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14 fevereiro 2017

O quarto da cozinha (história da minha abuelita)


No fundo da cozinha da minha abuelita tinha um quarto, logo depois de onde ficava a parede com o fogão. Pensando bem, acho que era uma espécie de despensa, mas como tinha um bom tamanho e muitas pessoas viviam naquela casa, virou um quarto, colocaram uma cama e umas prateleiras.

Era um lugar abafado, pelo calor constante do fogão, a parede não segurava o ar quente e a janela era pequena. 
Mas uma coisa aprendemos desde pequenos, não era lugar para entrar, isso porque às vezes algum conhecido dormia por lá e minha abuelita não deixava as crianças brincarem ali.

Uma visita frequente era a Benita, a senhora da esquina, ou pelo menos era assim que minha abuelita a chamava, cansei de ver ela ali, eu usava umas fitinhas vermelhas no cabelo, ela me via e dizia:

-Oi, menina das fitinhas vermelhas no cabelo!

Acho que ela dizia isso porque eram muitas netas, nove, e ela não deveria saber o nome de todas.

Voltando de algum lugar à noite, debaixo de chuva, minha abuelita viu uma senhora tremendo de frio, que ela conhecia de vista porque estava sempre nas esquinas do bairro pedindo esmola. Não era uma questão de tempos, minha abuelita era assim, não podia ver uma alma em apuros que ajudava e na hora ofereceu a essa senhora o quarto da cozinha.

A senhora disse seu nome, Benita, e acompanhou minha abuelita até em casa, lá tomou banho quente, se trocou, comeu e dormiu.

No dia seguinte saiu de manhã, comprou pão, voltou e ao ver minha abuelita na cozinha se ajoelhou diante dela e começou a agradecer pela hospedagem. Essa cena quem me contou foi minha tia, dizendo que precisaram de duas pessoas para ''levantar'' a Benita, que se recusava a se mexer, queria continuar ajoelhada.

Benita contou que era uma mulher doente, velha e sem instrução, por isso pedia esmolas nas ruas. Minha abuelita disse a ela que não poderia dar abrigo permanente, mas sempre que estivesse frio, chovendo ou ela não pudesse voltar a sua casa, vivia em um pequeno povoado perto dali, ela poderia pedir abrigo a minha abuelita.

Ela levou à sério o convite e durante seis anos foi uma hóspede constante em dias de chuva e frio.

Minhas tias não diziam nada, mas elas escutavam quando no meio da noite Benita chegava, ela ficava até bem tarde da noite nas ruas, esperando as pessoas saírem dos bares para pedir esmola.

Um dia Benita disse que seu filho iria se casar, ela faria uma humilde festa em seu ''casebre'' e queria convidar a minha abuelita para ser madrinha e queria que toda sua família fosse junto.

Nós fomos. Não lembro bem da viagem, éramos muitos primos, eu era muito pequena, tenho lembranças do lugar, enorme, com jardim, muita comida e música, mas o que ficou marcado foi o dia seguinte, quando escutei minha abuelita e tias rindo sem parar, falando sobre o casamento.

Benita era viúva, mãe de quatro filhos, o marido deixou um terreno e ela pedindo esmolas durante décadas juntou uma fortuna, o suficiente para construir uma casa de três andares com piscina e quadra de tênis. Isso surpreendeu a todos, que esperavam que ela fosse uma pessoa ''humilde e sem recursos''. Lembro que antes de ir ao casamento minha abuelita fez uma lista enorme para os netos, fomos orientados a aceitar tudo o que nos oferecessem, a não fazer cara feia, nem achar nada estranho.

Minha abuelita sabia que todos os netos tinham crescido com o básico, casa, comida, água, mas ela não tinha tido acesso a nada disso, sua família era miserável e cada vez que íamos visitar os parentes éramos orientados a não fazer perguntas nem dizer nada, ela nos controlava com o olhar.

Uma vez me levaram para visitar sua prima, um lugar abaixo da linha da miséria, lembro que cheguei lá e pedi para ir ao banheiro, minha abuelita me puxou pelo braço e me tirou da casa, um lugar construído com tábuas de madeira e disse ''aqui não tem banheiro'' e eu perguntei ''mas eles não fazem xixi?''. 
Não lembro como a situação foi resolvida, mas ficou claro para mim, desde pequena, que desobedecer minha abuelita não era boa ideia, até minha mãe tinha medo dela.

A história do casamento do filho da Benita virou uma grande piada na família, até hoje rolam de rir com essa história, minha mãe sempre conta sobre a cama de madeira talhada, passamos a noite ali, em um quarto gigante, o quarto da Benita. Minha abuelita na época que a ajudou se envolveu com ela, a levou no médico, deu roupas, até quis conseguir um emprego para ela, que não aceitou porque ganhava mais pedindo esmolas nas ruas.

