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04 setembro 2017

Uma vida no forno à lenha



Durante uma viagem me ofereceram um pão feio em um forno à lenha. Nunca tinha comido nada como aquilo, fiquei fascinada, o sabor era intenso, diferente, o melhor pão que já comi.

Fui procurar a pessoa que o fez, eu queria a receita, e ela me perguntou ''você tem forno à lenha na sua casa?''.

Não, eu não moro em casa, moro em apartamento e tenho um fogão.

E ela respondeu:

-Então não adianta te dar a receita, os tempos são outros.

É, os tempos são outros, mas ainda insistimos em viver em tempos passados, querendo cronometrar tudo como era antigamente.

Uma amiga se divorciou recentemente, foi uma decisão- segundo ela- consciente e discutida, os dois acharam melhor terminar em paz do que seguir em uma guerra.

Ela parece tranquila, mas de vez em quando se joga na cama e chora, lamenta a sorte, fica horas dizendo a mesma coisa:

-Poxa, meus pais ainda estão casados, todos os casais enfrentam problemas e superam, por quê eu fracassei nisso? E minhas tias? Continuam casadas! Eu gostava do meu marido, acho que poderíamos ter trabalhado mais duro nessa questão, não paramos para pensar em tantos casais que já passaram por situações ruins e conseguiram superar.

É fato, casais passam por momentos tensos e tem que decidir se continuam juntos ou cada um segue seu caminho.

Mas qual o nosso parâmetro? O das mulheres da família? Casamento dos pais ou dos tios? Ou talvez dos avós?

Essa é a nossa perspectiva de vida conjugal, baseada no que vimos em família.

O casamento da mãe da minha amiga me parece uma merda, um marido histérico, nervoso, e ela sempre tentando colocar panos quentes. Que vida é essa?

Em um ato suicida de romantismo esquecemos o contexto que estamos e o contexto no qual estavam nossas tias e avós.

Não construímos mais nossos relacionamentos da maneira que elas construíram, tudo mudou, é como a história do forno.

Talvez seja a primeira vez na história da humanidade que começamos a ver o tempo como realmente é, talvez relacionamentos são feitos para durar no máximo dez anos, depois disso não funcionam mais, não sei, pode ser.

Pensamos que algumas mulheres da nossa família, casadas há décadas estão ali porque são felizes e tiveram sorte, mas talvez só estão ali porque resistiram a coisas que nós não temos que aguentar.

Não temos mais uma sociedade nos julgando por sermos ''divorciadas'', nem somos proibidas de entrar nas igrejas. O divórcio é um processo simples e não precisa mais do consentimento do homem, pode correr à revelia.

Durante muitos anos me perguntei se seria capaz de aguentar tantos anos de casamento, como as mulheres da minha família, mas quando comecei a olhar de perto percebi como eram escravas, infelizes e como tinham tolerado coisas que eu não aguentaria.

Tenho uma tia que se casou há cinquenta anos e sempre faz uma festa para comemorar. Eu achava lindo, o marido dela parecia apaixonado e paciente, tudo brilhava.

Mas ao me aproximar fiquei sabendo que minha tia amava outro homem, mas ele se casou com outra mulher e ela em um momento de ódio, de raiva, aceitou o pedido do meu tio, que era aquele eterno amigo apaixonado. Minha tia se casou sem amá-lo, nunca se envolveu ali e acabaram se acostumando a viver assim, ela sem amar e ele mendigando esse amor.

Durante umas férias com eles percebi que nem se dirigiam a palavra, mal se falavam, evitam compromissos juntos e podiam passar horas sentados no sofá sem olharem um para a cara do outro. E vivem assim há cinquenta anos.

Outra tia é casada há quarenta anos, coisa que ostenta com orgulho, mas engoliu um marido que a traiu e gastou seu dinheiro com prostitutas. Minha tia aguentou quieta, foi sua decisão.

E minha avó? Para onde iria correr, caso quisesse se separar? Era semi analfabeta, com filho de colo, não tinha para onde ir, não tinha como se livrar do marido mulherengo e irresponsável. Mas seu casamento durou a vida inteira, quase setenta anos.

E fazemos as contas da nossa vida amorosa usando as mulheres de nossa família como parâmetro! Essas mulheres infelizes, que sofreram horrores nas mãos dos seus maridos, que não podiam ir embora porque dependiam do ingresso econômico dele, não tinham estudos, presas na ignorância religiosa, julgadas por uma sociedade machista e misógina.

Não podemos continuar pensando que se não aguentamos um casamento quarenta anos é porque fracassamos!

Fracassamos no quê? Em não querer viver anos infelizes nem aguentar tudo de um homem?

Fracasso é ficar, insistir, alegando que não quer ser a única da família com um divórcio nas costas.

Nossa vida amorosa não é mais um forno à lenha, lento, cozinhando nosso tempo a favor de um homem, as coisas mudaram, hoje nossa vida é um forno de um fogão moderno, que ligamos quando queremos e não é para favorecer nem ''queimar'' pecado de marido.

Salvo casos em países arcaicos, nenhuma mulher mais tem que ficar com um homem a vida inteira, talvez nem seja a natureza humana viver essa experiência, já que casamento não é uma situação biológica, mas uma imposição social.

O casamento durou um ano? Cinco anos? Dez anos?
Tá bom, o tempo que durar, tá valendo.

Não façam as contas intoxicadas pelas histórias mentirosas da família. Quem nunca escutou ''sabe aquela tia, a Mariquinha? Nossa, ela se casou e foi tão feliz durante os cinquenta anos que seu casamento durou''.

É? Você estava ali para ver o que a Mariquinha enfrentou cinquenta anos?

Ah,meu Deus, mas talvez deveríamos ser mais fortes e lutar pelos nossos casamentos, como elas fizeram.

Pelo amor de Jesus, o que elas aguentaram? Homens violentos, abusivos, bêbados, mulherengos, jogadores, cafajestes, que as ignoravam de dia e estupravam de noite. Algumas também aguentaram homens que nem colocavam dinheiro em casa.

Elas não tinham saída, nós temos. E vai muito além do feminismo, é sobre felicidade, é sobre dizer, isso aqui acabou para mim, fui feliz enquanto durou, mas agora quero outros caminhos.

E será que existe alguém que aguente um casamento por quarenta anos? Pode ser que sim, tem louco pra tudo nesse mundo.

Quer se jogar na cama e lamentar o fim do casamento? Faça isso, chore, se desespere, mas nunca use o tempo das mulheres da sua família, não bata a cabeça na parede pensando na sua mãe que tem sessenta anos de casada. O tempo dela era outro, o nosso é o de agora. Fim de relacionamento sempre causa um pouco de dor e pensar que fracassamos só piora.

Não tem fracasso em tempos que se encerram e tempos que começam. Precisamos estar livres para recomeçar e devemos agradecer essa oportunidade, essa que foi negada a todas as mulheres da nossa família. Podemos decidir ficar ou ir embora, um privilégio que tantas não tiveram, por isso é uma bênção. Sempre.


Iara De Dupont

3 comentários:

Andréa K. disse...

Iara sua lacradora linda! Sempre indo direto ao ponto.

Adoro seus textos. E o SoundCloud? Abandonou? Adorava ouvir teus áudios.

Anônimo disse...

Qual seu SoundCloud?

Iara De Dupont disse...

Então, aqui a direita do blog tem uma lista do Sound Cloud, estão os áudios ali, é só clicar.

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