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14 novembro 2016

Almoço na hora do jantar


Quando alguém me pergunta "pra quê feminismo?'', não perco mais meu tempo dando longas explicações políticas e sociais, vou direto ao ponto: para aprender a olhar o mundo.

É apenas isso, um olhar novo sobre o mundo e ao fazer isso nos surpreendemos ao perceber como tudo estava ali, mas não tínhamos sido educadas para ''ver''.

Lembro de ter lido em algum lugar uma entrevista com uma moça francesa, que jurava de pés juntos não ter ''reparado'' em como os judeus em Paris iam desaparecendo durante a segunda guerra mundial. Aquilo me pareceu inacreditável, a moça disse que nunca se perguntou o que estava acontecendo com eles, no meio de uma guerra as pessoas não pensam em tudo que sucede ao seu redor. Essa posição da moça é igual a milhões de europeus quando perguntados sobre porque houve um suposto silêncio em relação ao sumiço dos judeus.

Hoje a explicação da moça me parece normal, consigo entender que não vemos o que não somos educados para ver e conseguimos assimilar situações anormais de maneira rápida, como se não existissem, apenas porque a mente não registra.

Tive que ler apenas uma frase para me irritar profundamente e lembrar momentos da minha infância e juventude debaixo de outro prisma.

Um homem escreveu no Facebook ''domingo, o dia que o almoço sai na hora do jantar''.

Ah, sim, o almoço de domingo.

Venho de família italiana, conheço bem esse ritual. Tantos almoços que fui. A rotina era a mesma, íamos a casa dos meus avós, chegávamos lá e meus tios estavam assistindo televisão, não tinha salgadinhos porque meu avô sofria de pressão alta e não podia comer sal, sua comida era separada, então minha avó cozinhava outra coisa para ele, assim nada amenizava o atraso do almoço, todo mundo ficava com mais fome. O almoço era enrolado e todos os homens reclamavam, cansei de ver eles sentando na mesa de má vontade, exaustos por almoçar as duas da tarde.

Os netos gostavam de bolinhos de carne, minha avó preparava muitos, nunca sobravam. No final do almoço lembro das mulheres da casa recolhendo a mesa, enquanto os homens voltavam a televisão e as crianças se espalhavam pelo lugar.

As reclamações em cima da minha avó eram constantes, da comida que demorava para ser preparada, de que tinha esquecido de fazer gelatina, ou não tinha comprado os chocolates do neto.

Na outra parte da família, minha outra avó sofria a mesma pressão, o domingo era dia da família, mesa farta e netos visitando. A mesma cena se repetia, homens impacientes, reclamando e crianças batendo o pé com fome. Depois do almoço o mesmo ritual, as mulheres arrumando, os homens descansando, e as crianças correndo.

Eu não via, nem percebia o horror da situação, porque não me ensinaram a olhar, apenas hoje percebo como tudo ali era monstruoso e nunca fiz nada a respeito, porque não sabia o que acontecia. Apenas agora, com minhas duas avós enterradas consigo ver como foram escravizadas e usadas por suas famílias de maneira cruel e interrupta.

Há um tempo resolvi fazer bolinhos de banana, porque não cozinho carne e me dei conta de como aquilo ali é chato, monótono e parece que não termina nunca. É quase o mesmo processo dos bolinhos de carne que minha avó fazia, ela comprava e temperava a carne, depois tinha que passar na farinha e fritar, eu compro e tempero a banana verde, passo na farinha e frito. Não consegui me ver fazendo aquilo ali todos os domingos, sem descanso nem ajuda. E minha avó ainda ia na feira de manhã para comprar os ingredientes.

E o chicote? Sim, minhas avós eram chicoteadas o tempo inteiro, recebiam constantes reclamações e viam os homens irritados, não havia incentivo, palavras de amor, nem ajuda, era apenas o chicote e o constante desprezo.

Antes do feminismo eu não via a escravidão, nem os maus tratos, pensava que era um momento de felicidade da mulher estar com sua família e poder cozinhar, só depois comecei a ver as correntes debaixo da mesa.

Minha mãe sempre cozinhou e preparou todas as festas, mas quando voltou a trabalhar não teve mais energia e foi rápida, largou mão de tudo, nunca mais fritou um ovo. Ela era uma escrava fora de série, arrumava tudo em casa, costurava cortinas, fazia pratos maravilhosos e mantinha tudo em ordem, mas só recebia insultos e gestos de impaciência de todos os homens a sua volta.

Tudo que me parecia admirável, a dedicação dessas mulheres a sua casa, o talento na cozinha, tudo caiu no chão quando percebi o quanto eram agredidas e escravizadas sem dó.

Olho para trás sem poder entender como não percebi tanta escravidão, como pude confundir um gesto opressivo com uma demostração de amor, sim, porque me diziam que eu tinha sorte de ter duas avós que cozinhassem para seus netos, sorte em um mundo moderno. Mas nunca perguntei a elas o que pensavam de cozinhar todos os dias e no domingo, aquele dia de descanso, segundo a Bíblia, acordar e cozinhar para a família inteira, sem escutar um ''obrigado'' e ainda levando chicote nas costas.

