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16 setembro 2016

Independência ou morte


Em alguns momentos da minha vida, três, para ser específica, me vi morando sozinha. Estava em outro lugar, longe da minha família, em duas ocasiões nem existia internet para me comunicar e tive que me virar.

A última vez que isso aconteceu nem era feminista ainda, já estudava, mas não tinha consciência de tudo o que envolvia.
Quando as pessoas ficavam sabendo que eu morava sozinha, logo me diziam ''pelo amor de Deus, arranja um namorado''.

Eu não ''arranjei'' um namorado porque por algum motivo a vida não quis, não foi uma decisão minha, as coisas se deram assim.

Passei aniversário, Natal, ano novo e Páscoa sozinha, não tinha amigos nem família por perto.

Mas em nenhum momento levantei a bandeira e disse ''sou feliz morando sozinha, estou bem'', pelo contrário, eu gostava do meu espaço e de estar sozinha, mas sentia o peso da solidão, a falta dos amigos e tinha muita vontade de ter um namorado, porque levava uma vida muito solitária.

Com o tempo percebi que existiam outros problemas em não ter um namorado, se algo quebrasse na minha casa e eu chamasse alguém para consertar, o preço triplicava, sempre queriam me vender serviços desnecessários e vizinhas me alertavam constantemente para o perigo de morar sozinha, para não receber o rapaz da água, da encomenda, do gás, disso ou daquilo.

Fui me acostumando, mas tudo vinha na minha direção, a descoberta do mundo machista, onde até pedir um garrafão de água era perigoso, mas de repente até namorar poderia ser complicado, o homem poderia encostar na minha casa.

Uma vez um amigo me disse ''pena que eu não tô a fim de você, porque nestes tempos sempre é bom morar juntos''.

É! Pois é!

Não escolhi a experiência, mas não renego. Foi necessário e fui feliz aprendendo a viver do meu jeito, mas não foi escolha, pelo menos no começo, me vi obrigada a mudar de lugar e não tinha ninguém para ir comigo, muito menos ficar. Cometi muitos erros, pessoas se aproveitaram, tive amizades que me puxaram para baixo, perdi dinheiro, enfim, mas essas coisas acontecem com todo mundo.

Conclusão: não morri.
Olho para trás e ainda me impressiona ver como resisti a dias tão sombrios, mas resisti.

E se isso aconteceu comigo pode acontecer com muitas mulheres, muitas resistimos sem saber como o fazemos.

Uma vez me disseram que a pior coisa do mundo era ter força e não saber disso, recuar diante de situações por se achar fraca, quando na verdade não é.

Quem disse que só conhecemos nossa força depois de precisar usá-la está certo.

E estes dias aconteceu uma situação que me deixou horrorizada, minha sorte é que algumas pessoas não se ofendem quando digo o que penso, evito falar, mas em alguns momentos isso é mais forte do que eu.

Tenho uma vizinha que ficou viúva há dois anos, justo na mesma semana que meu pai morreu. Falei com ela algumas vezes antes desse episódio e por coincidência nos encontramos no elevador, cada uma chegando de um velório.

Eu não sabia muito dela, apenas que tinha uma menina de quatro anos.

O tempo passou e não a vi mais, até que voltou a circular pelo prédio por esses dias.

Acabei conversando com ela e me contou que depois da morte do marido ficou deprimida, tão deprimida que foi internada e sua filha foi morar com seu irmão no interior.
Conseguiu se recuperar, o irmão colocou as coisas em ordem, mas ela não quis ficar na casa dele, porque diz que são meio ''afastados'', resolveu então voltar para seu apartamento.

Dias depois a encontrei de novo, me falou sobre o chão novo que tinha colocado na cozinha e me convidou para ver o resultado.

Entrei em seu apartamento e me chamou a atenção a bagunça na sala, brinquedos por todas as partes e a cama da filha ali. Perguntei se ela precisava de ajuda para organizar sua mudança, eu poderia ajudar e ela respondeu:

-Ah, não precisa, é que o quarto dela vai ser aqui na sala.

Diante da minha cara de surpresa ela disse:

-Bom, sabe o que acontece? Tenho um amigo há muito tempo, quando eu estava na casa do meu irmão, no interior, a gente se apaixonou e ele vai se mudar para cá, perdeu o emprego e pensamos que aqui vai ser mais fácil conseguir alguma coisa. Mas o apartamento só tem um quarto e como casal a gente precisa de privacidade.

Fui clara e disse que não iria dizer o que penso porque não é minha vida, mas como tem uma criança na história não me segurei, falei que era um absurdo colocar um homem desconhecido dentro da casa com uma menina de seis anos.
Ela deu risada e disse que eu estou vendo muitos programas policiais.

Voltei a dizer a mesma coisa, a menina tem direito ao quarto, é uma criança, não entendo porque jogá-la na sala como se fosse um cachorro.

E por que essa pressa de morar como namorado? É para dividir despesas?
E a resposta foi pior do que eu imaginava.

