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14 fevereiro 2017

O quarto da cozinha (história da minha abuelita)


No fundo da cozinha da minha abuelita tinha um quarto, logo depois de onde ficava a parede com o fogão. Pensando bem, acho que era uma espécie de despensa, mas como tinha um bom tamanho e muitas pessoas viviam naquela casa, virou um quarto, colocaram uma cama e umas prateleiras.

Era um lugar abafado, pelo calor constante do fogão, a parede não segurava o ar quente e a janela era pequena. 
Mas uma coisa aprendemos desde pequenos, não era lugar para entrar, isso porque às vezes algum conhecido dormia por lá e minha abuelita não deixava as crianças brincarem ali.

Uma visita frequente era a Benita, a senhora da esquina, ou pelo menos era assim que minha abuelita a chamava, cansei de ver ela ali, eu usava umas fitinhas vermelhas no cabelo, ela me via e dizia:

-Oi, menina das fitinhas vermelhas no cabelo!

Acho que ela dizia isso porque eram muitas netas, nove, e ela não deveria saber o nome de todas.

Voltando de algum lugar à noite, debaixo de chuva, minha abuelita viu uma senhora tremendo de frio, que ela conhecia de vista porque estava sempre nas esquinas do bairro pedindo esmola. Não era uma questão de tempos, minha abuelita era assim, não podia ver uma alma em apuros que ajudava e na hora ofereceu a essa senhora o quarto da cozinha.

A senhora disse seu nome, Benita, e acompanhou minha abuelita até em casa, lá tomou banho quente, se trocou, comeu e dormiu.

No dia seguinte saiu de manhã, comprou pão, voltou e ao ver minha abuelita na cozinha se ajoelhou diante dela e começou a agradecer pela hospedagem. Essa cena quem me contou foi minha tia, dizendo que precisaram de duas pessoas para ''levantar'' a Benita, que se recusava a se mexer, queria continuar ajoelhada.

Benita contou que era uma mulher doente, velha e sem instrução, por isso pedia esmolas nas ruas. Minha abuelita disse a ela que não poderia dar abrigo permanente, mas sempre que estivesse frio, chovendo ou ela não pudesse voltar a sua casa, vivia em um pequeno povoado perto dali, ela poderia pedir abrigo a minha abuelita.

Ela levou à sério o convite e durante seis anos foi uma hóspede constante em dias de chuva e frio.

Minhas tias não diziam nada, mas elas escutavam quando no meio da noite Benita chegava, ela ficava até bem tarde da noite nas ruas, esperando as pessoas saírem dos bares para pedir esmola.

Um dia Benita disse que seu filho iria se casar, ela faria uma humilde festa em seu ''casebre'' e queria convidar a minha abuelita para ser madrinha e queria que toda sua família fosse junto.

Nós fomos. Não lembro bem da viagem, éramos muitos primos, eu era muito pequena, tenho lembranças do lugar, enorme, com jardim, muita comida e música, mas o que ficou marcado foi o dia seguinte, quando escutei minha abuelita e tias rindo sem parar, falando sobre o casamento.

Benita era viúva, mãe de quatro filhos, o marido deixou um terreno e ela pedindo esmolas durante décadas juntou uma fortuna, o suficiente para construir uma casa de três andares com piscina e quadra de tênis. Isso surpreendeu a todos, que esperavam que ela fosse uma pessoa ''humilde e sem recursos''. Lembro que antes de ir ao casamento minha abuelita fez uma lista enorme para os netos, fomos orientados a aceitar tudo o que nos oferecessem, a não fazer cara feia, nem achar nada estranho.

Minha abuelita sabia que todos os netos tinham crescido com o básico, casa, comida, água, mas ela não tinha tido acesso a nada disso, sua família era miserável e cada vez que íamos visitar os parentes éramos orientados a não fazer perguntas nem dizer nada, ela nos controlava com o olhar.

