ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

13 janeiro 2017

Vai criar um filho e o marido? Que lindo, são gêmeos!


Tenho uma amiga que está chegando aos oito meses de gravidez.

Sua vida já corrida deu uma piorada nos últimos meses porque o marido começou a sofrer de síndrome do pânico.

Por ter sofrido dessa doença durante vinte anos sei bem como é, sei que aparece do nada, sem explicação. Mas minha amiga foi rápida e levou o marido a uma psicóloga, o diagnóstico foi que o rapaz não sofria de síndrome do pânico, mas de ataques de pânico devido a pressão que está sentindo porque vai ser pai.

O rapaz foi honesto, disse que é trabalhador autônomo e está apavorado diante da responsabilidade de criar um filho. Procuraram um psiquiatra que receitou calmantes ao rapaz, também indicaram uns exercícios e para não alterar sua pressão, minha amiga evita falar sobre o bebê e o futuro, porque pode afetar a ansiedade do marido.

Fui a casa dela e fiquei escutando sobre os riscos dos ataques de pânico virarem uma síndrome, pouca gente sabe, mas a diferença entre eles é que o ataque acontece em uma situação de nervoso, comum, como um casamento, a formatura, a primeira vez que dirige, que viaja, que tenta um novo esporte, vai a um médico que não conhece, enfim, em horas de tensão pode acontecer um ataque de pânico, mas a síndrome são ataques de pânico constantemente sem motivos, a pessoa pode estar em casa, tranquila e de repente do nada, vem um ataque de pânico.

A conversa só girava ao redor do marido, da sua ansiedade com a paternidade, o cansaço das horas extras para juntar dinheiro. Mas minha amiga se levantou duas vezes do sofá e vi todo aquele esforço de mulher grávida, assim que esperei ele ir ver o futebol e fui perguntando o que era tudo aquilo, é mesmo sobre o pânico dele em ser pai?
É.

A sogra chegou, entrou na conversa, eu deixei claro que já todos sabíamos da situação do pai, mas eu não sabia nada da situação da minha amiga e a sogra foi falando:

-Você não tem ideia do que é ser pai neste mundo! Fulano é um homem responsável e amoroso, está preocupado.

E fulana? O que ela sente não vale nada?

-Mulheres nascem para serem mães, para os homens é opcional serem pais, meu filho está apavorado e reagindo desse modo, mas não deveria ser objeto de críticas suas.

E por que eu não posso criticar? Eu acho estranho essa história de não poder falar do bebê e ter que ignorar que fulana está com uma barriga gigante de oito meses e todo mundo finge que não vê pra não estressar o marido. Não tem coisa pior no mundo do que homem fraco!

-Chocada com sua  falta de empatia! E olha que me disseram que você teve síndrome do pânico e depois de curar ficou assim? Insensível?

Não tenho dó de homem. Não entendo porque fica todo mundo em cima dele, mimando, colocando algodão, e não falam dela. Por acaso ela também não está apavorada em ser mãe? É o primeiro filho dela. Escuto que falam dos ataques de pânico dele e não mencionam nada dela, e se ela estiver com ataques de pânico, pensando no parto, na amamentação? Não vale nada?

Minha amiga entrou na conversa e disse:

-Tudo bem Iara, tem gente mais fraca, acontece, ele é mais sensível do que eu, ficou com pânico e tal, eu me seguro.

Por que a gente sempre tem que segurar? E na hora de fingir que são os fortes, eles nos atropelam! Somos nós que temos que esconder como são fracos e sair dizendo que eles nos dão todo o apoio! É mentira! Teu marido vomita de nervoso cada vez que falam do bebê, isso é comportamento de adulto?

-É que ele tem medo de não dar conta das despesas!

Que despesas? Que medo? Desde quando o homem se compromete com alguma coisa? Pode ir embora se quiser, ninguém fala nada, não está obrigado a parir!

Jesus me acode! Minha amiga saiu dirigindo as duas da manhã, com uma barriga de oito meses, pra levar o marido ao pronto socorro, por um ataque de pânico. Teve que escutar de um residente em medicina que hospital não é lugar para mulher grávida, é bom evitar. E por que não chamou um táxi? Porque ele estava aos prantos!

Já tive os piores ataques de pânico do mundo, não consigo nem descrever, mas a gente  não perde a consciência e não precisa arrastar uma grávida ao hospital. 

Minha amiga insistiu:

-A gente não pode pedir as pessoas que se comportem todas da mesma maneira, tem gente que sofre mais, sofre menos, enfim.....


Não, não é assim, neste caso é hora de dizer ao marido ''não é mais sobre você, agora vai ter outro ser nesta casa e nada mais gira ao teu redor''.

Não entendo porque as mulheres continuam cobrindo esses homens, a vida não é assim, o mundo não nos cobre, então por que dar cobertura a eles? E ainda por cima sem garantia de que um dia vão nos cobrir?

Já disse a minha amiga que pense em se mudar a casa da mãe, ou vai querer criar gêmeos? Dá pra lidar com um bebê recém nascido e um homem com pânico ao mesmo tempo? O marido só de escutar sobre o bebê vomita de nervoso, vai aguentar o tranco que vem? E minha amiga? Vai continuar escondendo seus sentimentos? Ou será que a gravidez é um estado de pureza tão alto que anula os medos da mulher?

Não teve jeito, minha amiga é um doce, insiste que o marido é boa pessoa, nobre de sentimentos, está apenas preocupado com o futuro do bebê, não é uma luta por protagonismo.

Concordo com isso, não é o momento de lutar por protagonismo, mas por que só os sentimentos do homem importam? Muita gente diz que as grávidas recebem muita atenção, mas não sabem que é atenção negativa, com todo mundo chegando perto e dizendo o que comer, fazer e comprar, ninguém se aproxima para conversar sobre os sentimentos e medos delas.

Eu continuo batendo na mesma tecla, o importante é minha amiga e o seu bebê, é ela que está aguentando o desgaste físico da gravidez, é ela que vai encarar o parto, a amamentação, a apertada licença maternidade, a pressão do trabalho, enfim, quem deveria estar tendo ataques de pânico é ela, não ele.

Não tolero nenhuma situação que exalte o homem e anule a mulher, dizem que ele é um herói porque está sendo honesto em relação aos seus medos, mas ela é uma mulher comum, e não tem medos, porque todas as mulheres nasceram para parir e não tem medo disso, não precisam de ajuda, os que tem que ser amparados são os homens! Sei.

No fim disse a minha amiga o que realmente penso da situação, ela já passou por outros amores, já sonhou, já acreditou, no momento o importante é ter um bebê saudável e que se dane o resto, ela tem seu emprego, seu bebê, sua família e pronto, não precisa de homem, não precisa carregar encosto, não precisa criar filho de bigode. Já deu com essa fantasia de mamãe e papai, pois é, se papai não aguenta o tranco, que saia da foto.

Ai, meu Deus, mas ele está com ataques de pânico, não podemos ser tão duros com ele!

