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24 janeiro 2017

História da abuelita: o tesouro de Eleonor


Recentemente uma amiga me contou que teve que levar sua filha ao psicólogo porque durante as férias resolveram ir à uma cidade de barco, houve um problema no motor, todos se assustaram e tiveram que ser retirados em botes de salva vidas. Ela ficou preocupada com a menina, não sabe a extensão do trauma, apesar da menina, pela idade, menos de cinco anos, aparentar nem ter percebido o que aconteceu.

É recente essa pressa em resolver os traumas em uma criança antes de que eles encontrem espaço na vida delas.

Na época da minha abuelita não existia isso, a pessoa crescia no chicote, engolindo trauma, chorando em silêncio. Talvez por isso ela contava tantas histórias, hoje penso que era sua maneira de entender o que tinha visto e sofrido durante a revolução mexicana. Ela tentava colocar ordem nos seus pensamentos pelas histórias que contava, dava lógica ao seu sofrimento, aliviava sua dor e era assim que entendia a vida.

Uma vez comentei a ela sobre uma dúvida, tinham me convidado para fazer parte de um grupo de teatro, mas eu não tinha certeza de que era boa ideia, porque já fazia parte de outro, então, o que deveria ser feito? Seguir o grupo que me convidou?

Ela podia ter dito ''siga seu coração'', mas na sua mente e vocabulário essa frase simplista não existia, o que ela tinha para me dar era uma explicação mais longa sobre seguir nossos instintos.

Eu não sei se devo ou não seguir o grupo que me convidou......

-Eu lembro da Eleonor cada vez que alguém diz isso.....

Ah, Eleonor! Meu pai diz que foi um acidente, que o terreno é montanhoso e cheio de perigo, isso teria acontecido a qualquer menina de sete anos que ficasse de um lado para o outro sozinha......

-A gente conhecia cada pedra do caminho, passávamos horas caminhando por ali, procurando comida, água, a Eleonor conhecia o lugar, ela foi empurrada.

Mas por que deixaram ela ir?

-Porque não tinha ninguém para perguntar, as crianças eram as únicas que podiam sair do esconderijo para procurar comida.

O esconderijo era debaixo de uma cachoeira, em plena revolução mexicana, o maior confronto que o México já teve, o governo jogando os militares em cima dos revolucionários, que lutavam por terra para todos. Minha avó tinha sete anos quando isso começou, viu a vila que morava desaparecer depois que os militares colocaram fogo, mas ela conseguiu escapar com algumas pessoas e sua mãe, passaram meses escondidas comendo mato e bebendo água do rio. No meio de tantas terras estavam as grandes fazendas, centro da luta social, mas os donos foram obrigados a abandoná-las, então as crianças passavam por lá tentando achar comida, mas nem sempre dava certo porque o exército ficava por ali.

Eleonor era uma das meninas de sua vila, irmã de outra amiga de minha abuelita, a Socorro.

Uma noite Eleonor saiu do esconderijo à noite e voltou apenas de manhã, dizendo que um fantasma a chamou e disse que era para segui-lo, ela foi e ele mostrou um lugar, indicando que ali havia um tesouro.

Naquele momento as histórias sobre os tesouros circulavam por todos os lados, os donos das fazendas assustados com a revolução e desesperados para irem embora, sabiam que se levassem seu ouro e joias, seriam interceptados no caminho, fosse pelos militares ou revolucionários, então começaram todos eles a enterrar perto de suas propriedades seu ouro.

Mas nem todos usavam um truque antigo, que se aprende no México desde que a pessoa nasce: ao enterrar um tesouro temos que deixar um fantasma da família cuidando dele, temos que pedir que não deixe ninguém se aproximar, que esse ouro só chegue as mãos de familiares, nunca de estranhos. E deixamos um agrado no lugar, para que o fantasma cumpra a missão. 
Esses agrados que podem ser comida ou objetos, já ajudaram muita gente a encontrar um tesouro escondido.

Eleonor insistiu com sua mãe que sabia onde estava o endereço, e as duas foram lá ver. Quando chegaram perceberam que tinha uma árvore, com um balanço. Com certeza o tesouro estava ali, mas não poderiam fazer nada porque a família tinha deixado um fantasma cuidando, com seu propio balanço.

Minha abuelita contou que ela, Socorro e Eleonor decidiram voltar ao lugar à noite, para ver se encontravam o fantasma. Não viram nada, apenas o balanço que não parava de se mexer. Socorro e minha abuelita voltaram para o esconderijo, mas Eleonor ficou. Ela tinha apenas sete anos, mas a sua maneira entendia o horror que estava vivendo e sabia que se achasse o ouro poderia partir com sua mãe.

No dia seguinte Eleonor voltou e disse a minha abuelita que iria desenterrar o tesouro, precisava fazer isso, mas seria boa ideia seguir o fantasma? 
Demorou para se decidir, resolveu arriscar, mas precisaria de ajuda. Pediu a duas mulheres que fossem com ela e todas se animaram. Partiram em direção ao tesouro.