-Não, ele está desempregado, vem procurar emprego aqui. Eu não preciso trabalhar, meu marido deixou este apartamento para minha filha e uma pensão, não é grande coisa, mas posso viver disso o tempo que precisar, até resolver se faço outra coisa ou não.

Então você tem condições de sustentar a menina sozinha, sem sacrificar nada, sem ter que largar ela em casa de parente, tem teto e comida garantidos, pra quê então colocar um homem dentro de casa?

-Eu me apaixonei. E sabe também? Não sei viver sem homem, gosto da presença masculina, não sei viver sozinha, saí da casa dos meus pais para me casar, fiquei viúva e não sei viver sem ninguém por perto. Jamais teria condições de voltar ao meu apartamento sem um namorado, alguém, não tenho como fazer isso.

Mas você tentou?

-Todo mundo conhece seus limites, eu conheço os meus, sozinha no mundo não dá.

Você ficou com um apartamento e tem uma pensão! Pelo menos dava para tentar!

-Não gosto da ideia. Não dá para mim. E você vê como as pessoas são diferentes, meu marido sempre te via pelo corredor e me dizia que ficava com pena, falava ''poxa, ela está sempre sozinha, fico com dó'', a gente achava que você deveria ter algum problema na vida muito sério, porque sempre está sozinha. Até uma vez pensei que mesmo que você fosse lésbica teria uma namorada, mas nem isso né!

Mas o ponto aqui é colocar um homem estranho na tua casa com uma menina de seis anos e deixar a garotinha dormindo na sala!

-Assim que ele arrumar um emprego vamos nos mudar para um lugar maior. É que antes o berço estava no quarto, mas agora não posso colocar minha cama e a dela.

Mas como mãe você não deveria priorizar a menina?

-Você não sabe como é terrível ser uma mulher viúva, a pressão é enorme para criar uma criança.

Não duvido, mas colocar um homem desempregado em casa não sei no que pode melhorar.

-Ele me dá apoio, me envolvi emocionalmente, preciso conversar, não posso passar o dia inteiro cantando ''Let it go'', criança cansa, preciso da minha parte mulher também resolvida.

Você já tentou redes de apoio? No Facebook tem grupos de apoio para mães e pais, de repente você conhece algum pai viúvo e pode namorar, só não precisa colocar dentro de casa né, esse é o ponto, colocar homem no apartamento.....

-É fácil para você a vida sem homem?

Ah, eu já me acostumei, hoje não sinto falta de nada, mas é claro que tive meus dias ruins, até por bobagens, nem sempre era agradável chegar em casa e saber que só teria as paredes para conversar. Uma vez entupiu o ralo do chuveiro, uma coisa simples, mas eu sentei e chorei por horas, me sentia sozinha, mas a gente supera as situações, nunca gostei daquela frase babaca de ''o que não mata, fortalece'', mas é verdade, as coisas passam e um dia acordamos mais fortes.

Tenta conversar com a vizinha do oitavo andar, ela mora sozinha com sua filha, e olha, sem pensão, também tem a vizinha do primeiro andar, criou a filha com três empregos, o marido foi embora. 
Dá para viver sem homem dentro de casa, eu entendo a parte de querer sair, namorar, ter um companheiro, mas colocar homem em casa com criança, enfim, não me parece boa ideia.

-Bom, eu sou fraca sabe, não posso viver sem homem!

O X da questão. É o que nos dizem a todas, vocês são fracas e precisam de um homem, sozinhas vocês não podem se virar. Também acreditei nisso, que sem um namorado não poderia me virar, mas não tive namorado porque não conhecia ninguém, me vi obrigada a estar sozinha e acabei me virando, só depois, no meio do caminho é que percebi a ideia colocada na minha cabeça, de um mundo machista, de que eu não seria nada sem um homem, as pessoas iriam me olhar pelos corredores da vida e pensar o que você pensou, ficariam com pena, porque estou sozinha.

A primeira ideia para manter a mulher presa é dizer que ela é fraca, que não vai poder sobreviver no mundo sem um macho por perto, nem que seja o pai, tio, mas ela precisa de um homem.

E das histórias que conheço não tenho nenhuma na qual a mulher acordou e disse ''sou forte e vou me virar sozinha'', em todas aconteceu a mesma coisa, a mulher foi obrigada a se virar sozinha, a encontrar sua força no momento em que a vida deu um giro, o marido foi embora, sumiu ou morreu.

E são centenas de casos assim, nunca uma mulher me disse ''eu sei que sou forte'', todas aprenderam a dizer apenas depois de terem sido testadas a altas temperaturas.

Tenho uma amiga que sempre dizia ser medrosa, não gostava de ir nem à praia, saindo do bairro dela já ficava nervosa, mas se apaixonou por um alemão e se mudou para a Alemanha.

