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05 dezembro 2016

Protegendo ego de macho?



Percebo hoje como o autoconhecimento  é importante na vida de todos, sem ele atrasamos as escolhas e erramos nas decisões.
Levei muito tempo para perceber minha enorme capacidade de observação, apenas agora me dou conta de como observo e armazeno as situações, como se minha mente fosse um arquivo ambulante. 

Com essa informação poderia ter sido uma excelente bióloga, além de ser observadora, gosto de animais.

E nos últimos tempos venho observando uma situação que aparece entrelinhas, não é dita aos berros, nem aos gritos, me atrevo a dizer que nem se murmura, mas eu tenho escutado e percebido um novo ''ódio'' que circula pelo ar, diria até que é um ''odinho'' recente: os homens estão com inveja de suas mulheres, ou irritados com o movimento de algumas de quererem crescer, procurar outros caminhos, empregos, estudar, enfim, qualquer coisa que a faça melhorar leva o homem a se sentir inferior e humilhado.

Há muitos anos um grande amigo encontrou o amor de sua vida. Eram um casal perfeito, ela era incrível, mas sua vida profissional disparou, começou a dar certo e ganhava mais do que meu amigo, ainda com a vida profissional estagnada. O namoro terminou e um dia meio bêbado ele me confessou que não aguentava ver a namorada ser tão bem sucedida, se sentia um merda, não só pelo dinheiro, mas porque a formação acadêmica dela era superior a dele.
Sempre achei que ele não quis me contar a verdade sobre o fim do namoro e inventou essa história, mas agora vejo e entendo que essa possibilidade era real, o ego dele deve ter sido massacrado com o sucesso da mulher.

Percebi em outra amiga a mesma coisa, se casou com um rapaz de formação parecida, mas ela resolveu continuar estudando e ele ficou agressivo, justo ele que era tão doce.
Fui juntando as peças e cheguei a essa conclusão: os homens estão com ódio das mulheres que andam pra frente.
Já passei por isso,  eu tinha mais experiência que um namorado na mesma área, ele fazia questão de me corrigir e menosprezava tudo o que eu fazia, qualquer erro era lembrado com a frase ''nossa, mas você tem mais conhecimento do que eu e faz essa merda?''.
Eu não entendia o que o incomodava tanto, só depois de anos percebi que ele se sentia inferior a mim, mas não era pessoal, homens se sentem inferiores com mulheres que estão dois passos a frente, por isso procuram sempre meninas, quanto mais jovens e inexperientes melhor.

Ah, parece clichê, mas é assim que eles funcionam. E não é só na vida acadêmica, tenho amigas que decidiram por um negócio próprio e de repente Romeu virou o capeta. Uma amiga resolveu juntar dinheiro para comprar uma casa e Romeu ficou ''chatinho''.

E todo esse ódio vem destilado em gotas no relacionamento, eles não engolem  a mulher progredindo e vão massacrando emocionalmente, conhecem os pontos fracos delas, a nossa infinita ânsia por agradar.

Nunca coloquei homem no lugar quando ele começava a me desprezar e querer humilhar por ser mais preparada do que ele, eu tinha vergonha de me impor e que ele descobrisse que eu era infinitamente melhor do que ele pensava.

Não é um problema geracional, vejo moças na casa dos vinte anos lidando com o ego masculino, namorados sabotando a vida acadêmica da namorada, maridos travando o avanço da mulher. E nós ficamos acuadas, envergonhadas, nenhuma mulher apaixonada quer que o homem se sinta inferior e recuamos. E eles nos humilham. E aceitamos. Vale tudo por umas gotas de amor, até estudar escondido.

Minha mãe teve uma amiga que fez isso, estudou escondido. Achei que era uma situação da época, mas a pouco tempo conheci uma garota que estudava comigo e faltava muito. Um dia me confessou que o namorado não sabia que ela estava fazendo uma pós-graduação, ela inventou uma tia que precisava de ajuda algumas vezes por semana, ela sumia e corria para a faculdade.  Pensei que o motivo era religioso,  mas ela disse que o Romeu tinha seus complexos porque não conseguiu entrar em uma faculdade, já era demais namorar e pensar em se casar com uma moça que tinha diploma de ensino superior, imagina se soubesse que ela caminhava na pós e se preparava para um mestrado. Ela o amava loucamente e estava pensando em como contar tudo isso sem humilhar o rapaz.

Para que ser hipócritas? Homens não toleram mulheres andando em outra direção que não sejam os braços deles.  Eles gostam da parte técnica, quando a mulher ganha mais e eles podem se livrar dos gastos, mas fora isso metem o pé mesmo, sem dó, querem que elas travem em suas vidas profissionais.

Me surpreende ver como tantas mulheres aguentam essa pressão por umas gotas de amor, não  me faço de santa nem de doutora do amor, eu já aguentei e não vale a pena, só detonou mais ainda a minha frágil autoestima.

Já fiquei quieta para não corrigir Romeu, nem humilhá-lo na frente de ninguém, mas descobri que isso é impossível, não posso congelar no tempo para satisfazer o ego doentio de um homem.

Tive um namorado muito histérico em relação ao trabalho, eu não podia dizer nada, e um dia sua mãe me disse  ''você abaixa tanto a cabeça para meu filho que me surpreende que não caminhe dois passos atrás dele, como as japonesas eram obrigadas a fazer antigamente''.

É, me surpreendi quando ela disse isso, justo eu com minha fama de rebelde e impulsiva, abaixando a cabeça para homem, mas trabalhávamos no mesmo lugar e eu morria de medo de irritá-lo, de confirmar as suspeitas dele de que eu era mais inteligente e tinha melhor formação.

E não digo mais inteligente na má fé, mas a verdade é que a maioria das mulheres têm mais preparo para a vida do que os homens, somos mais estudiosas, mais dedicadas e focadas, a única coisa que nos derruba é essa obsessão em amar quem não nos ama nem respeita.

Tenho uma amiga que perdeu o emprego e resolveu fazer coxinhas. Começou a fazer, vender, subia e descia, ganhava bem, mas o marido sempre dizia que as ''coxinhas só rendem um troco''. Ela ficou doente e precisou que ele tomasse conta do negócio, até porque estava desempregado, ele não aguentou duas semanas, achou que fazer coxinhas e entregar era só pegar, colocar no pacote e levar. Não aguentou o ritmo da compra dos ingredientes, do preparo, da entrega, da divulgação, mas no fim conseguiu o que queria que ela ficasse doente, saísse da pista e ele voltasse a mandar, ocupando o posto de macho da casa.

Tudo isso causa um vazamento de energia que não temos mais como repor, já é suficiente lidar com um mundo machista, um mercado de trabalho misógino, professores sexistas e ainda por cima temos que cuidar do ego do Romeu para que não se sinta  mal porque temos melhor preparo do que ele?

Quanto nos custa isso em tempo e energia? Dá pra estudar, progredir, melhorar e ainda continuar protegendo o ego deles? Se nós podemos estudar e ir pra frente, não entendo o que os impede de se mexer, será que são as pesadas bolas de ouro que carregam que breca esse movimento?

E não sou do clube das otimistas, nunca tive a carteirinha, quando escuto uma mulher dizer ''você está enganada, meu marido me apoia, meu namorado me dá suporte, meu amor me incentiva'', logo penso ''alguma vantagem ele deve estar levando'', sim, porque para os homens tudo é apenas uma questão de vantagem, até gostam das mulheres, mas não esquecem de explorar, se ela ganha mais, que ótimo, menos eles precisam trabalhar, mas aguentar a mulher estudando não aguentam, nessa parte se sentem humilhados.

