ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010
MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

14 novembro 2018

A origem

Ciência Mestre: A Origem da Vida: O Universo


Não sei quantas vezes escutei minha amiga reclamar de seu marido, que ele é folgado, encostado, empurra a vida com a barriga. E o pior de tudo: não toma uma atitude, joga tudo nas suas costas.

Já me disse que talvez ele é assim porque é o caçula, mas a mãe é rígida, então de onde vem essa lerdeza para a vida?

Tudo parecia confuso e turvo, o rapaz não é má pessoa, mas parece incapaz de decidir qualquer coisa, dar um passo sozinho.

E no meio de uma conversa apareceu uma frase perdida, eu disse à minha amiga, pode ser a origem do problema!

Em um almoço o rapaz comentou que tinha preguiça de fazer um mestrado, mas era necessário para melhorar de posição dentro de sua área. A esposa lembrou que ele entrou com boas notas na universidade federal, não seria difícil começar um mestrado. E o rapaz respondeu, no meio de uma gargalhada:

-Eu fiz a prova para entrar na universidade um ano, mas não passei. Tentei de novo e tive um ataque de pânico, fui embora e deixei a prova ali. Então minha mãe bolou um plano para o ano seguinte: meu irmão é muito parecido comigo, e mais inteligente, pegou meu rg, se inscreveu, fez a prova e passou, por isso eu entrei.

Veja só que história mais fascinante! A sogra aparentemente rígida, mas de alma corrupta e maleável. O irmão mais velho, que persegue o mais novo há anos, sempre jogando na cara que é melhor em tudo, e onde fica a noção de autoestima de uma pessoa no meio desse bombardeio? Como é que uma pessoa que entra em uma faculdade sem fazer a prova, se sente no fundo de seu coração?

E nem encostei no mérito do rapaz ser homem e do significado para sua masculinidade, ver o irmão resolver sua vida.

E do que ele seria capaz, já que nem de entrar em uma universidade foi? E o problema não é falhar na prova ou não entrar, mas mandar outro em seu lugar! Muitas pessoas não entram na faculdade e nem por isso andam pela vida falsificando documentos!

De nada, não seria capaz de nada. A origem de seu temperamento encostado e sem atitude é essa, uma mãe e um irmão que passam por cima dele para resolver sua vida.

É normal em uma mulher apaixonada negar todos os sinais, não prestar atenção e depois jogar a culpa em circunstâncias, mas a verdade é que os homens já chegam prontos ao casamento, ou seja, já chegam sendo o que são, nem para mais, nem para menos. E são consequência da educação que receberam, das orientações que seguiram.

Perguntei para minha amiga se era verdade essa história da faculdade, ela disse que sim e ainda acrescentou ''bobagem de moleques, né!''.

Mas essa bobagem foi feita quantas vezes? É verdade que eles são parecidos, eu mesma já os confundi algumas vezes, mas a pergunta é, quantas vezes o irmão maior assumiu a responsabilidade do menor?

Para quê dar voltas? A resposta é essa! Que homem ela pode ter em casa, se ele foi criado para se esquivar de responsabilidades e chorar pelo irmão maior?

O que isso faz com uma pessoa internamente? Digo, um homem sem nenhum atrativo, e ainda por cima sabendo que seu irmão fez a prova no lugar dele, onde ele vai repousar seu orgulho de macho? Como ele vai pensar que é um ser humano de valor, se não resolve nada?

E minha amiga diz ''é você que está dizendo, porque ele não está nem aí, levou na boa o irmão ter feito a prova em seu lugar''.

Se levou na boa, por que é tão inútil como homem?

Mas é só uma prova! 

É só o que eu sei, mas digamos que a ética é um muro que detém o ser humano, uma vez derrubado ninguém levanta e com certeza essa família deve ter feito outras coisas nesse estilo.

Não adianta reclamar depois, é preciso juntar os detalhes antes e perceber cada nuance, mesmo que a paixão tente cegar. É necessário estar atenta a cada coisa dita, cada piada jogada na mesa, cada conversa que vai para a roda dos amigos e da família. 

Construção ética e moral de uma pessoa não começa no casamento, começa no dia que ela nasce. Se essa pessoa vem de uma família que parece normal ''falsificar'' um documento, o que se pode esperar?

Não tem como o rapaz ser um bom marido, já que é um ser humano de qualidade baixa. E não adianta a mulher pensar que ele é assim, meio parado, porque ela é elétrica e ele se sente acuado. 

A origem vem de lá trás, não é suficiente analisar o rapaz antes de se casar, tem que analisar a família também e com muita calma, todas as explicações vem dali.