É fato, é uma doença estressante, mas pra mim ele está usando isso para se manter no foco, no protagonismo, eu entendo um ataque de pânico, mas nunca vi um homem vomitar cada vez que falam que vai ser pai.

Eu sou dura com os homens, mas posso garantir que eles são piores com as mulheres, no fim só devolvo a gentileza. E não minto para as minhas amigas, não cubro comportamento de marmanjo, o que interessa é a vida delas, não o encosto que carregam e a vida é simples, se a pessoa não te dá apoio ou justo no momento que você precisa, ela falha, bom, corte a corda, tchau e benção, vida que segue.

No caso da minha amiga já avisei, o filho vai ser criado e vai ir para o mundo, mas o marido-neném vai ficar pra encher o saco dela e atrasar sua vida.

Não temos mais tempo para perder em relacionamentos assim, precisamos estar com pessoas tão corajosas como nós, se uma mulher pode encarar a gravidez, um homem pode segurar seu pânico, no fim é o mesmo sufoco.

E se a mulher quiser ter gêmeos eu recomendo aqueles tratamentos de fertilização, mas pegar gêmeos assim, um bebê e um marmanjo, não dá certo, bebês crescem e aprendem, marmanjos ficam e afundam quem os apoiou.


Iara De Dupont

10 janeiro 2017

Sem essa de ''morar junto''! Se case!


A minha avó era extremamente conservadora. Não digo conservadora pela idade, não, era daquelas conservadores da idade média, bem lá trás.
Mas sabia respeitar, ela dizia o que não gostava e ficava quieta, não perturbava nem jogava praga.

Me mudei de lugar e fui morar com um namorado, não deu certo, mas quando voltei contei a minha avó sobre a experiência, achei que o final tinha sido deprimente, ele me tratou como se eu tivesse sido uma página do seu livro, virou e pronto. Ela me olhou e disse:

-Você não me disse que iria morar com ele, se tivesse dito eu teria falado para não ir.

Por quê?

-Porque homens são conservadores, você não tem ideia, eles não respeitam namoradas que dividem a casa com eles, enquanto não for esposa eles nem consideram a mulher.

É verdade, nos teus tempos era assim! Mas agora isso mudou, as mulheres ganham dinheiro e dividem o aluguel, o homem não sustenta mais ninguém, acabaram esses tempos de o homem não respeita a namorada porque não é esposa, isso já passou.

-Isso não passou e não vai passar, porque é a base da sociedade construída por eles, a santa esposa e a puta da rua, a cabeça deles não tem uma terceira opção. Me prometa que se você for morar com um homem vai se casar antes.

E se não der certo?

-Separa, mas nunca seja a namorada que mora com ele, na cabeça do rapaz é a mesma coisa que a puta da rua.

Achei aquilo um absurdo, imagina, que homem, no século XX vai pensar que uma namorada é a mesma coisa que uma puta da rua?

Algum tempo depois uma prima se mudou para a casa do namorado e escutou o mesmo sermão da minha avó, mas todo mundo relevou, o rapaz era um encanto, desconstruído e apaixonado pela minha prima, já tinha morado na Europa, não carregava mais essas larvas latinas de pensamento machista.

Uns anos depois o namoro terminou e ele foi gelado com minha prima, virou uma briga de cão dividir o que tinham na casa, as discussões se arrastaram.
Meu tio comentou que se eles estivessem casados seria mais simples, lei é lei, mas assim, morando juntos e separando, era mais complicado.

Minha prima ficou chateada com o fim do namoro, o rapaz se comportou de maneira estranha e minha avó disse:

-O que ela esperava? Eles são assim, já casados não respeitam nada, imagina morando juntos! Cabeça de homem é a mesma desde que o mundo é o mundo, eles não assume compromisso mentalmente com namorada, para eles é só um passatempo até a ''moça séria e para casar'' chegar.

Continuei pensando que minha avó estava parada no tempo, congelada nas ideias conservadoras, mas venho observando há anos o casamento de amigos e percebo isso, os homens são conservadores, os que levam a sério a ideia de ''esposa'', mas ignoram as namoradas, percebi isso com meus amigos, alguma coisa mexe na mente deles quando dizem ''esposa'' e isso puxa as cordas da memória, mas dizer ''moro com minha namorada'' é a mesma coisa que dizer ''o nome do meu gato é Toby''.

Palavras constroem nossa ideia de sociedade, as coisas que acreditamos. Eu olho um tomate e sei que é um tomate, porque isso foi dito desde que eu nasci, reajo ao instante, se o garçom me diz ''a pizza vem com tomate'' logo imagino o vermelho do tomate, é construção verbal que cimenta a construção social.

A palavra ''casamento'' tem seu peso, assim como ''marido'' e ''esposa''.

Um amigo namorou durante um tempo e se mudou a casa da namorada, parecia estar envolvido ali, mas não estava ''submetido a uma ordem social'', era apenas um namorado morando com sua namorada. Decidiram se casar e o comportamento dele mudou, agora era ''marido''.

Já vi várias vezes isso acontecer, muda algo no cérebro dos homens quando dizem ''esposa''.

Reparei quando um amigo se referia a sua namorada chamando-a pelo nome, depois de casados me dizia ''minha esposa''.

Cada dia percebo mais como minha avó tinha razão, os homens são um milhão de vezes mais conservadores do que as mulheres, até porque o machismo exige isso, eles são mais fechados, limitados e presos a clichês sociais.

Talvez seja porque não tem que lidar com milhões de questões que as mulheres enfrentam todos os dias, isso nos tornou flexíveis, eles ainda têm espaço para fugir quando não gostam das situações, mas uma mãe não abandona um filho especial ou um filho gay, assumem seus filhos e os apoiam, e isso construiu mulheres fortes e mais abertas para o mundo e suas diferenças, somos menos preconceituosas do que os homens.

Um amigo se separou recentemente, de uma namorada e seu comportamento foi de adolescente, pegou suas coisas e voltou para a casa dos pais, como se nunca tivesse conhecido namorada. Eu falei para ele que me surpreendeu a rapidez do fim e ele respondeu:

-É que você é dramática, mas era apenas uma namorada.


Nossa, o desconstruído falando isso, o rapaz que chama casamento de ''instituição falida'' ou ''suicídio burguês'', ele dizendo que era apenas uma namorada!

Meses depois começou a namorar outra moça, mas com essa não teve conversa, ela não quis morar junto ele a pediu em casamento, agora é sua esposa, não apenas ''uma namorada''.

Levando em conta a situação do planeta e o que vejo todos os dias no mundo virtual percebo como os homens são conservadores e lutam para se manter assim, até aqueles que se dizem livres a favor do poliamor, só aceitam isso se for com duas mulheres!

Entendo hoje minha avó, são os homens que já definiram as mulheres na sua cabeça e só existem essas duas opções, a santa ou a puta, a esposa santa, ou a puta da vizinha que usa um shorts.