E o mundo só vai girar no dia que as mulheres compreenderem que a vida não é sobre como os homens se sentem, mas o que nós, mulheres, fazemos da nossa vida e perder energia com ego de macho não vale a pena. Estudar escondido, sumir com as coisas que compra com seu dinheiro para Romeu não perceber, fingir que não é inteligente, dar a impressão que teve sorte na vida, não foi fruto de dedicação o sucesso que tem, enfim, tudo isso é energia que vai para o ralo, estamos no mundo para progredir, melhorar, viver a nossa maneira, não para proteger ego de macho, nenhuma mulher chegou ao mundo com a missão escrita na testa de ''proteja o ego do seu macho'', tudo isso é besteira que nos jogam e aceitamos quietas.

A vida é rápida e cada pessoa é como um trem, quem quiser subir a bordo vai ter que acompanhar o ritmo da viagem, caso contrário é melhor descer, não podemos parar a máquina nem meter o pé no freio porque o ego de Romeu foi afetado.

E já passou da hora das mulheres saírem dos seus casulos sociais, dessa mania de se sentirem e agirem como se fossem inferiores, essa educação de dar espaço a eles como se fossem o Messias. Não temos que ter vergonha de nada, pelo contrário, deveríamos estar cheias de orgulho porque mesmo debaixo de tanta opressão e em um mundo que nos odeia, ainda assim conseguimos andar pra frente, coisa que eles, homens, nem com a estrada aberta conseguiram fazer. 


Iara De Dupont



25 novembro 2016

Os tubarões da geração X


Há uns anos fui a uma cardiologista depois de ter ficado doente durante alguma louca dieta. Na sala de espera reparei que todos seus pacientes eram idosos.

Ela era muito simpática e conversamos muito essa tarde, acabei comentando sobre os pacientes idosos e ela me perguntou:

-Você se preocupa com a idade?

Disse a ela que não, mas a fragilidade dos anos me comovia, não sei o motivo, mas os idosos sempre me transmitiram muita solidão. E ela me disse:

-Talvez você precise conversar com um psicólogo, porque acredito que você tem uma personalidade altamente sensível (link)e precisa de ajuda para lidar com isso.

Assim que voltei a minha casa fui direto ao Google e li tudo o que encontrei sobre isso, acabei comprando um livro e o mundo se abriu diante de mim, foi a coisa mais precisa que já me disseram. A psicologia hoje reconhece a personalidade altamente sensível, sabem que é genético e ninguém pede para nascer com isso.

Passei por muito sofrimento, não apenas por ter essa personalidade, mas por estar cercada de pessoas que não tinham a menor ideia do que acontecia comigo e ainda por cima em uma época que isso nem era falado.

Mas depois que encontrei essa linha me senti melhor, consegui entender e me afastei de muitas coisas, hoje entendo que não posso lidar com coisas que me fazem mal porque minha maneira de processar os acontecimentos é diferente. 

Desde pequena eu ''pego'' olhares nessa fração de segundos, coleciono ''tons'' de vozes e movimentos diferentes.

Sei que não adianta chorar o leite derramado, nem pensar em como tudo teria sido diferente se tivessem me dito isso antes, mas é a verdade, muita dor teria sido economizada.

Para piorar minha agonia fui educada como a maioria da geração X, os nascidos nos anos setenta, os marcados por Deus com um X, a questão em aberto. 

Minha geração foi educada para pensar que crescia em um mundo mais aberto, melhor, em transformação e que boas intenções eram importantes e fariam a diferença, a maioria dessa geração foi gerado no amor hippie, na crença de valores que tinham sido quebrados e coisas boas tinham surgido. Não fomos educados para saber distinguir a maldade da bondade, nem as boas intenções das más. Tudo o que nos foi dito é que o planeta era nosso e o importante era ser feliz. Ninguém disse que o mundo é um mar aberto, cheio de tubarões que adoram comer carne fresca e ser bom nessas águas não faria nenhuma diferença nem salvaria tua pele.

Alguns pequenos X foram mais rápidos que outros, perceberam que ser bom caráter atrasaria os planos e ser mau caráter não era questão de ataque, mas de defesa.

Não fui educada para esse mundo e não recrimino meus pais, eles fizeram o que acharam melhor e me parece que educar uma criança dizendo que é bom ela ser uma filha-da-puta para sobreviver é assustador. Mas também ignorar a maldade lá fora é não aprender a lidar com ela, é não perceber quando ela entra na tua casa.

Alguns de nós não conseguiram fazer a transição, não conseguimos jogar lama no nosso caráter, nem mudar a boa essência e chegamos a um ponto crucial: não reconhecemos o mundo no qual vivemos, é como se não fizéssemos parte dele.

No começo isso me dava agonia, hoje me sinto mais tranquila, antes a estranha era eu, agora é o  mundo.
Vejo pessoas tomando decisões que eu não tomaria, falam coisas que nem tenho coragem de verbalizar, agem de maneira desordenada, como se não tivessem nada a perder. E talvez não tenham.

O ritmo desconhecido, aquele que não me ensinaram, de vez em quando me perturba, gera crises de ansiedade e angústia, por não saber como me portar nesse mundo. Apesar das perdas e mudanças, ainda assim nunca consegui desenhar um pouco de maldade em mim, o máximo que deu foi carregar umas gotas no bolso para aprender a reconhecer a maldade nos outros.

E além de tudo jogaram em cima da minha geração um avanço tecnológico sem precedentes, se eu antes não sabia lidar com as relações pessoais, imagine agora com as virtuais.

A frase que mais desenho no ar é ''o mundo é estranho'', porque assim me parece, assim ficou, não identifico nada nele, não consigo nem acompanhar as novas músicas, minha mente sempre volta as antigas.

Já me disseram que qualquer um pode se transformar em um tubarão, só porque nasceu atum não quer dizer que vai ficar a vida inteira assim, é só afiar os dentes e pular sem dó, jamais sentir remorso nem culpa.

Mas se eu conseguisse essa proeza, de me tornar um tubarão faminto no meio desse mar de nada, eu saberia para onde ir ou o que fazer? Não, porque este mundo ainda me parece estranho.

Já me peguei pensando que gostaria de voltar uns anos, viajar no calendário dos anos noventa, quando a vida me parecia mais certa, segura e clara, não como agora, um mar de nuvens escuras.

Navego entre dias de sol duvidosos, estou ali porque estou ali, mas nem sinto que estou no mundo, parece tudo fora do lugar e dias de profunda tristeza, como se tivesse plena consciência de que este planeta não é o mesmo que conheci um dia.
Às vezes me sinto uma forasteira, em outros uma turista, mas em geral me sinto perdida, entendo que Deus nos marcou com um X porque sabia que seríamos essa geração perdida de tudo, navegando sem ideia de onde está indo.

Talvez seja um apego meu, uma vontade quase infantil de pertencer ao mundo no qual nasci, aquele mundo que meus pais diziam existir. 

Em algumas manhãs me sinto como se estivesse na casa da minha tia, posso ser bem recebida, mas não é minha casa.

E tudo isso traz uma estranha sensação de cansaço e desânimo, ver tanto trabalho que meus pais tiveram para me criar com valores e no mundo que estamos não servem para nada. Ser um bom caráter ou ter uma personalidade como a minha, que se afunda na empatia, pode ser incrível para as pessoas que convivem comigo, mas não me serve profissionalmente nem emocionalmente, pelo contrário, me causa dor quando saio ao mundo.