Isso influenciou a todos, porque sempre que alguém da família via alguém pedindo dinheiro na rua dizia ''eu não dou, deve ser como a Benita, pedindo dinheiro para limpar sua piscina''.

Não foi a única vez que fomos a sua mansão, também teve a formatura do neto médico e da neta advogada, o que foi um alívio para meu avô, porque ele era advogado e vivia tirando a Benita da delegacia, no México era proibido pedir esmola nas ruas, ela era levada pela polícia e ligava para meu avô dizendo ''Dom Manuel, eu fui presa, mas o senhor sabe que eu não peço dinheiro na rua, é que as pessoas ficam com pena, me dão dinheiro, e eu aceito, o senhor pode me tirar daqui?'' . E lá ia meu avô.......

Eu lembro das bolsas de pão, no México as padarias são diferentes, eles têm uma preferência maior por pães doces e compram muitos. Várias vezes lembro de ter visto bolsas gigantes de pães doces na mesa e ter escutado minha abuelita dizer ''a Benita que trouxe'', ou seja, ela contribuía com algo.

Depois do casamento Benita sumiu um tempo, estava descansando, mas voltou às ruas e pediu para dormir na casa da minha abuelita. Ela deixou, mas no dia seguinte, assim que Benita foi embora, o circo pegou fogo, minhas tias não concordavam mais com o fato dela ficar ali, a família da minha abuelita nunca teve boas condições econômicas, todos trabalhavam, colocavam dinheiro na casa e começaram a achar injusto dar abrigo a uma senhora que poderia pagar um hotel.

Minha abuelita bateu o pé, disse que Benita era sua amiga e ponto, mas minhas tias moravam ali e não queriam mais a senhora no quarto, achavam que ela não precisava da ajuda que recebia.

Em algum momento as coisas devem ter esquentado, porque a Benita parou de levar as bolsas de pão e minha abuelita contou a ela sobre minhas tias, que não a queriam ali, mas tinha tido uma ideia, cada vez que fizesse frio ou chovesse, minha abuelita deixaria a porta da casa aberta, Benita entraria em silêncio e ficaria no quarto, no dia seguinte iria embora antes de que todos acordassem.

E assim ficou combinado. Minhas tias logo perceberam o truque, porque a luz do quarto da cozinha quando era ligada dava reflexo no corredor, mas não disseram nada.

Mas se minha abuelita impunha a lei do silêncio na sua casa, minhas tias não faziam nada diferente, até hoje são assim, não confrontam ninguém, nem sobem o tom de voz. 

Ninguém disse nada, mas um dia Benita chegou e meu avô reclamou, disse a ela que se era para passar a noite ali que levasse pelo menos Whisky. Ela saiu e voltou com a garrafa mais cara que encontrou. Sentou na mesa com meu avô e disse a ele, na frente das filhas:

-Você não merece a mulher e mãe que tem nesta casa. Eu tenho quase setenta anos e peço esmolas desde menina na rua, já apanhei, já fui presa, já me jogaram coisas na cara e nunca me deram mais de dez reais, sempre me dão as moedas que sobram, que não fazem falta. As pessoas fingem que não me veem, evitam, cruzam a rua, fazem cara de nojo. Te digo que tenho pelo menos 65 anos de rua, de canto a canto, e nunca ninguém parou para falar comigo. Tua mulher parou, me emprestou o guarda-chuva, ofereceu abrigo, me trouxe aqui, me deixou usar o chuveiro de vocês, me deu comida, me tratou como gente. Em 65 anos de rua nunca tinham me tratado como gente.

E meu avô respondeu:

-E pra quê essa lenga-lenga, você ficou rica, está reclamando do que?

-Fiquei rica porque guardei cada centavo que me deram, nunca gastei, a única coisa que eu queria era uma casa para meus filhos, não queria morrer sem dar a eles um teto, e pelo menos um pouco de estudo, porque eu não sei nem ler, eles não sabem que peço esmola, pensam que trabalho na cidade limpando banheiros. E não foi fácil juntar cada centavo, aguentei até gente me cuspindo.
Sempre vou ser grata a sua esposa, não apenas pela cama e banho, mas porque me viu como uma pessoa, viu um ser humano que dormia encolhido debaixo da chuva para não gastar com o ônibus de volta para casa. 
Por isso que fiquei rica, porque não gastava nem em comida, dormia na rua, e esperava a padaria abrir, ia lá ver se tinham pão amanhecido e pedia que me dessem. E sabe por que faço isso? Pelos meus filhos, porque de onde venho é assim, se você pode dar pão a eles, você dá, se você não pode dar nada a eles, você dá tua vida. Cada dia que durmo nas ruas e peço comida é um dia a mais para eles, levando a vida que merecem, com uma casa quente e comida boa. A única coisa que posso dar a eles é minha vida, eu me sacrifico para que eles não conheçam a miséria que eu conheci. Quem não tem pão para dar aos filhos, dá o sangue.