Um ano depois do casamento ela acordou e tinha um bilhete em cima da mesa, o rapaz tinha ido embora com uma sueca, mas desejava sorte a ela.
Uma mulher que se dizia medrosa se viu sozinha na Alemanha, sem dominar o idioma, sem dinheiro, família, amigos, e sem saber o que fazer.
O que fez? Se virou, como todas, nem ela sabe como, mas se virou e sobreviveu, a parte mais incrível é que ela não queria sair da Alemanha, estava encantada com o lugar, poderia ter vendido algumas coisas, comprado a passagem, ter voltado a casa dos seus pais e fechado esse capítulo, mas quis ficar por lá e acabou conseguindo.

A regra é igual para todas, vamos ser testadas e nenhuma de nós chega batendo a mão no peito e dizendo ''eu sei que sou forte e bem resolvida'', todas chegamos tremendo de medo, porque passamos anos escutando que não somos boas o suficiente para nada, que o mundo é dos homens e que não vamos saber resolver as situações.

A ironia da história? No fim somos nós, mulheres, que resolvemos TODAS as situações.

Nunca escutei em casa nem na escola que mulheres podem viver sem homens, que podem construir sua vida sem eles. E antes que me digam que estou falando apenas da vida hétero, sim, eu aviso, é vida hétero a que eu conheço, não tenho porque falar de outra vida que nunca vivi.

Não escutei histórias sobre mulheres que foram incentivadas a se fazerem sozinhas, pelo contrário, sempre escuto sobre a importância de ter um homem dentro de casa, como se fosse tão fundamental quanto um fogão.

Uma vez conversando com umas pessoas falei sobre isso, eu arrumo tudo em uma casa, menos a parte elétrica, caso a presença masculina fosse necessária para isso, e uma pessoa me disse:

-Não é sobre questões técnicas, é sobre relacionamentos, você nunca vai ser uma mulher completa até ter uma relação consistente, vai ficar emocionalmente imatura. Ter um ''homem'' dentro de casa não é para trocar lâmpadas, mas para desenvolver teu potencial amoroso, teu crescimento como mulher.

Oi? Tudo isso? Não vou evoluir como mulher sem um homem por perto? E como as lésbicas evoluem?
Não conheço nenhuma mulher que tenha evoluído só porque tem um marido, as pessoas evoluem porque é a lógica da vida, uma necessidade para todos, não é escolha.

A independência feminina não é apenas sobre dinheiro, é sobre não acreditar nessas malditas histórias jogadas na nossa direção, de que somos fracas e dependentes, incompletas quando não temos um homem por perto.

Não vi luz no olhar da minha vizinha, aquele de mulher apaixonada, vi apenas uma moça jovem, insegura e com uma filha, se agarrando a única coisa que disseram a ela que a pode proteger: um macho em casa.

Mas o preço da mentira é alto. Um homem desempregado, em casa com uma menina de seis anos.

E não é culpa dela, todas crescemos com os mesmos medos, todas recebemos a mesma informação, vida sem macho não é segura, quando o perigo é justamente o contrário, um macho na nossa vida.

E sobra dizer o pânico que causa no mundo a força feminina, nós vamos de um lado dizendo a todas ''você é forte, acredite nisso'' e eles vão dizendo do outro ''nenhuma mulher é forte sem um homem''.

Na dúvida só existe um remédio: deixe a vida te testar, a força aparece no momento exato, por pior que seja a situação.

O que não dá é para continuar acreditando nas mentiras, na vida falsa e na necessária presença masculina.

Não sei nada sobre criar filhos, mas acho que um apartamento própio e uma pensão ajudam um pouco, imagino que deve ser assustador acordar e pensar ''sou responsável por uma criança'', mas milhões de mulheres acordam pensando isso e sobrevivem.

A única coisa assustadora no mundo é não conhecer sua própia força, viver uma vida de formiga quando se tem a força de um tigre, viver com medo de estar sozinha, quando já se está, viver dependendo de alguém quando na verdade é a pessoa que depende de você.

Não tem nada mais solitário no mundo do que não se achar capaz de algo, quando na verdade se é.

Negar nossa força é o pior processo interno, que nos leva a decisões erradas.

E não foi comigo, acontece com muitas, sentamos no chuveiro e choramos, mas depois temos que sair dali, secar o rosto e pensar ''tudo bem, não estou sozinha, estou comigo e tenho a força para lidar com o que está acontecendo''. Nesse momento parece que o mundo cai, mas não é isso, é apenas o chão que treme porque sentiu nossa força.



Iara De Dupont

Um comentário:

Patricia Gabriel disse...

clap clap,clap,Iara,onde assino?Confesso que não fui testada por completo ainda,mas me identifico gota a gota nesse texto!!

Geralmente,a gente tem medo de trocar pneu,gás,chuveiro,lampada,e levantar uma casa,batendo nível sozinha,mas sei que são coisas que dá para aprender...no mais,a gente se vira,sim,a solidão é o pior do percurso,e não dá para se enganar,todas vivemos sós...casadas ou solteiras,(falo tbm de minha experiencia,um dia fui uma coisa,hoje sou outra,e minha solidão não diminuiu)!

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