Nunca entendi muito bem essas pessoas que vivem isoladas, cercadas de animais e repudiam o convivência com todos, mas lentamente se desenha na minha mesa a explicação para esse comportamento.

Mesmo assim me considero uma garota de sorte, porque alguém cruzou meu caminho e me deu essa explicação sobre a personalidade altamente sensível, isso me trouxe equilíbrio e paz, é uma sensação maravilhosa, no meio de tantas ruins, poder fechar a porta de casa e pensar ''o mundo é estranho, não eu''.



Iara De Dupont

21 novembro 2016

A culpa não é só deles (somos mansas)

JARED KUSHNER E IVANKA TRUMP

Agora que Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos é natural que pipoquem por todos os cantos fofocas de sua família, especialmente da filha Ivanka, alvo favorito de uma imprensa machista e misógina.

Uma história contada sobre ela- é fofoca- mostra como as mulheres somos vistas no mundo e como ainda permitimos isso.

Ela se casou há sete anos com Jared Kushner, um rapaz judeu, hoje com trinta e cinco anos. Por ele ser de uma família ortodoxa Ivanka teve que se converter ao judaísmo, é comum que isso aconteça, todos os judeus que conheci e se casaram com moças não judias viveram a mesma situação, a moça teve que se converter e tenho amigos que se casaram com judias e também se converteram ao judaísmo.

Mas dizem que o rapaz fez uma imposição para que o casamento acontecesse: que a menina mimada, rica e cheia de privilégio que era Ivanka, aprendesse a cozinhar como uma mãe judia, justo ela que nem sabia o caminho da cozinha (ela disse isso em uma entrevista).

A parte da imposição nunca foi confirmada, mas o rapaz disse em uma entrevista que tinha orgulho da mulher que não sabia cozinhar ter se transformado em uma grande cozinheira.

Quem conhece a trajetória de Ivanka, o temperamento determinado, sabia que se ela colocasse na cabeça aprender a cozinhar, ela faria isso.

O que me incomodou profundamente na fofoca é o tom antigo, de que somos nós, mulheres, que temos que nos adaptar ao mundo do homem que amamos, nesse caso não era apenas a religião, mas também o fato de ''ter'' que cozinhar como uma mãe judia.

Me pergunto quais foram as imposições de Ivanka para o marido e quais ele seguiu, mesmo que não fossem parte do seu mundo.

Minha preocupação com essa história é técnica, eu continuo vendo mulheres, em pleno século XXI, aceitarem imposições estúpidas dos maridos apenas porque somos educadas para não contrariar nem despertar a fúria masculina, não podemos mexer na sua masculinidade nem tirá-los do seu papel de homem.

E que papel é esse? Não sei, mas eu sempre escuto que meus namoros não duram porque eu tenho ''mania'' de desafiar homem, questiono a autoridade masculina e não é assim que a ''coisa anda''.

Tenho visto mulheres ''fingindo'' que respeitam o que o marido disse, apenas para que ele não se sinta mal.

E de quem é a culpa? Nossa, que permitimos uma situação dessas, que temos medo de nos impor e fazer o homem se sentir um merda.

Tudo é tão determinado que me disseram para deixar alguns consertos na minha casa serem feitos pelo meu namorado, assim ele não se sentiria inútil, mas esqueceram de me avisar onde se encontram namorados que sabem trocar um bujão de gás, porque eu nunca achei, todos meus namorados eram inúteis e incapazes de lavar um prato, como se não tivessem mãos.

Nós sabemos que é babaca agir dessa maneira, protegendo a masculinidade deles como se fosse um problema nosso, mas é assim que fazemos e ainda por cima nos damos conta quando outras mulheres o fazem, a gente olha elas dizerem uma coisa, reparamos no marido e pensamos ''esse cara é bobão''.

E fazemos isso o tempo inteiro, em todos os setores. Lembro de uma prima contando sobre seu marido, ele parecia alguém incrível e ativo, mas quando o conheci percebi que era tudo conversa dela, com o tempo me dei conta que ela tentava levantar a autoestima do rapaz dizendo coisas boas sobre ele.

Queremos dar um espaço que eles não merecem e um tamanho que não tem, então aceitamos suas regras e imposições para que não se sintam merdas.

Cansei de ver amiga me dizendo ''Romeu diz que só casa se for para morar em tal lugar'', ''Romeu diz que só casa se isso ou aquilo'', ''Antes do casamento Romeu pediu para que eu mudasse tal coisa''......
A lista é infinita porque tropeça em outra fantasia, homens pensam que todas as mulheres querem se casar, pensam que tem o queijo e a faca na mão e podem fazer o que quiserem, finalmente as doidas para casar somos nós, ninguém os avisou que não é sempre assim e casamento só é um bom negócio para o homem.

E tanta mulher se dizendo moderninha, mas aceita a imposição do homem, mas quando ela bate o pé e pede outra coisa, bom, o mundo caí.

Tenho uma amiga que antes de se casar Romeu avisou que iriam morar com sua mãe, porque estava velhinha. Minha amiga aceitou, moraram alguns anos até que a senhora faleceu. Tempos depois a mãe de minha amiga ficou doente e ela pediu para levar a mãe a sua casa, mas Romeu não aceitou, disse que com as crianças e o cachorro, já era demais. Minha amiga teve que levar a mãe a um asilo, não se impôs diante do cretino do marido, nem jogou na cara dele os anos que aguentou a sogra.

É por isso que eles montam! Sabem que não vamos nos impor, então já chegam querendo mostrar quem manda.

Sou a favor de mandar à merda, se eu fosse Ivanka aceitaria mudar de religião porque sei que nesse caso eles são estrictos, mas não aceitaria a imposição de cozinhar, nem de ser ''segunda'' dentro de casa, já que ele em uma entrevista disse que dentro de casa ele é o diretor e a Ivanka a gerente.

Ah, sim, eu mandaria tomar no cú e mais ainda se fosse rica como ela.

Pra quê aceitar isso? Mendigando amor de novo? Ora, se eles querem impor algo que façam isso com suas sombras, não com as mulheres.

E por que permitimos? Porque sempre nos disseram que eles precisam do seu papel de homem definido, caso contrário surtam. Papel esse pequeno, apertado e que só favorece a eles.

Homens se impõem, começam guerras de poder e nós aceitamos tudo, como se isso fosse uma coisa boa, mas sabemos no fundo que são uns babacas com umas bolas penduradas, que eles pensam serem de ouro. E estamos sendo mais babacas do que eles, porque aceitamos suas imposições bestas a troco de nada.

Já revirei tudo e não achei nada sobre as imposições de Ivanka ao marido, mas achei sites e mais sites, falando da maravilha que ele fez, grande trabalho, ter transformado a menina mimada em uma autêntica mãe judia, que sem importar o horário ou trabalho, volta a casa e prepara o jantar da família.

Gostaria de passar horas aqui dizendo como os homens são bobos, mas as bobas somos nós, que escutamos suas imposições e aceitamos, e elas são sobre tudo, podem ser deixar de falar com uma amiga, mudar de lugar, de emprego, cortar a família, não importa, quem manda é Romeu.

Meus argumentos para detonar os homens estão acabando, porque a realidade é apenas uma: eles só vão até onde permitimos, se abrimos a porta para suas imposições antes do casamento em vez de sair correndo, bom, eles não têm culpa.

