ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

10 dezembro 2016

A ceia da exploração


Cada vez mais vejo o desenho social no qual todas as mulheres estão envolvidas, percebo a diferença que separa os gêneros no dia a dia.

Recentemente tive que reformar minha cozinha e quando eu perguntava as coisas aos rapazes que consertavam não recebia respostas, então eu tinha que apelar para meu irmão e na hora eles respondiam.

Não é uma questão de se fazer de vítima, mas meu papel como mulher foi definido antes que eu nascesse e os outros parecem reagir a isso, não tenho direito de responder duro nem direto, tenho que ser ''fofa'' o tempo inteiro, caso contrário viro a louca e histérica.

Mas ser ''fofa'' me transformou durante anos em um tapete, todos pisavam. E agora no fim do ano essa ''fofice'' é mais explorada ainda.

Não tive consciência de uma situação que passei, na hora não percebi, agora vejo como era clara e simples.

Em algum momento me encontrei em uma loja lotada, na véspera de alguma data importante, comprando uma ''lembrancinha'' para a sobrinha do Romeu.


Já contei mil vezes essa história, mas ela mostra como as coisas funcionam, somos obrigadas como mulheres a sermos fofas e gentis com a família do Romeu, mas ele pode passar em cima da nossa e ninguém diz nada.

Fim de ano mostra bem isso, é a melhor época do ano para ver como somos exploradas sem dó e aceitamos porque estamos ansiosas por essa aprovação e para que não nos vejam como as ''loucas''.

Tudo fica nas costas da mulher, as compras, a ceia, os presentes, até controlar as crianças no dia do natal é responsabilidade das mulheres e aceitamos isso com naturalidade.

Podemos dizer que em gerações anteriores era uma troca, os homens trabalhavam fora de casa e as mulheres dentro, claro que dentro era pior do que fora, mas isso não era levado em conta, por isso parecia natural que em fim de ano e suas festas as mulheres que fizessem tudo.

E tenho uma amiga que há anos, sem nenhum conhecimento de feminismo, começou a se impor. Acho que foi o instinto, apanhou demais em um relacionamento, foi muito abusada e quando tudo acabou resolveu virar sua vida e começar do zero, conheceu outro Romeu e se casou.

Desconfio que a facilidade dela em se impor vinha do fato de gostar muito do marido, mas não estar totalmente apaixonada e ela era o pilar econômico da casa, então de uma certa maneira estava segura, sabia que se desse merda ele poderia ir embora.

Na época não entendi algumas atitudes dela, cansei de dizer que estava sendo muito dura com o marido e isso era péssima ideia.

Na época de natal aconteceu uma coisa que me chamou a atenção, fui a primeira em dizer que a sua atitude estava errada, só agora percebo como ela foi inteligente.

O marido sempre jantava no natal na casa de seus pais, mas nesse ano resolveu que queria fazer a ceia na sua casa e comunicou a minha amiga que fariam o jantar. Ele pediu que ela cozinhasse, porque ele não sabia cozinhar muito bem, ela aceitou, mas pediu que ele pagasse os ingredientes. 

Ele apareceu e deu quinhentos reais para as compras, minha amiga bateu o pé e disse que queria entre mil e mil quinhentos reais para fazer a ceia.

Ela me contou esse episódio e fiquei horrorizada, imagina, cobrar para fazer o jantar da família? Poxa, a gente faz essas coisas por amor, não por dinheiro!
Insisti com ela que ficava ''feio'' pedir o dinheiro, até porque o marido disse que não tinha e pediria para seus pais. Nessa parte eu subi paredes, ainda estava presa a ideia de ser ''fofa'' e lembrei a minha amiga que sua decisão queimaria o seu ''filme'' com a sogra, causaria um ''climão'' se a família inteira do marido ficassem sabendo que ela só topou cozinhar por dinheiro.

Minha amiga bateu o pé, disse que até tal data a quantidade seria de mil a mil e quinhentos reais, mas se ficasse muito em cima pediria dois mil reais pelo jantar.

Duas semanas antes ainda tentei argumentar com ela, continuava me parecendo um absurdo misturar a ceia de natal com dinheiro, eu entendia a parte do marido pagar os ingredientes, mas o resto me parecia injusto, ela não iria gastar dois mil reais no supermercado. Esse dia ela explodiu e me disse:

-Porra, Iara,  faz as contas! Dois mil reais é pouco! Para e pensa! Eu vou trabalhar até o dia 22 de dezembro, isso quer dizer que vou acordar no dia 23 de dezembro e sair correndo para um supermercado lotado, depois volto para casa, separo as coisas, cozinho, vou ter que dar um jeito na sala, deixar o banheiro limpo, enfim, de quantas horas da minha vida estamos falando? Não valem nada? Meu tempo é lixo? Eu nasci para servir família de marido? Coisa nenhuma! Estou cobrando a ceia que vou fazer e todas as horas envolvidas! E olha, ainda dei desconto, porque se for cobrar as horas posteriores de limpeza ficaria mais caro.

Mas a gente cozinha por amor......

