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19 fevereiro 2019

Parece frieza, mas é falta de empatia

Outro ano! Quase dez anos de blog! E o assunto não acaba, infelizmente, sempre dá voltas e chega ao mesmo lugar, mulheres e nossos conflitos em uma sociedade misógina e cada dia mais violenta.

Em alguns momentos gostaria de mudar a direção, trocar de assunto, mas a vida das mulheres aparece na roda, nossas necessidades ocultas e a opressão que sofremos todos os dias, além de estarmos soterradas em uma piscina de lixo, mentiras, mentiras e mais mentiras.

E assuntos que nos interessam passam batido, como se não existissem.
Um deles me chama à atenção, empatia, se nasce com ou se cria?
É possível educar um ser humano para sentir empatia?

Não sei, psicólogos dizem que a pessoa sente empatia ou não, não ''aprende''.

E uma coisa muito importante para dizer, apesar de ter a certeza de que todas as mulheres sabem disso, mas é sempre bom lembrar: homens não sentem empatia por mulheres, nem nascendo, nem sendo educados, não sentem empatia nenhuma.

É triste sim, mas é a estrutura da nossa sociedade, um dos pilares principais, zero empatia as mulheres, porque não somos vistas como seres humanos, mas como bonecas sexuais que pagam as contas da casa. 

Eu passei por uma situação que me deixou confundida e talvez aconteça muito, meu ex-namorado tinha mais empatia pelo seu cachorro do que por mim! Sim, o cachorro era ''quase'' um ser humano, categoria que eu jamais conseguiria alcançar em um mundo machista.

E que relacionamento pode durar sem empatia? Nenhum.

Homens fingem que são fofos, mas é uma questão de conveniência, é preciso fingir isso para conseguir o que querem.

Uma moça me contava sobre isso, a falta de empatia do ex-marido, um Romeu meigo, moderninho. Se casaram há seis anos, tiveram dois filhos e o casamento não deu certo, e resolveram se separar. Houve uma divisão ''justa'', que eu considerei estranha demais, mas os tempos modernos parecem cheios de coisas fora do normal.

Eles compraram um apartamento, e na hora da divisão cada um ficou com 50%, venderam a propriedade e cada um pegou seu cheque, coisa que me chamou a atenção, porque tem duas crianças no meio, não seria melhor deixar a propriedade em nome dos filhos? Pois é.

Com o cheque a moça comprou outro apartamento, para morar com os filhos, um apartamento bem menor e sem tanto conforto, mas foi o que deu, e ela fez uma escolha boa, não se enrolou com prestações nem empréstimos bancários.

Como o apartamento é próximo ao seu trabalho resolveu vender o carro, porque queria fazer umas reformas e comprar móveis, já que tudo foi dividido de maneira ''civilizada'' durante o divórcio.

O rapaz paga a pensão direitinho, é um desses seres que pensa que ao pagar uma simples pensão está fazendo um favor a humanidade, não vê a situação como sua obrigação. E como não quer abrir mão da boa vida voltou a morar com seus pais.

E a moça ficou com dois filhos pequenos em um prédio velho, um apartamento pequeno, sem a piscina nem playground da antiga casa, mas sabe, eles queriam um divórcio justo!

Ela não tem mais carro, quando vai sair puxa os dois meninos pelo braço e vai na garra, pega ônibus, faz as compras, leve eles na escola.

Alguma alma caridosa na família reparou nesse detalhe e avisou o rapaz, poxa, você tem teu carro na garagem, por que não dar para tua ex-mulher?

Não! O carro não entrou no processo de divórcio porque era dele, comprou antes do casamento. O carro da moça era dela, também comprou antes do divórcio e ela vendeu porque quis!

A imagem da mulher pegando ônibus com duas crianças não o comove, não sente empatia pela mulher e pensa que ela vendeu o carro porque quis, quando na verdade precisava enfrentar novas despesas sozinha e tomou essa decisão.


O Romeu não se mexeu. Nem empresta nem dá o carro para a moça.
Mas, poxa, o que ele tem a ver com a vida dela, a moça que se vire de ônibus!