O marido é isso que está diante dela, um homem fraco, manipulado pelo irmão, protegido pela mãe, e jogado ao mundo, sem saber quem é, nem do seu potencial. É um ser humano perdido, acostumado a ter a vida resolvida, é um péssimo marido e será um péssimo pai, porque nunca foi obrigado a confrontar o mundo.

Casamento é uma coisa que dura muito tempo, envolve a todos e não pode ser feito nesse ambiente de oba-oba, de amor e paixão, como se isso fosse tudo na vida.

E na família do homem que estão as respostas. E nem sempre são boas, mas elas vão indicar que tipo de marido o rapaz vai ser. No caso da minha amiga isso estava na frente dela, a presença do irmão mais velho resolvendo tudo e anulando o caçula. Ela não se casou com um homem, talvez com meio-homem. E nada vai mudar, ele só vai piorar, e não é culpa dela.

A melhor coisa que ela pode fazer é devolver o rapaz ao seu irmão e a sua mãe, e ser livre.


O homem é como um pote de maionese, já chega pronto e com avisos no rótulo, cabe as mulheres lerem e pensarem o que querem. E na maioria das vezes nem valem a pena, porque já chegam com os ovos batidos.



Iara De Dupont






12 agosto 2018

Casamento: só a festa vale a pena



Quando uma mulher vem me dizer que vai se casar, fico gelada.
Qual o motivo real atrás de uma decisão que vai prejudicar sua vida?

Ah, é o amor! A vontade de dividir a vida com o homem que ama!
Exato! É nesse ponto que a conta desanda, na parte de ''dividir'', porque não vai ser assim, casamento é um conta de multiplicação, onde se multiplicam os problemas, as responsabilidades, a pressão.

Antes eu tentava disfarçar e dizia a mulher ''bom, se você quer se casar, se case, a vida é para fazer as coisas que temos vontade''.

Mas acho que esse discurso hipócrita já se desgastou, prefiro avisar a mulher que se casar é assumir um emprego não remunerado, que jamais será reconhecido e conforme o tempo passa, mais e mais exigências serão feitas.

E a pior parte? Que não vale a pena. Segundo os psicólogos, o estado de  ''paixão'' dura dois anos, no máximo três, depois desse tempo já dá para ter ideia de que Romeu é um homem comum, medíocre e tão explorador como todos.

O que tem de errado em querer em uma vida em comum?
Que não existe isso! É uma fantasia que vendem para fazer as pessoas comprarem casas e móveis! Faz parte de um sistema econômico, é uma larva social, não é algo real.

A mulher se casa achando que está fazendo o certo, ao querer ficar com o homem o que ama, mas esquece que o ''homem que ama'' não a vê como ser humano, mas sim como uma escrava, um objeto às ordens!

Ai, meu namorado não é assim!

Você que não reparou! Mas se for latino, brasileiro, se prepare, são piores do que parece, porque não existe registro no inconsciente masculino sobre a mulher ser um ser humano, todos os registros a ligam a uma boneca.

Tudo o que nos dizem sobre casamento é mentira. Não existe uma divisão de tarefas, nem uma construção material, pelo contrário, vamos perder dinheiro.

E sobre aquela fantasia de não envelhecer sozinha? 
Também é mentira, existem duas possibilidades, em uma o marido pede o divórcio em alguma crise dos seus cinquenta e sessenta anos, e vai embora com uma menina de vinte anos, e a outra possibilidade é que ele acomodado e encostado na mulher, fique ali mesmo, com uma enfermeira ao pé da cama. Não importa o que acontecer, a mulher vai se dar mal.

E aquela linda frase de ''ter um apoio quando precisamos?''.
Ora, isso é um estado de alucinação! Pode perguntar para suas amigas casadas, se quando precisaram dos maridos, tiveram o apoio que gostariam. A resposta é ''não''.

Homens não estão ''nem ai'' para as necessidades de qualquer ser vivo que não seja ele.
É delírio pensar que o marido vai estar quando você precisar, não vai estar, e se estiver, se prepare, depois chega a conta, porque homens cobram tudo.

Se casar implica em administrar mal o dinheiro que ganhar, porque são muitos gastos, ficar exausta emocionalmente, se sentir sozinha, ter um sexo péssimo e se arrepender do que fez.

A única coisa boa é a festa, mas o dia seguinte chega e o pesadelo começa.


