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16 novembro 2016

Romeu é fofo? Acorda, você está sendo explorada


Fui ao centro da cidade com uma amiga, de vez em quando cometo esse erro de pensar que alguns produtos são mais baratos no centro do que em outros lugares, mas hoje tudo está tão virado que não obedece mais essa lógica. E muitas vezes encontramos os produtos por um real, dois reais, mais baratos, como se isso valesse o nosso tempo, energia e deslocamento.

Faz pouco tempo que minha amiga se casou, por isso seus olhos foram logo para cima de produtos para a casa, acessórios e objetos de decoração. Ela está naquela fase de encantamento, onde morar com Romeu parece a melhor decisão que se pode ter na vida.

Ela achou muitas coisas e acabou comprando, inclusive uma árvore de natal e os enfeites, pensando em deixar a casa arrumada para o primeiro natal com Romeu.

Não sei quantas horas andamos, quantas lojas visitamos, quanto tempo esperamos o transporte, mas sei que chegamos exaustas à sua casa, eu fiz apenas uma parada técnica, precisava fazer xixi e subi ao seu apartamento.

Chegando lá encontramos seu Romeu, um ser adorável, simpático e meigo, me chamou a atenção que ele abriu a porta, mas não nos ajudou com as sacolas.

Entrei correndo no banheiro e quando saí minha amiga me disse para comer alguma coisa com eles, porque já era tarde e aceitei o convite. Ela perguntou ao Romeu ''amor, o que você quer?'' e ele gentilmente respondeu ''ah, o que você fizer eu vou adorar''.

Então ela foi hipnotizada para a cozinha, poxa, Romeu é tão meigo! Ela improvisou um jantar, ele comeu e disse ''você sempre é fantástica na cozinha''.

É, é mesmo. Nessa hora eu já subia pelas paredes, mas não achei que fosse o momento de dizer algo, preferi me despedir e dizer a ela que iria escrever sobre nosso fantástico dia.

Quando voltávamos do centro passamos perto de um supermercado gigante, com várias promoções de comida, entramos, escolhemos algumas coisas e encaramos uma fila gigantesca que me pareceu durar horas. No meu carrinho tinha coisas para mim, no dela vários produtos estavam ali porque ''Romeu adora, Romeu sempre come isso, Romeu gosta''.

Ah, sim, sobre o que estou falando? Sobre exploração sutil, essa que tantas mulheres estão passando, acreditam que por estarem casadas com homens legais e meigos, não estão sendo exploradas por seus maridos, que são mais felizes que suas mães e vivem uma relação mais saudável.

O que eu posso dizer? Vocês estão enganadas, são tão usadas e exploradas como suas mães foram e são.

Volto ao ponto. Minha amiga caminhou durante horas, pensando na casa que vive com Romeu, comprou coisas para seu conforto e dele, encarou um supermercado, mas ele não teve a gentileza de carregar as sacolas quando chegamos, nem se ofereceu para fazer um sanduíche, esperou em silêncio que ela se manifestasse, não se mexeu do sofá, porque era seu dia de descanso.

Contei isso a um amigo e ele respondeu ''de boa, ela quis ir de compras, ela que se vire''.

É, meu bem, a gente sempre se vira sabe? Mas ela não comprou nada para si, um erro, carregou nas coisas para os dois.

E ele exerceu o lado mais fofo e suave da exploração, aquele que a mulher não percebe na primeira.

Ora, sejamos honestos, eu também me derreto com homens de voz meiga e elogios rasgados a minha comida, é fácil não perceber a exploração que sofremos.

Tudo ali estava errado, a falta de gentileza dele com as sacolas, o fato de não ter ajudado no jantar, o sorriso meigo, mas é como todos, um explorador em tempo integral. E minha amiga gastou o dinheiro dela, foi otária, deveria ter jogado tudo no cartão dele, já que gentileza gera gentileza.

Todos os dias alguma mulher vem me dizer que seu casamento é ótimo, que ela pertence a outra geração e não aceita mais ser explorada, é tudo na igualdade. Mas não é isso que eu vejo na prática.

Romeu foi fofo no final e colocou os pratos na máquina de lavar, mas não levantou a mesa nem ajudou a esvaziar as sacolas.

Ah, vão dizer que eu reparo em tudo, sim, eu reparo, percebo cada movimento de exploração e não me deixo mais seduzir por sorrisos abertos e vozes meigas. Hoje percebo quando um homem não é gentil nem atento, nem se mexe do sofá. E fiquei de olho porque minha amiga é gentil com seu marido, pensou nele o dia inteiro, mas não mereceu nem que ele pegasse as compras.