Meu avô se irritou com a conversa e parece que acabou ali. Mas Benita antes de se levantar disse a ele ''sempre vou agradecer o gesto da tua esposa, nunca vi nada assim na vida, ela mudou a ideia que eu tinha das pessoas, me fez acreditar que tem gente boa nesse mundo, depois de 65 anos de rua''.

Depois disso meu avô e minhas tias pararam de falar sobre esse assunto, se minha abuelita queria dar abrigo a uma rica, durante dias de chuva, bom, que o fizesse. E assim se passaram meses, no inverno Benita aparecia todas as noites. Mas ela era reservada, não aceitava jantar com eles, não se sentava no sofá, passava rápido ao quarto e dormia.

Começou a temporada de chuvas e ela ia direto. 
Mas minha abuelita notou uma mudança nela, chegava de madrugada, empurrava a porta, dizia ''boa noite'' e passava correndo ao quarto.

Minha abuelita era uma escrava da casa, por isso ficava acordada as madrugadas, era o único momento que podia estar quieta lendo suas revistas, ficava na mesa da copa, e escutava quando Benita empurrava a porta da casa e entrava correndo para a cozinha, para não ser vista. Algumas vezes minha abuelita estava cozinhando, Benita se aproximava para ajudar e puxava conversa, ficavam as duas mulheres ali sussurrando.

Mas minha abuelita era uma águia, percebia qualquer movimento fora do lugar e um dia convocou a família inteira, queria saber quem tinha sido mal educado com Benita, porque ela entrava na casa e corria para seu quarto, não falava mais com minha abuelita e ia embora antes do amanhecer.

Todo mundo negou ter dito ou feito algo a Benita, ninguém sabia que ela continuava frequentando a casa, de tão quieto que tudo estava. Minha abuelita ficou magoada com isso, tinha certeza que alguém tinha sido grosseiro com Benita.

Mesmo assim Benita continuava aparecendo e se fechando no quarto, minha abuelita disse que morria de vontade de perguntar porque ela estava chateada e não falava mais, mas ficou com receio de escutar que suas filhas e marido tinham sido mal educados, então resolveu não perguntar nada.

De vez em quando a via nas ruas, pedindo esmola, mas não se atrevia a interrompê-la.

Umas semanas depois o filho de Benita ligou para minha abuelita, procurando a mãe, perguntou se sabia onde estava. Minha abuelita estava na cozinha, na noite anterior e viu quando Benita entrou, então avisou o filho que sua mãe deveria estar na cidade, e já voltaria a casa. Mas o filho falou que a mãe ia duas vezes por mês para casa e agora tinha quase três meses sem aparecer.

O filho achou melhor ir à cidade, conversar com minha abuelita. Ninguém sabia como dizer a ele que a mãe pedia esmolas, mas como começaram a procurar em hospitais e necrotérios, tiveram que contar a história que sabiam, que Benita morava na rua e pedia dinheiro. O rapaz entrou em estado de choque, mas teve que se recompor e ajudar a procurar Benita.

Foram duas semanas, com minha abuelita e meu avô revirando os necrotérios e todos os lugares, até hospital psiquiátrico.

A única certeza que eles tinham eram a data, minha abuelita lembrava o último dia que tinha visto Benita em casa, então seriam poucos dias que ela teria de sumiço, mas o filho insistia no período de três meses.

Conseguiram pistas que os levaram a um cemitério de indigentes, pesquisaram pelas datas e viram que uma senhora de setenta anos tinha sido enterrada há três meses, depois de ter ficado um mês no necrotério. 

Foram atrás de uma ordem de juiz para desenterrar, ver se podiam reconhecer. Minha abuelita reconheceu a roupa de Benita, porque era uma que ela tinha dado. Nos bolsos de Benita tinha uma santinha, da devoção da minha abuelita, a Nossa Senhora das Graças.
Benita morreu de pneumonia, deve ter se sentido mal na rua e não teve tempo de pedir ajuda, foi levada a um hospital, mas deve ter sido maltratada, como todos os indigentes são, e isso deve ter acelerado sua morte.

Os filhos deram um enterro de rainha, minha abuelita não foi convidada porque veio à tona um ressentimento deles com ela, o fato dela nunca ter avisado os filhos que a mãe deles dormia nas ruas.