Com a vida dela não tem nada a ver, mas tem a ver com os filhos, que ela cria. É a mãe dos filhos dele, e querendo ou não, quando eles pegam ônibus, quando levam a vida com menos conforto e mais apertos, são eles que sofrem, os filhos do Romeu, não apenas dela.

Zero empatia, zero comoção.

É apenas um homem sendo um homem, nasceu sem empatia e foi educado para odiar mulheres, então não desenvolveu nenhuma empatia.

É isso que mulheres enfrentam em processos de separação, pensam que é frieza, ódio, má vontade de parte do homem, mas não é, é falta de empatia.

Sempre digo isso, mulheres, se preparem, se vai ter separação e divórcio, estejam preparadas para essa onda que vem na direção de todas, a falta de empatia, que chega a assustar.

É o mundo misógino, o mundo sem empatia pelas mulheres. Estejam preparadas emocionalmente, porque a onda sempre alcança a todas.

Iara De Dupont



17 dezembro 2018

Seguimos

Vueltas al Mundo - Catai Tours

Coisa mais complica ''pertencer'' a algum lugar.
Me pergunto se realmente pertencemos ou apenas tentamos nos encaixar, desesperados para não correr pela linha paralela.

E quando percebemos que não estamos no lugar certo, que algo falhou no meio do caminho, a sensação é muito ruim, dá vontade de sair correndo, mas ao mesmo tempo algumas raízes nos mantém presos ali.

É frustrante quando sentimos que erramos de caminho, não era por ali. Tudo volta a nossa mente, a sensação de que não pertencemos a nenhuma parte e aquela velha pergunta filosófica ''qual é meu lugar no mundo?'', será que eu tenho um lugar no mundo, ou estou apenas de passagem?

Não vi os frutos nascerem no lugar que escolhi plantar, assim como meus antepassados julgavam a terra pela sua colheita, me vejo fazendo o mesmo.

Penso no meio da noite que deveria ter percebido logo, outra sensação que acompanha o desterro, o tempo perdido, por que não nos demos conta antes de que estávamos no lugar errado?
Porque quem planta, tem que esperar um pouco, para ver se vai colher.

Lugares errados são assim, parecem certos no começo, uma boa solução em um dia de neblina.

De vez em quando tenho essa vontade de acertar no caminho, de não sentir novamente essa sensação de ter errado  na escolha. É humano, me dizem. É verdade, é humano, eu sou humana. Mas a frustração faz parte. Ou não?

Sempre se pode recomeçar, dizem os otimistas.
É, sempre, mas sem o mesmo ar. Ninguém diz isso, mas eu conto. Com a idade o ar vai acabando, como se fosse um tanque debaixo do mar, o ar acaba, a energia fica limitada e os recomeços parecem mais pesados.

Ainda assim seguimos, tentando acertar, limpando o que deu errado.
Seguimos.


Iara De Dupont

14 novembro 2018

A origem

Ciência Mestre: A Origem da Vida: O Universo


Não sei quantas vezes escutei minha amiga reclamar de seu marido, que ele é folgado, encostado, empurra a vida com a barriga. E o pior de tudo: não toma uma atitude, joga tudo nas suas costas.

Já me disse que talvez ele é assim porque é o caçula, mas a mãe é rígida, então de onde vem essa lerdeza para a vida?

Tudo parecia confuso e turvo, o rapaz não é má pessoa, mas parece incapaz de decidir qualquer coisa, dar um passo sozinho.

E no meio de uma conversa apareceu uma frase perdida, eu disse à minha amiga, pode ser a origem do problema!

Em um almoço o rapaz comentou que tinha preguiça de fazer um mestrado, mas era necessário para melhorar de posição dentro de sua área. A esposa lembrou que ele entrou com boas notas na universidade federal, não seria difícil começar um mestrado. E o rapaz respondeu, no meio de uma gargalhada:

-Eu fiz a prova para entrar na universidade um ano, mas não passei. Tentei de novo e tive um ataque de pânico, fui embora e deixei a prova ali. Então minha mãe bolou um plano para o ano seguinte: meu irmão é muito parecido comigo, e mais inteligente, pegou meu rg, se inscreveu, fez a prova e passou, por isso eu entrei.

