasse para a minha neta, de lembrança. Quero deixar um registro. Você pode fazer isso?
Posso.
E ela começou.




Eu nasci na Itália, em uma miséria total. Restos de guerra. E quando tinha seis anos meus pais, desesperados, me colocaram um navio para o Brasil, junto com uma tia. Não lembro bem desse dia, apenas de minha mãe chorando, colocando seu terço no meu pescoço e dizendo ''Deus vai te proteger e a Virgem Maria te cuidar''. 
A viagem foi um inferno. As pessoas morriam de fome, sede, doenças e eram jogadas no mar como se fossem sacos de batata. Eu nem lembro o que senti, de tão forte que foi viver tudo aquilo.
Assim que chegamos me mandaram a uma fazenda de trabalho, para trabalhar com porcos. No começo eu dava ração, me apeguei aos porcos, eu sempre gostei de animais, estava sozinha e eles me faziam companhia.
Quando contei essa história à uma amiga, já na idade adulta, ela perguntou ''Você não sentia falta dos teus pais?''. Sentia e muita, mas estava no modo ''sobrevivência'', não me pagavam em dinheiro, me pagavam com comida, eu precisava trabalhar para comer. Ia à igreja todos os domingos com o grupo que morava na mesma fazenda do que eu, mas apenas ia porque depois da missa as freiras nos davam bolo, era o único doce que eu recebia a semana inteira.

Quando cresci um pouco me tiraram da seção de ração e me mandaram para o matadouro. Foi aí que as coisas começaram a complicar. Eu passava mal de ver como os animais eram mortos, não me conformava, um dia fiquei tão triste que pedi ajuda a minha tia e ela respondeu ''Não é para ficar com pena, nós matamos para comer, a vida é assim, ou você quer morrer de fome como teus pais?''.
Eu tinha dez anos na época e fiquei sabendo desse modo que meus pais tinham morrido. Algum tempo depois descobri que algum parente mandou uma carta para a minha tia avisando da morte deles.

Fiquei mais cinco anos no matadouro, carregando porcos de trinta quilos. E chorando. Continuava à ir a missa, mas já era uma adulta e tinha uma certeza: é melhor se virar na vida, porque Deus não existe, se existisse jamais deixaria uma menina de seis anos longe da mãe e muito menos a colocaria para ver como matam os porcos.
Mas eu sabia fingir, quando as freiras me diziam algo, eu logo respondia ''amém'' ou algo assim. Nunca disse à elas que no meu coração só existia tristeza e revolta, culpa desse Deus que elas adoravam.
Conheci meu marido na fazenda, ele trabalhava na parte de banha de porco, também era órfão, ficamos amigos logo e nos casamos. Éramos iguais em tudo, a mesma origem, miseráveis, órfãos, sem ninguém no mundo e o mais importante: os dois sabíamos que Deus não existia.
No nosso círculo de amizades éramos os únicos que pensávamos assim
No nosso círculo de amizades éramos os únicos que pensávamos assim.

Um rapaz da fazenda comentou que iria abrir uma loja para vender a banha de porco, me ofereci para trabalhar ali, eu precisava sair do matadouro.
Ele deixou meu marido e eu responsáveis pela loja, e em pouco tempo, meu marido a comprou. Era organizado e os dois trabalhávamos o dia inteiro, sem parar, nem nos sábados parávamos.
Compramos um terreno e começamos a construir nossa casa. Queríamos muito ter filhos, mas eu engravidava e perdia, engravidava e perdia. O médico dizia que era pela anemia, herança da infância de fome. Meu corpo não segurava um bebê.
Nessa época umas amigas começaram a me dizer para ir à igreja, pedir a Deus um bebê. Nunca fui.

Quando tinha esquecido essa história, deixei de lado, engravidei e tive um lindo neném. Mas sabe, filhos são como árvores, você só planta a semente, não sabe para que lado vão crescer nem que frutos vão dar. E meu filho não foi uma boa árvore. Desde pequeno percebemos que era mau, chutava os cachorros, ofendia a babá. Fizemos de tudo, levamos a psicólogos, até benzedeiras. Já na adolescência ficou mais difícil, ele se juntou com um grupo de amigos e começou a roubar a casa de conhecidos. Quando descobríamos íamos até lá, devolver as coisas, pedir perdão e implorar que não o denunciassem.
Meu marido fez de tudo para segurá-lo, mas não conseguiu. Tentou colégio militar, curso no exterior, mas ele parecia um touro bravo. Até que chegou aos dezoito anos e descobriu a vida noturna, as mulheres, as bebidas. Durante um tempo tivemos paz, o espírito violento dele tinha sumido, agora era só farra.

