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16 dezembro 2016

Material para construir uma mulher: medo


Encontrei uma amiga que não via há tempos, e ela veio junto com sua irmã.
Em algum momento do almoço a irmã se levantou para ir ao banheiro e comentei com minha amiga que eu estava impressionada com sua irmã, parecia muito bem, firme, decidida, enfim, mudou bastante.

Minha surpresa foi porque essa moça, a irmã, perdeu seu filho há uns dois anos, o garoto tinha treze anos e foi morto durante um assalto. Na minha cabeça ninguém se recupera de um trauma desses, não sei porque, mas sempre tive a impressão de que uma mulher pode voltar a sua vida depois de qualquer trauma, menos esse, de perder um filho, e ainda por cima de uma maneira tão brutal.

Eu não a via desde o velório do filho, um episódio traumático para todo mundo, porque é a coisa mais horrorosa do mundo, o enterro de uma criança, não tem nada neste mundo mais dilacerante.

Minha amiga não me respondeu nada, esperou sua irmã voltar e disse a ela:

-A Iara acabou de dizer que você parece muito bem, que mudou bastante.

Ela sorriu e respondeu:

-Mudei sim, deixei de ser medrosa.

Fiquei com medo de encostar na ferida, mas tive que perguntar como a morte de um filho faz a mulher perder o medo e ela respondeu:

-Minha vida deu um giro, é como se eu fosse outra pessoa vivendo outra vida, o que aconteceu foi simples: depois que eu perdi meu filho, perdi o medo, porque eu não tenho mais nada a perder, o jogo começou de outra maneira.

Ah, entendi.

-E fazendo análise descobri o seguinte: você já percebeu como a vida das mulheres é pautada no medo? Tudo nos dá medo, porque somos educadas para sermos assim.
Eu comecei a perceber nas minhas sessões que eu vivia congelada, quando era pequena tinha medo de desobedecer meu pai, de fazer as coisas erradas, na adolescência tinha medo de não ser bonita o suficiente, e pelos avisos da minha mãe tinha medo de sair na rua, falar com estranhos, usar roupa curta. Um pouco depois tinha medo da primeira relação sexual, tinha medo de levar um fora, depois me casei e tinha medo de decepcionar meu marido, de frustrar minha família, no trabalho tinha medo de não dar conta, tive meu filho e comecei a ter mais medo, de ser uma péssima mãe, de não escutar ele chorar, de não saber amamentar, e ainda tinha medo de que meu casamento afundasse, porque eu tinha que dar atenção ao meu marido. Deixava meu filho na creche e tinha medo de que acontecesse alguma coisa, estacionava o carro e tinha medo de tudo. Então meu filho foi assassinado e eu tive que enfrentar juízes, promotores, advogados, porque ele foi morto por um menor de idade durante um assalto, porque quis o celular do meu filho que em um impulso segurou e não deu o aparelho, o rapaz atirou. 
Não é uma dor que se possa imaginar, é como se te arrancassem a pele e cortassem teus braços na mesma hora, corri a pedir ajudar, fui a terapeutas, psicólogos e não encontrei consolo em nada, percebi que fiquei fria, que nada me importava, até que na análise me dei conta de como minha vida tinha sido guiada pelo medo.
Parece que mudei, mas continuo a mesma, a única diferença é que perdi o medo, hoje nada me faz tremer, dou até risada, depois que você perde um filho perde o limite da dor, nada mais faz diferença.
Tenho consciência de que nada vai amenizar a dor da perda, mas minha vida deu um giro, sou melhor pessoa e profissional hoje, mais decidida, não tenho mais medo de nada, antes eu tinha medo até de responder de maneira bruta a alguém, tinha medo de mandar as pessoas à merda, de dizer o que realmente pensava, enfim, medo era minha maneira de ser. Aprendi a dizer ''não'' e não sinto remorso. Da pior maneira possível meu filho me libertou de viver no medo, daria tudo para que não tivesse sido assim, mas alguma coisa eu preciso tirar da perda, porque senão minha cabeça surta.

É claro que a tragédia que ela viveu é um divisor na vida de qualquer pessoa, mas me chamou muito a atenção o que ela disse sobre o medo, como é material de construção social jogado na mulher. Nenhuma mulher precisa passar pelo horror que ela passou para perceber que somos todas guiadas pelo medo e começa desde que nascemos, parece que o mundo já nos recebe com resistência, já sabe o que vamos passar.

Medo é uma estrutura que fica ao redor das mulheres, todas temos medo e vão desde medos pessoais a medos sociais, como sair as ruas.

Sempre tive a sensação de medo muito presente, tanto que com menos de treze anos já tinha síndrome do pânico. Hoje com o conhecimento que tenho da vida me surpreende não ter tido essa síndrome com dois anos de idade, porque sempre fui guiada pelo medo.

E como ela disse, os medos vão sendo somados, começa com uma coisa simples, como decepcionar os pais e de repente vira uma bola de neve que inclui não errar no trabalho e não fazer besteira no relacionamento.

O problema é que essa soma de medos é usada para nos controlar, temos tanto medo que fazemos o que nos pedem.

É um paradoxo, porque ao mesmo tempo que somos ''criadas'' para sentir medo, somos extremamente corajosas e obrigadas pela vida a enfrentar diversas situações, como um parto normal, algo que de fora parece assustador.

E nos ensinam desde pequenas que sentir medo é bom, porque isso nos protege de situações ruins e acaba servindo de alerta, dizem que medo é bom porque nos segura de fazer besteiras, mas é tanto medo que perdemos a noção e acabamos com medo de dizer ''não'' a qualquer pessoa.

Eu fui educada para sentir medo, sempre me diziam ''ah, se fulana te ofende e você vai lá e ofende ela, depois ela pega raiva e te bate'', ou seja, era melhor ter medo e não reagir, porque poderia ficar pior.

Cresci muito medrosa, com medo de enfrentar as pessoas, fugindo de situações e evitando ''dizer um monte'', mas minha alma sempre foi de reagir, algumas vezes consegui bater o martelo, mas depois me afundava no remorso, quando superamos o medo de maneira precária, ele vira culpa.

Medo tem que ser visto como é, um fator jogado na nossa direção para nos paralisar, e não temos mais condições de lidar com tanto lixo. Eu tenho medo de sair na rua de noite, mas não tenho mais medo de mandar um Romeu à merda, de dizer algo que sei que ele não vai gostar, não tenho mais condições físicas de viver consumida pelo medo, porque já fui assim.
Não era só medo de sair à noite, mas também medo de decepcionar ou magoar as pessoas próximas, mas esse medo perdi quando percebi que elas não tinham medo de me magoar.

É importante ver como o medo é usado contra nós, só assim podemos separar o que é real ou não e nos livrarmos dele. É real o medo de viajar sozinha, em um mundo machista, violento e misógino, mas não é real o medo de dizer o que pensa.

Temos que separar os medos e cortar essas cordas que nos controlam, ninguém precisa perder um filho para entender que somos direcionadas a sentir medo constantemente.

Medo é corda que foi amarrada no nossos calcanhares e já é hora de cortar, o mundo que se segure, porque não tem nada mais transformador do que uma mulher sem medo.


Iara De Dupont

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