Veja só que história mais fascinante! A sogra aparentemente rígida, mas de alma corrupta e maleável. O irmão mais velho, que persegue o mais novo há anos, sempre jogando na cara que é melhor em tudo, e onde fica a noção de autoestima de uma pessoa no meio desse bombardeio? Como é que uma pessoa que entra em uma faculdade sem fazer a prova, se sente no fundo de seu coração?

E nem encostei no mérito do rapaz ser homem e do significado para sua masculinidade, ver o irmão resolver sua vida.

E do que ele seria capaz, já que nem de entrar em uma universidade foi? E o problema não é falhar na prova ou não entrar, mas mandar outro em seu lugar! Muitas pessoas não entram na faculdade e nem por isso andam pela vida falsificando documentos!

De nada, não seria capaz de nada. A origem de seu temperamento encostado e sem atitude é essa, uma mãe e um irmão que passam por cima dele para resolver sua vida.

É normal em uma mulher apaixonada negar todos os sinais, não prestar atenção e depois jogar a culpa em circunstâncias, mas a verdade é que os homens já chegam prontos ao casamento, ou seja, já chegam sendo o que são, nem para mais, nem para menos. E são consequência da educação que receberam, das orientações que seguiram.

Perguntei para minha amiga se era verdade essa história da faculdade, ela disse que sim e ainda acrescentou ''bobagem de moleques, né!''.

Mas essa bobagem foi feita quantas vezes? É verdade que eles são parecidos, eu mesma já os confundi algumas vezes, mas a pergunta é, quantas vezes o irmão maior assumiu a responsabilidade do menor?

Para quê dar voltas? A resposta é essa! Que homem ela pode ter em casa, se ele foi criado para se esquivar de responsabilidades e chorar pelo irmão maior?

O que isso faz com uma pessoa internamente? Digo, um homem sem nenhum atrativo, e ainda por cima sabendo que seu irmão fez a prova no lugar dele, onde ele vai repousar seu orgulho de macho? Como ele vai pensar que é um ser humano de valor, se não resolve nada?

E minha amiga diz ''é você que está dizendo, porque ele não está nem aí, levou na boa o irmão ter feito a prova em seu lugar''.

Se levou na boa, por que é tão inútil como homem?

Mas é só uma prova! 

É só o que eu sei, mas digamos que a ética é um muro que detém o ser humano, uma vez derrubado ninguém levanta e com certeza essa família deve ter feito outras coisas nesse estilo.

Não adianta reclamar depois, é preciso juntar os detalhes antes e perceber cada nuance, mesmo que a paixão tente cegar. É necessário estar atenta a cada coisa dita, cada piada jogada na mesa, cada conversa que vai para a roda dos amigos e da família. 

Construção ética e moral de uma pessoa não começa no casamento, começa no dia que ela nasce. Se essa pessoa vem de uma família que parece normal ''falsificar'' um documento, o que se pode esperar?

Não tem como o rapaz ser um bom marido, já que é um ser humano de qualidade baixa. E não adianta a mulher pensar que ele é assim, meio parado, porque ela é elétrica e ele se sente acuado. 

A origem vem de lá trás, não é suficiente analisar o rapaz antes de se casar, tem que analisar a família também e com muita calma, todas as explicações vem dali.

O marido é isso que está diante dela, um homem fraco, manipulado pelo irmão, protegido pela mãe, e jogado ao mundo, sem saber quem é, nem do seu potencial. É um ser humano perdido, acostumado a ter a vida resolvida, é um péssimo marido e será um péssimo pai, porque nunca foi obrigado a confrontar o mundo.

Casamento é uma coisa que dura muito tempo, envolve a todos e não pode ser feito nesse ambiente de oba-oba, de amor e paixão, como se isso fosse tudo na vida.