Uma vez me levaram para visitar sua prima, um lugar abaixo da linha da miséria, lembro que cheguei lá e pedi para ir ao banheiro, minha abuelita me puxou pelo braço e me tirou da casa, um lugar construído com tábuas de madeira e disse ''aqui não tem banheiro'' e eu perguntei ''mas eles não fazem xixi?''. 
Não lembro como a situação foi resolvida, mas ficou claro para mim, desde pequena, que desobedecer minha abuelita não era boa ideia, até minha mãe tinha medo dela.

A história do casamento do filho da Benita virou uma grande piada na família, até hoje rolam de rir com essa história, minha mãe sempre conta sobre a cama de madeira talhada, passamos a noite ali, em um quarto gigante, o quarto da Benita. Minha abuelita na época que a ajudou se envolveu com ela, a levou no médico, deu roupas, até quis conseguir um emprego para ela, que não aceitou porque ganhava mais pedindo esmolas nas ruas.

Isso influenciou a todos, porque sempre que alguém da família via alguém pedindo dinheiro na rua dizia ''eu não dou, deve ser como a Benita, pedindo dinheiro para limpar sua piscina''.

Não foi a única vez que fomos a sua mansão, também teve a formatura do neto médico e da neta advogada, o que foi um alívio para meu avô, porque ele era advogado e vivia tirando a Benita da delegacia, no México era proibido pedir esmola nas ruas, ela era levada pela polícia e ligava para meu avô dizendo ''Dom Manuel, eu fui presa, mas o senhor sabe que eu não peço dinheiro na rua, é que as pessoas ficam com pena, me dão dinheiro, e eu aceito, o senhor pode me tirar daqui?'' . E lá ia meu avô.......

Eu lembro das bolsas de pão, no México as padarias são diferentes, eles têm uma preferência maior por pães doces e compram muitos. Várias vezes lembro de ter visto bolsas gigantes de pães doces na mesa e ter escutado minha abuelita dizer ''a Benita que trouxe'', ou seja, ela contribuía com algo.

Depois do casamento Benita sumiu um tempo, estava descansando, mas voltou às ruas e pediu para dormir na casa da minha abuelita. Ela deixou, mas no dia seguinte, assim que Benita foi embora, o circo pegou fogo, minhas tias não concordavam mais com o fato dela ficar ali, a família da minha abuelita nunca teve boas condições econômicas, todos trabalhavam, colocavam dinheiro na casa e começaram a achar injusto dar abrigo a uma senhora que poderia pagar um hotel.

Minha abuelita bateu o pé, disse que Benita era sua amiga e ponto, mas minhas tias moravam ali e não queriam mais a senhora no quarto, achavam que ela não precisava da ajuda que recebia.

Em algum momento as coisas devem ter esquentado, porque a Benita parou de levar as bolsas de pão e minha abuelita contou a ela sobre minhas tias, que não a queriam ali, mas tinha tido uma ideia, cada vez que fizesse frio ou chovesse, minha abuelita deixaria a porta da casa aberta, Benita entraria em silêncio e ficaria no quarto, no dia seguinte iria embora antes de que todos acordassem.

E assim ficou combinado. Minhas tias logo perceberam o truque, porque a luz do quarto da cozinha quando era ligada dava reflexo no corredor, mas não disseram nada.

Mas se minha abuelita impunha a lei do silêncio na sua casa, minhas tias não faziam nada diferente, até hoje são assim, não confrontam ninguém, nem sobem o tom de voz. 

Ninguém disse nada, mas um dia Benita chegou e meu avô reclamou, disse a ela que se era para passar a noite ali que levasse pelo menos Whisky. Ela saiu e voltou com a garrafa mais cara que encontrou. Sentou na mesa com meu avô e disse a ele, na frente das filhas:

-Você não merece a mulher e mãe que tem nesta casa. Eu tenho quase setenta anos e peço esmolas desde menina na rua, já apanhei, já fui presa, já me jogaram coisas na cara e nunca me deram mais de dez reais, sempre me dão as moedas que sobram, que não fazem falta. As pessoas fingem que não me veem, evitam, cruzam a rua, fazem cara de nojo. Te digo que tenho pelo menos 65 anos de rua, de canto a canto, e nunca ninguém parou para falar comigo. Tua mulher parou, me emprestou o guarda-chuva, ofereceu abrigo, me trouxe aqui, me deixou usar o chuveiro de vocês, me deu comida, me tratou como gente. Em 65 anos de rua nunca tinham me tratado como gente.

