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18 outubro 2016

Somos nós que temos que mudar


Talvez exista esperança, nem sempre acredito nisso, mas pode ser.
No mundo que eu vivo acompanho a resistência masculina em mudar seu comportamento, ainda se sentem indignados com as mudanças recentes e agem de maneira mais violenta e cínica, não entregam a coroa de mão beijada, querem manter seus postos de opressores e segurar seus privilégios.

Muitos insistem em dizer que o comportamento masculino é fruto de uma educação machista, mudando a educação conseguiremos ter melhores resultados para todos.

Tudo molda nosso comportamento, a educação, a cultura, as influências, o ambiente. Somos fruto do lugar e das nossas origens, que determinam até nosso gosto para comer.

Se podemos mudar para um lado, também podemos ignorar o outro.

Uma moça argentina me contou seu caso, bem interessante. Se casou com um rapaz sueco e foram morar na Suécia. Os primeiros seis meses foram um paraíso, não existe divisão de tarefas ali, todos conhecem suas responsabilidades, e sabem o que tem que ser feito, a moça dizia que era um sonho morar com um homem sem ter que lembrá-lo constantemente de que a roupa não caminha sozinha para a máquina de lavar roupa nem a louça se limpa magicamente.

Ela me dizia ''você não tem ideia de como isso quebra nosso padrão mental, porque nós, mulheres, crescemos com a ideia de que enchemos o saco dos homens, que os perseguimos, e no fundo todas temos medo de casar e virar aquela bruxa que vigia o marido o tempo inteiro''.

Ah, a bruxa! Quem nunca? Já tive tanto medo! Era só um Romeu me dizer ''você está enchendo meu saco'', que eu congelava, eu queria ser legal, não queria ser como minhas tias que eram odiadas pelos seus maridos, porque faziam a vida deles um inferno.

Mas cada vez que eu queria ser legal virava a bruxa e Romeu dizia ''para de pegar no meu pé, para de me dizer como fazer as coisas, para de se meter''.

Um Romeu que tive mudou de emprego e deu de cara com uma pessoa que eu não gostei, conheci ele em um almoço e avisei Romeu, era bom se cuidar, porque essa pessoa tinha nuvens nos olhos.

Romeu passou horas e talvez dias, não lembro, me dizendo que ele era adulto e sabia se cuidar, que eu cismava com as ''pessoas à toa'', que era um saco minha mania de comentar tudo.

Três meses a pessoa puxou o tapete de Romeu na empresa, eu não disse nada, mas essas coisas acontecem, fiquei quieta para não ser de novo ''a bruxa''.

E a moça me dizia que o marido sueco era um sonho, tudo ia bem, até que sua mãe ficou doente e ela precisou voltar a Argentina para cuidá-la. O marido foi com ela, onde morava sua família, uma cidade pequena e ficaram uns meses por lá.

No começo o marido mantinha a mesma rotina, cuidava de suas coisas, mas estava na casa da sogra, cercado de primos, cunhados e parentes da moça, e eles começaram a perseguir o rapaz. Cada vez que o viam lavando louça diziam ''virou mulherzinha?'', as piadas sobre o ''sueco frouxo'' eram constantes, nem varrer ele podia, porque alguém dizia ''fulana é boa viu, olha como domesticou esse sueco, se bobear ele dá a patinha e late''.

Lentamente o sueco começou a recuar, parou de lavar a louça, de pendurar sua roupa e a esposa achou melhor não dizer nada, também estava cansada das brincadeiras pesadas que o marido sofria, até o pai dela chamava o sueco de ''mole'' e se preocupava com o futuro da filha, como seria o casamento com um homem desses, que a mulher adestrou em menos de seis meses?

Assim que a mãe se recuperou eles voltaram para a Suécia e qual foi a surpresa da esposa? O marido voltou ao seu ambiente, seu país, mas já adotando o comportamento dos argentinos, os latinos que são educados como todos a tratar mulher como empregada.

O sueco tinha conhecido o outro lado da moeda, aquele que as mulheres fazem tudo, cozinham, limpam, tratam de afastar as crianças da sala para que os homens possam ver o jogo tranquilos, colocam cervejas na geladeira e ainda por cima tem disposição para o sexo. Pra quê mudar isso? O sueco deve ter pensado dessa maneira.

E a moça se viu de volta a aquele lugar que todas nós odiamos, de dizer ''dá pra você fazer tua parte na limpeza da casa?''