Nós, mulheres, gostamos de acreditar que eles mudaram, são mais conscientes agora e evoluíram, mas é a mesma coisa, não mudou nada, só porque pintam a barba de rosa, choram em comercial e usam bicicleta, não quer dizer que são mais honestos que meu avô, pelo contrário, hoje os homens praticam mais putarias que acham na internet e continuam frequentando os mesmos bordéis dos anos trinta, ou seja, o que mudou? Nada.

O que mudou foi a maneira deles nos enrolarem, agora fingem que são parceiros e amigos, mas estão apenas fazendo tempo em nossa cama enquanto chega a ''moça pra casar''.

Se a mulher que experimentar, viver o momento, recomendo que more com o namorado, mas se quiser uma coisa mais séria, pelo menos na cabeça dele, é bom ir para o cartório.

Não dá mais para viver achando que eles estão alinhados com nosso pensamento, que acreditam na igualdade e coisa e tal. É tudo mentira, eles são conservadores e machistas, quanto mais desconstruído, mas misógino é.

É só contar quantas vezes as palavras ''puta'' e ''vadia'' saem da boca dele para se referir a outra mulher, é só reparar no seu comportamento e vamos ver como é outro machista disfarçado de ''cara legal''.

Eu namorei um Romeu desconstruído, respeitava as mulheres e tal, mas um dia se referiu a uma cantora como ''ordinária'', perguntei o motivo e ele respondeu ''tá de brincadeira? Olha esse vídeo dela se esfregando em um monte de homens''.

Olhei o vídeo e disse ''não vi nenhum homem sendo abusado, então tudo bem, acho que todos curtiram''. E ele disse ''é o que eu disse, mulher que curte isso é uma ordinária''.

Meu Romeu desconstruído!

E meu amigo, o cara legal, doce, que apóia o feminismo, que está se separando da namorada, se mudou do apartamento, me disse:

-Nossa, ainda bem que não é esposa né? Porque quando é casamento é coisa séria, a gente assume um compromisso na frente dos amigos, fica feio fazer merda assim, graças a Deus era só namorada.

É, graças a Deus. Mulheres acordem, eles são piores do que vocês acham, mais conservadores do que vocês imaginam e mais machistas do que vocês pensam, muito, muito, muito mais machistas.


Iara De Dupont

03 janeiro 2017

Romeu dando palpite na dieta? É roubada.


Durante um tempo frequentei os Vigilantes do Peso, um método de emagrecimento com reuniões semanais. A pessoa paga uma taxa toda a semana e recebe um cardápio, dicas de receitas e lista de alimentos que pode comer.
Guardei algumas receitas que me pareceram boas e uma amiga me pediu para dar uma olhada, porque quer emagrecer.

Fui a casa dela e precisei de cinco minutos para me perguntar ''nem começou o ano e já vou ter que falar sobre isso?''.

Pois é. O problema nunca é o monstro que vemos na nossa frente, mas o pequeno gatinho que parece indefeso, até pular em nós, o perigo não está no que vemos e sabemos que existe, mas no que pensamos ser inocente, quando não é.

Eu estava na mesa conversando com minha amiga, explicando as receitas quando seu marido chegou. Ele é o padrão branco classe média, de vez em quando parece meio babaca, mas é um homem educado e engraçado, bom, eu pensava isso.

Ele nos viu conversando sobre as dietas e disse:

-Vão perder tempo com isso mulherada? Vocês já passaram da idade, não vão ficar mais bonitas, estão velhas, o metabolismo está mais lento, pra quê querem perder peso agora?

Por saúde, pode ser?

-Porra, tivessem pensado nisso antes! Eu já falei para Beatriz, se ela começar uma dieta agora eu peço o divórcio, não tô com saco de aguentar mulher nervosa, com fome, frustrada, fica mais chata do que de costume.

Tem coisa mais linda do que ver um marido apoiando a esposa? 

-Não sei se você é romântica ou finge ser boba, mas apoiar uma pessoa não é dar corda a todas as atitudes dela, quem ama fala a verdade.

E qual é a verdade?

-A Beatriz é gorda, nunca vai conseguir emagrecer, só se irrita quando limita a comida, gasta muito em comidas saudáveis que nem come depois, enfim, vai perder o tempo e não vai dar em nada.

E assim ele foi embora.

Eu não ia dizer nada, mas minha amiga se adiantou e falou:

-Sei o que você está pensando, que ele é um babaca e foi grosseiro. Mas é o jeito dele, fala as coisas na cara, e tem razão, é difícil perder peso na nossa idade.

O ponto é: talvez seja, eu não acredito nessa teoria, mas talvez as pessoas percam peso de maneira mais lenta depois de uma idade, o que eu quero saber é o seguinte, no que ele ajuda jogando terra? Acelera o emagrecimento ter alguém na tua orelha dizendo que você não vai conseguir?

É tão chato ter que fazer uma dieta, se livrar do peso que atrapalha, porque as pessoas não sabem, mas os gordos têm seus limites, passando de um determinado número tem que dar uma descida na balança, é um controle que muitos seguem e poucos sabem que é feito.

E tudo isso é irritante, mudar a alimentação, tirar as coisas que gosta do cardápio, e ainda por cima aguentar um marido dizendo que não vai dar certo?

Minha amiga insistiu:

-Você tem que avaliar os pontos bons e ruins do relacionamento, já te disse mil vezes, você é uma romântica, acha que vai encontrar alguém que te apoie em tudo, isso não existe.

Acontece que, hoje, quando escuto algum comentário masculino minha mente corre para achar históricos e referências, porque antes eu não identificava o que era dito, não arquivava no lugar certo e a vida seguia. Se um namorado sabe que quero emagrecer e diz que não vou conseguir, corro para meu arquivo e encontro mil comentários iguais a esse, que foram descendo o nível com o  tempo, começam dizendo que você não vai conseguir emagrecer e terminam dizendo que você é uma gorda horrorosa. Não sei para as outras mulheres, mas na minha vida atual isso é uma agressão verbal, dessas que nunca mais vou permitir.

Nenhum homem é obrigado a me apoiar, nem a comer salada, mas não aceito mais qualquer comentário sobre as minhas decisões, principalmente as que envolvem meu corpo.

Algumas mulheres continuam confundindo agressão com sinceridade, estamos tão acostumadas a violência verbal que não separamos as palavras, achamos que Romeu está sendo legal e nos avisando dos perigos da estrada.

Convivemos de maneira pacífica com o jeito grosseiro e rude dos homens, pensamos que é assim, e começam aquelas desculpas de ''ele foi criado desse jeito, é homem, apanhou quando era pequeno, no fundo ele é boa pessoa, é sincero, não sabe dizer as coisas com jeitinho.......''

Mas caramba, estamos sendo agredidas! Não importam os motivos nem o jeito de Romeu, ele está agredindo!

Recentemente um homem me disse ''não posso dizer mais nada, tudo virou agressão!''.