E meu avô respondeu:

-E pra quê essa lenga-lenga, você ficou rica, está reclamando do que?

-Fiquei rica porque guardei cada centavo que me deram, nunca gastei, a única coisa que eu queria era uma casa para meus filhos, não queria morrer sem dar a eles um teto, e pelo menos um pouco de estudo, porque eu não sei nem ler, eles não sabem que peço esmola, pensam que trabalho na cidade limpando banheiros. E não foi fácil juntar cada centavo, aguentei até gente me cuspindo.
Sempre vou ser grata a sua esposa, não apenas pela cama e banho, mas porque me viu como uma pessoa, viu um ser humano que dormia encolhido debaixo da chuva para não gastar com o ônibus de volta para casa. 
Por isso que fiquei rica, porque não gastava nem em comida, dormia na rua, e esperava a padaria abrir, ia lá ver se tinham pão amanhecido e pedia que me dessem. E sabe por que faço isso? Pelos meus filhos, porque de onde venho é assim, se você pode dar pão a eles, você dá, se você não pode dar nada a eles, você dá tua vida. Cada dia que durmo nas ruas e peço comida é um dia a mais para eles, levando a vida que merecem, com uma casa quente e comida boa. A única coisa que posso dar a eles é minha vida, eu me sacrifico para que eles não conheçam a miséria que eu conheci. Quem não tem pão para dar aos filhos, dá o sangue.

Meu avô se irritou com a conversa e parece que acabou ali. Mas Benita antes de se levantar disse a ele ''sempre vou agradecer o gesto da tua esposa, nunca vi nada assim na vida, ela mudou a ideia que eu tinha das pessoas, me fez acreditar que tem gente boa nesse mundo, depois de 65 anos de rua''.

Depois disso meu avô e minhas tias pararam de falar sobre esse assunto, se minha abuelita queria dar abrigo a uma rica, durante dias de chuva, bom, que o fizesse. E assim se passaram meses, no inverno Benita aparecia todas as noites. Mas ela era reservada, não aceitava jantar com eles, não se sentava no sofá, passava rápido ao quarto e dormia.

Começou a temporada de chuvas e ela ia direto. 
Mas minha abuelita notou uma mudança nela, chegava de madrugada, empurrava a porta, dizia ''boa noite'' e passava correndo ao quarto.

Minha abuelita era uma escrava da casa, por isso ficava acordada as madrugadas, era o único momento que podia estar quieta lendo suas revistas, ficava na mesa da copa, e escutava quando Benita empurrava a porta da casa e entrava correndo para a cozinha, para não ser vista. Algumas vezes minha abuelita estava cozinhando, Benita se aproximava para ajudar e puxava conversa, ficavam as duas mulheres ali sussurrando.

Mas minha abuelita era uma águia, percebia qualquer movimento fora do lugar e um dia convocou a família inteira, queria saber quem tinha sido mal educado com Benita, porque ela entrava na casa e corria para seu quarto, não falava mais com minha abuelita e ia embora antes do amanhecer.

Todo mundo negou ter dito ou feito algo a Benita, ninguém sabia que ela continuava frequentando a casa, de tão quieto que tudo estava. Minha abuelita ficou magoada com isso, tinha certeza que alguém tinha sido grosseiro com Benita.

Mesmo assim Benita continuava aparecendo e se fechando no quarto, minha abuelita disse que morria de vontade de perguntar porque ela estava chateada e não falava mais, mas ficou com receio de escutar que suas filhas e marido tinham sido mal educados, então resolveu não perguntar nada.

De vez em quando a via nas ruas, pedindo esmola, mas não se atrevia a interrompê-la.

Umas semanas depois o filho de Benita ligou para minha abuelita, procurando a mãe, perguntou se sabia onde estava. Minha abuelita estava na cozinha, na noite anterior e viu quando Benita entrou, então avisou o filho que sua mãe deveria estar na cidade, e já voltaria a casa. Mas o filho falou que a mãe ia duas vezes por mês para casa e agora tinha quase três meses sem aparecer.

