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31 agosto 2017

A ponte




Há uns anos uma amiga estava em uma encruzilhada, não sabia se usava o dinheiro que tinha economizado, para se casar ou fazer uma cirurgia de redução de estômago.

Embalada pela brisa tóxica que envolve todas as mulheres apaixonadas, resolveu gastar o dinheiro se casando, alegou que ainda não se sentia ''forte'' emocionalmente para enfrentar uma dieta e cirurgia.

Quatro anos depois resolveu que estava em um bom momento para fazer a cirurgia, o trabalho era bom e seguro, o casamento estável.

Começou todos os procedimentos e o marido parecia honrar o posto de homem decente, dava apoio, acompanhava as mil consultas e procedimentos médicos.

E ela fez a cirurgia, e lá se foram quase cinquenta quilos.

Passei um meses sem vê-la, e quando isso aconteceu, fiquei impressionada. Não foram os quilos perdidos que me chamaram à atenção, mas a postura dela.
E a vi em uma festa, dançando com o marido, e uma coisa me alertou o coração, tinha alguma coisa ali, entre eles, de repente ele parecia pequeno para um mulherão daqueles.

Algumas semanas depois veio o aviso aos amigos, eles estavam se divorciando, mas tudo estava bem.

Não foi um divórcio feito à gritos, nem percebido pelos amigos, não houve escândalos, nem avisos prévios, foi uma corda que se arrebentou durante longas noites. 

Ela sempre foi minha amiga, mas eu era mais próxima ao seu marido, colega de faculdade. Não perguntei a versão dela, crente de que essas coisas não se perguntam, apenas se escutam, caso a pessoa queira falar sobre o assunto. Ela definiu tudo em uma frase:

-Eu mudei e ele estava estacionado.

Da parte dele não houve essa compreensão, nem respeito, aos amigos ele fez questão de dizer que ela tinha mudado, e acelerado a vida, não era mais a doce mulher que conheceu. Em um momento de ódio, bêbado, berrou no meio da rua para a ex-mulher:

-Você mudou porque ficou magra, mas o médico disse que algumas pessoas voltam a engordar depois da cirurgia, tomara que você engorde novamente e venha de joelhos me pedir perdão.

Vi o olhar que ela lançou a ele, aquele olhar de pena, aquele olhar de velório quando lamentamos o azar do morto e em silêncio celebramos a nossa sorte, por estarmos vivos.

No dia seguinte ele me procurou, precisava de ajuda para pedir desculpas à mulher, tinha cruzado todos os limites e queria o perdão da moça.

Tive que me sentar na cadeira e explicar à ele que não existia mais a mulher ali, não era a moça com quem ele se casou, era outra, e por isso mesmo não haveria negociação, ele podia dar por perdido o casamento, a moça que ele pediu em casamento e aceitou, tinha sido abduzida, a que estava no seu lugar era uma versão melhorada da que ele conheceu.

Ele arregalou os olhos castanhos e me perguntou:

-Mas Iara, como uma perda de peso pode mudar tanto uma pessoa?

Pois é. Não é a perda de peso, mas assumir a nova identidade que faz tudo mudar.

Milhões de teorias sobre o emagrecimento e mudança de personalidade circulam no mundo, também tenho a minha e conheço a história da minha amiga, por ser tão parecida a minha.

Ela nasceu gordinha e durante a infância aprendeu se defender da perseguição das outras crianças, passou uma adolescência evitando praias e piscinas, sofreu com dietas, chorou sangue de ódio, de raiva, de dor. Na vida adulta entrou na faculdade e isso amenizou um pouco os sentimentos ruins, era boa aluna, compensava o resto estudando, porque era isso que a sociedade dizia a ela ''se não for bonita, compense estudando''. 

Sem autoestima sólida entrou em relacionamentos abusivos, foi humilhada, se sentiu no chão, ficou no chão.

Mas resolveu trabalhar sua autoestima, começou a aceitar seu peso, seu corpo gordo, suas curvas.

Conheceu o marido no trabalho, o rapaz comum, simpático, com aquele discurso de adorar ''gordinhas''. Talvez, talvez, se sentiu amada e resolveu se casar.

Ah, mas e aquela parte de ''fazer a cirurgia ou se casar?''.
Pois é, outra verdade escondida no meio de mil mentiras sobre algumas gordas.

Todos dizem que as gordas precisam se aceitar para parar de sofrer, mas esquecem de avisar que se aceitar, não quer dizer que o mundo te aceite. E não é tão simples assim, você pode parar na frente do espelho e dizer que se aceita, mas mesmo assim precisa sair com a espada na mão, porque o mundo lá fora vai vir com as pedras.

Se aceitar como gorda é viver em uma permanente guerra com o planeta, pessoas se aproximam para sugerir dietas, humilhações continuam acontecendo.

Ainda assim, se aceitar é a melhor saída, a mais curta para ter paz, se o mundo não aceita gordas, bom, deixa pra lá.