Meu avô tinha um sitío e deixava ali uns cavalos, gostava de ver os animais livres pela propriedade, mas acabou mudando de ideia,  os deixava soltos uma parte do dia e depois os prendia, minha avó perguntou porque ele estava fazendo isso e ele respondeu:

-Porque eles são mansos, então o pessoal olha e fica com vontade de montar, vão lá e pegam.

Pois é, é bem isso, os homens olham as mulheres mansas e montam.


Iara De Dupont


20 novembro 2016

Parece o teu reflexo, mas é o meu......


Internet foi uma coisa que chegou na vida das pessoas sem manual, aprendemos a usar sem saber o que estávamos fazendo.

Hoje já existe uma nova geração que conhece melhor os perigos da rede, sabe se mexer com mais rapidez e segurança, mas os primeiros não sabiam.

Eu fui uma das que não tinha a menor ideia do que estava fazendo.

Quando comecei o blog há seis anos não tive noção dos limites, nem dos perigos. Como eu escrevia muito sobre síndrome do pânico pensei que apenas as pessoas interessadas nesse assunto passariam por aqui.

Com o tempo me surpreendi com os emails e mensagens, mesmo assim não me dei conta do tamanho da exposição. Até que um dia tive uma experiência que mudou minha percepção.

Eu estava em uma festa quando uma moça se aproximou e me chamou de ''vadia'' e de repente parece que perdeu o tom em tudo, me ofendeu de todos os nomes, disse que eu era ''ridícula'' por tentar chamar a atenção do meu ex-Romeu escrevendo posts sobre ele no meu blog.

Deu uma confusão porque eu respondi as ofensas, mesmo sem saber quem a moça era e ainda com a sensação de que ela estava me confundindo com alguém.

Uma amiga a puxou e levou embora, depois me disseram que ela era namorada de um ex-namorado meu e o mal entendido aconteceu porque eu escrevia sobre um Romeu e ela lia, pensando que eu falava sobre o namorado dela. 

Achei confuso, mas na festa estava minha ex-cunhada, que ao ver o problema se aproximou e me disse:

-Tudo culpa do meu irmão. A namorada foi checar nos favoritos dele e apareceu teu blog, que ele olha todos os dias, ela abriu o link, leu alguns textos e pensou que você escrevia sobre ele.

Foi uma péssima noite porque me dei conta que eu estava deixando pegadas na areia, eu não contava que meu blog fosse lido por pessoas que eu não gosto e quero longe de mim, mas desse jeito percebi que tudo era mais exposto do que eu pensava e gostaria.

Pensei naquele momento em fechar o blog, saber que um ex-namorado lia meu blog todos os dias quebrou meu limite mental, talvez se o blog fosse sobre esmaltes não me incomodaria, mas saber que era tão pessoal e íntimo me incomodou saber sobre essas visitas indesejadas.

Mas nessa mesma noite, naquelas coincidências estranhas da vida, acabei me sentando em uma mesa com um rapaz que sabia tudo de informática, eu perguntei a ele se tinha algum jeito de blindar meu blog, fechar a porta aos indesejados. Ele disse algumas coisas, mas concluiu que não fazia sentido, e me disse:

-Não se preocupe, todos que ligam a internet deixam pegadas na areia, todos são indiscretos e sem noção, estamos vivendo em um mundo onde as pessoas se conectam e não sabem os riscos que correm. Não existe privacidade e podemos revirar e acompanhar a vida de qualquer um, não tem mais onde se esconder.

Deixei o assunto de lado, já que não poderia fazer nada a respeito, resolvi não pensar mais nisso, mas de vez em quando me irrita pensar que algumas pessoas que odeio profundamente passem por aqui.

Um dia encontrei minha ex-cunhada e perguntei a ela porque seu irmão lia meu blog, já que foi tão indiferente a ele durante anos, e ela me respondeu:

-Acho que ele procurava entender algumas coisas.

É, esse é o problema, a gente quer entender algumas coisas e acaba revirando a internet, como se fosse uma caixa com todas as explicações que precisamos.

E há pouco tempo me vi na mesma situação similar, ''revirando o lixo'', querendo entender algo. Em janeiro deste ano tive uma briga com um ex-namorado, que até então era meu amigo, foi uma discussão estranha, cheia de curvas, um assunto que ele começou e eu não soube lidar. Em alguns momentos as pessoas se aborrecem e jogam nos outros suas frustrações, mas quem está recebendo essa descarga de ódio rara vez percebe que não tem nada a ver com a situação. Eu não percebi que Romeu estava em um dia ruim e eu nem sabia do que ele estava falando, assim acabamos brigando por nada e colocando um ponto final a uma amizade de anos.

Tudo isso me causou um enorme sofrimento, quando não entendo a origem da briga fico remoendo e não consegui assimilar a discussão, até porque nunca tinha brigado com ele, nem quando éramos namorados.

Tentando entender o que tinha acontecido comecei a ver o que ele postava, mas desde a briga e o ódio descomunal que ele demonstrou, eu estava bloqueada em todas suas redes sociais, coisa que também não entendi. Procurei esquecer tudo, já que não tinha nenhum tipo de acesso, até que uma amiga em comum me mandou um perfil de uma rede, dizendo que era a atual namorada do meu ex-Romeu.

Quis saber se as datas batiam, talvez ele tivesse inventado a briga para se livrar de mim porque estava com outra e nas nossas conversas de repente rolavam umas lembranças e juras de amor.

Não consegui saber quando se conheceram, mas sei que começaram a namorar pouco depois da briga que tive com ele.

E percebi que ela tinha transformado uma de suas redes em uma espécie de diário virtual, colocando ali o que sentia, sem pudores. Comecei a me identificar com o que lia, tudo o que ela dizia sobre Romeu também senti um dia.

Acabei acompanhando esse diário virtual por umas semanas, ela postava longas declarações de amor, fotos e mais fotos, inclusive do cachorro dele. Não sei se ele postava as mesmas coisas, porque fui bloqueada e não pude ler nada.

Mas de repente o barco virou, ela trocou as declarações de amor por frases enigmáticas, talvez metáforas.

Da certeza de que eram almas gêmeas pulou sem vírgulas para a dúvida, se perguntando se estava amando sozinha, se ele realmente queria estar com ela, porquê ele não fazia nada para que ficassem juntos se estavam tão certos de que tinham nascido um para o outro.

Nas frases que eu lia meu coração se quebrava, era o mesmo que eu tinha sentido meses antes, a mesma sensação de estar lidando com dois homens, o que chegou era amável e seguro, o que ficou era agressivo e irônico.

Tive uma vontade louca de escrever para ela, de dizer que sabia do que estava falando, o que sentia. Mas a internet tem barreiras naturais, não é comum uma ex-namorada procurar a atual namorada do Romeu para prestar apoio. E a moça me parece apaixonada, segue o mesmo roteiro que segui, ainda esperançosa de que Romeu reaja e volte a ser quem era.

E não tenho tantas coisas para dizer, nem conselhos que oferecer, só queria dizer que hoje, depois de analisar mil coisas, parar o tempo, ler mensagens e juntar peças, cheguei a uma conclusão. Não sei os motivos, mas para mim Romeu não sabe amar, não sei se é algum bloqueio, ou nega sua natureza e tenta fingir o que não é, não tenho a menor ideia do que acontece na cabeça dele, mas posso quase afirmar que Romeu não sabe amar, diante de mulheres que o amam ele paralisa e saca sua faceta violenta.

