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16 novembro 2016

Família: não conte com meu silêncio


Não conheço nenhuma situação que se arrume com panos quentes, nem longos silêncios, mas venho de uma família que mantém essa forte crença de não dizer nada, pensando que ao ignorar o principal o problema desaparece.

Respostas são jogadas a uma pergunta, mas sempre evitando uma possibilidade, como uma tia me perguntou ''faz diferença isso agora?''.

Faz, pra mim faz toda a diferença, é o que separa minhas escolhas da genética que persegue a todos.

Uma das minhas tias ficou gravemente doente, indiscrição minha estar escrevendo sobre isso, mas meu desespero diante do silêncio que nos envolve é como um martelo na minha mão diante de um vidro, sinto que se ficar quieta a rede me envolve e acaba me tornando uma delas, coisa que tento fugir cada segundo da minha vida, por não aguentar mais as consequências que envolvem viver sem dizer nada e aceitando tudo.

Ela foi diagnosticada com uma doença degenerativa, o que gerou pânico nas mulheres da família, porque os médicos garantiram que é hereditário e não tem cura.

A família não é muito ligada a médicos, mas foram todas avisadas que essa doença ataca mais mulheres do que homens e deveríamos todas fazer exames para ver se temos ela em andamento nos nossos organismos.

Não discuto crenças nem a fé na ciência, mas diante do pânico gerado, me fiz apenas uma pergunta: é válido voltar a fita e saber o que realmente aconteceu? Ou é melhor fechar os olhos e acreditar que foi o destino genético que surpreendeu minha tia? Os médicos estão certos pensando no futuro de todas ou errando ao ignorar o passado da minha tia?

O que eu quero dizer é o seguinte, uma doença pode aparecer por fatores genéticos ou pode ser consequência de uma vida de stress?

Eu não consegui formular as frases, logo escutei ''lá vem a Iara''.

É, lá vou, é minha tia e quero que melhore, mas preciso de respostas e elas exigem que se coloque tudo em cima da mesa, sem proteger nada nem ninguém.

Minha tia foi surpreendida por uma doença que dizem ser genética, mas ninguém teve ela antes. Ao mesmo tempo sua trajetória mostra que ela foi um ser humano que viveu no extremo emocional sempre, e será que isso não dispara uma doença?

Ela nasceu com uma personalidade sensível, hoje a psiquiatria reconhece que pessoas assim precisam de vidas tranquilas e ambientes seguros, a sensibilidade é vista como uma característica da pessoa, antes era olhada como frescura. Ninguém respeitou seu lado sensível, foi rotulada de introvertida, tímida, medrosa e não era nada disso. 

Teve uma infância conturbada, com um pai irresponsável e diversos episódios de miséria. E isso não era falado antes, mas hoje sabemos que a má alimentação na infância afeta o desenvolvimento da pessoa.

Para seu azar, além da personalidade sensível, cresceu linda e perfeita, também nunca disseram uma palavra sobre isso, digo ''disseram'' pensando na minha família. Penso no acosso  e assédio que ela deve ter aguentado, sendo tão bonita e que tortura deve ter sido passar por isso, já que é sensível.

Mas seu tormento neste planeta não tinha nem começado. Cruzou no seu caminho meu tio, um tipo de bom coração, mas irresponsável, beberrão, enrolado e sem noção de nada. Minha tia se casou, teve filhos e uma vida cheia de altibaixos e episódios de violência, também silenciados pela família, eu sei de algumas coisas porque meu pai me contou, ele via o que acontecia e acabava falando, mas a família sempre ignorou esse lado violento do meu tio, alegando que ele era um ''bom marido''.

Minha tia foi submetida durante anos ao estres, a violência, a problemas causados por um marido irresponsável, que a levou ao limite a vida inteira. Ele fazia dívidas e sumia, ela ficava com a responsabilidade de resolver esses pepinos e muitas vezes não tinha dinheiro nem para comprar comida.

De longe a vida dela me parecia um inferno, imagine de perto. Algumas vezes reagiu e tentou se separar, ele ameaçava com uma arma matar os filhos, o dia que ela não acreditou ele sumiu com um filho e foram meses de busca até encontrar o bebê, que só foi localizado porque minha tia aceitou voltar com meu tio.

No total foram 45 longos anos de tortura física e psicológica, mas nada disso entra no expediente médico como causa da doença, isso é afastado como se fosse uma possibilidade absurda e louca, como disse um médico a uma prima ''A Iara é engraçada com essas teorias da conspiração feminista''.
É, eu sou muito engraçada mesmo, muito e esse assunto é mais ainda.

Ah, sim, eu escutei que não sou médica, mas mesmo assim mantenho minha teoria, um ser humano submetido a diferentes tipos de violência durante quarenta e cinco anos consegue segurar o corpo?
Pra mim não. 

Meu ponto é simples: o que importa é o bem estar da minha tia, mas com tantas mulheres na família, jovens e crianças, temos que ser claras e colocar o assunto na mesa, por mais doloroso que seja, temos que falar sobre as consequências de um matrimônio com uma pessoa agressiva e louca.
Não acho que falar sobre o casamento da minha tia possa mudar sua realidade, mas é importante que todas saibam o que pode acontecer quando se erra de parceiro.

Concordo quando dizem que é um possibilidade que a doença dela seja genética, mas caramba, o que tem de tão ilógico que tenha sido causada pelo stress que sofreu durante seus anos de casamento?