Nesse período meu marido morreu. Eu não tinha como controlar meu filho sozinha, mas parecia nem precisar, ele só queria dinheiro. Aparecia na minha casa e eu assinava o cheque. Já não podia fazer mais nada. Me falaram para entrar em uma igreja, frequentei durante dois anos, mas nada mudou. Foi um tempo tranquilo, eu viajava, ia passear com as minhas amigas, enquanto ele vivia sua vida.
Um dia uma amiga, que era a minha administradora, veio me visitar e disse ''Você precisar parar teu filho, as contas estão esvaziando''. Vi a cópia dos documentos e fiquei chocada! Em apenas cinco anos meu filho tinha dilapidado 80% do meu patrimônio! Construído em sessenta anos de trabalho!
Decidi que iria pará-lo naquele mesmo dia. Ele estava sereno, eu disse que não daria mais dinheiro. E ele sorriu e disse ''Bom, eu tenho algo no banco, vou tirar e dar para a minha namorada, porque ela está grávida, vou dizer para fazer um aborto, porque eu não tenho dinheiro para sustentar uma criança''.
Achei que ele estava brincando, mas me falou ''Paga a consulta se está duvidando! Vamos amanhã!''.
Fui com ele. Era um ultrassom. A moça já tinha quatro meses de gravidez. Na hora que vi o ultrassom eu soube que minha vida estaria ligada para sempre naquele pequeno ser, tão frágil. Mais uma vez meu filho tinha vencido, eu iria abrir as arcas novamente.

Uma semana depois improvisamos um casamento, minha nora era um pesadelo, igual ao meu filho, irresponsável, gostar de gastar dinheiro, de cair na farra.
Os primeiros meses depois da chegada da bebê foram difíceis, eles não me deixavam pegar a menina no colo, diziam ''É que velha tem muitas bactérias'', ''você pode deixar ela cair'', ''não é bom para a criança''.

Mas eu estava apaixonada pela minha neta e montei um esquema. O casal logo se cansou de cuidar uma bebê, mesmo com ajuda. Ficavam na rua o dia inteiro, batendo pernas, e eu ia para o apartamento deles, a babá me deixava entrar e o porteiro me avisava quando eles chegavam, ele tocava o interfone e eu saía pela porta dos fundos, para que não me vissem.

Os primeiros anos foram assim e desde o primeiro dia senti que eu e minha neta éramos espíritos companheiros. Ela era solar, cheia de amor, apesar dos pais ausentes.
Quando ela fez seis anos a levei para a Disney, mas não pareceu se interessar muito. Voltando entrou no curso de catequese e aprendeu a rezar. Deve ter se sentido acolhida, porque se apaixonou pelas aulas, pela igreja, pelas freiras. Falava disso o dia inteiro, ficou encantada com a Virgem Maria e resolveu que queria ir para Turquia, conhecer a casa da mãe de Jesus.

Ela era tão pequena que pensei que tudo isso era fruto de sua carência, da falta de ter um lar amoroso. Ela adorava a mãe, que parecia uma boneca viva, sempre de saltos altos, ficava admirada olhando, como se fosse uma visão. Ela se aproximava para abraçar a mãe e minha nora dizia ''Sai, sai, vai amassar minha roupa! Essa saia vale uma fortuna'' e a menina se encolhia e se afastava. Eu via aquilo e meu coração ficava apertado, corria para pegar a menina no colo, mas percebia o olhar machucado dela, queria a mãe, o colo da mãe. Por isso entendi sua obsessão com a Virgem Maria, acho que era um jeito de dizer ''ei, eu preciso de uma mãe também''.

Um dia na cozinha, com apenas sete anos, suspirou e disse ''Vó, Maria chamava Jesus de Yeshua''. E falei ''É mesmo?'', e ela respondeu ''É, acho que era de carinho''. Vi a tristeza nos olhos dela. Mesmo assim o amor pela mãe era maior, e quando escutava o carro chegando largava tudo para vê-la, não se aproximava porque a mãe não gostava, mas ela ficava admirando sua mãe atrás da porta.
Fiz o que pude para suprir essa ausência de uma ''mãe presente'', mas quem consegue isso?

