ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

18 dezembro 2016

Os pequenos demônios


Meu pai era ateu e cético, não abria espaços para nenhuma teoria que não se pudesse provar. Nos últimos anos de vida cedeu um pouco, mas mesmo assim eu tinha a impressão de que não acreditava em nada.

Eu entendia que ele não acreditasse em nada porque era muito racional e extremamente culto, conhecia a maioria das explicações das lendas e superstições, sabia o significado de muitas coisas e isso desmontava as teorias de algumas pessoas.

Argumentava até com minha avó e suas histórias de terror, que sempre incluíam a figura do diabo, meu pai explicava que isso era fruto da conquista da Espanha sobre o México, ao desembarcarem os espanhóis levaram a religião católica ao México e com isso a temida figura do ''diabo'', uma boa presença para intimidar os indígenas, mas o diabo não existia, dizia meu pai, ele garantia que o ser humano era pior, caso o diabo existisse era um pobre coitado, amador, figura secundária em um livro bíblico.

Mas o que sempre me intrigou no ceticismo do meu pai foi uma amizade que manteve durante anos com uma senhora que ele conheceu quando trabalhava em uma revista e ela escrevia o horóscopo, na verdade traduzia o que era publicado na edição americana da revista.

Meu pai me contava as histórias dessa senhora e em mais de duas ocasiões meu pai estava presente e viu como algumas coisas aconteceram.

Quando eu o questionava sobre isso ele dizia que viu, mas não podia dizer que acreditava e que poderia ser um truque, também dizia que poderia ser sugestão, que ver algo nem sempre significa que aquilo existe.

Uma das histórias envolvia uma amiga do meu pai, uma pintora casada. Ela tentou engravidar durante sete anos e não conseguia, fez tratamento e não dava certo, sempre perdia os bebês. Em algum momento ficou tão deprimida que meu pai para ajudar a levou com essa senhora que era uma espécie de bruxa.

A senhora olhou a moça e disse ''você tem oito anos comendo comida envenenada, dada pela sua sogra, ela não quer que você engravide''.

A moça ficou quieta, mas ao sair quase bateu no meu pai, achou tudo um absurdo, sua sogra era viúva, ótima pessoa, culta, e sim, digo culta porque existe uma falsa crença de que superstições são fruto da ignorância e do desespero em explicar o que não se conhece. A sogra, dizia a moça, tinha apenas um filho, era bem sucedida na sua carreira como editora, alto astral e jamais faria algo tão baixo e rasteiro como ''enfeitiçar'' a comida de alguém. E além disso imagina que simples seria a vida se uma mulher pudesse evitar uma gravidez com uma comida ''preparada'' por alguém? Mulheres do mundo inteiro fariam fila para comer e evitar uma gravidez.

Um tempo depois o marido da pintora teve que se mudar a outro país durante um ano, por razões de estudo, a pintora foi junto e acabou engravidando. Voltou ao Brasil com oito meses, prestes a parir, mas umas semanas antes fizeram um exame e descobriram que eram gêmeos, dois meninos, mas estavam mortos. Ela passou pelo parto e como toda a história parecia estranha ela pediu a autopsia dos bebês. Semanas depois ficou sabendo que eles apresentavam sinais de envenenamento, mas o legista não sabia explicar porque a mãe não tinha os mesmos sinais e nem apresentava os sintomas.

Nesse momento a pintora ligou os pontos, teve aquele segundo de lembrar da sogra, ela voltou ao Brasil grávida de oito meses e durante semanas comeu na casa da sogra, logo os bebês morreram, será que tinha alguma coisa a ver? Resolveu ir atrás da empregada da sogra, que disse apenas que ela cozinhava, mas quando a nora ia visitar a sogra fazia questão de cozinhar e usar uns temperos, que não ficavam na cozinha.

A pintora ficou com tudo isso na mente, bateu o pé e conseguiu mudar de cidade com o marido, mas não disse a ele o motivo da mudança. Em outro lugar ela engravidou novamente, anos depois já tinha três crianças, que ela escondia da sogra, apesar dos apelos do marido.
Uma vez ela disse que a sogra apareceu sem avisar, ela estava com o bebê pequeno, correu para o telhado e deixou o menino ali, esperando que a sogra fosse embora. O marido pensou que ela estava em uma fase de desequilíbrio e não entendia bem porque a mulher agia daquele jeito.

Uns dois anos depois, ela não conseguia mais segurar a situação, já tinha dois filhos, ainda não tinha nascido o terceiro, mas a pressão do marido para que ela deixasse a sogra ver os meninos era imensa, então ela teve uma ideia, pegou o carro e foi sozinha visitar a sogra, chegando lá foi direta, deixaria a sogra ver os meninos, desde que a sogra confessasse o que tinha feito.
Teve uma surpresa enorme quando a sogra suspirou e disse que não era ''para tanto'', que ela era uma senhora doente, tinha apenas um filho e pensava que se viesse um bebê na família o filho se concentraria na criança e deixaria a mãe de lado, então ela procurou uma pessoa no lado sinistro da vida que a ensinou a jogar uns elementos na comida da nora, apenas para atrasar uma gravidez, não era para fazer mal.

Não ''fazer mal'' foram sete anos engravidando e perdendo a criança, quando a sogra foi questionada sobre os gêmeos disse que tinha esquecido que a nora estava grávida e continuava jogando o mesmo ''tempero'', que jamais quis dizer o que era.

A pintora resolveu se afastar de vez da sogra, o marido não entendeu, apesar dela ter contado tudo, sempre achou que era uma falsa acusação, mas teve que acatar.

Alguns anos depois a sogra morreu, o casamento acabou e a pintora sempre agradecia ao meu pai por tê-la levado a senhora bruxa, dizia ser grata porque meu pai tirou a venda dos seus olhos, ela jamais pensaria que sua sogra, tão culta fosse dominada por demônios pequenos, como ser trocada pelos netos.

A pintora fez análise e gostava de contar essa história para ilustrar como o ser humano perde a moral e a ética diante dos seus pequenos medos, ninguém parece agir de má fé diante dos grandes medos, até porque se paralisam, mas diante dos pequenos medos tudo muda e tudo vale.

Não conhecemos os medos pequenos das pessoas, por isso não sabemos seus limites nem motivações, no caso da pintora eu diria que nem era pessoal com a nora, era apenas o medo de uma mãe de perder a atenção do filho.

Por isso não se pode confiar em ninguém, não sabemos o que a pessoa pensa e sente, mesmo sendo da família e quem tem controle sobre seus pequenos medos e demônios? Ninguém.

Para todos é uma batalha sangrenta controlar os demônios e a maioria de nós perde essa luta, somos facilmente engolidos por eles.

Claro que existe uma enorme diferença entre perder a guerra para os demônios e prejudicar alguém, colocar ''temperos'' na sua comida, isso é crime, mas a motivação foi primária, fruto de um pequeno medo.

Comida é sagrada, por isso é importante preparar sua comida e evitar lugares e pessoas que não confiamos. E sempre, sempre, sempre, sempre, abrir as orelhas quando alguém nos indica uma pista, no caso da pintora quando estava grávida dos gêmeos, se tivesse lembrado do aviso talvez a história seria outra. Não temos mais espaço para ingenuidade e não podemos confiar na aparência, dizer que é uma pessoa culta, que é a sogra, enfim, que é isso, que é aquilo. A verdade é uma: temos que nos cuidar de todos.



Iara De Dupont

Nenhum comentário:

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...