Iara de Dupont

06 junho 2018

Adivinha de quem é a culpa



A coisa mais importante para as mulheres é perceberem como elas aparecem nos discursos. Em um mundo machista sempre somos mencionadas de maneira misógina, e às vezes ''desaparecem'' nossa presença, tudo isso é feito para tirar qualquer responsabilidade dos homens, vivemos em um planeta onde tudo é ''culpa'' da mulher.

Escutei um pregador contando o caso de um advogado, que virou morador de rua. Disse que entrou em depressão, começou a beber, a mulher foi embora com o amante, o relacionamento com os filhos ficou ruim e ele para não incomodar, foi morar na rua. O pregador insistiu em dizer como a mulher e os filhos eram más pessoas por não socorrerem o homem.

Trabalhei um bom tempo com moradores de rua e as histórias ali são inacreditáveis, todas envolvem um Estado ausente e decisões ruins diante do desespero, da solidão, da falta de família por perto. A maioria são tragédias, daquelas de filmes, mas existem muitas como essa do advogado.


No começo eu tinha uma visão machista e pensava mal das mulheres e filhos que abandonam os homens a propia sorte, mas depois inverti a lógica e me perguntei, quem foi abandonado antes? Sempre a mesma resposta: a mulher.

Homens não assumem suas responsabilidades espirituais em um casamento, todos são contaminados com aquela fantasia de ''tudo posso'' e por que não se casar e continuar na farra? Eles saem aprontando, catando demônios em camas alheias, e trazendo aquilo para sua casa, aquela casa que a mulher trabalha duro para construir.  

Falar sobre homens espiritualmente irresponsáveis, que ''sujam'' suas casas, ninguém quer, mas dizer que a mulher  é má porque largou o marido, todos dizem.

Ninguém é obrigado a se casar, pode ficar solteiro a vida inteira, mas na hora que se casa tem que entender que a vida é feita de escolhas e temos que fazer as nossas diariamente.

E temos que prestar atenção para que parem de nos incluir nos discursos sempre como as vilãs, que torturam os ''coitadinhos dos homens''.

Homens não assumem suas responsabilidades, não assumem que em 99% dos casos são os primeiros a quebrar a estabilidade espiritual de sua casa, são os últimos em perceber a importância de sua família e a sorte que significa ter uma.

Não digo que as mulheres sejam umas santas, mas antes de vir contar sobre o coitadinho que mora na rua, que um dia já teve um lar, eu gostaria de saber o que ele fez como sua família.

Ah, mas ninguém merece morar na rua! 

Ninguém, nem um cachorro, a rua é um lugar para passar, não para morar. É absurdo o silêncio do Estado diante dessa tragédia urbana.

Mas não importa o que os homens fazem, em todos os discursos nada é sua culpa, eles sempre são protegidos de qualquer condena moral. Sobra tudo para a mulher, desde Eva que a história nos persegue e humilha.

Iara De Dupont


                                                  













19 abril 2018

Eu sou gostosa!


Na atual momento que todos enfrentamos, na luta para evoluir, cada um tem seu desafio material, porque é o principal, o norte do nosso futuro. Do que precisamos desapegar para evoluir de maneira menos dolorosa?

Essa tem sido uma pergunta muito complexa para as pessoas, no que estamos agarrados materialmente?

Passei meses trabalhando nisso, o que me segura materialmente nesta dimensão? Achei que era meu amor pela matéria, mas conversando com seres evoluídos percebi que não era o amor que estava me enforcando, mas o ódio quase secreto que mantive durante anos com meu corpo e nem era tão secreto assim.


Fui educada desde pequena para odiar meu corpo, desde o começo quando entrei ao ballet, tinha três anos e as professoras não escondiam a má vontade de ensinar uma menina ''gordinha'' que jamais seria bailarina. Parece que rezavam para que eu faltassem as apresentações, porque estragava seu quadro perfeito, as meninas pequenas e magras sempre ficavam na frente.


Dali em diante tudo foi cimentando esse ódio, a adolescência em um grupo de meninas magras, o erro ou acerto, não sei, de entrar ao teatro com dezesseis anos e enfrentar outra realidade, que ainda não tinha consciência, não existem atrizes gordas e jovens, e isso seria jogado na minha cara durante anos.


Os relacionamentos abusivos que tive, com misóginos, enrustidos, que lidavam mal com o corpo feminino, até porque nem era o gosto deles. O isolamento no consumo, não existiam roupas do meu tamanho.


E todos os julgamentos que vieram com o peso, me diziam que não tinha disciplina, não era constante, não era dedicada, porque pessoas focadas emagrecem, quem é gordo é folgado e sedentário.