É, não diga mesmo! Se não tem critério, não abra a boca.

O truque é simples, antes de dizer uma coisa, se pergunte, eu gostaria de escutar isso? Você gostaria de começar uma dieta e ter tua mulher ao lado dizendo que não vai conseguir?

Sei que algumas dietas são radicais e fazem mal, tudo bem se Romeu disser ''não acho boa ideia essa dieta, tente outra mais saudável'', mas não precisa sair dizendo que a esposa está velha e não vai conseguir.

Me surpreende ainda ver o grau de tolerância das mulheres, a maneira como relevam as ofensas, como ignoram os tapas verbais, porque Romeu ''no fundo é legal''.

Que se dane o fundo! Tem que ser legal em tudo.

Cansei de escutar que sou radical e quero um Romeu perfeito, mas se pedir respeito é lutar pela perfeição, bom, então continuo batendo nessa tecla. Não aceito mais comentários sobre minha aparência nem julgamentos, muito menos que joguem areia nos meus planos e fiquem na minha orelha me diminuindo.

Amor não é isso, o mundo já é muito duro com todos para ainda chegar em casa e ter um Romeu dizendo que você não vai conseguir emagrecer.

Também me venderam a ideia errada sobre o amor, me disseram que era aguentar os homens e seus comentários idiotas, mas é apenas isso, a ideia errada, homens são adultos e qualquer adulto pode controlar o que vai dizer, ninguém tem a língua solta.

Não se passaram nem dez minutos e Romeu voltou, foi logo dizendo:

-Já sei que você vai me detonar, então quero deixar claro uma coisa: eu amo a Beatriz, não importa se está gorda ou magra, mas eu a amo.

É? Quem ama respeita, não fica colocando o pé......

-Avisar que vai dar merda é colocar o pé? Continuo dizendo a mesma coisa, não sei você, mas a Beatriz não vai conseguir emagrecer, mas tudo bem, boa sorte para você, tomara que ache um homem frouxo o suficiente para te apoiar em tudo e passar o dia inteiro mentindo, dizendo apenas o que você quer ouvir, porque você é feita de cristal e não pode escutar a verdade certo?

É bem isso, eu fujo da ''verdade'' masculina porque sei que está feita no ódio e na falta de respeito. Cada vez que um homem me diz ''vou te dizer a verdade'', eu logo penso ''lá vem manipulação pro meu lado''.

Meu único comentário a esses Romeus é: saiam das nossas mesas, nos deixem em paz.

Eu só queria não ter que escrever mais sobre o assunto, que algumas mulheres percebessem que amor não é agressão, falta de apoio não é ''verdade dita na cara'', que no fundo tudo isso traz aquela velha história de dominar a mulher e fazer ela se sentir um pedaço de lixo para que não se interesse por nenhum outro homem e Romeu se sinta seguro.

Amor é simples e direto, não agride, não joga terra, não nos faz sentir mal.

Me falaram há anos e demorei para entender: se alguém te diz uma coisa e teu coração se enche de luz, se expande, é amor. Mas se o que foi dito encolhe teu coração e dá um aperto na alma, não é amor, é ódio e não pense em ódio como algo grande, às vezes ele vem em gotas homeopáticas.


Iara De Dupont

A marreta do universo


Gosto de ditados porque eles parecem uma coisa certa em um mundo incerto, sempre me pergunto como sobrevivem ainda na boca das pessoas.

Escutei muito aquele que diz ''não deixe para amanhã o que pode fazer hoje'', mas não parecia fazer sentido para mim, uma virginiana da gema, dessas que honram o signo e justificam a ordem astrológica.

Mas há um tempo as coisas mudaram. Não encontrei explicação, me disseram que é a idade, o tempo, o espaço, o mundo, mas de repente acordei cansada e fui deixando muitas coisas de lado. Eu até me importava, mas fingia não me importar, treinava em silêncio.

Desse jeito abandonei algumas coisas. Sempre fui organizada, mas larguei mão do armário e do que acontecia lá dentro. Alguns potes ficaram empilhados na cozinha, mas joguei na gaveta e esqueci. Livros que pensava doar estavam estacionados em um canto da sala. A roupa que não me servia mais estava guardada, empilhei os cosméticos, guardei os perfumes na caixas, deixei em um canto.

Não contei o tempo, nem os dias, mas tudo me incomodava, eu sabia que precisava ''limpar'' minha vida, acelerar minha existência e que largar a mão não resolveria nada. No meio de tudo isso pensei várias vezes se a minha depressão tinha voltado, mas logo me convencia de que tinha um lado bom, finalmente eu estava mais desprendida, sem a neurose virginiana de manter tudo em ordem.

Comentei isso com uma amiga mística e ela me disse que era melhor me livrar logo de algumas coisas que eu tinha, se eu sabia que aquilo tinha que ser feito, bom, que fizesse. Ainda lembro dela respirando fundo e dizendo:

-Quando sabemos que temos que fazer alguma coisa, ainda temos tempo para pensar, mas se o universo resolve que aquela coisa tem que ser feita, bom, ele não é tão legal como parece, faz as coisas do jeito dele.

E foi assim. Uma manhã, a última semana de novembro, fui acordada as oito da manhã, de uma quarta-feira. Mal abri a porta e o zelador entrou com outros dois rapazes, dizendo que vazava água no apartamento debaixo e que eles precisariam parar aquilo, quebraram a parede da moça, mas viram que talvez viesse do meu apartamento e resolveram subir.

Agora com toda a calma do mundo posso dizer que foi um ataque de pânico de todos os envolvidos, não era nada tão sério que merecesse medidas de emergência, mas eu, assim como a vizinha, não tivemos tempo para pensar.

Vi os rapazes quebrarem a parede da minha cozinha, aquela que eu pintei sozinha de rosa. Fiquei parada ali sem acreditar, não consegui cobrir nada, o pó voava por todos os lugares, só via a marreta quebrando e pensava que minha amiga tinha razão, o universo não era delicado na hora de fazer as coisas.

De parede quebrada eles decidiram que não era ali o vazamento, devia ser de um cano que atravessa o chão da cozinha. Já tinham se passado umas duas horas, mas eu me sentia hipnotizada, sem acreditar no que estava acontecendo. 

O azulejo foi quebrado sem dó, o meu azulejo, que eu sempre cuidei com todo o carinho, não deixo ninguém entrar de sapatos na minha casa.

De repente os rapazes decidiram que era melhor esperar uns dias para ver de onde saía o vazamento, minha parede ficou quebrada, com um tubo à mostra e o chão da cozinha em pedaços. Tiveram que improvisar uns pedaços de madeira para que eu pudesse caminhar por ali.

Nos dias seguintes minha vida virou um inferno. Os rapazes sumiram, não fui eu que contratei, não escolhi, e até agora, depois de tantas reclamações ninguém me diz quem os achou. Passei dias ligando para o celular deles e escutando respostas como ''é melhor deixar outro dia'', ''é que tive uma emergência'', ''é isso, é aquilo''.

