"
ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010
MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

19 abril 2019

A caixinha

MÃOS DADAS II

Uma moça, formada em enfermagem, tem uma história de vida muito dura, órfã de pai e mãe, foi criada por uma tia, que fazia o mínimo por ela. Mas a moça era estudiosa, foi se esforçando, conseguindo bolsas de estudo e se formou em enfermagem. Conheceu um Romeu, se apaixonou e resolveram se mudar para a cidade dele. Ela já tinha um bom emprego aqui em São Paulo, mas foi convencida por ele de que era melhor morar em uma cidade pequena. Ela largou tudo o que tinha aqui e foi embora com ele.

Na cidade do rapaz descobriu que estava grávida, eles moravam em uma pequena casa que o tio do rapaz alugou para eles. A vida ficou apertada, porque era apenas o salário do rapaz que entrava em casa. Ela quis se virar, fazer alguma coisa, mas conheceu um aspecto do Romeu que nunca tinha visto antes, o ciúme. Ele ficava marcando em cima, não deixava a moça fazer nada e de repente ela se viu grávida novamente, em menos de dois anos teve duas meninas.

Quando o aperto chegou no limite o rapaz não teve outra alternativa, teve que deixar a moça procurar emprego, mas a cidade era pequena, sem hospital, tinha apenas um posto de saúde que já tinha todas as vagas preenchidas.

Conseguiu um emprego em um clínica na cidade vizinha, mas foi complicado montar um esquema com as duas meninas, a sogra ajudava e o marido também, mas mesmo assim era puxado.

Um ano depois o marido resolveu voltar para São Paulo, ela adorou a ideia, mas ele avisou que voltaria sozinho, que iria refazer a vida, que esse ritmo provinciano não era para ele.

Ela não sabia o que fazer, ele voltaria para São Paulo e ficaria na casa de um amigo, ela não poderia vir junto com duas crianças, uma de colo.
Resolveu ficar onde estava, até porque pensou que o marido logo voltaria, quebraria a cara em São Paulo, de novo, e voltaria.

Se passou outro ano e de repente passou um furacão na vida dela, a clínica fechou, ela perdeu o emprego, o tio do marido pediu a casa de volta, a sogra morreu e ninguém mais podia ajudá-la com as crianças. O marido disse que iria mandar dinheiro para as meninas, mas não mandou nada, nem apareceu no velório da mãe.

Uma amiga a socorreu e emprestou um quartinho em sua casa, enquanto ela procurava emprego. Não encontrava nada, até que ficou sabendo que um rapaz procurava uma ''ajudante'' para cuidar da mãe idosa. Mas não queria enfermeira porque não iria pagar o que elas cobram. A moça ficou na dúvida, o salário era muito baixo, mas a cidade era pequena e não tinha mais para onde correr, já tinha vergonha de comer de graça na casa da amiga, então aceitou o trabalho.

Ela foi para a casa da idosa, uma casa simples, uma senhora muito doce. E começou a trabalhar ali. Um dia contou a idosa sobre sua situação, morando de favor na casa da amiga, e a idosa a convidou para morar com ela, levando as meninas. Ela ficou feliz, arrumou as malas das meninas, se despediu da amiga e foi para a casa da idosa, chegando lá o filho dela abriu a porta e disse ''Minha mãe me contou que te convidou para morar aqui, mas você sabe que minha mãe está pinel da cabeça, não posso te deixar morando aqui. De repente minha mãe morre e como eu te tiro daqui? Não dá''.

A idosa ficou tão constrangida que se ofereceu para ajudar, tinha uma casa bem pequenina, podia alugar para a moça, o filho aceitou e falou ''Vou alugar para você, descontando 30% do que você ganha''.

A moça não tinha para onde correr, não queria mais atrapalhar a amiga, não tinha dinheiro para ir para outro lugar e aceitou o trato, mesmo sendo injusto. Foi para a casinha e descobriu que estava tudo caindo aso pedaços, nada funcionava, mas passou a noite ali com suas duas meninas.

No dia seguinte foi trabalhar e chegando na casa da idosa ela tinha separado várias caixa com coisas de casa, para dar a moça. Tinha de tudo ali, panelas, lençóis, cobertores. A idosa fazia parte da igreja, e consegui uma doação de um fogão, geladeira e uma cama para a moça.