Foram tantos anos aprendendo a me odiar que mesmo em épocas que estava mais magra eu não reconhecia meu corpo, parece que era sempre o mesmo peso.


Não lembro de ofensas ao meu caráter, nem maneira de ser, quando queriam me ofender usavam o peso, tudo parecia culpa do peso, a falta de namorado, a falta de trabalho, a falta de amor própio.


Todos os meus fracassos eram culpa do peso. E não tinha como ser diferente, criei um poço de ódio, me anulei durante anos, no fundo me sentia incompetente, pensava que se tivesse disciplina aguentaria passar fome e poderia ter uma vida normal.


E esqueci o assunto, até começar a separar os pontos que me dividem de onde estou para onde quero chegar, o que acelera ou atrasa minha evolução e esbarrei com isso, o ódio do meu corpo.
Me recomendaram o melhor tratamento espiritual que existe, funciona até nesses casos extremos, de auto-ódio, era necessário apenas trabalhar a aceitação.


É isso. Aceitação. Aceitação. Cheguei ao mundo com esse corpo ou ele se formou ao longo do caminho, não sei, mas é o que tem para hoje. É o que sou. E eu aceito. E não é aceitar o presente, é aceitar um passado que não posso mudar. Aceitar as oportunidades profissionais que perdi porque não consegui perder trinta quilos em dez minutos. É aceitar o que aconteceu. Aceitar que não eu não sabia o que era gordofobia e não soube me posicionar. Aceitar que deveria ter me aceito desde o começo. 


Trabalho aceitação todos os dias, a parte mais dura é aceitar o passado. O presente não me afeta mais, levou anos mais entrei no jogo de ''vocês não me querem? Agora quem não quer sou eu''.


São meses trabalhando a aceitação, aceitando minhas decisões, meu corpo, o que errei, o que acertei. E não mudou meu peso, não emagreci, nem engordei, não é uma receita mágica.


Mas trabalhar duro sempre traz alguma recompensa, depois de meses comecei a reparar uma coisa que não tinha reparado: meu Deus, eu sou gostosa! Eu nunca fui gostosa, mas agora estou gostosa! Tenho o mesmo peso que tinha antes de começar, mas agora estou gostosa!


Aceito que perdi tempo, mergulhei no ódio que me impuseram, cresci em um mundo cruel, mas a aceitação leva a portas que se abrem e nos mostram a realidade.

Aprendi como é fácil aceitar as mentiras em relação ao nosso corpo e duvidar da verdade, aceitar a verdade: eu sou gostosa.

Iara De Dupont

16 abril 2018

A história das bolachas



Tem gente que me diz ''poxa, você não conhece nenhuma história fofa com marido e mulher?''.


É, eu conheço uma, só uma, por isso nunca contei, porque é a única, aconteceu com uma amiga da minha prima.Ela se casou com um rapaz e tudo ia bem, eles trabalhavam na mesma empresa, houve cortes e os dois foram demitidos. Continuaram procurando trabalho, mas ela engravidou e resolver pegar uma receita que tinha e começou a fazer bolachas. E o marido continuava procurando emprego, enquanto ela vendia bolachas para os amigos, vizinhos e parentes.

Um dia ela recebeu uma encomenda enorme, uma grande empresa faria um evento e queria dois mil pacotinhos, com cinco bolachas cada um. A moça pediu emprestado o dinheiro para comprar o material e foi para a cozinha, fazer as dez mil bolachinhas. Mas ela estava feliz, porque o pessoal da empresa disse que iria colocar o nome dela no papel, que estaria amarrado a uma cordinha no pacote, com o logo da empresa, ela pensou que assim conseguiria divulgar seu trabalho e pegar mais encomendas. A mãe, a sogra, o marido, as irmãs, todo mundo ajudou a fazer as bolachas.
No dia do evento ela ficou esperando que alguém da empresa viesse para pegar os pacotes, e trazer as etiquetas para grudar nos pacotinhos, mas ninguém chegou. Ela ligou para a empresa, ninguém atendeu, começou a ligar aqui, ligar ali, e chegou em uma pessoa que disse ''olha, a empresa é uma multinacional, não sei que confusão deu, mas a central americana não autorizou o evento, está cancelado, depois te aviso como vai ser resolvido''.

A moça começou a passar mal, levaram ela no hospital, foi a pressão que subiu, mas foi medicada e voltou para casa. Sentou e chorou, não iria receber o pagamento e tinha na sua sala caixas com dois mil pacotes de bolachas.