E a moça emagreceu e pisou em outro planeta, onde ela era aceita, não apenas tolerada.
Seu peso não era mencionado e as humilhações não aconteciam. E isso levou a um processo de fortalecimento, que acontece com qualquer ser humano que seja tratado com respeito e aceitação.

O rapaz casou com uma moça machucada pelo peso, que carregava feridas causadas por um mundo doente e arrastava correntes de rejeição. Por fora era a gorda que se aceitava, por dentro ainda sangrava, obrigada a viver em um mundo onde as roupas não cabem e as pessoas olham com desprezo.

E ela tentava aplicar todas as mentiras que deram à ela, quando diziam que ao se aceitar, o mundo te abre os braços e te beija com devoção. Ela se aceitava de manhã, mas à tarde escutava discursos de seu médico, dizendo que não poderia engravidar pelo peso, à noite a sogra lembrava que homens não gostam de mulheres ''tão gordas'', sempre é bom perder peso. E de repente, depois da cirurgia, o silêncio. Ninguém dizendo mais nada, talvez o médico murmurou um ''parabéns''.

Ela entrou para o mundo onde ninguém julgava sua aparência, nem olhava para seu prato. Agora era igual a milhões, podia parar na frente de uma vitrine, admirar suas roupas e entrar na loja, sem ser barrada por alguma vendedora avisando que eles não vendem roupas para gordas.

Mudou o guarda-roupa, trocou as ''roupas que cabem'', pelas que realmente queria vestir.
E o marido olhando, em silêncio. Já sabia que outros homens a olhavam nas ruas, ele não era mais o único a dizer algum elogio, nem a comentar sobre sua aparência. E assim ele ficou pequeno, sem entender quem era essa mulher na sua frente, se agarrou à ideia de que ela tinha mudado pelo seu peso, mas isso nunca aconteceu, ela mudou porque cruzou a ponte entre ser ''tolerada'' e ser ''aceita''.

Ela era esse ''mulherão'' desde o começo, mas anos de surras verbais por causa do seu peso, a esconderam debaixo de um falso manto de doçura. Uma vida inteira sendo julgada a fez duvidar sobre sua capacidade. Sua aparência sempre questionada pelos Romeus, a fez ter asco do própio corpo.

Se para o mundo, mulheres são apenas seus corpos, então ao ser gorda e rejeitada, ela recua. O mundo é intimidante ao julgar uma mulher, ao ter excesso de peso a tendência é dar dois passos atrás.

Ah, meu Deus, mas ninguém é um corpo! 
É fato, mas somos julgados por ele.

A moça me contou uma história, há um bom tempo, dizia que esse era o motivo pelo qual não gostava de crianças. Ela trabalhava com uma pessoa, e sabia que essa pessoa passava por dificuldades econômicas e tinha um filho. Pensando em amenizar um pouco a vida da amiga, mandava presentes ao seu filho, carrinhos e bolas. Um dia a amiga resolveu levar o filho ao trabalho, para que a moça conhecesse o garoto e ele pudesse agradecer pessoalmente os presentes. Ela me contou que o menino entrou na sala correndo, foram apresentados e ele disse:

-Mamãe, por que você não me disse que ela era gorda?

A sala se congelou naquele momento. A mãe tentou rir e disse:

-Você não sabia que ela era gorda?

E o menino respondeu:

-Não, nem imaginei que fosse tão gigante. 

Ficou nisso. Mas ela não esqueceu, e a cada lembrança, cortava sua alma.

Já magra foi à uma festa infantil e as crianças a ignoraram, passaram por ela como se não existisse. E se sentiu livre, porque minutos antes se lembrou de como as crianças podem ser cruéis.

Quase nenhuma gorda, enquanto está gorda, se aproxima de quem realmente é, porque o mundo não permite isso, empurra a gorda para a periferia da existência, a obriga a engolir sua personalidade, como se tivesse que pedir desculpas por ser gorda.

Existem umas gordas diferentes, cascudas, fortes e dispostas à brigar, mas ainda assim, apanham mais do que batem.

E vejo centenas de homens se casando com gordas, que depois emagrecem e eles reclamam de que não é a mesma mulher com a qual se casaram.
Não é. É outra mulher, uma versão que se permite dar os dois passos à frente e se impor, alguém que tem a segurança de não ser julgado pela sua aparência. E homens ficam minúsculos diante dessa nova mulher, é uma experiência assustadora para eles.

Não digo que o peso seja importante, mas ele é usado contra nós, empurrado na nossa direção. Nunca me chamaram de ''mau-caráter'', mas já colecionei todas as ofensas ligadas ao fato de ser gorda. É o mundo nojento no qual vivemos.

Não devemos aceitar a imposição de um padrão de beleza asqueroso e surrealista, mas qual é a outra saída? Todos os dias sair com a espada, pronta para cortar línguas que não param de provocar?

Não, a saída é se aceitar e encontrar a paz. Mas o mundo que as gordas vivem é diferente do mundo das magras. 

