"
ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010
MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

17 maio 2019

O pacote de bolacha

A imagem pode conter: sobremesa e comida



Você tem tempo?
Sim.
Sabe aquelas histórias que as pessoas contam dizendo ''mudou minha vida?'', ''foi uma noite definitiva?'', pois é, aconteceu comigo.


Eu trabalhava no bairro do Morumbi, em São Paulo. Estava em um época muito ruim, um casamento desmoronando e trabalhando em uma empresa que não gostava, não era o que eu tinha sonhado. Me sentia estressada, irritada e todos os dias, na volta à casa, eu chorava no meu carro.

Um dia parei no semáforo e um menino de uns oito anos se aproximou, oferecendo chicletes. Eu disse que não iria comprar, ele sorriu e foi embora.
Todas as vezes que eu parava naquele semáforo ele vinha me oferecer chicletes. Um dia se aproximou, bateu no vidro, sorriu e disse ''Tia, tenho uma coisa pra você'' e me deu um pacote pequeno de lenço de papel. Fiquei constrangida, não soube o que dizer, e dei uma nota de dez reais, mas ele recusou. E me disse ''Eu só preciso de dois reais'', procurei na minha bolsa, enquanto o sinal abria, achei a nota de dois reais e dei.

O gesto dele me deixou muito comovida, dali para frente todas às vezes que eu passava nesse semáforo eu dava a ele um ou dois reais. Ele não ia sempre, mas eu separava o dinheiro no carro. Alguma coisa nele mexia com meu coração, a situação dele, na rua, tocava muito a minha alma, apesar de reconhecer que naqueles dias tudo parecia nublado.

Conforme os dias passavam a minha situação profissional e pessoal só piorava. E eu chorava durante horas dentro do carro.

Um dia fui surpreendida pela chuva e fiquei um bom tempo no trânsito. Acho que foi o dia que mais chorei. E ideias assustadoras começaram a atravessar minha mente. Pensava em como terminar com tudo de uma vez, acabar com o sofrimento, tentava organizar na minha mente qual seria o método mais rápido e indolor para me matar quando vi o menino debaixo de um toldo, tremendo de frio. Em um impulso buzinei e disse ''Sobe no carro'' e ele obedeceu. Quando entrou disse ''Hoje ficou tarde, fui jogar bola, depois vim para cá e não consegui vender nenhum chiclete''. Eu disse que o levaria a sua casa e ele aceitou, falou que morava ali perto, em uma comunidade. Ele me indicou o caminho e chegamos logo, a chuva já tinha parado. Me disse para estacionar o carro perto de uma loja e falou ''Tia, vem conhecer meu avô''. Desci do carro de maneira automática, mas enquanto subia uma escadaria pensei ''Meu Deus, vou ser assaltada, vão roubar meu carro’’ e eu estava tão perturbada que logo veio outro pensamento ''Se algo acontecer meu marido vai morrer de culpa, bem feito''.

Passamos por uma loja e a moça disse ''Beto, vai levar bolachas hoje?'' e ele disse ''Hoje não dá''. Falei ''Me dá três pacotes de bolacha'' e perguntei ao menino qual queria, ele escolheu e seguimos caminhando.

Entramos em uma casa simples, de dois cômodos e um senhor cozinhava. O menino foi dizendo ''Vô, tem visita pra janta'', ele me viu e perguntou ''Você gosta macarrão com mortadela?'', disse que sim e ele colocou mais um prato na mesa. Sentamos os três para jantar e o avô perguntou ao menino de onde me conhecia e ele respondeu ''Vô, ela é a moça que sempre passa no semáforo chorando''. Fiquei sem graça e disse ''É, estou em uma fase ruim'' e o senhor respondeu ''Vai passar, parece que não, mas vai passar. Também sofri muito quando a mãe do menino morreu, minha única filha, fiquei tão doente que não consegui mais trabalhar, sou marceneiro. Mas o moleque ficou e tem sido meu apoio, sempre acho que Deus me recompensou com ele. Eu ajudei muita gente a construir seu barraco, dei madeira, nunca cobrei nada, até hoje o pessoal agradece. E fiquei revoltado quando a minha filha morreu, achei que Deus estava punindo uma pessoa boa. Mas os sentimentos deixam de gritar, dor é como chuva, de repente passa, de repente volta em um dia de sol, mas a gente sobrevive. Depois de um tempo a dor acalmou um pouco e percebi que agora sou eu e o moleque, o importante é levar a vida juntos''.