O marido de aproximou e disse ''amanhã a gente resolve o que fazer'' e a esposa disse ''vamos resolver como? Precisamos pagar o empréstimo e as bolachas têm data de validade''.

E foram dormir. No dia seguinte a moça acordou e o marido tinha deixado um recado, dizendo que iria demorar. Lá pelas onze da noite ele ainda não tinha voltado, ele ligou e disse que iria demorar mais um pouco. Chegou em casa a uma da manhã e disse ''vendi quinhentos pacotes de bolacha'' e a mulher perguntou ''como?'' e ele respondeu ''acordei de manhã e fui para o semáforo, depois fui mudando de lugar, quando chegava alguém e dizia que era proibido vender ali ou tinha dono, eu ia para outro, amanhã eu volto e vendo mais quinhentos pacotes''.

Parece uma ideia genial, mas existem camadas de preconceito que se espalham nos diferentes níveis sociais e isso impede muitas pessoas de reagirem, ficam com vergonha, pensam que vão ser humilhadas, ou que só pelo fato de terem um diploma deveriam estar imunes as curvas da vida. O marido era engenheiro, garoto de classe média, sem a malícia da rua, mas meteu a cara, não teve vergonha de ir para os semáforos.

No dia seguinte conseguiu que seu irmão e cunhado fossem com ele, antes das duas da tarde todos os pacotes de bolacha já tinham sido vendidos. E ele ficou tão feliz com o que aconteceu que parou de procurar emprego, abriu uma empresa de bolachas com a mulher e contratou gente para vender nos semáforos, porque ele dizia que pessoas compram café, mas não as bolachas e depois que estão no carro lembram das bolachas e querem comprar.

Pois é, o marido agiu como os maridos deveriam agir, mas é a única história boa que conheço.


Iara De Dupont

09 março 2018

Os olhos do Seu Paco não queriam se fechar.....



Tenho uma tia que bate portas sem dó, de preferência acompanhada daquela famosa frase ''homem não presta''.
Ela brigava com meu tio e toda a vizinhança ficava sabendo. Minha avó levantava os ombros, mas nunca disse nada, nem defendia os homens da família.


Uma dia minha tia bateu a porta de novo e eu disse ''ela tem razão, homem não presta'' e minha avó disse ''é, penso isso, mas lembro do Seu Paco e fico confusa porque ele era um bom homem''.


Seu Paco foi um dos maiores traumas de adolescência da minha avó, não podia falar dele sem chorar, e quando já estava em idade avançada repetia sempre essa história. Não sei quantas vezes escutei sobre ''Seu Paco''.


Minha avó morava no interior, uma cidade pequena, todos se conheciam e tinha um casal que morava lá, Seu Paco e a esposa, eram um casal de idade avançada e tinham um filho, um rapaz que nasceu com algum problema físico, cresceu em uma cadeira de rodas e tinha algum atraso mental.
O casal se dedicava a cuidar do filho, tinham umas vaquinhas e vendiam o leite e o queijo que faziam. 


Todo mundo conhecia o casal, eram quietos, religiosos, não se metiam com ninguém. Mas a esposa adoeceu, não conseguiram nenhum tratamento e ela faleceu, então Seu Paco se dedicou mais ainda ao filho e as suas vaquinhas.


Um dia ele caiu do cavalo, foi levado para sua casa e alguém concluiu que ele estava morrendo. Não tinha médico por perto, nem hospital, e ainda por cima no meio da revolução mexicana.


Ele tinha quebrado alguns ossos, levou uma pancada na cabeça, e tinha muitas dores. O colocaram na cama e chamaram o padre, para a extrema unção.
Algumas horas depois o padre foi a casa da minha avó, uma menina de doze anos e disse ''você pode me acompanhar?'' e ela foi para a casa do Seu Paco. Um pouco antes de chegar lá o padre disse a ela ''vamos prometer ao Seu Paco que seu filho será cuidado por todos''. Minha avó entrou no quarto, viu Seu Paco na cama e o filho ao lado segurando sua mão, então ela se aproximou e disse ''Seu Paco, nós amamos seu filho, vamos cuidá-lo''. E Seu Paco respondeu ''filha, é muita responsabilidade, eu sei que assim que morrer vão jogar ele no lixo''.


Minha avó só lembrava essa parte da conversa, o resto foi o trauma que carregou. Ela disse que Seu Paco olhava para o filho, as lágrimas desciam pelo rosto, e ele não conseguia fechar os olhos. O padre disse mil vezes ''Seu Paco, vá tranquilo, nós vamos cuidar do garoto''. Mas o pai não conseguia fechar os olhos, sabia que se fechasse morreria e seu filho seria jogado no lixo.
De todos os jeitos o padre insistia, disse ''Seu Paco, pense que vai encontrar a sua amada esposa'' e ele respondia ''mas e meu filho?''.