Minha abuelita nos dizia que Benita pediu a ela que nunca contasse nada aos filhos, disse ''se eles não morreram de fome, não quero que morram de vergonha''.

As datas não batiam, se Benita tinha morrido há quatro meses, como era possível que minha abuelita há tivesse visto há duas semanas na cozinha?

O assunto foi encerrado, todos pensaram que era uma confusão de datas, até que meu tio estava no corredor da casa quando viu a luz do quarto da cozinha ligada. Foi lá, viu que não tinha ninguém e desligou. Isso aconteceu durante umas semanas, justo as semanas de inverno.

Minha abuelita continuava deixando a porta da casa aberta, e escutava quando a empurravam de madrugada, todos concluíram que era o fantasma da Benita.

Uma das minhas tia resolveu levar uma amiga médium, mas minha abuelita interrompeu a sessão, ficou possessa quando soube que queriam saber se era a Benita que empurrava a porta da casa de madrugada. Minha abuelita disse:

-No que afeta vocês? Ela não faz mal a ninguém, se a alma dela encontrou paz e abrigo no quarto da cozinha, deixem ela lá!

Ficou decidido que Benita poderia continuar frequentando o quarto, mesmo morta. Não era problema de ninguém.

Quando eu penso nessa história percebo o quanto minha abuelita gostava de Benita, algo viu nela, porque sempre manteve a ideia de que o fantasma de Benita era bem vindo na sua casa.

Acredito que Benita foi sincera no primeiro dia que se ajoelhou e beijos os pés da minha abuelita, eu não consigo entender o tamanho do coração da minha abuelita para abrir sua casa a uma estranha, em um dia de chuva.

O quarto foi de Benita até que chegou Glória, uma moça do interior, que se mudou para ajudar minha abuelita com as tarefas da casa. Ninguém disse nada a Glória, mas minha abuelita percebeu que ela jogava um colchão no chão e dormia ali. Perguntou o que era e Glória respondeu ''é que todas as madrugadas uma mulher vem, se senta na beira da minha cama e não me deixa dormir, ela ocupa a cama inteira, cansei de dizer para ela ir embora, mas ela disse que não vai abandonar a senhora, que deu abrigo a ela em um dia de chuva''.

Ah, a Glória, tenho saudades dela, era muito engraçada, vinha de um lugar distante, não sabia falar bem espanhol, mas como qualquer mexicana sabia lidar com os mortos, não tinha medo, falava cara a cara com todos.

Minha abuelita contou a história a ela, Glória disse que iria conversar com a Benita, tentar convencê-la de dormir no colchão no chão e deixar a cama para ela. Mas não deu muito certo, até que minha abuelita teve uma ideia, ela tinha um sofá no quarto dela, cheio de coisas em cima, tirou tudo, colocou uma manta e disse ''Benita, quando você vier aqui em casa, deixa a Glória no quarto, e dorme aqui comigo''. 
Depois disso Benita parou de sentar na beira da cama da Glória.

Anos depois teve o pior terremoto que a Cidade do México já passou, o quarteirão inteiro foi devastado, apenas o prédio onde morava minha abuelita ficou em pé.

O terremoto foi de manhã, muito cedo, minha tia estava dormindo com sua filha, em um quarto cheio de prateleiras, ela sentiu quando Benita a acordou e disse ''pega a menina e corre'', ela se assustou, pulou da cama, pegou a menina e saiu do quarto, no momento que fez isso o terremoto começou e as prateleiras voaram na direção da cama da minha tia, se ela não tivesse pulado antes, teria morrido soterrada. Minha abuelita também dormia quando sentiu uma mão a puxando, acordou e viu Benita, que disse para que ela se levantasse, Benita gritava desesperada ''senhora, senhora, tem que sair daqui, tem que sair daqui'' e foram todos atrás da Benita, descendo uma escada que tremia, enquanto o prédio rachava por todas as partes. Conseguiram chegar na rua, onde começaram a correr para fugir dos escombros que caiam ao redor.

Minha abuelita disse que só depois de dias, quando o choque passou, lembraram que Benita estava morta há anos, mas na hora ninguém lembrou, tamanho susto.

Uma vez perguntei a minha abuelita se não tinha ficado com medo da Benita e ela respondeu:

-Era tão forte o barulho da cidade caindo que não lembrei que Benita estava morta, mas mesmo que tivesse lembrado não teria mudado nada, eu ainda a teria seguido pelas escadas, não podíamos ver nada pela poeira que se levantava, só lembro dela me segurando. E amor de morto é igual a amor de vivo, não te abandona, eles seguram tua mão do mesmo jeito que seguravam quando estavam vivos. Não tenha medo do amor de um morto, eles não abandonam quem os ama. E aprenda a receber o amor de todos que te amam, vivos ou mortos, não faz diferença, precisamos dos dois para viver. E não duvide nunca da gratidão de alguém, a pessoa atravessa penhascos se precisar, para agradecer o que recebeu.