E na família do homem que estão as respostas. E nem sempre são boas, mas elas vão indicar que tipo de marido o rapaz vai ser. No caso da minha amiga isso estava na frente dela, a presença do irmão mais velho resolvendo tudo e anulando o caçula. Ela não se casou com um homem, talvez com meio-homem. E nada vai mudar, ele só vai piorar, e não é culpa dela.

A melhor coisa que ela pode fazer é devolver o rapaz ao seu irmão e a sua mãe, e ser livre.


O homem é como um pote de maionese, já chega pronto e com avisos no rótulo, cabe as mulheres lerem e pensarem o que querem. E na maioria das vezes nem valem a pena, porque já chegam com os ovos batidos.



Iara De Dupont






12 agosto 2018

Casamento: só a festa vale a pena



Quando uma mulher vem me dizer que vai se casar, fico gelada.
Qual o motivo real atrás de uma decisão que vai prejudicar sua vida?

Ah, é o amor! A vontade de dividir a vida com o homem que ama!
Exato! É nesse ponto que a conta desanda, na parte de ''dividir'', porque não vai ser assim, casamento é um conta de multiplicação, onde se multiplicam os problemas, as responsabilidades, a pressão.

Antes eu tentava disfarçar e dizia a mulher ''bom, se você quer se casar, se case, a vida é para fazer as coisas que temos vontade''.

Mas acho que esse discurso hipócrita já se desgastou, prefiro avisar a mulher que se casar é assumir um emprego não remunerado, que jamais será reconhecido e conforme o tempo passa, mais e mais exigências serão feitas.

E a pior parte? Que não vale a pena. Segundo os psicólogos, o estado de  ''paixão'' dura dois anos, no máximo três, depois desse tempo já dá para ter ideia de que Romeu é um homem comum, medíocre e tão explorador como todos.

O que tem de errado em querer em uma vida em comum?
Que não existe isso! É uma fantasia que vendem para fazer as pessoas comprarem casas e móveis! Faz parte de um sistema econômico, é uma larva social, não é algo real.

A mulher se casa achando que está fazendo o certo, ao querer ficar com o homem o que ama, mas esquece que o ''homem que ama'' não a vê como ser humano, mas sim como uma escrava, um objeto às ordens!

Ai, meu namorado não é assim!

Você que não reparou! Mas se for latino, brasileiro, se prepare, são piores do que parece, porque não existe registro no inconsciente masculino sobre a mulher ser um ser humano, todos os registros a ligam a uma boneca.

Tudo o que nos dizem sobre casamento é mentira. Não existe uma divisão de tarefas, nem uma construção material, pelo contrário, vamos perder dinheiro.

E sobre aquela fantasia de não envelhecer sozinha? 
Também é mentira, existem duas possibilidades, em uma o marido pede o divórcio em alguma crise dos seus cinquenta e sessenta anos, e vai embora com uma menina de vinte anos, e a outra possibilidade é que ele acomodado e encostado na mulher, fique ali mesmo, com uma enfermeira ao pé da cama. Não importa o que acontecer, a mulher vai se dar mal.

E aquela linda frase de ''ter um apoio quando precisamos?''.
Ora, isso é um estado de alucinação! Pode perguntar para suas amigas casadas, se quando precisaram dos maridos, tiveram o apoio que gostariam. A resposta é ''não''.

Homens não estão ''nem ai'' para as necessidades de qualquer ser vivo que não seja ele.
É delírio pensar que o marido vai estar quando você precisar, não vai estar, e se estiver, se prepare, depois chega a conta, porque homens cobram tudo.

Se casar implica em administrar mal o dinheiro que ganhar, porque são muitos gastos, ficar exausta emocionalmente, se sentir sozinha, ter um sexo péssimo e se arrepender do que fez.

A única coisa boa é a festa, mas o dia seguinte chega e o pesadelo começa.


