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03 janeiro 2017

A marreta do universo


Gosto de ditados porque eles parecem uma coisa certa em um mundo incerto, sempre me pergunto como sobrevivem ainda na boca das pessoas.

Escutei muito aquele que diz ''não deixe para amanhã o que pode fazer hoje'', mas não parecia fazer sentido para mim, uma virginiana da gema, dessas que honram o signo e justificam a ordem astrológica.

Mas há um tempo as coisas mudaram. Não encontrei explicação, me disseram que é a idade, o tempo, o espaço, o mundo, mas de repente acordei cansada e fui deixando muitas coisas de lado. Eu até me importava, mas fingia não me importar, treinava em silêncio.

Desse jeito abandonei algumas coisas. Sempre fui organizada, mas larguei mão do armário e do que acontecia lá dentro. Alguns potes ficaram empilhados na cozinha, mas joguei na gaveta e esqueci. Livros que pensava doar estavam estacionados em um canto da sala. A roupa que não me servia mais estava guardada, empilhei os cosméticos, guardei os perfumes na caixas, deixei em um canto.

Não contei o tempo, nem os dias, mas tudo me incomodava, eu sabia que precisava ''limpar'' minha vida, acelerar minha existência e que largar a mão não resolveria nada. No meio de tudo isso pensei várias vezes se a minha depressão tinha voltado, mas logo me convencia de que tinha um lado bom, finalmente eu estava mais desprendida, sem a neurose virginiana de manter tudo em ordem.

Comentei isso com uma amiga mística e ela me disse que era melhor me livrar logo de algumas coisas que eu tinha, se eu sabia que aquilo tinha que ser feito, bom, que fizesse. Ainda lembro dela respirando fundo e dizendo:

-Quando sabemos que temos que fazer alguma coisa, ainda temos tempo para pensar, mas se o universo resolve que aquela coisa tem que ser feita, bom, ele não é tão legal como parece, faz as coisas do jeito dele.

E foi assim. Uma manhã, a última semana de novembro, fui acordada as oito da manhã, de uma quarta-feira. Mal abri a porta e o zelador entrou com outros dois rapazes, dizendo que vazava água no apartamento debaixo e que eles precisariam parar aquilo, quebraram a parede da moça, mas viram que talvez viesse do meu apartamento e resolveram subir.

Agora com toda a calma do mundo posso dizer que foi um ataque de pânico de todos os envolvidos, não era nada tão sério que merecesse medidas de emergência, mas eu, assim como a vizinha, não tivemos tempo para pensar.

Vi os rapazes quebrarem a parede da minha cozinha, aquela que eu pintei sozinha de rosa. Fiquei parada ali sem acreditar, não consegui cobrir nada, o pó voava por todos os lugares, só via a marreta quebrando e pensava que minha amiga tinha razão, o universo não era delicado na hora de fazer as coisas.

De parede quebrada eles decidiram que não era ali o vazamento, devia ser de um cano que atravessa o chão da cozinha. Já tinham se passado umas duas horas, mas eu me sentia hipnotizada, sem acreditar no que estava acontecendo. 

O azulejo foi quebrado sem dó, o meu azulejo, que eu sempre cuidei com todo o carinho, não deixo ninguém entrar de sapatos na minha casa.

De repente os rapazes decidiram que era melhor esperar uns dias para ver de onde saía o vazamento, minha parede ficou quebrada, com um tubo à mostra e o chão da cozinha em pedaços. Tiveram que improvisar uns pedaços de madeira para que eu pudesse caminhar por ali.

Nos dias seguintes minha vida virou um inferno. Os rapazes sumiram, não fui eu que contratei, não escolhi, e até agora, depois de tantas reclamações ninguém me diz quem os achou. Passei dias ligando para o celular deles e escutando respostas como ''é melhor deixar outro dia'', ''é que tive uma emergência'', ''é isso, é aquilo''.