Passaram uns meses, a cidade começou a se levantar de novo e minha abuelita decidiu ir a casa de Benita, mesmo sabendo que não era bem vinda. Foi até lá mas o ressentimento dos filhos não tinha passado, não a quiseram receber, nem dizer onde a mãe estava enterrada.

Minha tia me contou que minha abuelita ficou na porta da casa, a filha se recusou a abrir, então minha abuelita disse:

-Eu só vim agradecer tua mãe, queria deixar umas flores no seu túmulo, mas tudo bem, eu vou rezar por ela assim mesmo.

E a filha perguntou o que minha abuelita queria agradecer e ela disse:

-Queria agradecer porque um dia vi tua mãe debaixo da chuva, pensei, meu Deus, como é que pode uma senhora estar nesse frio, na chuva, tremendo? A tirei de lá e a levei para minha casa e vinte anos depois ela viu que minha família iria morrer debaixo de escombros, foi lá e nos tirou a todos. Só queria agradecer a ela, dizer que não faz diferença se estamos debaixo de chuva ou de escombros, todos sempre precisamos da ajuda de alguém.



Iara De Dupont

31 janeiro 2017

Um passo atrás


Muitas coisas acontecem em ensaios de peças de teatro. Em geral são horas e horas fechados em uma sala, lendo textos, fazendo exercícios, falando a respeito. Tudo isso gera um ambiente que se parece a uma montanha russa, tanto pode descer, quanto subir ou se estabilizar. Mas é normal que pelo cansaço alguns atores se irritam uns com outros, principalmente os de memória mais lenta. Sempre existem aqueles atores que decoram rápido os textos e ficam impacientes com os mais lentos, isso gera atrito e os diretores são obrigados a contornar  a situação.

Um diretor era muito educado e sempre pedia aos atores mais exaltados que dessem um passo atrás, uma maneira elegante de dizer que esfriassem a cabeça. Então ele pedia para analisar a situação, ficou como uma marcação dele, qualquer dúvida dávamos um passo atrás, uma maneira de sinalizar que não estávamos entendendo a situação e tentávamos  ter outra perspectiva.

Nunca apliquei isso na minha vida, mas já escutei sobre a importância de fazer isso em todas as decisões, dar um passo atrás e ter um panorama neutro, avaliar de maneira fria o que está acontecendo.

A primeira indicação desse diretor era sempre dar um passo atrás para avaliar as coisas, sem agir impulsivamente e depois antes de criticar o colega, o ator ou atriz a nossa frente, deveríamos nos colocar nos sapatos deles e nos perguntar ''eu faria a mesma coisa?''. Isso simplificaria tudo e evitaria desgastes, caso a pessoa fosse honesta e reconhecesse o que pensava fazer.

Por exemplo: em um ensaio uma atriz se irritou comigo, ela mudou o texto e eu me perdi, caso estivesse mais concentrada teria percebido que ela deve ter esquecido as linhas e deu uma improvisada, mas eu estava focada no texto e não a alcancei. Isso fez ela perder a paciência e aquilo acabou em uma discussão. Se ela tivesse se afastado da situação e se colocado nos meus sapatos, teria entendido que eu estava mentalmente fechada no texto e não fui rápida para perceber a improvisação dela.

Quando nos afastamos da situação e pensamos com os sapatos dos outros podemos perceber ou ter uma noção mais clara das atitudes da outra pessoa, podemos analisar com mais calma as decisões alheias.

E nunca pensei nessas indicações teatrais como algo que poderia me ajudar na minha vida amorosa, mas foi assim que aconteceu.

Como todas as mulheres fui educada para receber migalhas de amor e achar isso ótimo, pensar que eu era amada, quando estava sendo usada e que eu era querida, quando estavam comigo apenas por conveniência.

E a primeira pessoa que me deu o alerta foi a mãe do Romeu, que não gostava de mim. Um dia ela conversava comigo, me disse que eu era meiga, muito preocupada com seu filho. Eu confirmei e disse que ele também era legal, eu tinha sorte dele estar comigo e ela respondeu:

-E por que não estaria? Você é um doce, cuida bem dele e ele é inteligente, sabe o que lhe convém.