Iara de Dupont

06 junho 2018

Adivinha de quem é a culpa



A coisa mais importante para as mulheres é perceberem como elas aparecem nos discursos. Em um mundo machista sempre somos mencionadas de maneira misógina, e às vezes ''desaparecem'' nossa presença, tudo isso é feito para tirar qualquer responsabilidade dos homens, vivemos em um planeta onde tudo é ''culpa'' da mulher.

Escutei um pregador contando o caso de um advogado, que virou morador de rua. Disse que entrou em depressão, começou a beber, a mulher foi embora com o amante, o relacionamento com os filhos ficou ruim e ele para não incomodar, foi morar na rua. O pregador insistiu em dizer como a mulher e os filhos eram más pessoas por não socorrerem o homem.

Trabalhei um bom tempo com moradores de rua e as histórias ali são inacreditáveis, todas envolvem um Estado ausente e decisões ruins diante do desespero, da solidão, da falta de família por perto. A maioria são tragédias, daquelas de filmes, mas existem muitas como essa do advogado.


No começo eu tinha uma visão machista e pensava mal das mulheres e filhos que abandonam os homens a propia sorte, mas depois inverti a lógica e me perguntei, quem foi abandonado antes? Sempre a mesma resposta: a mulher.

Homens não assumem suas responsabilidades espirituais em um casamento, todos são contaminados com aquela fantasia de ''tudo posso'' e por que não se casar e continuar na farra? Eles saem aprontando, catando demônios em camas alheias, e trazendo aquilo para sua casa, aquela casa que a mulher trabalha duro para construir.  

Falar sobre homens espiritualmente irresponsáveis, que ''sujam'' suas casas, ninguém quer, mas dizer que a mulher  é má porque largou o marido, todos dizem.

Ninguém é obrigado a se casar, pode ficar solteiro a vida inteira, mas na hora que se casa tem que entender que a vida é feita de escolhas e temos que fazer as nossas diariamente.

E temos que prestar atenção para que parem de nos incluir nos discursos sempre como as vilãs, que torturam os ''coitadinhos dos homens''.

Homens não assumem suas responsabilidades, não assumem que em 99% dos casos são os primeiros a quebrar a estabilidade espiritual de sua casa, são os últimos em perceber a importância de sua família e a sorte que significa ter uma.

Não digo que as mulheres sejam umas santas, mas antes de vir contar sobre o coitadinho que mora na rua, que um dia já teve um lar, eu gostaria de saber o que ele fez como sua família.

Ah, mas ninguém merece morar na rua! 

Ninguém, nem um cachorro, a rua é um lugar para passar, não para morar. É absurdo o silêncio do Estado diante dessa tragédia urbana.

Mas não importa o que os homens fazem, em todos os discursos nada é sua culpa, eles sempre são protegidos de qualquer condena moral. Sobra tudo para a mulher, desde Eva que a história nos persegue e humilha.

Iara De Dupont


                                                  













19 abril 2018

Eu sou gostosa!


Na atual momento que todos enfrentamos, na luta para evoluir, cada um tem seu desafio material, porque é o principal, o norte do nosso futuro. Do que precisamos desapegar para evoluir de maneira menos dolorosa?

Essa tem sido uma pergunta muito complexa para as pessoas, no que estamos agarrados materialmente?

Passei meses trabalhando nisso, o que me segura materialmente nesta dimensão? Achei que era meu amor pela matéria, mas conversando com seres evoluídos percebi que não era o amor que estava me enforcando, mas o ódio quase secreto que mantive durante anos com meu corpo e nem era tão secreto assim.


Fui educada desde pequena para odiar meu corpo, desde o começo quando entrei ao ballet, tinha três anos e as professoras não escondiam a má vontade de ensinar uma menina ''gordinha'' que jamais seria bailarina. Parece que rezavam para que eu faltassem as apresentações, porque estragava seu quadro perfeito, as meninas pequenas e magras sempre ficavam na frente.


Dali em diante tudo foi cimentando esse ódio, a adolescência em um grupo de meninas magras, o erro ou acerto, não sei, de entrar ao teatro com dezesseis anos e enfrentar outra realidade, que ainda não tinha consciência, não existem atrizes gordas e jovens, e isso seria jogado na minha cara durante anos.