Um dia a idosa disse ''a casa que te aluguei foi a primeira casa que morei com o meu marido, agora fizeram uma estrada, mas antes eu ia à pé para aquela área de cachoeiras, fui guia dali, tinha muito gringo''.
É, a moça conhecia, era uma área que não estava mais funcionando, a cidade foi engolindo, mas antes era local de turismo.
E a idosa continuou ''eu cresci ali, conheço cada árvore, todos os perigos, por isso quando me marido viajava eu ficava por lá e os gringos me pediam ajuda para ser a guia deles''.

Se passou outro ano e a moça estava mergulhando em uma depressão severa, se sentia incapaz, triste, frustrada, e o marido ou ex-marido nunca mandou um centavo, e ela não tinha dinheiro para voltar para São Paulo. Começou a se perguntar se sua vida seria inteira daquele jeito, morando em uma casa caindo aos pedaços e recebendo um salário que só dava para comprar comida. Mas ela não tinha queixas da idosa, pelo contrário, a senhora se apegou as filhas dela, e não deixava faltar nada, comprava a mochila da escola, os tênis, os doces, pagava o bolo do aniversário, pagava os médicos e dentistas das meninas.

Sempre dizia para a moça ''eu tenho meus centavinhos na latinha da cozinha, vamos ver se dá para comprar os sapatos da menina''. E sempre dava. E ela foi ficando porque se sentia apoiada pela idosa, já que a família do marido nem a cumprimentava quando a via nas ruas, não davam um ''oi'' nem para as meninas.

A moça tentou conversar com o filho da idosa várias vezes sobre um aumento, porque era o justo, ela cuidava da idosa, fazia as compras, cozinhava, arrumava a casa, lavava a roupa, fazia companhia, dava os remédios, mas ele dizia que não era possível, já estava ajudando demais alugando a casa por um preço de banana, e que a idosa só recebia uma pensão, ele que pagava o salário da moça.

Um dia o filho da idosa avisou que ele iria vender tudo, a casa da mãe e a casinha que estava alugando, porque iria pegar a mãe e se mudar para Miami, finalmente tinha se resolvido uns problemas da herança do pai e eles resolveram ir embora. A moça ficou um pouco impressionada e ao mesmo tempo revoltada, porque achou que eram pessoas mais simples, mas não eram, o rapaz tinha um bom dinheiro e ainda iria herdar mais. Era gente de dinheiro que gostava de uma vida simples, mas tinha dinheiro.

A idosa disse ao filho, na frente da moça, ''Vai com ela ao banco, vê quanto eu tenho na minha conta, tira e dá para que ela possa voltar para São Paulo''.
E o filho respondeu ''Já mexi na tua conta, só tem dois mil reais''. E idosa responde ''Tira e dá para ela''.
No dia seguinte o rapaz deu a ela três mil reais, os dois mil da idosa e mil reais de ''direitos''.

A idosa iria embora em uma semana, porque ela e o filho iriam para o Rio de Janeiro, ficariam hospedados na casa de uma prima, dali faria todos os trâmites para ir para Miami.

A moça já tinha resolvido que iria pegar o dinheiro e voltaria para São Paulo, sabia que era pouco dinheiro, mas não tinha mais onde morar nem emprego, tinha que se arriscar.

Foi se despedir da idosa, e a idosa disse ''Olha, tem um limoeiro atrás do tanque de roupa, na casa que você está morando. Eu enterrei uma caixinha ali, lembra que te disse que era guia? Os turistas me davam uns troquinhos, uns eu gastava, outros eu coloquei ali. Estão em uma caixinha que minha irmã roubou de um padre, ele abusou dela, e de vingança ela roubou essa caixinha. Ela contou para todo mundo o que o padre fez e ninguém a ajudou, então ela roubou a caixinha para que ele fosse acusado de roubo, deu tanta confusão que ele foi afastado dessa igreja, mandaram para outro lugar. Foi justo, porque ela nunca se recuperou das maldades que ele fez com ela! Destruiu a vida dela! E eu guardei a caixinha pensando ''um dia esta caixinha vai ser algo bom para alguém'
Para não chamar a atenção, espera a gente ir embora, eu digo que você entrega as chaves para a vizinha, depois que a gente for embora, vai e desenterra essa caixinha, o que tiver ali de algo vai te ajudar e depois pega teu ônibus par São Paulo. Assim se alguém reparar no buraco vai pensar que são os cachorros que de repente passam por ali..''