Não entendi a mensagem na hora, mas registrei. Mais tarde corri para conversar com uma amiga mais velha, tentando decifrar o que a mãe dele tinha dito e minha amiga respondeu:

-Olha, não duvido que goste de você, mas fica no lugar dele, uma mulher como você é super conveniente, você ajuda ele em um monte de coisas, ele pode ficar para dormir na tua casa e ainda por cima tem sexo, não pode ficar melhor!

Mas ele gosta de mim.......

-Não duvido que goste, mas quando alguém facilita nossa vida, nos convém, a gente aprende a gostar.....

Em algum momento deixou de ser vantajoso porque ele terminou o namoro, mas eu não esqueci desse episódio.

E agora vejo essa situação com uma amiga. Ela se casou e o marido parece uma pessoa legal, mas de repente comecei a perceber alguns detalhes estranhos. Ele grudou nela, fica difícil ter acesso, cortou as linhas e dá a impressão de ser possessivo.

Consegui conversar a respeito disso com ela, mas ela me garantiu que ele é carente, é seu jeito de amar, apenas isso.

Analisando a situação com calma me parece um pouco pior. O rapaz veio do interior, conheceu a moça no trabalho, mas o pai dela é dono da empresa. Namorar a herdeira da empresa, ainda por cima bonita e boa pessoa, seria o mais conveniente a se fazer para alguém que chegou na cidade com a roupa do corpo.

Gosto da ideia do amor eterno, das almas que se encontram e se reconhecem, mas a vida real é mais dura do que isso. Minha amiga pensa que é amor e quem sou eu para dizer o contrário? Pode ser, por que não?

Mas tentar ver a situação por outro ângulo não mata ninguém. E pra quê mentir, mulheres temos essa mania de facilitar a vida dos homens, para eles somos convenientes.

Penso de outra maneira hoje, sempre me pergunto ''que tanto ele gosta de mim, que tanto é conveniência?''. Analiso com calma e penso como seria se eu tirasse uma por uma das facilidades que coloco em sua vida, ele ainda ficaria comigo? 
Não é sair batendo portas, mas reconhecendo se estamos recebendo migalhas enquanto Romeu fica porque para ele é conveniente.

Homens encostam, não é segredo de estado isso e nós, mulheres, somos educadas para pensar que um homem encostado é um gesto de amor, poxa, ele quis ficar comigo! E valemos tão pouco assim?

É claro que se responder algumas perguntas tem um custo, é necessário coragem para pensar se Romeu está conosco por amor ou porque sua vida é mais fácil, ninguém quer pensar isso, todas negamos a verdade e nos escondemos dela, mas um dia ela vem à tona.

Amor é matemática e os números precisam fechar, não é um problema em aberto em todas as equações, precisamos dos números que combinam e fecham.

Em um dos últimos relacionamentos que tive fiz essa conta depois que tudo terminou e percebi como era bom para Romeu me ter em sua vida, eu era a roda que fazia tudo girar, estar comigo era deitar na sombra. Doeu muito perceber isso, mas ao mesmo tempo foi uma revelação, me fez acordar e entender que eu mereço amor, não migalhas em troca de tudo o que dou.

É uma conta simples, a gente dá um passo atrás, analisa a situação, se coloca nos sapatos do outro e nos perguntamos ''eu sou ele, então o que me convém ao estar com ela ou é amor?''.

O pior? É que sabemos a resposta. O melhor? É que ela liberta.
Nós mulheres merecemos ser amadas de maneira completa, integral, sem migalhas, não merecemos ser tratadas como seres que facilitam a vida dos homens. Não somos bonecas, nem brinquedos vivos, merecemos o amor que respeita.


É hora de analisar o amor com a frieza que se precisa, é necessário dar um passo atrás e se colocar nos sapatos do outro, porque a vida não é sobre ser conveniente a alguém, mas ser respeitada e amada por quem amamos.



Iara De Dupont

24 janeiro 2017

História da abuelita: o tesouro de Eleonor


Recentemente uma amiga me contou que teve que levar sua filha ao psicólogo porque durante as férias resolveram ir à uma cidade de barco, houve um problema no motor, todos se assustaram e tiveram que ser retirados em botes de salva vidas. Ela ficou preocupada com a menina, não sabe a extensão do trauma, apesar da menina, pela idade, menos de cinco anos, aparentar nem ter percebido o que aconteceu.

É recente essa pressa em resolver os traumas em uma criança antes de que eles encontrem espaço na vida delas.

Na época da minha abuelita não existia isso, a pessoa crescia no chicote, engolindo trauma, chorando em silêncio. Talvez por isso ela contava tantas histórias, hoje penso que era sua maneira de entender o que tinha visto e sofrido durante a revolução mexicana. Ela tentava colocar ordem nos seus pensamentos pelas histórias que contava, dava lógica ao seu sofrimento, aliviava sua dor e era assim que entendia a vida.