Parece muita coisa, mas é simples, um homem que não sabe amar. Tenho certeza que essa namorada dele é tão fantástica e amorosa como eu fui um dia, mesmo assim Romeu não a merece.

A moça continua navegando em águas turbulentas, alguns dias ela posta mensagens de amor e esperança, mas na maioria do tempo deixa clara a sensação de dúvida, a certeza de que está recebendo menos do que dá.

Durante algum tempo pensei que o seu perfil era sobre ela, mas percebi que é como se fosse o meu, ela sente as mesmas coisas, chora pelo mesmo motivo e tenta se animar um pouco quando vê alguma demonstração de amor, por pequena que seja.
Ela suspira com a lua, se sente melhor com o sol, lamenta o frio, reclama da ausência dele, posta fotos meigas dos dois com frases de amor, luta todos os dias como eu lutei um dia, tenta manter um namoro em uma areia movediça, que cada dia a engole mais.

Fiz tudo isso e percebi tarde demais que quando é um sentimento mútuo a gente não faz tantas coisas nem se sente sozinha a maior parte do tempo.

Ela está no mesmo ponto que um dia eu estive, na margem, entre a dúvida e o suposto amor.

E vai deixando pegadas, me ajudando a entender tantas coisas que não vi antes, a dificuldade dele em amar, o mesmo modo de agir, deixando a mulher entre a dúvida e a falsa certeza.

No meu silêncio leio as coisas que ela posta e desejo do fundo do meu coração que perceba quem ele é, que apareça em seu caminho um homem melhor e digno do amor que ela sabe demonstrar. Vontade enorme de abraçar essa moça e dizer que ele não vale a pena, não ama ninguém, não vale a lua que ela manda para cuidá-lo de noite, ele é um lixo de ser humano.

Amor é como água potável, não pode correr pelo esgoto, não pode se perder na calçada, nem ser usado para lavar o lixo.

Que essa história tenha um desfecho melhor do que o meu, que ela seja mais forte do que fui, que seja mais rápida e sofra menos. É tudo o que eu desejo a uma pessoa que não conheço, mas suas pegadas se confundiram com as minhas, a vi no espelho e pensei que a dor era seu reflexo, mas era o meu.

Iara De Dupont

16 novembro 2016

Romeu é fofo? Acorda, você está sendo explorada


Fui ao centro da cidade com uma amiga, de vez em quando cometo esse erro de pensar que alguns produtos são mais baratos no centro do que em outros lugares, mas hoje tudo está tão virado que não obedece mais essa lógica. E muitas vezes encontramos os produtos por um real, dois reais, mais baratos, como se isso valesse o nosso tempo, energia e deslocamento.

Faz pouco tempo que minha amiga se casou, por isso seus olhos foram logo para cima de produtos para a casa, acessórios e objetos de decoração. Ela está naquela fase de encantamento, onde morar com Romeu parece a melhor decisão que se pode ter na vida.

Ela achou muitas coisas e acabou comprando, inclusive uma árvore de natal e os enfeites, pensando em deixar a casa arrumada para o primeiro natal com Romeu.

Não sei quantas horas andamos, quantas lojas visitamos, quanto tempo esperamos o transporte, mas sei que chegamos exaustas à sua casa, eu fiz apenas uma parada técnica, precisava fazer xixi e subi ao seu apartamento.

Chegando lá encontramos seu Romeu, um ser adorável, simpático e meigo, me chamou a atenção que ele abriu a porta, mas não nos ajudou com as sacolas.

Entrei correndo no banheiro e quando saí minha amiga me disse para comer alguma coisa com eles, porque já era tarde e aceitei o convite. Ela perguntou ao Romeu ''amor, o que você quer?'' e ele gentilmente respondeu ''ah, o que você fizer eu vou adorar''.

Então ela foi hipnotizada para a cozinha, poxa, Romeu é tão meigo! Ela improvisou um jantar, ele comeu e disse ''você sempre é fantástica na cozinha''.

É, é mesmo. Nessa hora eu já subia pelas paredes, mas não achei que fosse o momento de dizer algo, preferi me despedir e dizer a ela que iria escrever sobre nosso fantástico dia.

Quando voltávamos do centro passamos perto de um supermercado gigante, com várias promoções de comida, entramos, escolhemos algumas coisas e encaramos uma fila gigantesca que me pareceu durar horas. No meu carrinho tinha coisas para mim, no dela vários produtos estavam ali porque ''Romeu adora, Romeu sempre come isso, Romeu gosta''.

Ah, sim, sobre o que estou falando? Sobre exploração sutil, essa que tantas mulheres estão passando, acreditam que por estarem casadas com homens legais e meigos, não estão sendo exploradas por seus maridos, que são mais felizes que suas mães e vivem uma relação mais saudável.

O que eu posso dizer? Vocês estão enganadas, são tão usadas e exploradas como suas mães foram e são.

Volto ao ponto. Minha amiga caminhou durante horas, pensando na casa que vive com Romeu, comprou coisas para seu conforto e dele, encarou um supermercado, mas ele não teve a gentileza de carregar as sacolas quando chegamos, nem se ofereceu para fazer um sanduíche, esperou em silêncio que ela se manifestasse, não se mexeu do sofá, porque era seu dia de descanso.

Contei isso a um amigo e ele respondeu ''de boa, ela quis ir de compras, ela que se vire''.

É, meu bem, a gente sempre se vira sabe? Mas ela não comprou nada para si, um erro, carregou nas coisas para os dois.

E ele exerceu o lado mais fofo e suave da exploração, aquele que a mulher não percebe na primeira.

Ora, sejamos honestos, eu também me derreto com homens de voz meiga e elogios rasgados a minha comida, é fácil não perceber a exploração que sofremos.

Tudo ali estava errado, a falta de gentileza dele com as sacolas, o fato de não ter ajudado no jantar, o sorriso meigo, mas é como todos, um explorador em tempo integral. E minha amiga gastou o dinheiro dela, foi otária, deveria ter jogado tudo no cartão dele, já que gentileza gera gentileza.

Todos os dias alguma mulher vem me dizer que seu casamento é ótimo, que ela pertence a outra geração e não aceita mais ser explorada, é tudo na igualdade. Mas não é isso que eu vejo na prática.

Romeu foi fofo no final e colocou os pratos na máquina de lavar, mas não levantou a mesa nem ajudou a esvaziar as sacolas.

Ah, vão dizer que eu reparo em tudo, sim, eu reparo, percebo cada movimento de exploração e não me deixo mais seduzir por sorrisos abertos e vozes meigas. Hoje percebo quando um homem não é gentil nem atento, nem se mexe do sofá. E fiquei de olho porque minha amiga é gentil com seu marido, pensou nele o dia inteiro, mas não mereceu nem que ele pegasse as compras.

Achei durante anos que a exploração viesse sempre no chicote e no grito, que se movia nas ameaças, mas errei, esse é apenas um modo de explorar, existem outros milhões, como a meiguice e a aparente ideia de que temos um companheiro, não um marido chato. Somos enganadas com a sensação de que ele é legal porque nos elogia, adora nossa comida e abre o sorriso quando nos vê, mas não percebemos que estamos limpando, comprando, cozinhando e cuidando de um marmanjo que age como um bebê, abre o sorriso e tem nosso coração na mão.

Digo a mesma coisa sempre, deem apenas o que recebem, se o homem não é gentil, não sejam com ele. 

