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25 novembro 2016

Os tubarões da geração X


Há uns anos fui a uma cardiologista depois de ter ficado doente durante alguma louca dieta. Na sala de espera reparei que todos seus pacientes eram idosos.

Ela era muito simpática e conversamos muito essa tarde, acabei comentando sobre os pacientes idosos e ela me perguntou:

-Você se preocupa com a idade?

Disse a ela que não, mas a fragilidade dos anos me comovia, não sei o motivo, mas os idosos sempre me transmitiram muita solidão. E ela me disse:

-Talvez você precise conversar com um psicólogo, porque acredito que você tem uma personalidade altamente sensível (link)e precisa de ajuda para lidar com isso.

Assim que voltei a minha casa fui direto ao Google e li tudo o que encontrei sobre isso, acabei comprando um livro e o mundo se abriu diante de mim, foi a coisa mais precisa que já me disseram. A psicologia hoje reconhece a personalidade altamente sensível, sabem que é genético e ninguém pede para nascer com isso.

Passei por muito sofrimento, não apenas por ter essa personalidade, mas por estar cercada de pessoas que não tinham a menor ideia do que acontecia comigo e ainda por cima em uma época que isso nem era falado.

Mas depois que encontrei essa linha me senti melhor, consegui entender e me afastei de muitas coisas, hoje entendo que não posso lidar com coisas que me fazem mal porque minha maneira de processar os acontecimentos é diferente. 

Desde pequena eu ''pego'' olhares nessa fração de segundos, coleciono ''tons'' de vozes e movimentos diferentes.

Sei que não adianta chorar o leite derramado, nem pensar em como tudo teria sido diferente se tivessem me dito isso antes, mas é a verdade, muita dor teria sido economizada.

Para piorar minha agonia fui educada como a maioria da geração X, os nascidos nos anos setenta, os marcados por Deus com um X, a questão em aberto. 

Minha geração foi educada para pensar que crescia em um mundo mais aberto, melhor, em transformação e que boas intenções eram importantes e fariam a diferença, a maioria dessa geração foi gerado no amor hippie, na crença de valores que tinham sido quebrados e coisas boas tinham surgido. Não fomos educados para saber distinguir a maldade da bondade, nem as boas intenções das más. Tudo o que nos foi dito é que o planeta era nosso e o importante era ser feliz. Ninguém disse que o mundo é um mar aberto, cheio de tubarões que adoram comer carne fresca e ser bom nessas águas não faria nenhuma diferença nem salvaria tua pele.

Alguns pequenos X foram mais rápidos que outros, perceberam que ser bom caráter atrasaria os planos e ser mau caráter não era questão de ataque, mas de defesa.

Não fui educada para esse mundo e não recrimino meus pais, eles fizeram o que acharam melhor e me parece que educar uma criança dizendo que é bom ela ser uma filha-da-puta para sobreviver é assustador. Mas também ignorar a maldade lá fora é não aprender a lidar com ela, é não perceber quando ela entra na tua casa.

Alguns de nós não conseguiram fazer a transição, não conseguimos jogar lama no nosso caráter, nem mudar a boa essência e chegamos a um ponto crucial: não reconhecemos o mundo no qual vivemos, é como se não fizéssemos parte dele.

No começo isso me dava agonia, hoje me sinto mais tranquila, antes a estranha era eu, agora é o  mundo.
Vejo pessoas tomando decisões que eu não tomaria, falam coisas que nem tenho coragem de verbalizar, agem de maneira desordenada, como se não tivessem nada a perder. E talvez não tenham.

O ritmo desconhecido, aquele que não me ensinaram, de vez em quando me perturba, gera crises de ansiedade e angústia, por não saber como me portar nesse mundo. Apesar das perdas e mudanças, ainda assim nunca consegui desenhar um pouco de maldade em mim, o máximo que deu foi carregar umas gotas no bolso para aprender a reconhecer a maldade nos outros.

E além de tudo jogaram em cima da minha geração um avanço tecnológico sem precedentes, se eu antes não sabia lidar com as relações pessoais, imagine agora com as virtuais.

A frase que mais desenho no ar é ''o mundo é estranho'', porque assim me parece, assim ficou, não identifico nada nele, não consigo nem acompanhar as novas músicas, minha mente sempre volta as antigas.

Já me disseram que qualquer um pode se transformar em um tubarão, só porque nasceu atum não quer dizer que vai ficar a vida inteira assim, é só afiar os dentes e pular sem dó, jamais sentir remorso nem culpa.

Mas se eu conseguisse essa proeza, de me tornar um tubarão faminto no meio desse mar de nada, eu saberia para onde ir ou o que fazer? Não, porque este mundo ainda me parece estranho.

Já me peguei pensando que gostaria de voltar uns anos, viajar no calendário dos anos noventa, quando a vida me parecia mais certa, segura e clara, não como agora, um mar de nuvens escuras.

Navego entre dias de sol duvidosos, estou ali porque estou ali, mas nem sinto que estou no mundo, parece tudo fora do lugar e dias de profunda tristeza, como se tivesse plena consciência de que este planeta não é o mesmo que conheci um dia.
Às vezes me sinto uma forasteira, em outros uma turista, mas em geral me sinto perdida, entendo que Deus nos marcou com um X porque sabia que seríamos essa geração perdida de tudo, navegando sem ideia de onde está indo.

Talvez seja um apego meu, uma vontade quase infantil de pertencer ao mundo no qual nasci, aquele mundo que meus pais diziam existir. 

Em algumas manhãs me sinto como se estivesse na casa da minha tia, posso ser bem recebida, mas não é minha casa.

E tudo isso traz uma estranha sensação de cansaço e desânimo, ver tanto trabalho que meus pais tiveram para me criar com valores e no mundo que estamos não servem para nada. Ser um bom caráter ou ter uma personalidade como a minha, que se afunda na empatia, pode ser incrível para as pessoas que convivem comigo, mas não me serve profissionalmente nem emocionalmente, pelo contrário, me causa dor quando saio ao mundo.

Nunca entendi muito bem essas pessoas que vivem isoladas, cercadas de animais e repudiam o convivência com todos, mas lentamente se desenha na minha mesa a explicação para esse comportamento.

Mesmo assim me considero uma garota de sorte, porque alguém cruzou meu caminho e me deu essa explicação sobre a personalidade altamente sensível, isso me trouxe equilíbrio e paz, é uma sensação maravilhosa, no meio de tantas ruins, poder fechar a porta de casa e pensar ''o mundo é estranho, não eu''.



Iara De Dupont

5 comentários:

Luciana Lorena disse...

Precisava muito ler isso. Obrigada.

Andrea disse...

Pegando uma parte do texto... Nossa, como eu tenho sentido falta da vida pré-internet!!! As redes sociais estão me cansando num nível extremo e olha que eu nem tenho, mas a falta de privacidade que elas me proporcionam mesmo assim... Queria parar na década de 90 também.

Unknown disse...

Oi Iara, encontrei teu blog na 'Central do Textão' e adorei a forma como vc escreve.
Obrigada por esse texto!! Poderia indicar o livro que comprou? <3

Iara De Dupont disse...

Oi! O primeiro livro que li foi -USE A SENSIBILIDADE A SEU FAVOR
PESSOAS ALTAMENTE SENSÍVEIS
Autor: ARON, ELAINE N.

Mas também tem muito material do Dr. Ted Zeff, que é uma autoridade no assunto, dá uma olhada no google que você acha várias páginas sobre isso.

lorenna disse...

obrigada.

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