O padre saiu do quarto e deixou minha avó lá, sozinha, com seus doze anos de idade, no meio daquela situação. Ela lembrava que o pai chorava e o menino apertava sua mão, ao pouco tempo os dois choravam juntos. E isso durou a noite inteira e metade do dia. Minha avó não dormiu, aquilo começou a ficar impresso em sua mente, o pai que resistia em fechar os olhos. O rapaz não falava muito bem, era difícil de entender, mas em algum momento disse ''pai, pode ir'' e o Seu Paco não fechava os olhos.


O padre voltou e disse a mesma coisa ''Seu Paco, fique tranquilo, nós ficaremos com o menino'', mas ele não fechava os olhos. Às vezes fechava por uns segundos e abria novamente, procurando o filho, manteve durante horas seu olhar de agonia, não soltava o filho.


Ele resistiu quase dois dias sem dormir, sem fechar os olhos, no meio das dores. Minha avó contava a história mil vezes, ficou traumatizada com o olhar do Seu Paco, a resistência em abandonar o filho a propia sorte, a briga com o destino. Minha avó passou fome, viu uma revolução, assistiu os militares aprontando tudo, matando crianças e deixando todos morrerem de fome, mas nada disso marcou sua alma, o que a fazia chorar e encomendar missa todos os anos era o Seu Paco e seu olhar desesperado ao saber que o filho ficaria sozinho no mundo, sem poder se defender.


De vez em quando ela dizia que talvez os homens prestassem, porque lembrava do Seu Paco, falava dele e terminava dizendo ''nunca vi um homem resistir tanto em abandonar um filho, nunca vi uma morte tão dolorosa, uma partida tão lamentada, nunca vi alguém lutar tanto por um filho''.
Minha avó nunca soube o destino do filho do Seu Paco, estavam no meio de uma revolução e logo ela seria descartada por sua mãe, que se casou novamente e deu um jeito de se livrar da filha. E 


Seu Paco nunca soube que minha avó rezou por ele e seu filho durante mais de setenta anos. E também nunca soube que ela sempre disse ''se eu morrer sese eu morrer sem passar pelo sofrimento que Seu Paco passou, vou considerar que tive uma vida feliz''.
Graças a Deus morreu sem passar por isso.


Iara De Dupont

26 fevereiro 2018

O pacote inteiro



Cresci em uma casa de ateus, mas apaixonados por arte sacra. Tinha um altar, várias imagens e quadros. Sempre tinha na minha direção o olhar doce de alguma estátua de Virgem ou Santa, até no meu quarto.
Eu não sabia o significado, mas como cresci com isso sempre gostei dessas imagens.

Um dia caminhava pelo centro quando vi uma estátua maravilhosa, não sei qual era, mas talvez fosse a Virgem da Consolação, lembro dos vários anjos de cerâmica ao redor dela. Era uma estátua grande, talvez sobrevivente de alguma igreja e o preço não era alto, menos de mil reais. 

Paquerei essa estátua durante meses, pensava que um dia compraria e a levaria para casa, até que um dia caminhando por ali caiu uma chuva pesada, a rua era uma ladeira e a água corria na calçada como se fosse um rio. O dono do antiquário me viu tentando escapar da água e me disse para entrar na sua loja, onde estava a estátua. Sentei na sala que tinha ali e fiquei um bom tempo conversando com ele, comentei minha vontade de levar a estátua da Virgem, e ele me perguntou se eu era católica. Disse que era batizada, mas não fui educada na igreja, pelo contrário, eu nem sabia o nome da estátua que queria. Ele me disse que era a Nossa Senhora da Consolação.

Ah, eu acertei! 

Voltei a comentar meu interesse nela e ele respondeu:

-Vai levar o pacote todo?

É, quando puder, eu levo.

-Ela tem um bom tempo aqui e já foi devolvida umas quatro vezes, vai e volta, mas eu aviso que não devolvo o dinheiro.

E por que devolvem ela?

-Porque é o pacote inteiro.

Mas o que é o pacote inteiro?

-É uma estátua antiga, quase cem anos. A igreja foi demolida e alguém a comprou, depois veio parar aqui. Não é uma peça de decoração, é uma peça de devoção e isso carrega muitas coisas, você pode imaginar quantas pessoas, durante cem anos, ajoelharam e pediram misericórdia? Algo deve ter ficado ali, na estátua, e as pessoas levam sabendo disso, mas depois reclamam.