Ah, mas Romeu abriu a porta sorrindo! Sim, como todo o explorador ele é esperto e rápido, sabe que no grito não conquista nada, mas com a voz doce o jantar fica pronto enquanto ele descansa.

Percebam a rede de exploração na qual estão envolvidas, as frases que foram trocadas.

Muitas vezes eu vi alguma mulher na minha família reclamar de toalhas molhadas em cima da cama e os homens respondiam ''não enche meu saco'', ''mulher é pra isso, pra arrumar'', ''tá de tpm?'', ''maldita hora que me casei''.

Sem querer me vi na mesma situação, reclamando da toalha molhada do meu namorado em cima da cama, mas ele já estava um passo a minha frente e respondia ''poxa, mô, não percebi, me desculpe''. A frase era dita com tanto amor que eu derretia ali mesmo, mas o tempo passou e a toalha continuou sendo jogada na cama, de uma maneira sutil ele me dizia o mesmo que os homens da minha família diziam as gritos ''foda-se''.

Não existe casamento sem exploração, não importa a idade, nem condição, homens exploram, são assim até com os recursos naturais, imagine com uma mulher que os ama!

Não existem homens fofos, nem desconstruídos, existem exploradores mais inteligentes do que outros, mas continuam fazendo a mesma coisa, explorando as mulheres.

É fácil perceber isso, é só perceber a falta de gentilezas deles, a voz mansa, o sorriso aberto e os constantes pedidos de desculpas, mas nada muda.

Digo a minha amiga o mesmo que digo a todas, cada vez que você gasta teu dinheiro com alguém que não é gentil, você está rasgando dinheiro. Cada vez que você mima alguém que não te mima, você está sendo explorada.

Cada sorriso que ele abre para disfarçar que não fez nada e nem vai fazer, você está sendo usada.

Vamos começar a encarar a realidade, isso de cuidar da casa, comprar objetos para decoração, pensar na comida do Romeu, tudo é fantasia da nossa cabeça, não existe na deles. Casamentos e relacionamentos são sonhos que vivemos sozinhas, eles não estão ali.
Quando um homem aparece no teu sonho não é para te beijar, é para te explorar. Mas fazer o quê, se continuamos permitindo isso? Sonhamos tanto com Romeu e o casamento que aceitamos o que vem pela frente, e erramos ao pensar que somos mais livres que nossas mães, mais independentes que nossas avós, na verdade nossa situação é pior, porque elas não tiveram chance de correr, nós temos a chance e a consciência do que acontece, mas preferimos ficar e continuar sonhando que somos felizes. E parece sonho, mas é um pesadelo.


Iara De Dupont


Família: não conte com meu silêncio


Não conheço nenhuma situação que se arrume com panos quentes, nem longos silêncios, mas venho de uma família que mantém essa forte crença de não dizer nada, pensando que ao ignorar o principal o problema desaparece.

Respostas são jogadas a uma pergunta, mas sempre evitando uma possibilidade, como uma tia me perguntou ''faz diferença isso agora?''.

Faz, pra mim faz toda a diferença, é o que separa minhas escolhas da genética que persegue a todos.

Uma das minhas tias ficou gravemente doente, indiscrição minha estar escrevendo sobre isso, mas meu desespero diante do silêncio que nos envolve é como um martelo na minha mão diante de um vidro, sinto que se ficar quieta a rede me envolve e acaba me tornando uma delas, coisa que tento fugir cada segundo da minha vida, por não aguentar mais as consequências que envolvem viver sem dizer nada e aceitando tudo.

Ela foi diagnosticada com uma doença degenerativa, o que gerou pânico nas mulheres da família, porque os médicos garantiram que é hereditário e não tem cura.

A família não é muito ligada a médicos, mas foram todas avisadas que essa doença ataca mais mulheres do que homens e deveríamos todas fazer exames para ver se temos ela em andamento nos nossos organismos.

Não discuto crenças nem a fé na ciência, mas diante do pânico gerado, me fiz apenas uma pergunta: é válido voltar a fita e saber o que realmente aconteceu? Ou é melhor fechar os olhos e acreditar que foi o destino genético que surpreendeu minha tia? Os médicos estão certos pensando no futuro de todas ou errando ao ignorar o passado da minha tia?

O que eu quero dizer é o seguinte, uma doença pode aparecer por fatores genéticos ou pode ser consequência de uma vida de stress?

Eu não consegui formular as frases, logo escutei ''lá vem a Iara''.

É, lá vou, é minha tia e quero que melhore, mas preciso de respostas e elas exigem que se coloque tudo em cima da mesa, sem proteger nada nem ninguém.

Minha tia foi surpreendida por uma doença que dizem ser genética, mas ninguém teve ela antes. Ao mesmo tempo sua trajetória mostra que ela foi um ser humano que viveu no extremo emocional sempre, e será que isso não dispara uma doença?

Ela nasceu com uma personalidade sensível, hoje a psiquiatria reconhece que pessoas assim precisam de vidas tranquilas e ambientes seguros, a sensibilidade é vista como uma característica da pessoa, antes era olhada como frescura. Ninguém respeitou seu lado sensível, foi rotulada de introvertida, tímida, medrosa e não era nada disso. 

Teve uma infância conturbada, com um pai irresponsável e diversos episódios de miséria. E isso não era falado antes, mas hoje sabemos que a má alimentação na infância afeta o desenvolvimento da pessoa.

Para seu azar, além da personalidade sensível, cresceu linda e perfeita, também nunca disseram uma palavra sobre isso, digo ''disseram'' pensando na minha família. Penso no acosso  e assédio que ela deve ter aguentado, sendo tão bonita e que tortura deve ter sido passar por isso, já que é sensível.

Mas seu tormento neste planeta não tinha nem começado. Cruzou no seu caminho meu tio, um tipo de bom coração, mas irresponsável, beberrão, enrolado e sem noção de nada. Minha tia se casou, teve filhos e uma vida cheia de altibaixos e episódios de violência, também silenciados pela família, eu sei de algumas coisas porque meu pai me contou, ele via o que acontecia e acabava falando, mas a família sempre ignorou esse lado violento do meu tio, alegando que ele era um ''bom marido''.

Minha tia foi submetida durante anos ao estres, a violência, a problemas causados por um marido irresponsável, que a levou ao limite a vida inteira. Ele fazia dívidas e sumia, ela ficava com a responsabilidade de resolver esses pepinos e muitas vezes não tinha dinheiro nem para comprar comida.

De longe a vida dela me parecia um inferno, imagine de perto. Algumas vezes reagiu e tentou se separar, ele ameaçava com uma arma matar os filhos, o dia que ela não acreditou ele sumiu com um filho e foram meses de busca até encontrar o bebê, que só foi localizado porque minha tia aceitou voltar com meu tio.

No total foram 45 longos anos de tortura física e psicológica, mas nada disso entra no expediente médico como causa da doença, isso é afastado como se fosse uma possibilidade absurda e louca, como disse um médico a uma prima ''A Iara é engraçada com essas teorias da conspiração feminista''.
É, eu sou muito engraçada mesmo, muito e esse assunto é mais ainda.

Ah, sim, eu escutei que não sou médica, mas mesmo assim mantenho minha teoria, um ser humano submetido a diferentes tipos de violência durante quarenta e cinco anos consegue segurar o corpo?
Pra mim não. 