Os relacionamentos abusivos que tive, com misóginos, enrustidos, que lidavam mal com o corpo feminino, até porque nem era o gosto deles. O isolamento no consumo, não existiam roupas do meu tamanho.


E todos os julgamentos que vieram com o peso, me diziam que não tinha disciplina, não era constante, não era dedicada, porque pessoas focadas emagrecem, quem é gordo é folgado e sedentário.


Foram tantos anos aprendendo a me odiar que mesmo em épocas que estava mais magra eu não reconhecia meu corpo, parece que era sempre o mesmo peso.


Não lembro de ofensas ao meu caráter, nem maneira de ser, quando queriam me ofender usavam o peso, tudo parecia culpa do peso, a falta de namorado, a falta de trabalho, a falta de amor própio.


Todos os meus fracassos eram culpa do peso. E não tinha como ser diferente, criei um poço de ódio, me anulei durante anos, no fundo me sentia incompetente, pensava que se tivesse disciplina aguentaria passar fome e poderia ter uma vida normal.


E esqueci o assunto, até começar a separar os pontos que me dividem de onde estou para onde quero chegar, o que acelera ou atrasa minha evolução e esbarrei com isso, o ódio do meu corpo.
Me recomendaram o melhor tratamento espiritual que existe, funciona até nesses casos extremos, de auto-ódio, era necessário apenas trabalhar a aceitação.


É isso. Aceitação. Aceitação. Cheguei ao mundo com esse corpo ou ele se formou ao longo do caminho, não sei, mas é o que tem para hoje. É o que sou. E eu aceito. E não é aceitar o presente, é aceitar um passado que não posso mudar. Aceitar as oportunidades profissionais que perdi porque não consegui perder trinta quilos em dez minutos. É aceitar o que aconteceu. Aceitar que não eu não sabia o que era gordofobia e não soube me posicionar. Aceitar que deveria ter me aceito desde o começo. 


Trabalho aceitação todos os dias, a parte mais dura é aceitar o passado. O presente não me afeta mais, levou anos mais entrei no jogo de ''vocês não me querem? Agora quem não quer sou eu''.


São meses trabalhando a aceitação, aceitando minhas decisões, meu corpo, o que errei, o que acertei. E não mudou meu peso, não emagreci, nem engordei, não é uma receita mágica.


Mas trabalhar duro sempre traz alguma recompensa, depois de meses comecei a reparar uma coisa que não tinha reparado: meu Deus, eu sou gostosa! Eu nunca fui gostosa, mas agora estou gostosa! Tenho o mesmo peso que tinha antes de começar, mas agora estou gostosa!


Aceito que perdi tempo, mergulhei no ódio que me impuseram, cresci em um mundo cruel, mas a aceitação leva a portas que se abrem e nos mostram a realidade.

Aprendi como é fácil aceitar as mentiras em relação ao nosso corpo e duvidar da verdade, aceitar a verdade: eu sou gostosa.

Iara De Dupont

16 abril 2018

A história das bolachas



Tem gente que me diz ''poxa, você não conhece nenhuma história fofa com marido e mulher?''.


É, eu conheço uma, só uma, por isso nunca contei, porque é a única, aconteceu com uma amiga da minha prima.Ela se casou com um rapaz e tudo ia bem, eles trabalhavam na mesma empresa, houve cortes e os dois foram demitidos. Continuaram procurando trabalho, mas ela engravidou e resolver pegar uma receita que tinha e começou a fazer bolachas. E o marido continuava procurando emprego, enquanto ela vendia bolachas para os amigos, vizinhos e parentes.