Chegando lá passaram a tarde toda escavando, mas em algum momento a pá bateu com uma superfície dura, nessa hora perceberam que tinham achado o tesouro. De repente um barulho de cavalos as assustou, correram para se esconder e esperar que passassem. Uma das senhoras concluiu que eram cavalos fantasmas, deixados ali para proteger a fortuna da família até que ela voltasse. E a pior dúvida de todas surgiu: como saber se o fantasma que Eleonor seguiu era bom ou ruim?

Diante do dilema decidiram que era melhor não levar o tesouro naquele momento, já sabiam onde estava e seria melhor voltar no dia seguinte.

No outro dia Eleonor desapareceu e todos se organizaram para encontrar a menina, pouco tempo depois seu corpo apareceu em um penhasco, dizia sua mãe que o fantasma a levou e a empurrou.

Mas nada disso parou a ambição das mulheres, mesmo com a menina morta decidiram voltar pelo tesouro. E cavaram, cavaram, mas nunca encontraram  nada, ficaram pensando que talvez alguém as viu e o levou à noite.

Algumas semanas depois o fantasma de Eleonor apareceu para minha abuelita. A menina contou que o fantasma tinha ficado bravo com ela, que o tesouro era para ela, não para as outras, que eram ambiciosas e iriam roubar a menina. Minha abuelita perguntou se poderia achar o tesouro, Eleonor disse que não e sumiu. Para sempre.

Minha abuelita correu para contar a sua mãe sobre a visita de Eleonor, a mãe assustada colocou a menina em um cavalo e a levou até uma igreja, tudo isso acontecendo no meio de uma revolução. Lá o padre conversou com a menina, explicou que não existem fantasmas. Mas um senhor que limpava a igreja escutou a conversa e seguiu minha abuelita e sua mãe na saída, se aproximou dizendo:

-Tesouros não são tão simples, vocês têm que perguntar aos fantasmas o que eles querem em troca, como uma oferenda, se você não deixar nada e levar o tesouro, eles vão te perseguir a vida inteira.

Tudo isso deve ter feito um buraco enorme na cabeça da minha abuelita, os tesouros que todos sabiam que estavam em alguma parte, a miséria, a fome, o medo, era muita coisa para uma menina digerir. E de repente minha abuelita disse que estava dormindo quando uma senhora se aproximou dela e disse que a fosse seguindo, a levaria até um tesouro. Minha abuelita cobriu a cabeça e fingiu dormir, até que a senhora desapareceu.

Foi assim durante dias, minha abuelita tinha medo de morrer como Eleonor, sabia também que era pequena e não poderia achar o tesouro sozinha, assim teria que pedir ajuda e poderia acontecer a mesma coisa que tinha acontecido com Eleonor, morrer no penhasco, porque não poderia dividir o tesouro com outros.

Contou tudo a sua mãe, que cansada dessas histórias mandou que a menina parasse com isso, se tinha tesouro ou não, era passado.

Foi assim até o fim da revolução, minha abuelita dizia que a senhora se sentava ao seu lado no chão, à noite e dizia para que a acompanhasse até o tesouro, minha abuelita mantinha os olhos fechados e fingia dormir.

Muitos anos se passaram, minha abuelita se casou, teve filhos e morava em um sítio, ficava ali jogada, à mercê de um marido irresponsável. A situação ficava cada dia pior, eles passavam fome, todos os tipos de necessidades. Até que um dia, minha abuelita contou, estava dormindo quando sentiu que sentaram na sua cama, na hora abriu os olhos, pensando ser um dos seus filhos, mas viu a mesma senhora de anos atrás, que disse ''Esperança, você precisa desse tesouro, me deixe te levar a ele''. Ela fechou os olhos e começou a rezar. Já sabia naquela época que os maus espíritos aparecem vestidos de bons.

E como chegar ao tesouro? Não estava tão longe do lugar onde tinha nascido, mas como levaria os filhos?

Rezou durante noites, até que a senhora não apareceu mais. Minha abuelita nunca esqueceu dessa história, contava ela com lágrimas nos olhos, porque sua vida inteira foi de penúrias econômicas, mas a lembrança de Eleonor morta no penhasco era mais forte, naquela época ninguém se preocupava em afastar as crianças de situações assim, minha abuelita viu a amiguinha morta, acompanhou eles tirando o corpo do penhasco, aquilo deve ter ficado grudado na sua alma.

Lembro da minha prima com doze anos, escutando a história e dizendo:

-Poxa, abuelita, a gente podia ser rico agora né? Era só ter seguido a senhora até o tesouro, depois você marcava bem o lugar e voltava quando fosse adulta.

-Mas eu não sabia quem era aquela senhora, nem o que ela queria, fantasmas podem ser traiçoeiros. 

-Tivesse perguntado!

-E você acha que ela teria me dito?
E penso nesse tesouro mais do que vocês imaginam, talvez pensei nele cada dia da minha vida. Mas a gente aprende com o tempo, tudo no nosso caminho, tudo que está à frente, é um fantasma que não conhecemos, não sabemos quem é, nem o que quer de nós, temos segundos para decidir se vamos segui-lo ou não. E depois que escolhemos seguir o fantasma só existem dois resultados: a fortuna ou o penhasco. 


Iara De Dupont

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