A moça era honesta e disse ''mas se é seu dinheiro, não é melhor entregar para seu filho?''.

A idosa respondeu ''Minha filha, eu tenho quase noventa anos! Conheço a vida! Você está sozinha no mundo com duas crianças! Nenhum homem vai te ajudar! Meu filho tem mais dinheiro do que vai conseguir gastar em uma vida! Não precisa de nada meu! E te digo, todos os homens que me ajudaram, tiraram proveito, porque homem é assim, ajuda para cobrar depois, mas as mulheres que me ajudaram nunca pediram nada em troca. Não esqueci disso. Minha sogra me ajudou, minha mãe, uma vizinha, minha irmã, ajudaram, só uma mulher pode ajudar a outra, porque os homens são safados e se aproveitam. Imagina você sozinha em São Paulo com duas crianças! Não te ajudo mais porque pela minha idade não tenho nenhum controle sobre meu dinheiro, meu filho não me dá nada além do básico, mas procura essa caixinha e talvez possa te ajudar. Eu guardei porque tinha medo de apanhar do meu marido, eu ia de guia com os turistas, sempre fui séria, mas o pessoal da cidade dizia que eu ficava de graça com eles, sempre neguei isso, não tinha como aparecer com o dinheiro das gorjetas que eles me davam, por isso escondi, pensei que um dia seria útil, pois o dia é hoje''.

A moça começou a chorar e a idosa disse ‘’Tudo vai dar certo, filha, a vida tem esses momentos de desespero, mas você vai ficar bem, vou sentir falta das meninas, mas você vai cuidar bem delas.’’

E se despediram. A moça ficou mais uns dias na casa, esperou anoitecer e foi lá procurar a caixa. Encontrou uma caixa maior do que tinha pensado e resolveu fechar o buraco. Colocou a caixa na mala e foi embora, não abriu.

Chegando em São Paulo uma amiga deu abrigo, e ela resolveu abrir a caixa, quando abriu tinha centenas de notas de um dólar enroladas com elástico, a soma total deu oito mil dólares. Ainda tinha uns brincos de ouro e pulseiras, e ela não sabia o que fazer com isso e resolveu vender, levou tudo para um lugar que compra ouro. O rapaz viu os colares e brincos e ofereceu cinco mil reais por tudo e ficou interessado pela caixa, pegou e olhou, olhou, levou para uma sala e disse ‘’Olha, essa caixa é melhor vender em um antiquário’’ e deu o endereço. A moça foi lá e o antiquário a mandou a outro, que a mandou a outro e no fim deram um email para que ela mandasse a foto da caixinha. Uma semana depois tinha a resposta: uma pessoa oferecia 200 mil reais pela caixa! Era toda de ouro e tinha pedras preciosas incrustadas, datada de dois séculos passados.
Seria propriedade do padre? Bom, ela pensou nisso, mas o que fazer?

Lembrou da história do abuso que a idosa contou, lembrou da idosa dizendo que é preciso se proteger, que estamos sozinhas em um mundo onde ninguém nos ajuda e todos os homens querem tirar vantagem.

Ela vendeu a caixinha e comprou um apartamento. Em seguida ligou para o filho da idosa, queria falar com ela, dar um jeito de passar o recado do que tinha acontecido. O filho disse que a idosa tinha falecido logo ao chegar ao Rio de Janeiro, ela começou a chorar, ficou muito abalada, o moço a quis consolar e disse ‘’Olha, não fica assim, você foi muito boa para a minha mãe, no avião ela me disse ‘’essa moça me deixou com a sensação de dever cumprido, sinto que ajudei uma mulher e isso trouxe muita paz para meu coração’’. Você sabe que minha mãe era um pouco difícil, mas ela morreu feliz porque acha que te ajudou, ela não sabia nada de dinheiro, eu sei que três mil reais não resolvem a vida de ninguém, mas ela achou que com esse dinheiro você teria a vida resolvida, bobagem de velhinha, né? Ela falou ‘’não tem coisa melhor do que saber que ajudei essa moça a criar suas filhas, porque neste mundo só uma mulher pode ajudar a outra de maneira sincera e sem pedir nada em troca''.


Iara De Dupont

Um comentário:

Patricia disse...

gosto muito de ler suas historias,voce tem uma criatividade incrivel,Iara!