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09 março 2018

Os olhos do Seu Paco não queriam se fechar.....



Tenho uma tia que bate portas sem dó, de preferência acompanhada daquela famosa frase ''homem não presta''.
Ela brigava com meu tio e toda a vizinhança ficava sabendo. Minha avó levantava os ombros, mas nunca disse nada, nem defendia os homens da família.


Uma dia minha tia bateu a porta de novo e eu disse ''ela tem razão, homem não presta'' e minha avó disse ''é, penso isso, mas lembro do Seu Paco e fico confusa porque ele era um bom homem''.


Seu Paco foi um dos maiores traumas de adolescência da minha avó, não podia falar dele sem chorar, e quando já estava em idade avançada repetia sempre essa história. Não sei quantas vezes escutei sobre ''Seu Paco''.


Minha avó morava no interior, uma cidade pequena, todos se conheciam e tinha um casal que morava lá, Seu Paco e a esposa, eram um casal de idade avançada e tinham um filho, um rapaz que nasceu com algum problema físico, cresceu em uma cadeira de rodas e tinha algum atraso mental.
O casal se dedicava a cuidar do filho, tinham umas vaquinhas e vendiam o leite e o queijo que faziam. 


Todo mundo conhecia o casal, eram quietos, religiosos, não se metiam com ninguém. Mas a esposa adoeceu, não conseguiram nenhum tratamento e ela faleceu, então Seu Paco se dedicou mais ainda ao filho e as suas vaquinhas.


Um dia ele caiu do cavalo, foi levado para sua casa e alguém concluiu que ele estava morrendo. Não tinha médico por perto, nem hospital, e ainda por cima no meio da revolução mexicana.


Ele tinha quebrado alguns ossos, levou uma pancada na cabeça, e tinha muitas dores. O colocaram na cama e chamaram o padre, para a extrema unção.
Algumas horas depois o padre foi a casa da minha avó, uma menina de doze anos e disse ''você pode me acompanhar?'' e ela foi para a casa do Seu Paco. Um pouco antes de chegar lá o padre disse a ela ''vamos prometer ao Seu Paco que seu filho será cuidado por todos''. Minha avó entrou no quarto, viu Seu Paco na cama e o filho ao lado segurando sua mão, então ela se aproximou e disse ''Seu Paco, nós amamos seu filho, vamos cuidá-lo''. E Seu Paco respondeu ''filha, é muita responsabilidade, eu sei que assim que morrer vão jogar ele no lixo''.


Minha avó só lembrava essa parte da conversa, o resto foi o trauma que carregou. Ela disse que Seu Paco olhava para o filho, as lágrimas desciam pelo rosto, e ele não conseguia fechar os olhos. O padre disse mil vezes ''Seu Paco, vá tranquilo, nós vamos cuidar do garoto''. Mas o pai não conseguia fechar os olhos, sabia que se fechasse morreria e seu filho seria jogado no lixo.
De todos os jeitos o padre insistia, disse ''Seu Paco, pense que vai encontrar a sua amada esposa'' e ele respondia ''mas e meu filho?''.


O padre saiu do quarto e deixou minha avó lá, sozinha, com seus doze anos de idade, no meio daquela situação. Ela lembrava que o pai chorava e o menino apertava sua mão, ao pouco tempo os dois choravam juntos. E isso durou a noite inteira e metade do dia. Minha avó não dormiu, aquilo começou a ficar impresso em sua mente, o pai que resistia em fechar os olhos. O rapaz não falava muito bem, era difícil de entender, mas em algum momento disse ''pai, pode ir'' e o Seu Paco não fechava os olhos.


O padre voltou e disse a mesma coisa ''Seu Paco, fique tranquilo, nós ficaremos com o menino'', mas ele não fechava os olhos. Às vezes fechava por uns segundos e abria novamente, procurando o filho, manteve durante horas seu olhar de agonia, não soltava o filho.


Ele resistiu quase dois dias sem dormir, sem fechar os olhos, no meio das dores. Minha avó contava a história mil vezes, ficou traumatizada com o olhar do Seu Paco, a resistência em abandonar o filho a propia sorte, a briga com o destino. Minha avó passou fome, viu uma revolução, assistiu os militares aprontando tudo, matando crianças e deixando todos morrerem de fome, mas nada disso marcou sua alma, o que a fazia chorar e encomendar missa todos os anos era o Seu Paco e seu olhar desesperado ao saber que o filho ficaria sozinho no mundo, sem poder se defender.


De vez em quando ela dizia que talvez os homens prestassem, porque lembrava do Seu Paco, falava dele e terminava dizendo ''nunca vi um homem resistir tanto em abandonar um filho, nunca vi uma morte tão dolorosa, uma partida tão lamentada, nunca vi alguém lutar tanto por um filho''.
Minha avó nunca soube o destino do filho do Seu Paco, estavam no meio de uma revolução e logo ela seria descartada por sua mãe, que se casou novamente e deu um jeito de se livrar da filha. E 


Seu Paco nunca soube que minha avó rezou por ele e seu filho durante mais de setenta anos. E também nunca soube que ela sempre disse ''se eu morrer sese eu morrer sem passar pelo sofrimento que Seu Paco passou, vou considerar que tive uma vida feliz''.
Graças a Deus morreu sem passar por isso.


Iara De Dupont

Um comentário:

K disse...

Eu amo essas historias. Esses dias escrevi algumas que minha mae contava para naoe squecer.

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