O filho achou melhor ir à cidade, conversar com minha abuelita. Ninguém sabia como dizer a ele que a mãe pedia esmolas, mas como começaram a procurar em hospitais e necrotérios, tiveram que contar a história que sabiam, que Benita morava na rua e pedia dinheiro. O rapaz entrou em estado de choque, mas teve que se recompor e ajudar a procurar Benita.

Foram duas semanas, com minha abuelita e meu avô revirando os necrotérios e todos os lugares, até hospital psiquiátrico.

A única certeza que eles tinham eram a data, minha abuelita lembrava o último dia que tinha visto Benita em casa, então seriam poucos dias que ela teria de sumiço, mas o filho insistia no período de três meses.

Conseguiram pistas que os levaram a um cemitério de indigentes, pesquisaram pelas datas e viram que uma senhora de setenta anos tinha sido enterrada há três meses, depois de ter ficado um mês no necrotério. 

Foram atrás de uma ordem de juiz para desenterrar, ver se podiam reconhecer. Minha abuelita reconheceu a roupa de Benita, porque era uma que ela tinha dado. Nos bolsos de Benita tinha uma santinha, da devoção da minha abuelita, a Nossa Senhora das Graças.
Benita morreu de pneumonia, deve ter se sentido mal na rua e não teve tempo de pedir ajuda, foi levada a um hospital, mas deve ter sido maltratada, como todos os indigentes são, e isso deve ter acelerado sua morte.

Os filhos deram um enterro de rainha, minha abuelita não foi convidada porque veio à tona um ressentimento deles com ela, o fato dela nunca ter avisado os filhos que a mãe deles dormia nas ruas.

Minha abuelita nos dizia que Benita pediu a ela que nunca contasse nada aos filhos, disse ''se eles não morreram de fome, não quero que morram de vergonha''.

As datas não batiam, se Benita tinha morrido há quatro meses, como era possível que minha abuelita há tivesse visto há duas semanas na cozinha?

O assunto foi encerrado, todos pensaram que era uma confusão de datas, até que meu tio estava no corredor da casa quando viu a luz do quarto da cozinha ligada. Foi lá, viu que não tinha ninguém e desligou. Isso aconteceu durante umas semanas, justo as semanas de inverno.

Minha abuelita continuava deixando a porta da casa aberta, e escutava quando a empurravam de madrugada, todos concluíram que era o fantasma da Benita.

Uma das minhas tia resolveu levar uma amiga médium, mas minha abuelita interrompeu a sessão, ficou possessa quando soube que queriam saber se era a Benita que empurrava a porta da casa de madrugada. Minha abuelita disse:

-No que afeta vocês? Ela não faz mal a ninguém, se a alma dela encontrou paz e abrigo no quarto da cozinha, deixem ela lá!

Ficou decidido que Benita poderia continuar frequentando o quarto, mesmo morta. Não era problema de ninguém.

Quando eu penso nessa história percebo o quanto minha abuelita gostava de Benita, algo viu nela, porque sempre manteve a ideia de que o fantasma de Benita era bem vindo na sua casa.

Acredito que Benita foi sincera no primeiro dia que se ajoelhou e beijos os pés da minha abuelita, eu não consigo entender o tamanho do coração da minha abuelita para abrir sua casa a uma estranha, em um dia de chuva.

O quarto foi de Benita até que chegou Glória, uma moça do interior, que se mudou para ajudar minha abuelita com as tarefas da casa. Ninguém disse nada a Glória, mas minha abuelita percebeu que ela jogava um colchão no chão e dormia ali. Perguntou o que era e Glória respondeu ''é que todas as madrugadas uma mulher vem, se senta na beira da minha cama e não me deixa dormir, ela ocupa a cama inteira, cansei de dizer para ela ir embora, mas ela disse que não vai abandonar a senhora, que deu abrigo a ela em um dia de chuva''.