Meu ponto é simples: o que importa é o bem estar da minha tia, mas com tantas mulheres na família, jovens e crianças, temos que ser claras e colocar o assunto na mesa, por mais doloroso que seja, temos que falar sobre as consequências de um matrimônio com uma pessoa agressiva e louca.
Não acho que falar sobre o casamento da minha tia possa mudar sua realidade, mas é importante que todas saibam o que pode acontecer quando se erra de parceiro.

Concordo quando dizem que é um possibilidade que a doença dela seja genética, mas caramba, o que tem de tão ilógico que tenha sido causada pelo stress que sofreu durante seus anos de casamento?

O que me irrita profundamente é sentir o véu protegendo um macho, ignorando que violência sempre traz consequências para quem a sofre, mas como ele era o marido se descarta automaticamente que qualquer gesto dele tenha disparado a doença nela.

Quando se fala em violência doméstica ninguém encosta no ''dia seguinte'', nas sequelas que ficam, emocionais e físicas.

Levando em conta tudo o que minha tia passou no seu casamento é um milagre que só agora o organismo tenha demonstrado exaustão.

Tenho vontade de subir em uma montanha e gritar sobre o que acontece quando uma mulher se casa com um maluco.

Em relação ao diagnóstico que ela recebeu aceito todas as possibilidades, teorias e suposições, sei que o corpo humano é um mistério, mas peço que entendam minha teoria, que levem em conta que não se pode sofrer agressões durantes anos e sair ilesa.

Quero que os homens comecem a ser responsabilizados pela violência que criam, pela maneira como tratam suas esposas, isso tem que ser levado em conta quando uma mulher recebe um diagnóstico tão sério, depois de anos de casada com um perturbado.

Não aguento mais ver como tudo protege o homem, o nome do meu tio não foi mencionado até agora, escuto quando murmuram ''mas o que ele tem a ver com a doença da esposa?''.

Pra mim tudo, tudo, tudo. Minha tia foi vítima dele e existem muitas crianças nessa família para continuar mantendo o silêncio e dizendo que o casamento não tem nada a ver com o desgaste físico que ela sofre.

Minha prima suspirou e disse:

-Seja discreta.

Não vou ser. Não vou ser, não vou ser. A família inteira pode bater o pé e dizer que é uma doença genética, eu continuo dizendo e vou dizer até o último dia, é culpa da violência que ela sofreu e do stress que passou em um casamento com um homem que se envolvia em negócios suspeitos e depois sumia, minha tia foi obrigada a lidar com pessoas que nem Deus se aproximaria.

Uma dia bateram na porta dela, perguntando pelo meu tio. Ele não estava e os três homens armados entraram e sentaram na sua sala, dizendo ''a gente espera''. Ficaram ali dois dias, até que meu tio apareceu.
O que aconteceu durante esses dois dias que minha tia foi refém com seu bebê de seis meses? Não sei, ela nunca disse nada, ignorou o assunto. O que três homens, três bandidos, são capazes de fazer com uma linda mulher de refém? Não sei, tenho vontade de vomitar se alguma ideia cruza minha mente. 

Mas sei que o medo, o pânico, tudo isso desequilibra a mente e adoece o corpo.

Jogar a culpa na genética é fácil, simplifica a vida, mas assumir que todos foram responsáveis pelo o que aconteceu, bom, aí fica complicado. Meu tio contou com o silêncio de todos para cometer os abusos que cometeu, foi protegido pelas frases ''é um bom homem'', ''casamento é para sempre'', ''é uma fase ruim dele, vai passar'', ''nem sempre é fácil estar casada'', ''o importante é que ele ama os filhos'', ''esposas têm que ser fortes''.

Toda a família tem culpa na doença da minha tia, todas ignoram o que ela passou e dizem ser culpa de uma genética familiar, que só apareceu agora, depois de duzentos anos e dez gerações.

Eu digo que vamos continuar tendo culpa da doença dela enquanto ignorarmos o que ela sofreu, continuar mantendo o silêncio e nos recusando a falar sobre o passado dela nos condena mais do que a genética e suas surpresas.

A chave está no passado dela, o nosso futuro está na capacidade de sentar e falar sobre isso, não em negar a situação.

É de todas a tia que mais amo, a que faz mais parte da minha história, por isso digo a minha família, vocês não contam com o meu silêncio. Podem ficar se descabelando no celular, trocando mensagens sobre a importância de fazer exames e tal, eu continuo no mesmo ponto, nossa única saída é falar sobre o passado, entendam que nossa cura está na nossa capacidade de entender nossas escolhas e nos livrarmos delas, caso contrário estamos todas condenadas e o que nos condena não é a genética, mas o silêncio e o véu que vocês insistem em jogar nos homens para protegê-los dos crimes que cometeram.

Iara De Dupont

14 novembro 2016

Almoço na hora do jantar


Quando alguém me pergunta "pra quê feminismo?'', não perco mais meu tempo dando longas explicações políticas e sociais, vou direto ao ponto: para aprender a olhar o mundo.

É apenas isso, um olhar novo sobre o mundo e ao fazer isso nos surpreendemos ao perceber como tudo estava ali, mas não tínhamos sido educadas para ''ver''.

Lembro de ter lido em algum lugar uma entrevista com uma moça francesa, que jurava de pés juntos não ter ''reparado'' em como os judeus em Paris iam desaparecendo durante a segunda guerra mundial. Aquilo me pareceu inacreditável, a moça disse que nunca se perguntou o que estava acontecendo com eles, no meio de uma guerra as pessoas não pensam em tudo que sucede ao seu redor. Essa posição da moça é igual a milhões de europeus quando perguntados sobre porque houve um suposto silêncio em relação ao sumiço dos judeus.

Hoje a explicação da moça me parece normal, consigo entender que não vemos o que não somos educados para ver e conseguimos assimilar situações anormais de maneira rápida, como se não existissem, apenas porque a mente não registra.

Tive que ler apenas uma frase para me irritar profundamente e lembrar momentos da minha infância e juventude debaixo de outro prisma.

Um homem escreveu no Facebook ''domingo, o dia que o almoço sai na hora do jantar''.

Ah, sim, o almoço de domingo.

Venho de família italiana, conheço bem esse ritual. Tantos almoços que fui. A rotina era a mesma, íamos a casa dos meus avós, chegávamos lá e meus tios estavam assistindo televisão, não tinha salgadinhos porque meu avô sofria de pressão alta e não podia comer sal, sua comida era separada, então minha avó cozinhava outra coisa para ele, assim nada amenizava o atraso do almoço, todo mundo ficava com mais fome. O almoço era enrolado e todos os homens reclamavam, cansei de ver eles sentando na mesa de má vontade, exaustos por almoçar as duas da tarde.

Os netos gostavam de bolinhos de carne, minha avó preparava muitos, nunca sobravam. No final do almoço lembro das mulheres da casa recolhendo a mesa, enquanto os homens voltavam a televisão e as crianças se espalhavam pelo lugar.

As reclamações em cima da minha avó eram constantes, da comida que demorava para ser preparada, de que tinha esquecido de fazer gelatina, ou não tinha comprado os chocolates do neto.

Na outra parte da família, minha outra avó sofria a mesma pressão, o domingo era dia da família, mesa farta e netos visitando. A mesma cena se repetia, homens impacientes, reclamando e crianças batendo o pé com fome. Depois do almoço o mesmo ritual, as mulheres arrumando, os homens descansando, e as crianças correndo.

