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16 setembro 2016

O mosaico


Uma pessoa me perguntou ''o que você ganha falando mal do romantismo e dos relacionamentos?''.
Nada, não ganho nada, mas penso que o dia em que ganhar vou falar mais ainda.

Não estou ainda na parte de ''ganhar'', mas já perdi muito e não falo de dinheiro.

Quando era pequena me levaram a um museu, não lembro o lugar nem o nome, mas de uma gigante parede de mosaicos, uma coisa impressionante, imagino que nos meus cinco anos aquilo me pareceu mais grande do que deve ser.

Tenho tido essa imagem na mente durante muitos anos, lembro de alguém dizendo que aquela parede era como a vida, de perto nada fazia sentido, mas de longe o quadro era lindo.

Talvez pensei que a vida era aquilo, pedaços coloridos de cerâmica que vamos colocando nos lugares que pensamos serem os certos, sem saber bem como vai ficar o desenho.

Mas depois de algum tempo nos afastamos e vemos que a parede tem alguns buracos, peças que faltam.

Tem dias que não lembro disso, tem dias que sim. Consigo me afastar e olhar minha parede, o desenho, e ver a quantidade de lugares vazios, momentos que não vivi e ficaram em branco.

E por quê não os vivi? Porque passei pelo mesmo processo de milhões de mulheres, fui intoxicada com a ideia de romantismo e as situações ideais, tudo isso foi colocado na minha mente como um freio, uma maneira de me manter debaixo das rédeas, mas o amor era isso ''o momento perfeito'', ''o cara certo''.

Trabalhei uma vez com um ator e me encantei com ele, mas o rapaz era tímido e não dava nenhum sinal.
Eu era o contrário, impulsiva, extrovertida, mas limitada e presa aos meus sonhos românticos, a todas aquelas histórias que me davam, então segurava o que sentia, preferia ficar quieta.

A peça que fizemos ''virou'', era um ótimo material, mas nas mãos de um péssimo diretor, se estragou, mas dávamos muita risada.
Quando a peça acabou cada um foi para seu lado, mas eu tinha ficado com um figurino dele e resolvi devolver, antes liguei para uma amiga e comentei sobre o assunto, eu não sabia como, mas queria dizer ao rapaz que gostava dele, sentia saudades.
Minha amiga se ofereceu para dar uma carona e lá fomos nós. Chegando no lugar em que ele estava, desceu do carro comigo, eu disse que poderia ir sozinha, que não se preocupasse, mas ela respondeu:


-Ficou maluca? Só vim aqui para evitar que você se humilhe! Você gosta dele, mas se ele gostasse de você já teria te procurado!

Na hora gelei. Ela tinha razão, segundo o romantismo ele já deveria ter me procurado e se declarado, como isso não aconteceu, então eu iria ''pagar um mico''.
Recuei na hora.

O rapaz me viu e foi muito amável, abriu o sorriso, perguntou sobre minha vida e conversamos um pouco, mas não foi além disso.

Voltei ao carro com ela e talvez nesse momento uma peça de cerâmica não grudou no mosaico da minha vida.
O que poderia ter acontecido se eu tivesse me aproximado dele e dito ''eu gosto de você''?

Mas eu não disse, presa as minhas ideias sobre romantismo, se ele gostasse de mim diria algo, não disse, então não gostava. Não falei, não escutei respostas, não vivi o momento.

Em outra ocasião eu estava encantada por um Romeu, falava com ele de vez em quando, mas não acontecia nada. Um dia ele me convidou para ir a uma festa, em sua casa. 

Não lembro o que aconteceu, mas deu uma confusão e todos foram embora, menos eu. E acabamos nos beijando, o que parecia faltar em alguns aspectos, como interesses em comum, sobrou em química, a pele grudou. Mas não acabou na cama, porque naquela época eu pensava que mulheres que ''dão'' no primeiro encontro o homem descarta depois, se eu desse nunca seria namorada dele, apenas outra em sua cama.

Não dei e talvez essa noite outra peça de cerâmica caiu do desenho.

O romantismo me tirou muito mais do eu gostaria de admitir, perdi amigos, momentos e vivências, aquelas que usamos para construir nosso mosaico.

Não sei quantas vezes mordi um ''gosto de você'', engoli em silêncio o que sentia, não queria ser uma oferecida e se fosse o ''cara certo'' ele que deveria falar sobre amor, não eu.

Ao falar sobre o amor de maneira romântica, passamos em cima do princípio que os homens são seres humanos, também têm seus complexos, medos e alguns são tímidos. 
Nos contos de fada eles agem, correm atrás das princesas, mas na vida real são tão medrosos como qualquer um.

Fui apertada pelos dois lados, de um recebia essa educação pelos livros e filmes, sobre o amor, e pelo outro era educada em meios conservadores, que são bem claros quanto ao papel da mulher na conquista, ela espera o homem se declarar.

Minha avó dizia que jamais uma mulher deveria dizer ao homem que o amava, caso contrário ele iria se aproveitar da situação.

Passei por alguns momentos que poderia ter dito e não disse, esperava que ele dissesse, porque não queria ser a ''tonta'' que entrega o jogo.

Levei anos para entender porque tudo era tão confuso, eu dava a entender que gostava de alguém, mas não dizia nada, ao mesmo tempo meu temperamento extrovertido deve ter confundido muitos Romeus.