Ah, a Glória, tenho saudades dela, era muito engraçada, vinha de um lugar distante, não sabia falar bem espanhol, mas como qualquer mexicana sabia lidar com os mortos, não tinha medo, falava cara a cara com todos.

Minha abuelita contou a história a ela, Glória disse que iria conversar com a Benita, tentar convencê-la de dormir no colchão no chão e deixar a cama para ela. Mas não deu muito certo, até que minha abuelita teve uma ideia, ela tinha um sofá no quarto dela, cheio de coisas em cima, tirou tudo, colocou uma manta e disse ''Benita, quando você vier aqui em casa, deixa a Glória no quarto, e dorme aqui comigo''. 
Depois disso Benita parou de sentar na beira da cama da Glória.

Anos depois teve o pior terremoto que a Cidade do México já passou, o quarteirão inteiro foi devastado, apenas o prédio onde morava minha abuelita ficou em pé.

O terremoto foi de manhã, muito cedo, minha tia estava dormindo com sua filha, em um quarto cheio de prateleiras, ela sentiu quando Benita a acordou e disse ''pega a menina e corre'', ela se assustou, pulou da cama, pegou a menina e saiu do quarto, no momento que fez isso o terremoto começou e as prateleiras voaram na direção da cama da minha tia, se ela não tivesse pulado antes, teria morrido soterrada. Minha abuelita também dormia quando sentiu uma mão a puxando, acordou e viu Benita, que disse para que ela se levantasse, Benita gritava desesperada ''senhora, senhora, tem que sair daqui, tem que sair daqui'' e foram todos atrás da Benita, descendo uma escada que tremia, enquanto o prédio rachava por todas as partes. Conseguiram chegar na rua, onde começaram a correr para fugir dos escombros que caiam ao redor.

Minha abuelita disse que só depois de dias, quando o choque passou, lembraram que Benita estava morta há anos, mas na hora ninguém lembrou, tamanho susto.

Uma vez perguntei a minha abuelita se não tinha ficado com medo da Benita e ela respondeu:

-Era tão forte o barulho da cidade caindo que não lembrei que Benita estava morta, mas mesmo que tivesse lembrado não teria mudado nada, eu ainda a teria seguido pelas escadas, não podíamos ver nada pela poeira que se levantava, só lembro dela me segurando. E amor de morto é igual a amor de vivo, não te abandona, eles seguram tua mão do mesmo jeito que seguravam quando estavam vivos. Não tenha medo do amor de um morto, eles não abandonam quem os ama. E aprenda a receber o amor de todos que te amam, vivos ou mortos, não faz diferença, precisamos dos dois para viver. E não duvide nunca da gratidão de alguém, a pessoa atravessa penhascos se precisar, para agradecer o que recebeu.

Passaram uns meses, a cidade começou a se levantar de novo e minha abuelita decidiu ir a casa de Benita, mesmo sabendo que não era bem vinda. Foi até lá mas o ressentimento dos filhos não tinha passado, não a quiseram receber, nem dizer onde a mãe estava enterrada.

Minha tia me contou que minha abuelita ficou na porta da casa, a filha se recusou a abrir, então minha abuelita disse:

-Eu só vim agradecer tua mãe, queria deixar umas flores no seu túmulo, mas tudo bem, eu vou rezar por ela assim mesmo.

E a filha perguntou o que minha abuelita queria agradecer e ela disse:

-Queria agradecer porque um dia vi tua mãe debaixo da chuva, pensei, meu Deus, como é que pode uma senhora estar nesse frio, na chuva, tremendo? A tirei de lá e a levei para minha casa e vinte anos depois ela viu que minha família iria morrer debaixo de escombros, foi lá e nos tirou a todos. Só queria agradecer a ela, dizer que não faz diferença se estamos debaixo de chuva ou de escombros, todos sempre precisamos da ajuda de alguém.



Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

...Mais uma das incríveis histórias da abuelita! Adorei!! Me emocionei!!
Iara, estou meio ausente do FB mas não perco uma história sua aqui :)
Bj
SY

Mônica disse...

Nossa Iara! Sem palavras... Lindo demais!

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