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06 julho 2016

O ódio merece o mesmo respeito que o amor


Comentando sobre uma novela a pessoa me disse ''ah, é aquela história de famílias que se odeiam durante séculos e os filhos se apaixonam, argumento bem batido''.

É, parece comum, mas não é tão simples.
Herdamos muitas coisas dos nossos antepassados e fazemos questão de ignorar, como se fossem frutos de tempos de ignorância.

Também pensava que essa história de famílias que se odeiam era muito usada em peças de teatro e filmes, uma ideia desgastada, diria até que primária.

Mas uma vez minha abuelita me disse ''o ódio exige o mesmo respeito que o amor''.

Eu escutei? Não.

Meu avô passou por uma situação penosa com sua família, eu cresci escutando que nenhum deles prestava, todos tinham herdado o sangue podre de uma pessoa e eram ladrões profissionais.

Isso foi dito e marcado por uma geração, a distância era exigida, já que a separação tinha acontecido e ninguém se aproximava.

No velório de um familiar vi muitas pessoas da mesma idade que eu, desconhecidas para mim, perguntei ao meu avô quem eram e me disse ''é o lado de lá, são teus primos, mas não se aproxime''.

Alguns anos depois a vida deu um giro e o lado de ''lá'' se aproximou, pedindo ajuda, precisavam de uma informação. Naquele momento a briga parecia já ter queimado seu efeito, a maioria dos que se jurou jamais dirigir a palavra tinham morrido e entre os vivos restavam mais semelhanças do que diferenças, sendo assim a aproximação foi natural.

Pra quê cultivar o ódio? Pra quê viver em função de uma emoção ruim e gerada por outros? Será que não somos capazes de superar o passado e criar um novo presente?
Pensei isso e acreditei que alguns pensavam assim, pela maneira como falavam comigo.

Não sei quanto tempo levou essa aproximação, talvez menos de dois anos, mas foi devastadora, porque aconteceu comigo a mesma coisa que tinha acontecido com meu avô, abriu a porta para ajudar sua família e foi roubado.

O pior é que eu não tive colo para chorar, cresci com meu avô me avisando sobre ''essa gente'' e seus poucos princípios, mas pensei que eram brigas antigas e não fazia o menor sentido continuar dando corda a uma coisa dessas.

Fiz o pior que se pode fazer, ignorei os avisos do meu avô, não entendi que ódio é como dinheiro, se herdamos é por algo, não é à toa.

O dinheiro roubado não me tira o sono, nem todas as coisas que fizeram, porque sei que estão condenados a perder sete vezes mais do que eu e em piores condições, essa é uma coisa que os ladrões ignoram, pensam que todos são otários e ninguém reage, mas em algum momento eles se aproximam para roubar a pessoa errada e vão se arrepender por isso.
Não sou eu que tenho que sujar minhas mãos, alguém pior do que eles vai resolver a situação.

Hoje entendo tudo o que meu avô dizia e minha abuelita também, temos que respeitar o ódio como respeitamos o amor e assim que aparece o ódio não adianta querer ignorar e jogar água de rosas, aquilo vai perdurar um bom tempo ainda.

Guerras não duram uma semana, podem se arrastar por gerações.

E Deus sabe tudo o que eu teria evitado se tivesse escutado meu avô sobre ''aquela gente''.

Uma das minhas primas um dia me perguntou sobre ''essa gente'', eu disse que não tinha nada demais, eu era muito amiga de uma dessas pessoas, me identificava demais com seu pensamento e minha prima disse ''pra você nem aviso serve né?''.
Que aviso? Uma briga do meu avô há mais de cem anos? E eu vou arrastar isso?

Não quis a arrastar a briga, mas ela me arrastou, 
pelo simples motivo, gerações carregam o mesmo sangue, o deles está podre, meu avô já dizia isso e será assim por sempre, é sangue podre.

Não tive respeito pelo ódio do meu avô, nem por suas razões, ele que tanto tentou me proteger. E deu onde tinha que dar, uma briga que se arrastou por anos e ainda guarda suficiente pólvora para outro século, com uma grande diferença, a primeira vez que a guerra aconteceu meu avô foi pego desprevenido e demorou para perceber quem eram as pessoas ao seu redor, isso ajudou a acalmar os ânimos, já no meu caso foi diferente, a guerra arrebentou e eu ao contrário do meu avô, fiquei com sangue nos olhos, doida para ver o outro lado se arrastando no chão, tenho mais fome do que meu avô de ver todos eles de joelhos. É isso que acontece quando se ativa uma guerra que estava parada no tempo, quem entra tem mais fome de vingança do que a geração anterior.

Mas aprendi a lição, herança vai além do que carregamos nas veias e no bolso, também inclui entender os ódios fermentados e manter a distância, não me arrependo da guerra iniciada, mas se pudesse voltar no tempo e jamais ter cruzado palavra com ''essa gente'' teria sido melhor para mim.

E não é novela, filme, livro, nem peça de teatro, é a vida de muitos, que ignoram os ódios passados e acabam ativando sem querer uma guerra.
Ódio exige respeito, o mesmo que o amor.

Hoje entendo cada linha escrita dessas obras, o horror que os pais mostram quando o filho se apaixona pela filha do inimigo, percebo como não é uma história de amor, mas de ódio e como não pode florescer nada bom no meio de tanta raiva.

No meio da confusão, do roubo que sofri, dos seis meses que dormi no chão porque não tinha um centavo para comprar um colchão, de todos os apertos que passei por culpa do roubo só me restou fazer uma coisa: fui ao cemitério conversar com meu avô, jurei na tumba dele que isso não iria ficar assim, que se eles querem guerra, é o que vão ter. E seu ódio hoje está triplicado e vou me encarregar de manter minha família afastada ''daquela gente'' nas próximas mil gerações, vou manter o ódio fervendo até criar um abismo entre essas pessoas e minha família. E cada vez que um deles cair, seja pelo motivo que for, eu levo flores ao cemitério e uma bebida para meu avô celebrar. Todos os fracassos ''daquela gente'' são alvo de comemorações de nossa parte, ficamos felizes, realizados, é de uma alegria imensa ver como um filho da puta se fode, motivo de festas que duram três dias.

Não respeitei ódio do meu avô em vida e paguei muito caro por isso,  mas agora vou levar isso até a morte.
Aprendi que você respeita o ódio que alguém da tua família carrega ou se arrepende disso. 
Porque ódio é como ouro, se herda por algum motivo.


Iara De Dupont

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