Achei durante anos que a exploração viesse sempre no chicote e no grito, que se movia nas ameaças, mas errei, esse é apenas um modo de explorar, existem outros milhões, como a meiguice e a aparente ideia de que temos um companheiro, não um marido chato. Somos enganadas com a sensação de que ele é legal porque nos elogia, adora nossa comida e abre o sorriso quando nos vê, mas não percebemos que estamos limpando, comprando, cozinhando e cuidando de um marmanjo que age como um bebê, abre o sorriso e tem nosso coração na mão.

Digo a mesma coisa sempre, deem apenas o que recebem, se o homem não é gentil, não sejam com ele. 

Ah, mas Romeu abriu a porta sorrindo! Sim, como todo o explorador ele é esperto e rápido, sabe que no grito não conquista nada, mas com a voz doce o jantar fica pronto enquanto ele descansa.

Percebam a rede de exploração na qual estão envolvidas, as frases que foram trocadas.

Muitas vezes eu vi alguma mulher na minha família reclamar de toalhas molhadas em cima da cama e os homens respondiam ''não enche meu saco'', ''mulher é pra isso, pra arrumar'', ''tá de tpm?'', ''maldita hora que me casei''.

Sem querer me vi na mesma situação, reclamando da toalha molhada do meu namorado em cima da cama, mas ele já estava um passo a minha frente e respondia ''poxa, mô, não percebi, me desculpe''. A frase era dita com tanto amor que eu derretia ali mesmo, mas o tempo passou e a toalha continuou sendo jogada na cama, de uma maneira sutil ele me dizia o mesmo que os homens da minha família diziam as gritos ''foda-se''.

Não existe casamento sem exploração, não importa a idade, nem condição, homens exploram, são assim até com os recursos naturais, imagine com uma mulher que os ama!

Não existem homens fofos, nem desconstruídos, existem exploradores mais inteligentes do que outros, mas continuam fazendo a mesma coisa, explorando as mulheres.

É fácil perceber isso, é só perceber a falta de gentilezas deles, a voz mansa, o sorriso aberto e os constantes pedidos de desculpas, mas nada muda.

Digo a minha amiga o mesmo que digo a todas, cada vez que você gasta teu dinheiro com alguém que não é gentil, você está rasgando dinheiro. Cada vez que você mima alguém que não te mima, você está sendo explorada.

Cada sorriso que ele abre para disfarçar que não fez nada e nem vai fazer, você está sendo usada.

Vamos começar a encarar a realidade, isso de cuidar da casa, comprar objetos para decoração, pensar na comida do Romeu, tudo é fantasia da nossa cabeça, não existe na deles. Casamentos e relacionamentos são sonhos que vivemos sozinhas, eles não estão ali.
Quando um homem aparece no teu sonho não é para te beijar, é para te explorar. Mas fazer o quê, se continuamos permitindo isso? Sonhamos tanto com Romeu e o casamento que aceitamos o que vem pela frente, e erramos ao pensar que somos mais livres que nossas mães, mais independentes que nossas avós, na verdade nossa situação é pior, porque elas não tiveram chance de correr, nós temos a chance e a consciência do que acontece, mas preferimos ficar e continuar sonhando que somos felizes. E parece sonho, mas é um pesadelo.


Iara De Dupont


2 comentários:

dionete bugyi-zande disse...

gostei do seu texto. é muito verdadeiro - mas, no fim, não pude evitar a impressão de que não há e nunca houve mulheres manipuladoras, mimadas, egoístas, de que somos todas ingênuas, puras e obedientes

Anônimo disse...

Eu acho que é do ser humano tentar manipular e explorar o outro. Em pequenas coisas mesmo, no profissional e pessoal, estamos sempre tentando dominar. Uma relação, de qualquer gênero, bem equilibrado, soa como utopia. Já fui mais radical, mas depois de tanto sofrer interpretando atitudes machistas e buscando equilíbrio e justiça, decidi só seguir meu coração e fazer apenas o que me sinto bem. Eu nunca gostei de cozinhar pra namorado, por me sentir explorada, mas hoje cozinho de vez em quando, e vejo isso só como uma demonstração de amor e não fico ressentida. Também não me culpo se não quero cozinhar nada e peço para ele fazer algo. Importante é apenas se sentir bem, apoiada e evoluindo como indivíduo.

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