Um dia durante o almoço escutei a campainha. Fui abrir e era minha neta sorrindo, e me disse ''Vó, vamos morar aqui agora''. Vi o rosto do meu filho com seu sorriso falso, que me disse ''É, moramos aqui ou na rua, você que escolhe''.
Minha vida virou de ponta cabeça. Ele e a esposa adoravam fazer festas, jantares, era tanta bagunça que eu passava muito tempo recluída dentro do meu quarto. As pessoas que trabalhavam ali começaram a pedir demissão, pela má educação e maus tratos da minha nora e filho. Fui ficando sozinha na minha propia casa.
Meu sofrimento era amenizado pela presença da minha neta. Passava horas no meu quarto desenhando, assistindo seus desenhos favoritos. Cada dia estava mais envolvida na igreja, no grupo infantil, fazia parte do coro, dizia que iria conhecer a casa de Maria, queria ser freira.
Eu não dizia nada, era uma criança e não via motivo para explicar à ela porque eu não acreditava em Deus nem na Virgem Maria.

Um dia eu estava na sala quando meu filho entrou. Minha alma se congelou naquele momento, mães sabem do que seu filho é capaz. Ele me disse ''Arruma tuas malas que amanhã vou te levar para um asilo''. Perguntei com que autoridade faria isso. E me disse que já tinha entrado com um pedido para ser o administrador de meu dinheiro, porque eu já tinha 75 anos. Ele se apoiava em uma história do meu passado, quando meu marido morreu, anos antes, eu tive uma crise nervosa, fui internada, e tomei medicação. Ele alegou tudo isso ao juiz, que eu era uma idosa com problemas mentais.
Liguei para a minha advogada, mas o máximo que ela conseguiu foi ''fechar'' minha aposentadoria, para pagar o asilo. Os outros processos perdi, apesar de ter ido a consultas com vários psiquiatras, mesmo assim não consegui recuperar o controle do meu dinheiro. Até hoje me pergunto se tudo foi feito de maneira certa ou pegaram atalhos?
Fui para o asilo. Minha neta chorou muito no dia que fui embora, mas tentei consolá-la, dizendo que precisava de cuidados. Ela colocou a mãozinha no meu rosto e disse ''Vó, fica, Jesus vai te cuidar, ele cuida de todos, Maria também''. Expliquei que não podia e fui embora.
Minha preocupação naquele momento era que uma amiga conseguisse doar meus cachorros, porque eles não gostavam do meu filho e eu sei que ele seria capaz de jogá-los na rua.

Os primeiros dias no asilo foram de uma dor terrível, tão grande como estar naquele navio sem meus pais. Eu sentia falta da minha neta, falta dos meus animais, do meu jardim, das minhas plantas. Me sentia em carne viva. Lembrava das conversas do meu marido, quando se perguntava o que tínhamos feito na vida para merecer um filho tão mau?
O motorista da casa era meu amigo, trabalhava comigo há anos e se encarregou de levar minha neta depois da aula, todos os dias, ela ia almoçar no asilo. Só quando a mãe estava por perto, ela não ia, mas isso era raro. Ela era uma luz, quando entrava naquele lugar todos se encantavam. Ela gostava de levar seus livros, sua bíblia para crianças e ficava dizendo para todos ''Você conhece Jesus? Conhece Maria?''e começava a contar a história deles.
Quando entrou na adolescência quis ser freira, até foi em uns retiros, mas logo desistiu da ideia. O que ela queria na vida era conhecer a casa de Maria, na Turquia, insistia nisso.

Se passaram mais uns anos. Um dia a vi triste, perguntei o que era e me disse ''Vó, meu pai vendeu tua casa''. Senti meu mundo desabar. Mas não queria que ela tivesse raiva do pai, então respondi ''Ah, era só uma casa''.
Assim que ela foi embora comecei a chorar. A diretora do asilo, uma moça jovem, de coração nobre, me disse ''Vamos ver tua casa agora'' e pegamos um táxi. Chegando lá não tinha mais casa nenhuma, foi demolida, era apenas um terreno como meu coração, plano, seco, sem flores. Minha vida passou na minha frente, os anos que levei com meu marido para comprar o terreno, as economias, os sessenta anos vividos lá dentro.
Voltei para o asilo e entrei em depressão. Mais uma vez um recado do mundo: Deus não existe, nem ele, nem a Virgem Maria, que minha neta tanto adorava.