-É, quando quer né? Não sou obrigada a cozinhar ceia de natal. Para meu marido é importante a ceia e tal, tudo bem, mas meu tempo vale, não é grátis. Cansei de ver como todos pegam o tempo da mulher como se não valesse nada. Não é só a ceia, mas as horas perdidas nas compras e nas filas.

Vai ficar chato com tua sogra, família é um conjunto de pessoas e todos dependem de todos, não é bom colocar o dinheiro no meio, daqui a pouco tua sogra vai começar a te cobrar se fizer um jantar!

-Sim, todos precisam e todos ajudam, mas só o tempo das mulheres não vale nada? Eu estou cobrando os ingredientes e meu tempo, meu marido não pode me dar todo o dinheiro porque não trabalha tempo suficiente, então que se vire, se quiser pedir para os pais que peça, eu só sei de uma coisa: meu tempo custa dinheiro.

Não consegui avançar na conversa, em algum momento quase que o barco virou porque eu na minha ignorância disse a ela que estava agindo como uma prostituta, ela quase me bateu, mas naquela época eu era boba, ingênua e me parecia um horror cobrar para fazer o jantar de natal da família.

Só entendi o posicionamento dela anos depois, de tanto observar minha família e ver como funcionava, ver as minhas amigas e conhecidas, enfim, percebi então como somos usadas como mulas em fim de ano.

Na minha família a dinâmica é a seguinte: meus tios não dão nem um centavo, porque todas as mulheres trabalham e puxam de seu dinheiro para a ceia, de vez em quando algum deles contribuiu ou leva as bebidas, as mulheres fazem as compras, limpam a casa, cozinham, dão banho nas crianças e recebem todos na noite de natal, quando termina elas limpam tudo. O natal na minha família é bem alegre para os homens, eles bebem, comem, relaxam e jogam conversa fora, enquanto um exército de mulheres, organizadas como formigas resolvem tudo que envolve uma ceia para tantas pessoas. E ainda lembro de episódios da minha infância, eu ia na véspera do natal, de manhã, com minha avó comprar alguns ingredientes que faltavam, lembro de algum primo mais guloso puxando a saia da minha avó e reclamando que o ''jantar tá demorando''.

Hoje entendo minha amiga e senti seu ponto de vista na pele, o nosso tempo não vale nada.  O tempo de uma mulher nem é considerado, pode ser o encanador que se atrasa e nem se desculpa, pode ser Romeu que pede para que façamos o jantar, pode ser para todo o sistema, a realidade é essa, socialmente nossas horas não valem nada, pelo contrário, deveríamos ser gratas por nosso tempo ser dedicado a servir os homens.

Mas todos os pontos que se levantam levam de volta ao mesmo: somos nós que temos que parar isso e controlar nosso tempo, entender que cozinhar uma ceia de natal não envolve apenas duas horas na cozinha, mas todo o tempo das compras, preparo, e limpeza depois.

Eu sou uma romântica incubada, ainda me parece que se cozinha por amor, mas minha amiga está certa, estamos sendo exploradas e desrespeitando nosso tempo, por isso os outros passam em cima.

Nossas horas valem, nosso tempo vale, nossa vida vale. É uma pena ter que dizer isso no século XXI, mas é o que acontece.

É bonito pensar que se cozinha para a família, que é uma maneira de reunir a todos e agradecer outro ano, mas estamos engolindo quietas o tempo que tudo ali nos consumiu e ignorando que ninguém fez sua parte, ficou tudo nas nossas costas.

Parece natal, parece uma ceia, mas é apenas outra data para nos explorar e lembrar que nosso tempo não vale nada, estamos a disposição de todas as convenções sociais, somos as mendigas do sistema, vivendo de migalhas e agradecendo por isso.

E eu não tenho nada contra cozinhar no natal, desde que os outros façam sua parte, não sou a única pessoa na família, posso ser uma das que permitiu ser explorada algum dia, mas isso já acabou.


Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Me identifiquei com esse Post, se não somos "mulherzinhas "fofinhas somos loucas, histéricas e nervosas. Há pouco tempo ouvi de um irmão do meu marido, que ninguém da família dele gostava de mim, que eu deveria tentar ser mais meiguinha, fofinha ... Por essa e por outras, que faz tempo que decidi que tentar agradar os outros é pura perda de tempo, ainda mais a família do Romeu, eles que se lasquem.

Anônimo disse...

Ola!!!

Este e mais um post pra minha coleção de como melhorar minha vida e as futuras geracoes . Passei alguns anos cozinhando pra amigos porque o marido preferia comer em casa a ir em restaurante e eu que amo sair acabava me ferrando, gostava de receber mas como era muito frequente me sentia explorada e pra piorar os amigos muito raramente retribuam o convite , algumas não gostavam de cozinhar, não retiraria nunca e ponto. Pra mim dissociar cozinhar de gostar de alguém e muito difícil, me sinto como se eu estivesse provando alguém de uma necessidade básica , me sinto muito mal. Com esse tipo de situação fui ficando ressentida ao cozinhar, acho que comecei a associar cozinhar com exploração , com servidao . Nunca e tarde pra mudar, estou decidida a acabar com esse sentimento de culpa. Essa tua colega ai virou minha ídola kkkkk, cobrar foi muito bom, realmente nosso tempo não e lixo.
Bjs]
Anna

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...