Uma vez comentei a ela sobre uma dúvida, tinham me convidado para fazer parte de um grupo de teatro, mas eu não tinha certeza de que era boa ideia, porque já fazia parte de outro, então, o que deveria ser feito? Seguir o grupo que me convidou?

Ela podia ter dito ''siga seu coração'', mas na sua mente e vocabulário essa frase simplista não existia, o que ela tinha para me dar era uma explicação mais longa sobre seguir nossos instintos.

Eu não sei se devo ou não seguir o grupo que me convidou......

-Eu lembro da Eleonor cada vez que alguém diz isso.....

Ah, Eleonor! Meu pai diz que foi um acidente, que o terreno é montanhoso e cheio de perigo, isso teria acontecido a qualquer menina de sete anos que ficasse de um lado para o outro sozinha......

-A gente conhecia cada pedra do caminho, passávamos horas caminhando por ali, procurando comida, água, a Eleonor conhecia o lugar, ela foi empurrada.

Mas por que deixaram ela ir?

-Porque não tinha ninguém para perguntar, as crianças eram as únicas que podiam sair do esconderijo para procurar comida.

O esconderijo era debaixo de uma cachoeira, em plena revolução mexicana, o maior confronto que o México já teve, o governo jogando os militares em cima dos revolucionários, que lutavam por terra para todos. Minha avó tinha sete anos quando isso começou, viu a vila que morava desaparecer depois que os militares colocaram fogo, mas ela conseguiu escapar com algumas pessoas e sua mãe, passaram meses escondidas comendo mato e bebendo água do rio. No meio de tantas terras estavam as grandes fazendas, centro da luta social, mas os donos foram obrigados a abandoná-las, então as crianças passavam por lá tentando achar comida, mas nem sempre dava certo porque o exército ficava por ali.

Eleonor era uma das meninas de sua vila, irmã de outra amiga de minha abuelita, a Socorro.

Uma noite Eleonor saiu do esconderijo à noite e voltou apenas de manhã, dizendo que um fantasma a chamou e disse que era para segui-lo, ela foi e ele mostrou um lugar, indicando que ali havia um tesouro.

Naquele momento as histórias sobre os tesouros circulavam por todos os lados, os donos das fazendas assustados com a revolução e desesperados para irem embora, sabiam que se levassem seu ouro e joias, seriam interceptados no caminho, fosse pelos militares ou revolucionários, então começaram todos eles a enterrar perto de suas propriedades seu ouro.

Mas nem todos usavam um truque antigo, que se aprende no México desde que a pessoa nasce: ao enterrar um tesouro temos que deixar um fantasma da família cuidando dele, temos que pedir que não deixe ninguém se aproximar, que esse ouro só chegue as mãos de familiares, nunca de estranhos. E deixamos um agrado no lugar, para que o fantasma cumpra a missão. 
Esses agrados que podem ser comida ou objetos, já ajudaram muita gente a encontrar um tesouro escondido.

Eleonor insistiu com sua mãe que sabia onde estava o endereço, e as duas foram lá ver. Quando chegaram perceberam que tinha uma árvore, com um balanço. Com certeza o tesouro estava ali, mas não poderiam fazer nada porque a família tinha deixado um fantasma cuidando, com seu propio balanço.

Minha abuelita contou que ela, Socorro e Eleonor decidiram voltar ao lugar à noite, para ver se encontravam o fantasma. Não viram nada, apenas o balanço que não parava de se mexer. Socorro e minha abuelita voltaram para o esconderijo, mas Eleonor ficou. Ela tinha apenas sete anos, mas a sua maneira entendia o horror que estava vivendo e sabia que se achasse o ouro poderia partir com sua mãe.

No dia seguinte Eleonor voltou e disse a minha abuelita que iria desenterrar o tesouro, precisava fazer isso, mas seria boa ideia seguir o fantasma? 
Demorou para se decidir, resolveu arriscar, mas precisaria de ajuda. Pediu a duas mulheres que fossem com ela e todas se animaram. Partiram em direção ao tesouro.

Chegando lá passaram a tarde toda escavando, mas em algum momento a pá bateu com uma superfície dura, nessa hora perceberam que tinham achado o tesouro. De repente um barulho de cavalos as assustou, correram para se esconder e esperar que passassem. Uma das senhoras concluiu que eram cavalos fantasmas, deixados ali para proteger a fortuna da família até que ela voltasse. E a pior dúvida de todas surgiu: como saber se o fantasma que Eleonor seguiu era bom ou ruim?

Diante do dilema decidiram que era melhor não levar o tesouro naquele momento, já sabiam onde estava e seria melhor voltar no dia seguinte.