O que me irrita profundamente é sentir o véu protegendo um macho, ignorando que violência sempre traz consequências para quem a sofre, mas como ele era o marido se descarta automaticamente que qualquer gesto dele tenha disparado a doença nela.

Quando se fala em violência doméstica ninguém encosta no ''dia seguinte'', nas sequelas que ficam, emocionais e físicas.

Levando em conta tudo o que minha tia passou no seu casamento é um milagre que só agora o organismo tenha demonstrado exaustão.

Tenho vontade de subir em uma montanha e gritar sobre o que acontece quando uma mulher se casa com um maluco.

Em relação ao diagnóstico que ela recebeu aceito todas as possibilidades, teorias e suposições, sei que o corpo humano é um mistério, mas peço que entendam minha teoria, que levem em conta que não se pode sofrer agressões durantes anos e sair ilesa.

Quero que os homens comecem a ser responsabilizados pela violência que criam, pela maneira como tratam suas esposas, isso tem que ser levado em conta quando uma mulher recebe um diagnóstico tão sério, depois de anos de casada com um perturbado.

Não aguento mais ver como tudo protege o homem, o nome do meu tio não foi mencionado até agora, escuto quando murmuram ''mas o que ele tem a ver com a doença da esposa?''.

Pra mim tudo, tudo, tudo. Minha tia foi vítima dele e existem muitas crianças nessa família para continuar mantendo o silêncio e dizendo que o casamento não tem nada a ver com o desgaste físico que ela sofre.

Minha prima suspirou e disse:

-Seja discreta.

Não vou ser. Não vou ser, não vou ser. A família inteira pode bater o pé e dizer que é uma doença genética, eu continuo dizendo e vou dizer até o último dia, é culpa da violência que ela sofreu e do stress que passou em um casamento com um homem que se envolvia em negócios suspeitos e depois sumia, minha tia foi obrigada a lidar com pessoas que nem Deus se aproximaria.

Uma dia bateram na porta dela, perguntando pelo meu tio. Ele não estava e os três homens armados entraram e sentaram na sua sala, dizendo ''a gente espera''. Ficaram ali dois dias, até que meu tio apareceu.
O que aconteceu durante esses dois dias que minha tia foi refém com seu bebê de seis meses? Não sei, ela nunca disse nada, ignorou o assunto. O que três homens, três bandidos, são capazes de fazer com uma linda mulher de refém? Não sei, tenho vontade de vomitar se alguma ideia cruza minha mente. 

Mas sei que o medo, o pânico, tudo isso desequilibra a mente e adoece o corpo.

Jogar a culpa na genética é fácil, simplifica a vida, mas assumir que todos foram responsáveis pelo o que aconteceu, bom, aí fica complicado. Meu tio contou com o silêncio de todos para cometer os abusos que cometeu, foi protegido pelas frases ''é um bom homem'', ''casamento é para sempre'', ''é uma fase ruim dele, vai passar'', ''nem sempre é fácil estar casada'', ''o importante é que ele ama os filhos'', ''esposas têm que ser fortes''.

Toda a família tem culpa na doença da minha tia, todas ignoram o que ela passou e dizem ser culpa de uma genética familiar, que só apareceu agora, depois de duzentos anos e dez gerações.

Eu digo que vamos continuar tendo culpa da doença dela enquanto ignorarmos o que ela sofreu, continuar mantendo o silêncio e nos recusando a falar sobre o passado dela nos condena mais do que a genética e suas surpresas.

A chave está no passado dela, o nosso futuro está na capacidade de sentar e falar sobre isso, não em negar a situação.

É de todas a tia que mais amo, a que faz mais parte da minha história, por isso digo a minha família, vocês não contam com o meu silêncio. Podem ficar se descabelando no celular, trocando mensagens sobre a importância de fazer exames e tal, eu continuo no mesmo ponto, nossa única saída é falar sobre o passado, entendam que nossa cura está na nossa capacidade de entender nossas escolhas e nos livrarmos delas, caso contrário estamos todas condenadas e o que nos condena não é a genética, mas o silêncio e o véu que vocês insistem em jogar nos homens para protegê-los dos crimes que cometeram.

Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Não sei de qual doença genética se trata, mas depressão é uma das causas de demência. Todo mundo sabe que câncer tem tendência genética (nem todos, estilo de vida é o responsável por muitos dos cânceres), mas que mesmo com a tendência, o gatilho costuma ser ambiental. Várias doenças de fundo genético precisam de um gatilho ambiental. Viver estressado, deprimido e assustado não é saudável e cobra-se um preço mesmo.
Agora não entendo a relutância das pessoas acreditarem que o ambiente possa ser gatilho pra doenças genéticas. Parece-me óbvio. Por exemplo, uso de drogas pode causar esquizofrenia em pessoas com ou sem histórico familiar. E várias outras doenças funcionam da mesma forma. As pessoas deveriam ficar mais espertas com isso, até pra programarem uma velhice saudável.

Cristina disse...

A fibromialgia da minha mãe tem fundo nervoso. Algumas vezes, se estou muito estressada, tenho dores de cabeça ou queimação no estômago. O lúpus de uma tia piorou quando ela estava mal emocionalmente, e agora que ela aprendeu a viver com a doença e não se estressa os sintomas estão sob controle. Pelo amor dos céus, a relação entre saúde do corpo e da mente já era conhecida desde a Grécia. Me dá ódio ver as pessoas defendendo homem lixo em detrimento da mulher.

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