O menino já tinha terminado seu macarrão e em impulso se levantou para ligar a televisão e disse ''Vô, a moça trouxe bolachas''. Eu fui um pouco indiscreta, perguntei do que viviam e ele me disse que tinha aposentadoria, eu falei ''O menino não precisa ir para o semáforo, é um perigo expor a criança assim''. Ele suspirou e disse ''É, eu sei, o conselho tutelar já veio aqui avisar. Mas eu ganho só um salário mínimo, a gente se vira, o pessoal ajuda, mas nem sempre dá, fome ele não passa, mas ...'', o menino interrompeu o avô e disse ''Meu avô é banguelinha e por isso gosta de comer bolacha de noite mergulhando no leite, o dinheiro dá para comprar o leite, mas para a bolacha não sobra'' e o avô falou ''É.....a ideia foi dele, viu os meninos daqui comprando umas balas, chicletes e vendendo no farol e foi atrás. Mas ele não vai todo o dia, nem fica horas ali, é só até conseguir os dois reais da bolacha''.

Comecei a pensar que era muito sacrifício por um pacote de bolacha, mas não disse mais nada. O menino falou ''Vô, o programa vai começar''. E fomos nos sentar no sofá. Era um desses programas de televisão bobos, de ambiente circense, mas o menino parecia encantado, dava risada e dizia ''Olha, vô!''.
O menino se levantou e trouxe uns copos com leite e dois pacotes de bolacha, abriu e dividiu certinho entre os três. Estando ali relaxei, encostei no sofá e acabei dando risada do programa de televisão enquanto bebia o leite e comia as bolachas. O avô acabou dormindo e o menino correu para trazer um cobertor.

O menino sorriu e me disse ''Hoje foi um dia bom. Sempre é, mas hoje foi bom porque consegui trazer as bolachas do meu avô''. Eu disse ''Você gosta muito dele, né?'' e ele respondeu ''Demais. Ele faz tudo por mim, até tirou um empréstimo para me comprar um videogame, é de segunda mão, mas funciona'', se levantou e me mostrou a caixa.
Vi que estava ficando tarde e me levantei para ir embora, mas o menino era agitado e já estava lavando a louça. Ofereci ajuda e ele recusou, pegou uma bolsa de plástico, colocou umas coisas e me disse ''Te levo até teu carro''.

E fomos descendo a escadaria em silêncio. Ele quebrou o gelo e disse ''Moça, não chora mais, a vida é boa''. Perguntei à ele se a vida era boa mesmo e ele respondeu ''É, eu tenho onde chegar, janto com meu vô e comemos bolacha com leite assistindo televisão. A vida é boa sim''.

Entrei no carro, agradeci o jantar, pedi que me despedisse do seu avô e o menino disse ''Tia, quando o dia estiver ruim, vem jantar com a gente. Você precisa comer o frango que meu vô prepara''. Agradeci o convite e fui embora.

Chegando no estacionamento do meu prédio desliguei o carro e quando ia sair vi a bolsa de plástico, o menino deixou dentro. Abri a bolsa e lá estava um litro de leite e um pacote de bolacha. Lembrei do sorriso do menino, da gentileza do avô e que sem saber eles tinham tirado da minha cabeça a pior ideia que um ser humano pode ter. A minha vida estava por um fio, mas a imagem do menino debaixo do toldo, no meio daquela chuva, me trouxe para a realidade e evitou que eu fizesse uma besteira naquela noite chuvosa.

Peguei o leite, as bolachas, subi ao meu apartamento, me troquei de roupa, sentei na frente da televisão e resolvi que no dia seguinte mudaria tudo, começaria de novo, seria corajosa, e valente, como o menino e forte e digna como seu avô. Eles resistem às chuvas da vida, então eu também posso.
Tenho onde chegar, um copo de leite, minhas bolachas e a televisão ligada.
Mergulhei a bolacha no leite, comi e pensei, sim, o menino tem razão, a vida é boa. 


Iara De Dupont

3 comentários:

Anônimo disse...

Muito lindo!

Patricia disse...

maravilhoso!

M disse...

Dessas histórias que aquecem o coração e nos faz lembrar que a vida é o tempo toda boa. A gente que precisa de óculos de vez em quando.