Um dia ela recebeu uma encomenda enorme, uma grande empresa faria um evento e queria dois mil pacotinhos, com cinco bolachas cada um. A moça pediu emprestado o dinheiro para comprar o material e foi para a cozinha, fazer as dez mil bolachinhas. Mas ela estava feliz, porque o pessoal da empresa disse que iria colocar o nome dela no papel, que estaria amarrado a uma cordinha no pacote, com o logo da empresa, ela pensou que assim conseguiria divulgar seu trabalho e pegar mais encomendas. A mãe, a sogra, o marido, as irmãs, todo mundo ajudou a fazer as bolachas.
No dia do evento ela ficou esperando que alguém da empresa viesse para pegar os pacotes, e trazer as etiquetas para grudar nos pacotinhos, mas ninguém chegou. Ela ligou para a empresa, ninguém atendeu, começou a ligar aqui, ligar ali, e chegou em uma pessoa que disse ''olha, a empresa é uma multinacional, não sei que confusão deu, mas a central americana não autorizou o evento, está cancelado, depois te aviso como vai ser resolvido''.

A moça começou a passar mal, levaram ela no hospital, foi a pressão que subiu, mas foi medicada e voltou para casa. Sentou e chorou, não iria receber o pagamento e tinha na sua sala caixas com dois mil pacotes de bolachas.

O marido de aproximou e disse ''amanhã a gente resolve o que fazer'' e a esposa disse ''vamos resolver como? Precisamos pagar o empréstimo e as bolachas têm data de validade''.

E foram dormir. No dia seguinte a moça acordou e o marido tinha deixado um recado, dizendo que iria demorar. Lá pelas onze da noite ele ainda não tinha voltado, ele ligou e disse que iria demorar mais um pouco. Chegou em casa a uma da manhã e disse ''vendi quinhentos pacotes de bolacha'' e a mulher perguntou ''como?'' e ele respondeu ''acordei de manhã e fui para o semáforo, depois fui mudando de lugar, quando chegava alguém e dizia que era proibido vender ali ou tinha dono, eu ia para outro, amanhã eu volto e vendo mais quinhentos pacotes''.

Parece uma ideia genial, mas existem camadas de preconceito que se espalham nos diferentes níveis sociais e isso impede muitas pessoas de reagirem, ficam com vergonha, pensam que vão ser humilhadas, ou que só pelo fato de terem um diploma deveriam estar imunes as curvas da vida. O marido era engenheiro, garoto de classe média, sem a malícia da rua, mas meteu a cara, não teve vergonha de ir para os semáforos.

No dia seguinte conseguiu que seu irmão e cunhado fossem com ele, antes das duas da tarde todos os pacotes de bolacha já tinham sido vendidos. E ele ficou tão feliz com o que aconteceu que parou de procurar emprego, abriu uma empresa de bolachas com a mulher e contratou gente para vender nos semáforos, porque ele dizia que pessoas compram café, mas não as bolachas e depois que estão no carro lembram das bolachas e querem comprar.

Pois é, o marido agiu como os maridos deveriam agir, mas é a única história boa que conheço.


Iara De Dupont

09 março 2018

Os olhos do Seu Paco não queriam se fechar.....



Tenho uma tia que bate portas sem dó, de preferência acompanhada daquela famosa frase ''homem não presta''.
Ela brigava com meu tio e toda a vizinhança ficava sabendo. Minha avó levantava os ombros, mas nunca disse nada, nem defendia os homens da família.


Uma dia minha tia bateu a porta de novo e eu disse ''ela tem razão, homem não presta'' e minha avó disse ''é, penso isso, mas lembro do Seu Paco e fico confusa porque ele era um bom homem''.


Seu Paco foi um dos maiores traumas de adolescência da minha avó, não podia falar dele sem chorar, e quando já estava em idade avançada repetia sempre essa história. Não sei quantas vezes escutei sobre ''Seu Paco''.


Minha avó morava no interior, uma cidade pequena, todos se conheciam e tinha um casal que morava lá, Seu Paco e a esposa, eram um casal de idade avançada e tinham um filho, um rapaz que nasceu com algum problema físico, cresceu em uma cadeira de rodas e tinha algum atraso mental.
O casal se dedicava a cuidar do filho, tinham umas vaquinhas e vendiam o leite e o queijo que faziam. 