Uma semana depois apareceram e acharam melhor trocar o cano, mas não eram bons nisso, fecharam a água do prédio, mas esqueceram de avisar que não era para jogar nada pelos canos, água caiu na minha casa e inundou a casa da vizinha. Tudo ficou insuportável, o cheiro de umidade, o chão aberto, a parede quebrada.

E não sei quantos dias se passaram, eu falava as coisas e eles me ignoravam, até que tive que recorrer ao meu irmão, paciência, coisa de país machista. Eu já tinha esgotado todos meus recursos, falei com o zelador, com a administração do prédio e todos me diziam que ''reformas são assim mesmo'', mas ninguém entendia apenas um ponto: a pessoa tem que aparecer para fazer a reforma, ou ela se faz sozinha?

Foram no total três semanas de algo que poderia ter se resolvido em dois dias, caso as pessoas envolvidas fossem competentes. E foi uma sucessão de erros, compraram o azulejo errado, colocaram onde não era, passaram argamassa na parede sem arrumar direito, enfim, parecia um filme de terror.

O desespero me superou e eu decidi que não entrariam mais na minha casa, me cansei de tanta incompetência e de ficar à merce deles, que marcavam um dia e horário e apareciam uma semana depois. O que ficou pendente resolvi que eu mesma faria, como diz minha mãe ''o que eu não sei, eu aprendo''.

Uma semana antes do natal me vi em um apartamento que tinha poeira até o teto, uma cozinha remendada e completamente exausta. Não era uma limpeza de tirar potes de gavetas, nem de separar livros, teria que ser uma limpeza de balde com muita água e sabão, tudo isso em um momento que eu não tinha a menor vontade de mexer nada e ainda por cima estava comprometida com a ceia de natal.

Tudo me deixou cansada, irritada, os canos que levei dos rapazes, as discussões com a administração, as ligações de celular implorando para que resolvessem logo a situação, o serviço mal feito, o machismo constante em ignorar tudo o que eu dizia.

E no terceiro dia dessa confusão resolvi ver de perto o estrago na casa da vizinha. Encontrei ela desesperada, limpando os estragos da reforma. De repente ela me disse ''não sei porque eles não escutaram o que eu disse, sobre deixar um balde ao lado, caso a água caísse''.

É, por que? Quem escuta uma mulher? Ah, sim, vão dizer que é meu discurso vitimista, mas parece que as coisas são assim, homens ''ficam'' surdos na hora de escutar uma mulher.

Não sei quantas vezes comecei a limpar e sentava e chorava, de saco cheio, cansada e com ódio da situação.

Minha amiga insistiu ''o universo só faz as coisas para o nosso bem, você não se mexeu, bom, ele foi lá e fez você se mexer''.

É, fez sim. Fez mexer tanto que ainda não acabei com a limpeza, já que me vi obrigada a começar do zero, tive que desmontar a cozinha, lavar todos os pratos, mesmo no armário ficaram sujos. Tenho feito as coisas devagar e pode parecer simples, mas sou virginiana, devagar pra mim não existe. Mas não tive como dar conta de tudo, apesar do meu esforço, ainda faltam algumas coisas. Eu via objetos empilhados, largados e jogados na minha casa, mas sei que tinham muitas emoções estancadas ali, muitas situações congeladas, amores ignorados, momentos mumificados, quando não organizamos os objetos as emoções travam, não é só uma pilha de livros que ficam em um canto, são sentimentos que largamos pelos cantos, que não vivemos. E o ser humano não foi feito para viver cercado de energias mortas, pelo contrário, precisamos energias vibrantes circulando ao nosso redor.

Mesmo assim, acho, talvez, não sei, que aprendi a lição. Coisas têm que ser feitas e quando nos negamos o universo entra no meio e resolve do jeito dele, de vez em quando pouco amigável.

Eu abri a porta da minha casa as oito da manhã, sendo acordada de um sono profundo, pensei ter visto três pessoas entrando e falando sobre um vazamento no apartamento debaixo, mas na verdade era o universo abrindo minha porta e dizendo: acorde e reaja.

Feliz 2017!


Iara De Dupont


18 dezembro 2016

Os pequenos demônios


Meu pai era ateu e cético, não abria espaços para nenhuma teoria que não se pudesse provar. Nos últimos anos de vida cedeu um pouco, mas mesmo assim eu tinha a impressão de que não acreditava em nada.

Eu entendia que ele não acreditasse em nada porque era muito racional e extremamente culto, conhecia a maioria das explicações das lendas e superstições, sabia o significado de muitas coisas e isso desmontava as teorias de algumas pessoas.

Argumentava até com minha avó e suas histórias de terror, que sempre incluíam a figura do diabo, meu pai explicava que isso era fruto da conquista da Espanha sobre o México, ao desembarcarem os espanhóis levaram a religião católica ao México e com isso a temida figura do ''diabo'', uma boa presença para intimidar os indígenas, mas o diabo não existia, dizia meu pai, ele garantia que o ser humano era pior, caso o diabo existisse era um pobre coitado, amador, figura secundária em um livro bíblico.

Mas o que sempre me intrigou no ceticismo do meu pai foi uma amizade que manteve durante anos com uma senhora que ele conheceu quando trabalhava em uma revista e ela escrevia o horóscopo, na verdade traduzia o que era publicado na edição americana da revista.

Meu pai me contava as histórias dessa senhora e em mais de duas ocasiões meu pai estava presente e viu como algumas coisas aconteceram.

Quando eu o questionava sobre isso ele dizia que viu, mas não podia dizer que acreditava e que poderia ser um truque, também dizia que poderia ser sugestão, que ver algo nem sempre significa que aquilo existe.

Uma das histórias envolvia uma amiga do meu pai, uma pintora casada. Ela tentou engravidar durante sete anos e não conseguia, fez tratamento e não dava certo, sempre perdia os bebês. Em algum momento ficou tão deprimida que meu pai para ajudar a levou com essa senhora que era uma espécie de bruxa.

A senhora olhou a moça e disse ''você tem oito anos comendo comida envenenada, dada pela sua sogra, ela não quer que você engravide''.

A moça ficou quieta, mas ao sair quase bateu no meu pai, achou tudo um absurdo, sua sogra era viúva, ótima pessoa, culta, e sim, digo culta porque existe uma falsa crença de que superstições são fruto da ignorância e do desespero em explicar o que não se conhece. A sogra, dizia a moça, tinha apenas um filho, era bem sucedida na sua carreira como editora, alto astral e jamais faria algo tão baixo e rasteiro como ''enfeitiçar'' a comida de alguém. E além disso imagina que simples seria a vida se uma mulher pudesse evitar uma gravidez com uma comida ''preparada'' por alguém? Mulheres do mundo inteiro fariam fila para comer e evitar uma gravidez.