Tenho um amigo que sempre foi um grande parceiro, eu tinha uma queda por ele, mesmo assim preferi ficar quieta, as pessoas que nos conheciam percebiam alguma energia ali e diziam que fazíamos um ''lindo casal'', eu disfarçava com aquela frase batida ''imagina, somos amigos''.
Mas em algum momento disseram isso a ele, que respondeu na minha frente:

-Ah, não, você não conhece a Iara, o que ela pensa vai falando, não é de guardar nada, se ela gostasse de mim já teria me puxado em um canto e dito ''e aí, fulano, como é que fica?''.

E deu risada. Com um gesto eu confirmei o que ele disse, sim, eu era mesmo desse jeito extrovertido, se gostasse já teria falado, pra quê sofrer em silêncio?

Mas sofrer em silêncio sempre foi minha especialidade. É parte da minha genética, de ser neta e filha de índia, eu sofro em silêncio, rara vez me expresso nessa parte.

E para meu azar resolvi quebrar esse encanto duas vezes, no momento errado, com a pessoa errada. Em dois momentos me apaixonei e não enrolei, fui logo me declarando aos Romeus, que não queriam nada comigo e me chutaram.

Voltei ao meu casulo convencida de que tinha errado, não devemos nunca dar o primeiro passo.

Eu esperava porque o romantismo tinha me dito que as coisas boas seriam eternas, o amor era para sempre, por que então perder o tempo com outros homens? É melhor esperar o certo.

Tudo isso te joga em um lugar escuro, fechado, cheio de dúvidas, o amor deve ser eterno, mas ele não aparece! 

Não saímos para experimentar, não conhecemos e acabamos caindo em conversas moles de homens que sabem se aproveitar, disso a ser explorada economicamente é um passo. É uma sequência de erros.

Grande parte da minha vida teria sido diferente se alguém tivesse me dito ''olha, não existe amor eterno, nem príncipe encantado, vai indo nos que você gosta, beije os que tiver vontade, transe quando quiser, se apaixone muitas vezes e não se preocupe quando te chamarem de puta, para o mundo todas as mulheres são umas putas''.

Simples e sem dor.

Mas e se eu beijar e ele não quiser namorar comigo?
E quem disse que você vai querer namorar com ele?

Mas e se eu transar e ele não me ligar?
E quem disse que a transa vai ser tão boa assim a ponto de você querer mais?

Mas e se eu ligar e ele não se interessar?
E quem disse que ele é o único número que você tem no celular?

Mas eu queria um namorado.....
E quem disse que é o único homem no mundo?

Mas e se eu me jogar e ele ficar com medo?
E quem disse que homem covarde é bom?

O mosaico não era sobre fazer um desenho incrível, mas sobre economizar a dor. Tudo que falamos, vivemos e amamos apenas nos economiza a dor, quando ficamos paralisados, na dúvida, a dor aparece e fica ali.

Na educação errada vive a dúvida e a incerteza. Não fazemos um mosaico evitando situações, mas enfrentando as que aparecem.

Eu não perdi namorados por ser uma romântica, perdi momentos que poderiam ter sido bons, paixões curtas e beijos quentes.

Nunca me disseram que o tempo voa e os relacionamentos devem ser vividos naquele momento, não são para depois. Não me avisaram que as pessoas mudam de ideia e querem coisas diferentes, assim o amor eterno não é eterno, é apenas um pedaço de cerâmica no mosaico, que grudado aos outros vira um desenho de amor.

Pior ainda: nunca falaram sobre o tempo, o tempo, o tempo.
Existe um tempo para tudo, nem sempre vamos estar naquele momento, o tempo é exato.

Passei uma juventude inteira e começo de uma vida adulta evitando grudar pedaços de cerâmica no meu mosaico, procurando o amor eterno e fiquei vulnerável a erros grotescos, que me causaram mágoa e dor. Caso eu tivesse vivido aqueles momentos que me recusei a viver, teria um mosaico mais colorido, talvez esses momentos poderiam compensar as experiências ruins e teriam me mostrado que a vida é assim, cheia de pedaços de cerâmica que têm que ser grudados para fazer um desenho.

Amor, paixão, são pedaços de cerâmica, não são o todo, mas o romantismo os joga no chão e quebra, estraçalha, avisando que o ''definitivo'' está a caminho, é só esperar.

Mas a vida não espera, a parede continua na nossa frente e o desenho vai aparecendo, mesmo com esses buracos, esses espaços em branco.

O importante é o desenho, o que fazemos de nossa vida, os momentos que vivemos, as paixões que sentimos, tudo isso são as peças coloridas que vão grudando, o resto é peça que não completa a parede.

E nada segura mais a vida do que o romantismo, a ideia falsa de amores eternos, príncipes encantados, hora certa, alma gêmea, metade da laranja, pai dos meus filhos, o amor da minha vida e o homem que esperei. 

A vida é breve, é um momento, temos apenas uma parede para construir nosso mosaico e não é sobre o que deixamos de fazer porque somos românticas, mas o que não vivemos por sermos ingênuas e acreditar em coisas que não existem.

Mosaicos bonitos precisam de cor, de vida, de momentos, de paixões. Se não grudar na parede, então não foi vivido. E quem se importa com um desenho cheio de buracos em branco? Quem quer uma vida assim, incompleta?

Romantismo para mim é sobre perdas, buracos no desenho e situações que não vivi. E também sobre avisar as outras mulheres sobre as armadilhas que não me avisaram.

E não tenho mais nada para perder, só para ganhar. Quando você se liberta das mentiras e ainda está viva, já ganhou.



Iara De Dupont

Um comentário:

Patricia Gabriel disse...

tuudo verdade...mas,como encontrar este meio-termo?

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