Mas o rapaz já tinha aprendido o mais importante na Argentina: se não fizer nada não existem consequências, de um jeito ou de outro, as mulheres vão lá e fazem.

O sueco foi educado na igualdade e responsabilidade, mas conheceu a perspectiva masculina latina, aquela que trata a mulher como um sub ser humano e sem nenhuma importância. Percebeu que poderia em uma discussão levantar o tom de voz, coisa que antes não fazia, mas viu o pai da moça, os irmãos, os cunhados, todo mundo tratando as mulheres da família na ponta do pé e nenhuma reagia, então estava liberado ser um pouco mais explosivo.

Adquiriu expressões que aprendeu por lá ''mulher só enche o saco'', ''mulher pega no pé'', ''casamento é um inferno''.

E passou apenas seis meses nessa pequena cidade argentina! Mas entendeu que o sistema funciona assim e ninguém reclama.

A moça me dizia que até no jeito de tratá-la ele mudou, não se importava mais em responder de maneira cortada fora de casa, ninguém dizia nada mesmo.

Contei a história a um amigo, quis saber o que ele pensava, por que o rapaz mudou tanto? Será que já era má pessoa antes? E meu amigo respondeu:

-Vamos ser sinceros, tudo que tem a ver com a limpeza e ordem em uma casa é um saco, um porre, ninguém gosta de fazer, nem as mulheres, a gente faz porque tem que arrumar, mas se você percebe que pode se ''mancar'' e não dá problema, você se manca. Eu tenho nojo de lavar banheiro, e minha namorada é estressada, de repente ela se tranca ali e lava tudo, eu deixo, não me meto, sei que no máximo vou escutar uma meia hora que sou um folgado, mas depois ela para com isso e acaba do meu lado assistindo televisão. Vocês sabem que os homens são porcos e não adianta encher o saco, a gente não faz nada mesmo, e o sueco percebeu o esquema e entrou nele, até porque o esquema latino é mais confortável para o homem do que o esquema sueco.

Mas não deveria prevalecer a educação que o sueco recebeu, a cultura na qual vive?

-A única coisa que prevalece na cabeça de um homem, da China até o Chile, é o conforto, se a gente puder se aproveitar de uma mulher, vamos nos aproveitar, vocês que são otárias e permitem.

É fato. Tanto assim que a moça argentina continua casada, apesar da indignação das suas duas cunhadas suecas, que não entendem porque ela tolera um marido que não faz quase nada em um país onde o divórcio é tão fácil. Mas uma moça latina faz outras contas, nós pensamos que existem piores e aguentamos, sabemos até onde um homem pode chegar e sabemos que os latinos são uns carrascos.

Então me atrevo a dizer que o comportamento masculino não é só um fator cultural, nem educacional, é parte do cérebro humano de se aproveitar de situações e de pessoas, além disso não podemos esquecer que os homens contam com o apoio da sociedade, sabem que o sistema os deixa imunes, maltratar uma mulher não gera consequências na vida deles, caso contrário todos meus tios estariam presos, mas sempre contaram com essa ''facilidade'' que a estrutura dá, mulheres são como animais e ninguém se importa com elas.

O sueco aprendeu uma lição que nenhum homem deveria aprender, que existe do nosso lado tolerância para os maus tratos que recebemos dos homens, eles podem gritar e meia hora depois estamos sorrindo. Eu vi meus avôs maltratarem minhas avós diante de todo mundo, na mesa, na hora do almoço, ninguém dizia nada e elas continuavam servindo os homens, como se fossem empregadas e surdas, sem esboçar nenhuma reação a violência sofrida. Eu via elas se afastarem e eles começavam a dizer o quanto elas eram ''bruxas e chatas''. Vi tudo isso com o carimbo social, era e é permitido tratar mulher assim, o sueco não sabia, mas aprendeu.

Não é a cultura, nem a educação que vai mudar isso, a única chance de mudar a estrutura social está nas mãos das mulheres, somos nós que temos que colocar um limite e dizer ''chega''. É importante que as mulheres percebam como funciona a exploração nos casamentos, como somos usadas e levadas ao limite, homens deveriam morar sozinhos, porque eles se aproveitam das mulheres, a estrutura colocada, o casamento, só beneficia os homens, as mulheres são massacradas. Eles não vão mudar, até porque seu lado é confortável, somos nós que temos que acabar com a festa deles.


Iara De Dupont

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