Magras não entendem e gordas julgam quem diz que se aceitar não é suficiente neste mundo.

Muitos pensam que gordas emagrecem porque querem usar roupas melhores, mas a verdade é que elas emagrecem para poderem viver em paz, sem o mundo inteiro buzinando nas suas orelhas.

E casamentos não resistem a dietas nem cirurgias. O homem se casa com uma mulher gorda, no fundo insegura, e ainda ferida de guerra, que desconhece seu propio poder, sempre no limite. E de repente ela vira esse mulherão, como se fosse um alienígena saindo da casca. Homens são fracos, sempre embriagados de suas ideias retrógradas, incapazes de apoiar a mudança de uma mulher. São inseguros, se assustam facilmente, suas pernas tremem quando estão diante de uma mulher consciente de si.

Eu adoraria dizer que o mundo é belo e se aceitar resolve todos os problemas, mas não é verdade. Também gostaria de dizer que nos apaixonamos pelo interior da pessoa e ninguém vai te largar se você emagrecer ou engordar, porque é mentira.

Se aceitar não reduz a estrada nem evita as pedras. Mesmo assim continua sendo a melhor coisa a se fazer, talvez a única para se fortalecer e enfrentar tudo o que tem que enfrentar.

E nem entro naquela parte dos relacionamentos héteros e como pode ser traumatizante para uma gorda alguns deles, apenas porque os homens se sentem no direito de julgar o corpo de suas namoradas.

Não importa a situação, a mulher gorda sabe que pode ter todo o amor do mundo em sua casa, mas na rua as coisas não vão ser assim e os homens sabem, têm a certeza de que podem amar sua mulher gorda, porque ela não vai encontrar esse amor lá fora com as outras pessoas.

Emagrecer não é a solução para tudo, nem perder peso significa encontrar a felicidade, mas ao cruzar essa ponte não se pode pedir que homens pequenos acompanhem a mudança. O mundo é diferente para as gordas, e quem é, sabe do que estou falando. 

Se aceitar e viver em paz consigo mesma não neutraliza as bombas jogadas na sala, nem alivia a dor. Tudo o que nos leve a mudar a aparência, muda nossa maneira de ver o mundo, de sentir o planeta.

Casamentos acabam com dietas, porque surge outra pessoa, os quilos vão, e algo novo chega.

E talvez seja apenas uma questão, gorda ou magra, não importa, homens não aguentam mulheres que conhecem seu tamanho e sabem quem são.

De qualquer maneira atravessar a ponte entre ser tolerada e ser aceita, muda qualquer pessoa.



Iara De Dupont


3 comentários:

Carolina disse...

Olá, Iara.
Emagreci 60kg num período de 3 anos, 30kg só em 2016. Dieta e exercício. Um processo longo de auto conhecimento, com muitos altos e baixos. Não sei como me veem, mas imagino que seja como uma pessoa 'normal' pra gordinha.
Quem me conheceu no auge do meu peso e não participou do meu processo de emagrecimento, não me reconhece. Simplesmente não me reconhece mesmo. As pessoas do trabalho, que acompanharam o emagrecimento, dizem que sou outra pessoa, inclusive de personalidade. Parece que sou mais falante e mais aberta. De fato eu era muito fechada.
Esse ano tem sido muito difícil, já passei por duas cirurgias de retirada de pele e em novembro farei a terceira e última (tomara). Eu percebo a diferença no tratamento. É gritante. Me sinto mais forte, mais capaz. Mas tem uma insegurança que parece que nunca vai me deixar. Essa insegurança de parecer que estou sempre pedindo desculpas por existir. Eu realmente espero que isso mude em algum momento, quem sabe mais uns anos depois dessas cirurgias, mas acho que tem certas feridas que são muito profundas (muito Frodo da minha parte).
Acho que esse nível de dor só entende quem já passou. Muitas amigas que nunca foram realmente gordas me falam coisas horríveis, como se eu fosse uma idiota pra estar considerando 'opinião dos outros', mas elas nunca souberam o que é sair de casa armada pra sobreviver a um dia no trabalho. É muito cansativo viver nessa luta. Espero que um dia eu supere isso, assim como sua amiga. Obrigada pelo texto. BJs

Patricia disse...

que texto excelente...voce escreveu o que eu sinto,toda vez que vejo meus colegas de trabalho ficarem desprezando mulherres gordas e mais velhas,mas cantando na cara dura meninas magras e mais novas,ou mesmo elogiando e convidando pra sair mulheres mais velhas mas que conseguiram continuar magra e com ares mais joviais...dá uma dor...parece que para algumas o tempo nãopassa,enquanto para nosoutras,as gordas,já nascemos rejeitadas...esse texto vai na alma da mulher média,insegura,com ares matronais,gordinha e rejeitada social e sexualmente...o mundo é,sim,diferente,para nós...

Unknown disse...

Lindo o texto!

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