Todo mundo conhecia o casal, eram quietos, religiosos, não se metiam com ninguém. Mas a esposa adoeceu, não conseguiram nenhum tratamento e ela faleceu, então Seu Paco se dedicou mais ainda ao filho e as suas vaquinhas.


Um dia ele caiu do cavalo, foi levado para sua casa e alguém concluiu que ele estava morrendo. Não tinha médico por perto, nem hospital, e ainda por cima no meio da revolução mexicana.


Ele tinha quebrado alguns ossos, levou uma pancada na cabeça, e tinha muitas dores. O colocaram na cama e chamaram o padre, para a extrema unção.
Algumas horas depois o padre foi a casa da minha avó, uma menina de doze anos e disse ''você pode me acompanhar?'' e ela foi para a casa do Seu Paco. Um pouco antes de chegar lá o padre disse a ela ''vamos prometer ao Seu Paco que seu filho será cuidado por todos''. Minha avó entrou no quarto, viu Seu Paco na cama e o filho ao lado segurando sua mão, então ela se aproximou e disse ''Seu Paco, nós amamos seu filho, vamos cuidá-lo''. E Seu Paco respondeu ''filha, é muita responsabilidade, eu sei que assim que morrer vão jogar ele no lixo''.


Minha avó só lembrava essa parte da conversa, o resto foi o trauma que carregou. Ela disse que Seu Paco olhava para o filho, as lágrimas desciam pelo rosto, e ele não conseguia fechar os olhos. O padre disse mil vezes ''Seu Paco, vá tranquilo, nós vamos cuidar do garoto''. Mas o pai não conseguia fechar os olhos, sabia que se fechasse morreria e seu filho seria jogado no lixo.
De todos os jeitos o padre insistia, disse ''Seu Paco, pense que vai encontrar a sua amada esposa'' e ele respondia ''mas e meu filho?''.


O padre saiu do quarto e deixou minha avó lá, sozinha, com seus doze anos de idade, no meio daquela situação. Ela lembrava que o pai chorava e o menino apertava sua mão, ao pouco tempo os dois choravam juntos. E isso durou a noite inteira e metade do dia. Minha avó não dormiu, aquilo começou a ficar impresso em sua mente, o pai que resistia em fechar os olhos. O rapaz não falava muito bem, era difícil de entender, mas em algum momento disse ''pai, pode ir'' e o Seu Paco não fechava os olhos.


O padre voltou e disse a mesma coisa ''Seu Paco, fique tranquilo, nós ficaremos com o menino'', mas ele não fechava os olhos. Às vezes fechava por uns segundos e abria novamente, procurando o filho, manteve durante horas seu olhar de agonia, não soltava o filho.


Ele resistiu quase dois dias sem dormir, sem fechar os olhos, no meio das dores. Minha avó contava a história mil vezes, ficou traumatizada com o olhar do Seu Paco, a resistência em abandonar o filho a propia sorte, a briga com o destino. Minha avó passou fome, viu uma revolução, assistiu os militares aprontando tudo, matando crianças e deixando todos morrerem de fome, mas nada disso marcou sua alma, o que a fazia chorar e encomendar missa todos os anos era o Seu Paco e seu olhar desesperado ao saber que o filho ficaria sozinho no mundo, sem poder se defender.


De vez em quando ela dizia que talvez os homens prestassem, porque lembrava do Seu Paco, falava dele e terminava dizendo ''nunca vi um homem resistir tanto em abandonar um filho, nunca vi uma morte tão dolorosa, uma partida tão lamentada, nunca vi alguém lutar tanto por um filho''.
Minha avó nunca soube o destino do filho do Seu Paco, estavam no meio de uma revolução e logo ela seria descartada por sua mãe, que se casou novamente e deu um jeito de se livrar da filha. E 


Seu Paco nunca soube que minha avó rezou por ele e seu filho durante mais de setenta anos. E também nunca soube que ela sempre disse ''se eu morrer sese eu morrer sem passar pelo sofrimento que Seu Paco passou, vou considerar que tive uma vida feliz''.
Graças a Deus morreu sem passar por isso.


Iara De Dupont

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