Mas reclamam do quê?

-Ah, elas dizem que depois que levaram a estátua escutaram vozes na casa, pessoas chorando, rezando, enfim, como se estivessem em uma igreja, sabe aquele silêncio de igreja, mas que você escuta um zum-zum de gente rezando? É isso.

A estátua vem com fantasmas?

-Não sei se são fantasmas, cada um dá uma explicação, dizem que é energia, um pouco das pessoas que tanto pediram ajuda a estátua, podem ser almas que se apegaram tanto que não soltam mais. Arte sacra é assim, às vezes nas mãos de ateus e às vezes nas mãos de devotos, mas antes disso era objetos de devoção de muitas pessoas. E o que essas estátuas devem escutar? Quantas pessoas ajoelham e contam suas tragédias? Tudo vai ficando no ar, ao redor da estátua.

E aqui não aparecem fantasmas?

-Nunca vi. E só fico aqui durante o dia, é muito barulho externo, não escuto nada nem vi nada estranho, mas talvez durante a noite seja possível escutar algo.

E seria melhor se ela fosse levada à casa de algum católico, alguém que seja devoto?

-Já tentei, mas ela foi devolvida. Esteve em quatro casas, três eram de apaixonados por arte sacra e um era devoto dela, mas acabou devolvendo porque disse que apareceram sombras e ele rezou, rezou, e não foram embora, então trouxe a estátua de volta.
Sempre digo isso, é uma estátua, mas leva o zum-zum de uma igreja, de tantas missas, tantos pedidos, tantas orações. 

Minha avó dizia a mesma coisa, guardava suas imagens de santos e santas e não dava para ninguém, mas sempre dizia que gostaria que ficassem em  família, infelizmente, por esses azares da vida, foram cair nas mãos de uma neta indiferente, que para está altura já deve ter jogado tudo no lixo, apesar dos apelos das tias. 

No desespero almas grudam no que conhecem e a Nossa Senhora da Consolação é uma figura acolhedora, deve arrastar um sem fim de devotos.

Fiquei olhando para a estátua e desisti de comprar. O dono tinha razão, é um pacote inteiro, não é uma peça de decoração, carrega todas essas energias da qual foi objeto toda sua vida. E não se pode culpar ninguém, também já me vi ajoelhada pedindo algo a uma Santa, também joguei um pouco de minha energia no ar que a envolvia.

E de repente o dono me disse:

-Tem horas que não quero vender, acho que ela ficou bem aqui, sossegada, talvez estava cansada de tantos pedidos, e parece que gosta daqui, ninguém a incomoda aqui.

Olhei de novo e dei razão a ele, realmente ela parecia ter um ar tranquilo, sereno, ali no meio da sala, em um antiquário no centro.

Seres humanos perturbam tudo ao seu redor, desde a natureza até os santos, todos precisamos folga dessa humanidade neurótica.

Objetos, estátuas, imagens, tudo se contamina com a presença humana, com suas descargas energéticas desequilibradas, seus impulsos histéricos.

A estátua em si é maravilhosa, mas vem com essa energia humana, esses gritos abafados, paciência.

De vez em quando eu passo na mesma rua, vou lá dar uma olhada e digo a Nossa Senhora da Consolação, você é maravilhosa, uma das mais lindas que já vi e vou embora.

Queria ela na minha casa, mas sem todas essas pessoas que ela carrega ou esses restos de energia. 

E conheço bem o coração humano, sei que é uma energia pesada porque poucas pessoas ajoelham e agradecem o milagre, o que elas fazem é se desesperar e pedir as coisas, mas na hora de receber nem lembram a que santo pediram. Sei de todas as correntes de dor e angústia que o ser humano carrega e tenta jogar em cima dos outros.

É uma linda estátua, pena que esteja tão saturada com a energia humana, ela não merecia isso. Espero que encontre um pouco de paz naquele antiquário, longe do desespero humano.



Iara De Dupont

22 janeiro 2018

É mais fácil planejar a vida do que um casamento



Há uns dois anos uma amiga decidiu que iria se casar. O namorado, naquele comodismo masculino, disse que eles não tinham dinheiro, era melhor esperar um pouco, mas ela quis se casar.

Pensou na cerimônia, na festa, no lugar, nas flores, no vestido. E fez as contas, que ficaram bem apertadas. O namorado disse que iria ajudar, se pudesse, mas ele batia o pé insistindo que era ela que queria se casar, então navegava naquele ''se vira''.