Uma semana depois apareceram e acharam melhor trocar o cano, mas não eram bons nisso, fecharam a água do prédio, mas esqueceram de avisar que não era para jogar nada pelos canos, água caiu na minha casa e inundou a casa da vizinha. Tudo ficou insuportável, o cheiro de umidade, o chão aberto, a parede quebrada.

E não sei quantos dias se passaram, eu falava as coisas e eles me ignoravam, até que tive que recorrer ao meu irmão, paciência, coisa de país machista. Eu já tinha esgotado todos meus recursos, falei com o zelador, com a administração do prédio e todos me diziam que ''reformas são assim mesmo'', mas ninguém entendia apenas um ponto: a pessoa tem que aparecer para fazer a reforma, ou ela se faz sozinha?

Foram no total três semanas de algo que poderia ter se resolvido em dois dias, caso as pessoas envolvidas fossem competentes. E foi uma sucessão de erros, compraram o azulejo errado, colocaram onde não era, passaram argamassa na parede sem arrumar direito, enfim, parecia um filme de terror.

O desespero me superou e eu decidi que não entrariam mais na minha casa, me cansei de tanta incompetência e de ficar à merce deles, que marcavam um dia e horário e apareciam uma semana depois. O que ficou pendente resolvi que eu mesma faria, como diz minha mãe ''o que eu não sei, eu aprendo''.

Uma semana antes do natal me vi em um apartamento que tinha poeira até o teto, uma cozinha remendada e completamente exausta. Não era uma limpeza de tirar potes de gavetas, nem de separar livros, teria que ser uma limpeza de balde com muita água e sabão, tudo isso em um momento que eu não tinha a menor vontade de mexer nada e ainda por cima estava comprometida com a ceia de natal.

Tudo me deixou cansada, irritada, os canos que levei dos rapazes, as discussões com a administração, as ligações de celular implorando para que resolvessem logo a situação, o serviço mal feito, o machismo constante em ignorar tudo o que eu dizia.

E no terceiro dia dessa confusão resolvi ver de perto o estrago na casa da vizinha. Encontrei ela desesperada, limpando os estragos da reforma. De repente ela me disse ''não sei porque eles não escutaram o que eu disse, sobre deixar um balde ao lado, caso a água caísse''.

É, por que? Quem escuta uma mulher? Ah, sim, vão dizer que é meu discurso vitimista, mas parece que as coisas são assim, homens ''ficam'' surdos na hora de escutar uma mulher.

Não sei quantas vezes comecei a limpar e sentava e chorava, de saco cheio, cansada e com ódio da situação.

Minha amiga insistiu ''o universo só faz as coisas para o nosso bem, você não se mexeu, bom, ele foi lá e fez você se mexer''.

É, fez sim. Fez mexer tanto que ainda não acabei com a limpeza, já que me vi obrigada a começar do zero, tive que desmontar a cozinha, lavar todos os pratos, mesmo no armário ficaram sujos. Tenho feito as coisas devagar e pode parecer simples, mas sou virginiana, devagar pra mim não existe. Mas não tive como dar conta de tudo, apesar do meu esforço, ainda faltam algumas coisas. Eu via objetos empilhados, largados e jogados na minha casa, mas sei que tinham muitas emoções estancadas ali, muitas situações congeladas, amores ignorados, momentos mumificados, quando não organizamos os objetos as emoções travam, não é só uma pilha de livros que ficam em um canto, são sentimentos que largamos pelos cantos, que não vivemos. E o ser humano não foi feito para viver cercado de energias mortas, pelo contrário, precisamos energias vibrantes circulando ao nosso redor.

Mesmo assim, acho, talvez, não sei, que aprendi a lição. Coisas têm que ser feitas e quando nos negamos o universo entra no meio e resolve do jeito dele, de vez em quando pouco amigável.

Eu abri a porta da minha casa as oito da manhã, sendo acordada de um sono profundo, pensei ter visto três pessoas entrando e falando sobre um vazamento no apartamento debaixo, mas na verdade era o universo abrindo minha porta e dizendo: acorde e reaja.

Feliz 2017!


Iara De Dupont


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