Um tempo depois o marido da pintora teve que se mudar a outro país durante um ano, por razões de estudo, a pintora foi junto e acabou engravidando. Voltou ao Brasil com oito meses, prestes a parir, mas umas semanas antes fizeram um exame e descobriram que eram gêmeos, dois meninos, mas estavam mortos. Ela passou pelo parto e como toda a história parecia estranha ela pediu a autopsia dos bebês. Semanas depois ficou sabendo que eles apresentavam sinais de envenenamento, mas o legista não sabia explicar porque a mãe não tinha os mesmos sinais e nem apresentava os sintomas.

Nesse momento a pintora ligou os pontos, teve aquele segundo de lembrar da sogra, ela voltou ao Brasil grávida de oito meses e durante semanas comeu na casa da sogra, logo os bebês morreram, será que tinha alguma coisa a ver? Resolveu ir atrás da empregada da sogra, que disse apenas que ela cozinhava, mas quando a nora ia visitar a sogra fazia questão de cozinhar e usar uns temperos, que não ficavam na cozinha.

A pintora ficou com tudo isso na mente, bateu o pé e conseguiu mudar de cidade com o marido, mas não disse a ele o motivo da mudança. Em outro lugar ela engravidou novamente, anos depois já tinha três crianças, que ela escondia da sogra, apesar dos apelos do marido.
Uma vez ela disse que a sogra apareceu sem avisar, ela estava com o bebê pequeno, correu para o telhado e deixou o menino ali, esperando que a sogra fosse embora. O marido pensou que ela estava em uma fase de desequilíbrio e não entendia bem porque a mulher agia daquele jeito.

Uns dois anos depois, ela não conseguia mais segurar a situação, já tinha dois filhos, ainda não tinha nascido o terceiro, mas a pressão do marido para que ela deixasse a sogra ver os meninos era imensa, então ela teve uma ideia, pegou o carro e foi sozinha visitar a sogra, chegando lá foi direta, deixaria a sogra ver os meninos, desde que a sogra confessasse o que tinha feito.
Teve uma surpresa enorme quando a sogra suspirou e disse que não era ''para tanto'', que ela era uma senhora doente, tinha apenas um filho e pensava que se viesse um bebê na família o filho se concentraria na criança e deixaria a mãe de lado, então ela procurou uma pessoa no lado sinistro da vida que a ensinou a jogar uns elementos na comida da nora, apenas para atrasar uma gravidez, não era para fazer mal.

Não ''fazer mal'' foram sete anos engravidando e perdendo a criança, quando a sogra foi questionada sobre os gêmeos disse que tinha esquecido que a nora estava grávida e continuava jogando o mesmo ''tempero'', que jamais quis dizer o que era.

A pintora resolveu se afastar de vez da sogra, o marido não entendeu, apesar dela ter contado tudo, sempre achou que era uma falsa acusação, mas teve que acatar.

Alguns anos depois a sogra morreu, o casamento acabou e a pintora sempre agradecia ao meu pai por tê-la levado a senhora bruxa, dizia ser grata porque meu pai tirou a venda dos seus olhos, ela jamais pensaria que sua sogra, tão culta fosse dominada por demônios pequenos, como ser trocada pelos netos.

A pintora fez análise e gostava de contar essa história para ilustrar como o ser humano perde a moral e a ética diante dos seus pequenos medos, ninguém parece agir de má fé diante dos grandes medos, até porque se paralisam, mas diante dos pequenos medos tudo muda e tudo vale.

Não conhecemos os medos pequenos das pessoas, por isso não sabemos seus limites nem motivações, no caso da pintora eu diria que nem era pessoal com a nora, era apenas o medo de uma mãe de perder a atenção do filho.

Por isso não se pode confiar em ninguém, não sabemos o que a pessoa pensa e sente, mesmo sendo da família e quem tem controle sobre seus pequenos medos e demônios? Ninguém.

Para todos é uma batalha sangrenta controlar os demônios e a maioria de nós perde essa luta, somos facilmente engolidos por eles.

Claro que existe uma enorme diferença entre perder a guerra para os demônios e prejudicar alguém, colocar ''temperos'' na sua comida, isso é crime, mas a motivação foi primária, fruto de um pequeno medo.

Comida é sagrada, por isso é importante preparar sua comida e evitar lugares e pessoas que não confiamos. E sempre, sempre, sempre, sempre, abrir as orelhas quando alguém nos indica uma pista, no caso da pintora quando estava grávida dos gêmeos, se tivesse lembrado do aviso talvez a história seria outra. Não temos mais espaço para ingenuidade e não podemos confiar na aparência, dizer que é uma pessoa culta, que é a sogra, enfim, que é isso, que é aquilo. A verdade é uma: temos que nos cuidar de todos.



Iara De Dupont

16 dezembro 2016

Material para construir uma mulher: medo


Encontrei uma amiga que não via há tempos, e ela veio junto com sua irmã.
Em algum momento do almoço a irmã se levantou para ir ao banheiro e comentei com minha amiga que eu estava impressionada com sua irmã, parecia muito bem, firme, decidida, enfim, mudou bastante.

Minha surpresa foi porque essa moça, a irmã, perdeu seu filho há uns dois anos, o garoto tinha treze anos e foi morto durante um assalto. Na minha cabeça ninguém se recupera de um trauma desses, não sei porque, mas sempre tive a impressão de que uma mulher pode voltar a sua vida depois de qualquer trauma, menos esse, de perder um filho, e ainda por cima de uma maneira tão brutal.

Eu não a via desde o velório do filho, um episódio traumático para todo mundo, porque é a coisa mais horrorosa do mundo, o enterro de uma criança, não tem nada neste mundo mais dilacerante.

Minha amiga não me respondeu nada, esperou sua irmã voltar e disse a ela:

-A Iara acabou de dizer que você parece muito bem, que mudou bastante.

Ela sorriu e respondeu:

-Mudei sim, deixei de ser medrosa.

Fiquei com medo de encostar na ferida, mas tive que perguntar como a morte de um filho faz a mulher perder o medo e ela respondeu:

-Minha vida deu um giro, é como se eu fosse outra pessoa vivendo outra vida, o que aconteceu foi simples: depois que eu perdi meu filho, perdi o medo, porque eu não tenho mais nada a perder, o jogo começou de outra maneira.

Ah, entendi.