No outro dia Eleonor desapareceu e todos se organizaram para encontrar a menina, pouco tempo depois seu corpo apareceu em um penhasco, dizia sua mãe que o fantasma a levou e a empurrou.

Mas nada disso parou a ambição das mulheres, mesmo com a menina morta decidiram voltar pelo tesouro. E cavaram, cavaram, mas nunca encontraram  nada, ficaram pensando que talvez alguém as viu e o levou à noite.

Algumas semanas depois o fantasma de Eleonor apareceu para minha abuelita. A menina contou que o fantasma tinha ficado bravo com ela, que o tesouro era para ela, não para as outras, que eram ambiciosas e iriam roubar a menina. Minha abuelita perguntou se poderia achar o tesouro, Eleonor disse que não e sumiu. Para sempre.

Minha abuelita correu para contar a sua mãe sobre a visita de Eleonor, a mãe assustada colocou a menina em um cavalo e a levou até uma igreja, tudo isso acontecendo no meio de uma revolução. Lá o padre conversou com a menina, explicou que não existem fantasmas. Mas um senhor que limpava a igreja escutou a conversa e seguiu minha abuelita e sua mãe na saída, se aproximou dizendo:

-Tesouros não são tão simples, vocês têm que perguntar aos fantasmas o que eles querem em troca, como uma oferenda, se você não deixar nada e levar o tesouro, eles vão te perseguir a vida inteira.

Tudo isso deve ter feito um buraco enorme na cabeça da minha abuelita, os tesouros que todos sabiam que estavam em alguma parte, a miséria, a fome, o medo, era muita coisa para uma menina digerir. E de repente minha abuelita disse que estava dormindo quando uma senhora se aproximou dela e disse que a fosse seguindo, a levaria até um tesouro. Minha abuelita cobriu a cabeça e fingiu dormir, até que a senhora desapareceu.

Foi assim durante dias, minha abuelita tinha medo de morrer como Eleonor, sabia também que era pequena e não poderia achar o tesouro sozinha, assim teria que pedir ajuda e poderia acontecer a mesma coisa que tinha acontecido com Eleonor, morrer no penhasco, porque não poderia dividir o tesouro com outros.

Contou tudo a sua mãe, que cansada dessas histórias mandou que a menina parasse com isso, se tinha tesouro ou não, era passado.

Foi assim até o fim da revolução, minha abuelita dizia que a senhora se sentava ao seu lado no chão, à noite e dizia para que a acompanhasse até o tesouro, minha abuelita mantinha os olhos fechados e fingia dormir.

Muitos anos se passaram, minha abuelita se casou, teve filhos e morava em um sítio, ficava ali jogada, à mercê de um marido irresponsável. A situação ficava cada dia pior, eles passavam fome, todos os tipos de necessidades. Até que um dia, minha abuelita contou, estava dormindo quando sentiu que sentaram na sua cama, na hora abriu os olhos, pensando ser um dos seus filhos, mas viu a mesma senhora de anos atrás, que disse ''Esperança, você precisa desse tesouro, me deixe te levar a ele''. Ela fechou os olhos e começou a rezar. Já sabia naquela época que os maus espíritos aparecem vestidos de bons.

E como chegar ao tesouro? Não estava tão longe do lugar onde tinha nascido, mas como levaria os filhos?

Rezou durante noites, até que a senhora não apareceu mais. Minha abuelita nunca esqueceu dessa história, contava ela com lágrimas nos olhos, porque sua vida inteira foi de penúrias econômicas, mas a lembrança de Eleonor morta no penhasco era mais forte, naquela época ninguém se preocupava em afastar as crianças de situações assim, minha abuelita viu a amiguinha morta, acompanhou eles tirando o corpo do penhasco, aquilo deve ter ficado grudado na sua alma.

Lembro da minha prima com doze anos, escutando a história e dizendo:

-Poxa, abuelita, a gente podia ser rico agora né? Era só ter seguido a senhora até o tesouro, depois você marcava bem o lugar e voltava quando fosse adulta.

-Mas eu não sabia quem era aquela senhora, nem o que ela queria, fantasmas podem ser traiçoeiros. 

-Tivesse perguntado!

-E você acha que ela teria me dito?
E penso nesse tesouro mais do que vocês imaginam, talvez pensei nele cada dia da minha vida. Mas a gente aprende com o tempo, tudo no nosso caminho, tudo que está à frente, é um fantasma que não conhecemos, não sabemos quem é, nem o que quer de nós, temos segundos para decidir se vamos segui-lo ou não. E depois que escolhemos seguir o fantasma só existem dois resultados: a fortuna ou o penhasco. 


Iara De Dupont

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