Eu não via, nem percebia o horror da situação, porque não me ensinaram a olhar, apenas hoje percebo como tudo ali era monstruoso e nunca fiz nada a respeito, porque não sabia o que acontecia. Apenas agora, com minhas duas avós enterradas consigo ver como foram escravizadas e usadas por suas famílias de maneira cruel e interrupta.

Há um tempo resolvi fazer bolinhos de banana, porque não cozinho carne e me dei conta de como aquilo ali é chato, monótono e parece que não termina nunca. É quase o mesmo processo dos bolinhos de carne que minha avó fazia, ela comprava e temperava a carne, depois tinha que passar na farinha e fritar, eu compro e tempero a banana verde, passo na farinha e frito. Não consegui me ver fazendo aquilo ali todos os domingos, sem descanso nem ajuda. E minha avó ainda ia na feira de manhã para comprar os ingredientes.

E o chicote? Sim, minhas avós eram chicoteadas o tempo inteiro, recebiam constantes reclamações e viam os homens irritados, não havia incentivo, palavras de amor, nem ajuda, era apenas o chicote e o constante desprezo.

Antes do feminismo eu não via a escravidão, nem os maus tratos, pensava que era um momento de felicidade da mulher estar com sua família e poder cozinhar, só depois comecei a ver as correntes debaixo da mesa.

Minha mãe sempre cozinhou e preparou todas as festas, mas quando voltou a trabalhar não teve mais energia e foi rápida, largou mão de tudo, nunca mais fritou um ovo. Ela era uma escrava fora de série, arrumava tudo em casa, costurava cortinas, fazia pratos maravilhosos e mantinha tudo em ordem, mas só recebia insultos e gestos de impaciência de todos os homens a sua volta.

Tudo que me parecia admirável, a dedicação dessas mulheres a sua casa, o talento na cozinha, tudo caiu no chão quando percebi o quanto eram agredidas e escravizadas sem dó.

Olho para trás sem poder entender como não percebi tanta escravidão, como pude confundir um gesto opressivo com uma demostração de amor, sim, porque me diziam que eu tinha sorte de ter duas avós que cozinhassem para seus netos, sorte em um mundo moderno. Mas nunca perguntei a elas o que pensavam de cozinhar todos os dias e no domingo, aquele dia de descanso, segundo a Bíblia, acordar e cozinhar para a família inteira, sem escutar um ''obrigado'' e ainda levando chicote nas costas.

Me disseram que cozinha é amor e avós fazem isso com todo o carinho do mundo, mas quem faz algo por elas? E por que levar a situação ao limite, quem disse que é fácil cozinhar para vinte pessoas?

Queria poder voltar no tempo, subir na mesa e dizer horrores a todos, principalmente aos homens da família, queria poder mandá-los a cozinha ou que pagassem a pizza, mas que deixassem em paz as mulheres, nem que fosse no domingo.

Mas que mulher pode superar a frase tatuada na alma de ''quem ama cuida, quem ama cozinha?''. Eu tenho uma forte relação com a cozinha e aprendi a me cuidar, porque percebi que pode ser um fator de escravização.

E não é tão simples cortar a corda, vejo pelas minhas tias, que ainda resistem. A nova geração passou reto, a maioria não aprendeu a cozinhar e na sua ignorância se colocou no papel do opressor, minhas primas não sabem esquentar água, mas sabem explorar suas mães e comer. Em datas festivas não ajudam, nem preparam nada, contam com minhas tias fazendo tudo, e como elas ainda estão nesse esquema mental, cozinham tudo.

Minhas tias se irritam, reclamam das sobrinhas que não levantam um copo, nem cozinham. Durante um tempo eu ajudei a lavar a louça, mas um dia estava na cozinha quando minha prima de dez anos entrou e colocou na pia seu prato, disse a ela que lavasse, porque eu já estava lavando a louça de todos e ela respondeu:

-Está lavando porque é trouxa e porque quer, então lava meu copo.

Naquele momento o céu se abriu, entendi a frase e larguei a louça ali, toda ensaboada. Fui a sala e vi meus primos e primas conversando, ignorando a mesa cheia de pratos, a bagunça da casa, enfim, passando o natal como se tivessem empregados e fiquei muito revoltada, fui até onde estavam todos e disse um monte, escutei quando minha tia disse ''na hora de arranjar confusão sempre é a Iara''.
Então fui embora e nunca mais voltei, e sei que nada mudou, minhas tias continuam abrindo a casa a comemorações, compram os ingredientes, cozinham e ninguém ajuda nem a recolher a mesa. E se é no domingo só piora, porque as reclamações sobre o atraso são sempre as mesmas.

E por que mulheres têm que cozinhar no domingo? Porque o homem descansa, é dia de fórmula um e futebol.

Se cozinhar para a família é um gesto de amor por que os homens não podem cozinhar?

Comentei isso com um amigo que me disse ''nossa, você cisma com tudo, o que tem de errado uma avó querer agradar a família?''.

E quem agrada ela? 
Tem de errado que é escravidão e um atestado de fracasso do homem, se ele tem que escravizar uma mulher no domingo é porque não pode pagar uma pizza, então que se vire, se quer uma mulher cozinhando no domingo que pague uma cozinheira.

Mulheres erramos ao pensar que estamos fazendo as coisas por amor, mas estamos amarradas a cordas sociais, nos convenceram que nada é mais importante do que um almoço em família, como se nós fôssemos as únicas responsáveis por todos.

Queremos agradar e deixar todos felizes, mas somos tratadas como lixo, no meio de frases que recriminam e nos diminuem, falam sobre o atraso no almoço, mas não se levantam para ajudar, reclamam da demora, mas não cortam uma cebola.

E nem sei porque escrevi tanto sobre esse assunto, eu apenas queria vir aqui e dizer as minhas avós o quanto eu lamento não ter percebido nada antes, o quanto me fere não ter visto as correntes que as amarravam até em um domingo, queria me desculpar por nunca ter agradecido os bolinhos de carne, nem o doce de chocolate, por jamais ter ajudado a lavar meu prato, nem a guardar o pão no armário.

Me desculpem por nunca ter visto o quanto vocês eram infelizes e estavam cansadas pela maneira que eram tratadas, por todas as frases agressivas que voam na direção de vocês, pela maneira grosseira na qual eram tratadas por todos, em um simples almoço de família, uma porra de almoço.

Não sei se serve de consolo, mas quero que vocês saibam que essa escravidão acabou na geração das minhas tias, elas ainda são escravas, mas suas filhas conseguiram romper o padrão. Não me parece inteligente repetir o comportamento do opressor, mas deve ser melhor do que ser agredida.

Me desculpem por ter acreditado que eram almoços de família, quando para vocês era apenas mais um dia na prisão.

Sei que acordei tarde demais, mas entendi e consegui ver o que ainda acontece em muitos lugares.
Hoje eu sei que não é o almoço, nem o jantar, é sobre não permitir ser escrava de ninguém, nem dos homens, nem dos netos, é sobre ser livre. E quando somos livres, almoço e jantar não tem hora, é a gente que decide se vamos ou não comer.

É sobre entender que família não pode ser prisão para uma mulher, nem um almoço deve ser motivo de piadas e agressões. E tudo deve obedecer a lei do merecimento, se a família merece, então a gente cozinha, caso contrário não esquentamos nem água, se vamos ser agredidas.

E se os homens estão tão preocupados com o horário do almoço no domingo, que se levantem da cama e cozinhem.

E pode parecer que jogar as panelas no chão e dizer ''chega'' é falta de amor à família, mas na verdade é um gesto de amor própio. Chega.



Iara De Dupont

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