-E fazendo análise descobri o seguinte: você já percebeu como a vida das mulheres é pautada no medo? Tudo nos dá medo, porque somos educadas para sermos assim.
Eu comecei a perceber nas minhas sessões que eu vivia congelada, quando era pequena tinha medo de desobedecer meu pai, de fazer as coisas erradas, na adolescência tinha medo de não ser bonita o suficiente, e pelos avisos da minha mãe tinha medo de sair na rua, falar com estranhos, usar roupa curta. Um pouco depois tinha medo da primeira relação sexual, tinha medo de levar um fora, depois me casei e tinha medo de decepcionar meu marido, de frustrar minha família, no trabalho tinha medo de não dar conta, tive meu filho e comecei a ter mais medo, de ser uma péssima mãe, de não escutar ele chorar, de não saber amamentar, e ainda tinha medo de que meu casamento afundasse, porque eu tinha que dar atenção ao meu marido. Deixava meu filho na creche e tinha medo de que acontecesse alguma coisa, estacionava o carro e tinha medo de tudo. Então meu filho foi assassinado e eu tive que enfrentar juízes, promotores, advogados, porque ele foi morto por um menor de idade durante um assalto, porque quis o celular do meu filho que em um impulso segurou e não deu o aparelho, o rapaz atirou. 
Não é uma dor que se possa imaginar, é como se te arrancassem a pele e cortassem teus braços na mesma hora, corri a pedir ajudar, fui a terapeutas, psicólogos e não encontrei consolo em nada, percebi que fiquei fria, que nada me importava, até que na análise me dei conta de como minha vida tinha sido guiada pelo medo.
Parece que mudei, mas continuo a mesma, a única diferença é que perdi o medo, hoje nada me faz tremer, dou até risada, depois que você perde um filho perde o limite da dor, nada mais faz diferença.
Tenho consciência de que nada vai amenizar a dor da perda, mas minha vida deu um giro, sou melhor pessoa e profissional hoje, mais decidida, não tenho mais medo de nada, antes eu tinha medo até de responder de maneira bruta a alguém, tinha medo de mandar as pessoas à merda, de dizer o que realmente pensava, enfim, medo era minha maneira de ser. Aprendi a dizer ''não'' e não sinto remorso. Da pior maneira possível meu filho me libertou de viver no medo, daria tudo para que não tivesse sido assim, mas alguma coisa eu preciso tirar da perda, porque senão minha cabeça surta.

É claro que a tragédia que ela viveu é um divisor na vida de qualquer pessoa, mas me chamou muito a atenção o que ela disse sobre o medo, como é material de construção social jogado na mulher. Nenhuma mulher precisa passar pelo horror que ela passou para perceber que somos todas guiadas pelo medo e começa desde que nascemos, parece que o mundo já nos recebe com resistência, já sabe o que vamos passar.

Medo é uma estrutura que fica ao redor das mulheres, todas temos medo e vão desde medos pessoais a medos sociais, como sair as ruas.

Sempre tive a sensação de medo muito presente, tanto que com menos de treze anos já tinha síndrome do pânico. Hoje com o conhecimento que tenho da vida me surpreende não ter tido essa síndrome com dois anos de idade, porque sempre fui guiada pelo medo.

E como ela disse, os medos vão sendo somados, começa com uma coisa simples, como decepcionar os pais e de repente vira uma bola de neve que inclui não errar no trabalho e não fazer besteira no relacionamento.

O problema é que essa soma de medos é usada para nos controlar, temos tanto medo que fazemos o que nos pedem.

É um paradoxo, porque ao mesmo tempo que somos ''criadas'' para sentir medo, somos extremamente corajosas e obrigadas pela vida a enfrentar diversas situações, como um parto normal, algo que de fora parece assustador.

E nos ensinam desde pequenas que sentir medo é bom, porque isso nos protege de situações ruins e acaba servindo de alerta, dizem que medo é bom porque nos segura de fazer besteiras, mas é tanto medo que perdemos a noção e acabamos com medo de dizer ''não'' a qualquer pessoa.

Eu fui educada para sentir medo, sempre me diziam ''ah, se fulana te ofende e você vai lá e ofende ela, depois ela pega raiva e te bate'', ou seja, era melhor ter medo e não reagir, porque poderia ficar pior.

Cresci muito medrosa, com medo de enfrentar as pessoas, fugindo de situações e evitando ''dizer um monte'', mas minha alma sempre foi de reagir, algumas vezes consegui bater o martelo, mas depois me afundava no remorso, quando superamos o medo de maneira precária, ele vira culpa.

Medo tem que ser visto como é, um fator jogado na nossa direção para nos paralisar, e não temos mais condições de lidar com tanto lixo. Eu tenho medo de sair na rua de noite, mas não tenho mais medo de mandar um Romeu à merda, de dizer algo que sei que ele não vai gostar, não tenho mais condições físicas de viver consumida pelo medo, porque já fui assim.
Não era só medo de sair à noite, mas também medo de decepcionar ou magoar as pessoas próximas, mas esse medo perdi quando percebi que elas não tinham medo de me magoar.

É importante ver como o medo é usado contra nós, só assim podemos separar o que é real ou não e nos livrarmos dele. É real o medo de viajar sozinha, em um mundo machista, violento e misógino, mas não é real o medo de dizer o que pensa.

Temos que separar os medos e cortar essas cordas que nos controlam, ninguém precisa perder um filho para entender que somos direcionadas a sentir medo constantemente.

Medo é corda que foi amarrada no nossos calcanhares e já é hora de cortar, o mundo que se segure, porque não tem nada mais transformador do que uma mulher sem medo.


Iara De Dupont

10 dezembro 2016

A ceia da exploração


Cada vez mais vejo o desenho social no qual todas as mulheres estão envolvidas, percebo a diferença que separa os gêneros no dia a dia.

Recentemente tive que reformar minha cozinha e quando eu perguntava as coisas aos rapazes que consertavam não recebia respostas, então eu tinha que apelar para meu irmão e na hora eles respondiam.

Não é uma questão de se fazer de vítima, mas meu papel como mulher foi definido antes que eu nascesse e os outros parecem reagir a isso, não tenho direito de responder duro nem direto, tenho que ser ''fofa'' o tempo inteiro, caso contrário viro a louca e histérica.

Mas ser ''fofa'' me transformou durante anos em um tapete, todos pisavam. E agora no fim do ano essa ''fofice'' é mais explorada ainda.

Não tive consciência de uma situação que passei, na hora não percebi, agora vejo como era clara e simples.

Em algum momento me encontrei em uma loja lotada, na véspera de alguma data importante, comprando uma ''lembrancinha'' para a sobrinha do Romeu.


Já contei mil vezes essa história, mas ela mostra como as coisas funcionam, somos obrigadas como mulheres a sermos fofas e gentis com a família do Romeu, mas ele pode passar em cima da nossa e ninguém diz nada.

Fim de ano mostra bem isso, é a melhor época do ano para ver como somos exploradas sem dó e aceitamos porque estamos ansiosas por essa aprovação e para que não nos vejam como as ''loucas''.

Tudo fica nas costas da mulher, as compras, a ceia, os presentes, até controlar as crianças no dia do natal é responsabilidade das mulheres e aceitamos isso com naturalidade.

Podemos dizer que em gerações anteriores era uma troca, os homens trabalhavam fora de casa e as mulheres dentro, claro que dentro era pior do que fora, mas isso não era levado em conta, por isso parecia natural que em fim de ano e suas festas as mulheres que fizessem tudo.