Me disseram que cozinha é amor e avós fazem isso com todo o carinho do mundo, mas quem faz algo por elas? E por que levar a situação ao limite, quem disse que é fácil cozinhar para vinte pessoas?

Queria poder voltar no tempo, subir na mesa e dizer horrores a todos, principalmente aos homens da família, queria poder mandá-los a cozinha ou que pagassem a pizza, mas que deixassem em paz as mulheres, nem que fosse no domingo.

Mas que mulher pode superar a frase tatuada na alma de ''quem ama cuida, quem ama cozinha?''. Eu tenho uma forte relação com a cozinha e aprendi a me cuidar, porque percebi que pode ser um fator de escravização.

E não é tão simples cortar a corda, vejo pelas minhas tias, que ainda resistem. A nova geração passou reto, a maioria não aprendeu a cozinhar e na sua ignorância se colocou no papel do opressor, minhas primas não sabem esquentar água, mas sabem explorar suas mães e comer. Em datas festivas não ajudam, nem preparam nada, contam com minhas tias fazendo tudo, e como elas ainda estão nesse esquema mental, cozinham tudo.

Minhas tias se irritam, reclamam das sobrinhas que não levantam um copo, nem cozinham. Durante um tempo eu ajudei a lavar a louça, mas um dia estava na cozinha quando minha prima de dez anos entrou e colocou na pia seu prato, disse a ela que lavasse, porque eu já estava lavando a louça de todos e ela respondeu:

-Está lavando porque é trouxa e porque quer, então lava meu copo.

Naquele momento o céu se abriu, entendi a frase e larguei a louça ali, toda ensaboada. Fui a sala e vi meus primos e primas conversando, ignorando a mesa cheia de pratos, a bagunça da casa, enfim, passando o natal como se tivessem empregados e fiquei muito revoltada, fui até onde estavam todos e disse um monte, escutei quando minha tia disse ''na hora de arranjar confusão sempre é a Iara''.
Então fui embora e nunca mais voltei, e sei que nada mudou, minhas tias continuam abrindo a casa a comemorações, compram os ingredientes, cozinham e ninguém ajuda nem a recolher a mesa. E se é no domingo só piora, porque as reclamações sobre o atraso são sempre as mesmas.

E por que mulheres têm que cozinhar no domingo? Porque o homem descansa, é dia de fórmula um e futebol.

Se cozinhar para a família é um gesto de amor por que os homens não podem cozinhar?

Comentei isso com um amigo que me disse ''nossa, você cisma com tudo, o que tem de errado uma avó querer agradar a família?''.

E quem agrada ela? 
Tem de errado que é escravidão e um atestado de fracasso do homem, se ele tem que escravizar uma mulher no domingo é porque não pode pagar uma pizza, então que se vire, se quer uma mulher cozinhando no domingo que pague uma cozinheira.

Mulheres erramos ao pensar que estamos fazendo as coisas por amor, mas estamos amarradas a cordas sociais, nos convenceram que nada é mais importante do que um almoço em família, como se nós fôssemos as únicas responsáveis por todos.

Queremos agradar e deixar todos felizes, mas somos tratadas como lixo, no meio de frases que recriminam e nos diminuem, falam sobre o atraso no almoço, mas não se levantam para ajudar, reclamam da demora, mas não cortam uma cebola.

E nem sei porque escrevi tanto sobre esse assunto, eu apenas queria vir aqui e dizer as minhas avós o quanto eu lamento não ter percebido nada antes, o quanto me fere não ter visto as correntes que as amarravam até em um domingo, queria me desculpar por nunca ter agradecido os bolinhos de carne, nem o doce de chocolate, por jamais ter ajudado a lavar meu prato, nem a guardar o pão no armário.

Me desculpem por nunca ter visto o quanto vocês eram infelizes e estavam cansadas pela maneira que eram tratadas, por todas as frases agressivas que voam na direção de vocês, pela maneira grosseira na qual eram tratadas por todos, em um simples almoço de família, uma porra de almoço.

Não sei se serve de consolo, mas quero que vocês saibam que essa escravidão acabou na geração das minhas tias, elas ainda são escravas, mas suas filhas conseguiram romper o padrão. Não me parece inteligente repetir o comportamento do opressor, mas deve ser melhor do que ser agredida.

Me desculpem por ter acreditado que eram almoços de família, quando para vocês era apenas mais um dia na prisão.

Sei que acordei tarde demais, mas entendi e consegui ver o que ainda acontece em muitos lugares.
Hoje eu sei que não é o almoço, nem o jantar, é sobre não permitir ser escrava de ninguém, nem dos homens, nem dos netos, é sobre ser livre. E quando somos livres, almoço e jantar não tem hora, é a gente que decide se vamos ou não comer.

É sobre entender que família não pode ser prisão para uma mulher, nem um almoço deve ser motivo de piadas e agressões. E tudo deve obedecer a lei do merecimento, se a família merece, então a gente cozinha, caso contrário não esquentamos nem água, se vamos ser agredidas.

E se os homens estão tão preocupados com o horário do almoço no domingo, que se levantem da cama e cozinhem.

E pode parecer que jogar as panelas no chão e dizer ''chega'' é falta de amor à família, mas na verdade é um gesto de amor própio. Chega.



Iara De Dupont

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