Ela tinha só seu salário, morava com os pais e economizou durante um tempo, mas fez um trato com os pais de não colaborar na casa durante os dois anos, e eles aceitaram.

Uma vez fui com ela a uma rua de comércio popular, porque ela procurava velas e arranjos de mesa. Em cada lugar que entrávamos a cabeça dela começava a funcionar, dizia em voz alta ''são tantas mesas, tantas colunas para as flores, e tal'', fazia contas e resolvia tudo na hora.

Ela tanto procurou que achou um salão de festas gratuito, na verdade era de um parente, que tinha comprado um apartamento em um prédio quase vazio e emprestou o salão para seu casamento.

Quando eu vi as planilhas que ela tinha feito comentei que deveria fazer uma faculdade ou curso de contabilidade, porque era tudo muito organizado. Ela olhou, suspirou e disse:

-Vontade eu tenho é de uma faculdade, queria fazer administração.

E por que não faz?

-Porque ficaria pesado pagar, e se fosse uma pública teria que fazer um cursinho, agora com o casamento não posso nem sonhar com isso, mas talvez depois.

Em dois anos planejando o casamento aconteceram mil coisas. O pai ficou doente e isso exigiu driblar os gastos e tirar um pouco do dinheiro que tinha guardado. O país entrou em crise, o namorado perdeu o emprego. E ela ali, fazendo suas contas, mantendo em pé o sonho do casamento, sem mudar as datas.

Não sei quantas pessoas a aconselharam a adiar o casamento, esperar a poeira abaixar, mas ela alegava que já tinha jogado o barco no mar e agora daria mais trabalho cancelar tudo.

E passou dois anos no lápis. Fez tudo sozinha, seguindo conselhos que achava no Google. Procurou a igreja, conseguiu um buffet, economizou para as bebidas, e até sua avó entrou na roda, costurando o vestido.

Minha única reserva nesse assunto era vê-la tão envolvida e o namorado em postura neutra. Mas a mãe dela me convenceu de que o sonho era da moça, e sonhos se vivem sozinhos, não embarcamos ninguém neles. Se para ela era importante ter sua festa e estava lutando por isso, bom, que fosse feliz.

E há três semanas aconteceu a festa, os dois anos passaram voando, e o dia chegou. E tudo foi perfeito, a igreja estava linda, com umas flores pequenas e bem iluminada, o salão era bem localizado, fácil de chegar e a comida estava maravilhosa. Tudo foi feito como ela queria, simples, mas de maneira elegante.

O padrinho deu uma viagem de lua-de-mel, e dias depois que ela voltou, a encontrei. Conversamos muito e acabamos caindo no assunto da faculdade, bom, se já casou, tudo está pago, por que não pensar em um curso, um sonho dela? E ela me respondeu:

-Tem uma hora na vida que somos obrigados a aceitar nossos limites. Eu sou boa em vendas, mas não tenho a capacidade intelectual que uma faculdade exige.

E que capacidade seria essa?

-Não sou ''tão'' inteligente.

E quem disse que faculdades são celeiros de pessoas inteligentes? Muito pelo contrário, é tão raro inteligência ali dentro que quando aparece uma mente brilhante se destaca logo. Faculdades são como qualquer lugar no mundo, se focar e estudar, consegue, tudo está desenhado para a mente humana, não existem grades curriculares ali feitas por alienígenas.

E ela continuou....

-Mas não sei se conseguiria ficar lá dentro os três, quatro anos que se precisa, não sei se poderia me comprometer.

Mas não se comprometeu com um casamento durante dois anos? Qual a diferença? Foca e vai.

Por que mulheres acreditam nisso? Que podem organizar um casamento com uma perfeição inglesa e orçamento brasileiro, mas não conseguem terminar uma faculdade ou passar em um vestibular?

Isso acontece porque nos fizeram acreditar na coisa errada, dá a impressão que todas as mulheres podem planejar um casamento perfeito, mas não podem passar em um vestibular!

Precisamos sair dessa egrégora, que nos segura, nos faz pensar que somos desenhadas apenas para planejar e viver casamentos como o evento mais importante de nossas vidas, quando na verdade não são mais.

Chega de pensar que somos as rainhas do planejamento de bodas, mas incapazes de fazer nossa vida correr em uma direção melhor.

E a grande diferença está na frente de todas, casamentos acabam, não dão em nada, mas diplomas ficam, alegria de ter vencido outra etapa fica.

Quem planeja um casamento pode planejar uma vida melhor, sempre. E sem homem por perto enchendo o saco.


Iara De Dupont

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...