Minha neta foi me visitar, percebeu a minha dor pela casa e disse ''Vó, aquela casa mora dentro do meu coração, ela sempre vai estar no mesmo lugar, com você ali''.
Um dia minha neta chegou para almoçar comigo e a percebi triste. Ela era tão luminosa que era fácil ver a sombra no seu olhar. Perguntei o que era.
Ela me contou que o grupo de oração da igreja dela iria visitar a casa de Maria, mas ela não tinha dinheiro para a passagem. Eu sabia que meu filho tinha vendido quase tudo, ficou apenas com o aluguel de duas salas comerciais.
Eu disse à ela ''Olha, antes de vir para o asilo eu separei umas joias, deixei outras lá, para despistar, mas todas as que teu avô me deu, eu guardei, não pelo valor, mas porque significam muito para mim. Vamos dar uma olhada, você pode vender e comprar a passagem''.
Ela não aceitou. Sabia que eu amava essas joias, insisti tanto que ela pensou com calma e acabou cedendo. Separei umas joias e ela as levou para vender, conseguiu um bom dinheiro.
Um dia ela apareceu no asilo sorrindo, pegou minhas mãos e disse ''Vó, vou visitar a casa de Maria'' e eu respondi ''É, meu anjo, eu sei''. E ela disse ''Vou com você, vamos juntas para a Turquia!''.
Comecei a dar risada, que ideia absurda viajar com uma velha de 85 anos!
Mas ela estava falando sério. Em umas semanas arrumamos tudo, papéis, até roupa comprei. Tudo com o dinheiro das joias. Ao pai dela eu disse que a menina tinha conseguido uma doação na igreja e eles pagariam tudo. Ele sabia que nem a filha nem eu tínhamos de onde tirar o dinheiro para a viagem, então pareceu acreditar.
No dia da viagem senti como se eu estivesse viva de novo. Não se pode explicar a sensação, depois de viver anos sentindo que teu filho te enterra lentamente.

Eu estava na sala de embarque com a minha neta quando a freira se aproximou, fazia parte do grupo e disse ''Que alegria viajar com uma pessoa de idade! São pessoas de fé, nos ensinam a acreditar''. Respondi ''Vim pela minha neta, mas não sou uma pessoa de fé, não acredito em Deus nem na Virgem Maria''. Ela sorriu e disse ''Não se preocupe, sempre é tempo para acreditar'' e se afastou.
Minha neta me perguntou ''Vó, você não acredita mesmo?'', falei ''Não''. E ela disse ''Eu respeito, mas espero que isso mude depois de visitar a casa de Maria'' e eu falei ''Meu anjo, tenho 85 anos, já passei por tudo, não é agora que vou começar a acreditar em Deus''.
E fomos chamadas para embarcar. Me sentei na janela e minha neta ao meu lado. Não parava de falar, dizia ''Chegando lá não vamos dormir, vamos ver tudo'', ''Vamos passear'', ''Vamos ver isso, vamos ver aquilo'' e de repente me perguntou ''Vó, você trouxe os tênis? Vamos caminhar muito''. Confirmei que sim, os tênis estavam na mala e ela disse ''Bom, eu já separei um dinheiro, vamos visitar tudo, mas se ficar cansativo para você eu alugo uma cadeira de rodas e te levo e se não tiver uma cadeira, eu te carrego nas costas, mas vamos juntas, sempre juntas''. E sorriu. Naquele segundo perdoei meu filho por tudo, porque tinha me dado a coisa mais preciosa do mundo, a minha amada neta.
Olhei pela janela do avião, vi aquele céu azul, e pensei nos últimos anos da minha vida, trancada em um asilo, vendo meu filho gastar todo meu dinheiro. Pensei que iria morrer ali, que nunca mais iria sair, nem viajar, nem sabia que estava viva. Mas o sol lá fora era tão forte como a presença da minha neta, a única parte boa do meu filho.
Ela começou a falar de novo ''Vó, anotei o horário dos teus remédios, não se preocupe, também estou com o endereço de uns restaurantes vegetarianos, fica tranquila, se você está comigo, está com Deus''.
Eu olhei para ela e disse ''Eu acredito em Deus''.
E ela sorriu e disse ''Jura?'', e eu respondi ''Acabei de ver ele nos teus olhos''.
Levou oitenta anos. Mas Deus existe e mora nos olhos da minha neta, assim como a Virgem Maria mora em seu sorriso. Ela estava certa desde o começo, eles existem.

Iara De Dupont