E tenho uma amiga que há anos, sem nenhum conhecimento de feminismo, começou a se impor. Acho que foi o instinto, apanhou demais em um relacionamento, foi muito abusada e quando tudo acabou resolveu virar sua vida e começar do zero, conheceu outro Romeu e se casou.

Desconfio que a facilidade dela em se impor vinha do fato de gostar muito do marido, mas não estar totalmente apaixonada e ela era o pilar econômico da casa, então de uma certa maneira estava segura, sabia que se desse merda ele poderia ir embora.

Na época não entendi algumas atitudes dela, cansei de dizer que estava sendo muito dura com o marido e isso era péssima ideia.

Na época de natal aconteceu uma coisa que me chamou a atenção, fui a primeira em dizer que a sua atitude estava errada, só agora percebo como ela foi inteligente.

O marido sempre jantava no natal na casa de seus pais, mas nesse ano resolveu que queria fazer a ceia na sua casa e comunicou a minha amiga que fariam o jantar. Ele pediu que ela cozinhasse, porque ele não sabia cozinhar muito bem, ela aceitou, mas pediu que ele pagasse os ingredientes. 

Ele apareceu e deu quinhentos reais para as compras, minha amiga bateu o pé e disse que queria entre mil e mil quinhentos reais para fazer a ceia.

Ela me contou esse episódio e fiquei horrorizada, imagina, cobrar para fazer o jantar da família? Poxa, a gente faz essas coisas por amor, não por dinheiro!
Insisti com ela que ficava ''feio'' pedir o dinheiro, até porque o marido disse que não tinha e pediria para seus pais. Nessa parte eu subi paredes, ainda estava presa a ideia de ser ''fofa'' e lembrei a minha amiga que sua decisão queimaria o seu ''filme'' com a sogra, causaria um ''climão'' se a família inteira do marido ficassem sabendo que ela só topou cozinhar por dinheiro.

Minha amiga bateu o pé, disse que até tal data a quantidade seria de mil a mil e quinhentos reais, mas se ficasse muito em cima pediria dois mil reais pelo jantar.

Duas semanas antes ainda tentei argumentar com ela, continuava me parecendo um absurdo misturar a ceia de natal com dinheiro, eu entendia a parte do marido pagar os ingredientes, mas o resto me parecia injusto, ela não iria gastar dois mil reais no supermercado. Esse dia ela explodiu e me disse:

-Porra, Iara,  faz as contas! Dois mil reais é pouco! Para e pensa! Eu vou trabalhar até o dia 22 de dezembro, isso quer dizer que vou acordar no dia 23 de dezembro e sair correndo para um supermercado lotado, depois volto para casa, separo as coisas, cozinho, vou ter que dar um jeito na sala, deixar o banheiro limpo, enfim, de quantas horas da minha vida estamos falando? Não valem nada? Meu tempo é lixo? Eu nasci para servir família de marido? Coisa nenhuma! Estou cobrando a ceia que vou fazer e todas as horas envolvidas! E olha, ainda dei desconto, porque se for cobrar as horas posteriores de limpeza ficaria mais caro.

Mas a gente cozinha por amor......

-É, quando quer né? Não sou obrigada a cozinhar ceia de natal. Para meu marido é importante a ceia e tal, tudo bem, mas meu tempo vale, não é grátis. Cansei de ver como todos pegam o tempo da mulher como se não valesse nada. Não é só a ceia, mas as horas perdidas nas compras e nas filas.

Vai ficar chato com tua sogra, família é um conjunto de pessoas e todos dependem de todos, não é bom colocar o dinheiro no meio, daqui a pouco tua sogra vai começar a te cobrar se fizer um jantar!

-Sim, todos precisam e todos ajudam, mas só o tempo das mulheres não vale nada? Eu estou cobrando os ingredientes e meu tempo, meu marido não pode me dar todo o dinheiro porque não trabalha tempo suficiente, então que se vire, se quiser pedir para os pais que peça, eu só sei de uma coisa: meu tempo custa dinheiro.

Não consegui avançar na conversa, em algum momento quase que o barco virou porque eu na minha ignorância disse a ela que estava agindo como uma prostituta, ela quase me bateu, mas naquela época eu era boba, ingênua e me parecia um horror cobrar para fazer o jantar de natal da família.

Só entendi o posicionamento dela anos depois, de tanto observar minha família e ver como funcionava, ver as minhas amigas e conhecidas, enfim, percebi então como somos usadas como mulas em fim de ano.

Na minha família a dinâmica é a seguinte: meus tios não dão nem um centavo, porque todas as mulheres trabalham e puxam de seu dinheiro para a ceia, de vez em quando algum deles contribuiu ou leva as bebidas, as mulheres fazem as compras, limpam a casa, cozinham, dão banho nas crianças e recebem todos na noite de natal, quando termina elas limpam tudo. O natal na minha família é bem alegre para os homens, eles bebem, comem, relaxam e jogam conversa fora, enquanto um exército de mulheres, organizadas como formigas resolvem tudo que envolve uma ceia para tantas pessoas. E ainda lembro de episódios da minha infância, eu ia na véspera do natal, de manhã, com minha avó comprar alguns ingredientes que faltavam, lembro de algum primo mais guloso puxando a saia da minha avó e reclamando que o ''jantar tá demorando''.

Hoje entendo minha amiga e senti seu ponto de vista na pele, o nosso tempo não vale nada.  O tempo de uma mulher nem é considerado, pode ser o encanador que se atrasa e nem se desculpa, pode ser Romeu que pede para que façamos o jantar, pode ser para todo o sistema, a realidade é essa, socialmente nossas horas não valem nada, pelo contrário, deveríamos ser gratas por nosso tempo ser dedicado a servir os homens.

Mas todos os pontos que se levantam levam de volta ao mesmo: somos nós que temos que parar isso e controlar nosso tempo, entender que cozinhar uma ceia de natal não envolve apenas duas horas na cozinha, mas todo o tempo das compras, preparo, e limpeza depois.

Eu sou uma romântica incubada, ainda me parece que se cozinha por amor, mas minha amiga está certa, estamos sendo exploradas e desrespeitando nosso tempo, por isso os outros passam em cima.

Nossas horas valem, nosso tempo vale, nossa vida vale. É uma pena ter que dizer isso no século XXI, mas é o que acontece.

É bonito pensar que se cozinha para a família, que é uma maneira de reunir a todos e agradecer outro ano, mas estamos engolindo quietas o tempo que tudo ali nos consumiu e ignorando que ninguém fez sua parte, ficou tudo nas nossas costas.

Parece natal, parece uma ceia, mas é apenas outra data para nos explorar e lembrar que nosso tempo não vale nada, estamos a disposição de todas as convenções sociais, somos as mendigas do sistema, vivendo de migalhas e agradecendo por isso.

E eu não tenho nada contra cozinhar no natal, desde que os outros façam sua parte, não sou a única pessoa na família, posso ser uma das que permitiu ser explorada algum dia, mas isso já acabou.


Iara De Dupont

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...