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08 julho 2016

O caminho da bruxa (por onde ela passa ninguém mais pisa)

Alameda Central na fim do ano



No centro da Cidade do México tem um lugar que se chama Alameda Central. Foi construído há séculos para ser um parque, cheio de fontes e jardins, inspirados pelos jardins franceses. 
Com o passar do tempo acabou ficando no meio de ruas e avenidas, mesmo assim se manteve uma parte do lugar como uma praça.

Uma das maiores tradições do lugar acontece no fim do ano, quando fica cheio de brinquedos e as crianças podem tirar foto com Papai Noel e os Reis Magos, depois dos pais pagarem um módico preço pelo serviço.

Me levaram várias vezes quando era pequena, tenho fotos e mais fotos tiradas ali, na minha época era mais simples e barato porque só existiam duas opções, tirar foto com o Papai Noel ou os Reis Magos, mas hoje o lugar cresceu e vários personagens invadiram a praça, é possível tirar fotos com todos aqueles que as crianças gostam.

Também se vendem brinquedos baratos, aqueles bem simples, mas com seu encanto. E o cheiro da comida se espalha pelo lugar, é divertido passar por lá quando se é criança, porque tudo parece grande e as luzes das barracas são fortes, parece que estamos em outra parte da cidade.

Mas minha abuelita nunca gostou do lugar, nunca quis nos levar e batia o pé cada vez que alguém pedia para ir, dizia que ali circulavam ''as almas das bruxas'' e algumas delas eram más, roubavam crianças ou puxavam sua energia, deixando-as doentes até morrerem.

Minha abuelita dizia que onde uma bruxa passa ninguém mais pisa e ela se recusava a ir a Alameda Central, acho que foi o único lugar que nunca levou os filhos nem os netos, se negava e ninguém a fazia mudar de ideia.

Uma vez perguntamos porque as bruxas de lá eram más, ela disse que nem todas eram más, o problema é que o sofrimento muda as pessoas e algumas delas tinham sofrido tanto que ficaram más e roubavam as crianças nesse lugar.

Muitos anos depois tentei levar meu primo menor à Alameda, mas a mãe dele não deixou, alegando que na Cidade do México é o lugar onde mais desaparecem crianças, principalmente nesse evento de fim de ano, onde vai uma multidão e não existem suficiente segurança para todos. Já me disseram que esse evento de fim de ano foi cancelado há um bom tempo, devido a violência.

E o nome correto é Alameda Central, mas minha abuelita a chamava de Alameda das bruxas, mesmo fora da época do natal não passávamos ali, ela dava toda a volta se fosse preciso, mas nunca cruzou a praça. E isso é bem complicado, porque foi construído no meio da praça o Palácio de Belas Artes, onde acontecem exposições, shows e eventos, então para ir até lá tínhamos que dar a volta no quarteirão, para não passar pelo corredor principal da Alameda, onde as bruxas esticavam suas mãos e nos puxavam, segundo dizia minha abuelita.

Uma vez eu estava cansada, a praça é enorme, equivalente a uns quarteirões, achei mais prático atravessá-la e minha abuelita reclamou:

-Já avisei para dar a volta, não cruza a praça, não ande pelo corredor, depois as bruxas te levam e vai acabar chorando! 
Não se pisa o chão que uma bruxa pisou! Você tem que respeitar o caminho das bruxas!

Já na vida adulta eu ia a um médico ao lado da Alameda e às vezes que ia de metrô não tinha outra saída, tinha que atravessar a praça e seguir pelo corredor, sempre que fiz isso me senti mal, como se estivesse traindo o que minha abuelita tinha dito.

Cheguei a comentar com ela que tinha atravessado a praça das bruxas, lembrei dela dizendo para não fazer isso e ela respondeu:

-É, cansei de dizer, mas até teu tio diz que é bobagem.

Mas por quê não podemos pisar no mesmo lugar que elas pisaram?

-Porque elas fazem história, elas são história, todos os lugares que pisam deixam suas pegadas e temos que respeitar isso, elas indicam o melhor caminho para ser seguido. E na Alameda estão indicando que não é um bom lugar para pisar, por outras bruxas que ainda estão lá esperando por vingança. As bruxas boas sabem quando outras são más e avisam, ali está cheio de almas de bruxas que sofreram muito e estão cheias de ódio.

Minha abuelita tinha mania de codificar tudo o que dizia, nem sempre era clara, ela nunca explicou porque a Alameda era um lugar cheio de almas de bruxas querendo vingança.

Resolvi procurar um amigo que sabe de todas as histórias que envolvem a Cidade do México, comentei com ele sobre essa obsessão que minha abuelita tinha em relação a Alameda, não podíamos ir lá nem de dia e ele respondeu:

-Ah, é história bem antiga, assim que os espanhóis invadiram o México e se estabeleceram por aqui trouxeram a Santa Inquisição e a fogueira ficava exatamente na Alameda Central, no corredor principal, no começo era o pátio de um convento, mas estava aberto, ali foram queimadas todas as bruxas que existiam no México durante trezentos anos e como era parte de uma praça todos na cidade vinham assistir quando uma bruxa era queimada, foi um espetáculo que durou três séculos. 
Dizem que se você passar na Alameda de noite ainda escuta os gritos delas e você já reparou que é uma área livre de moradores de rua? É porque eles dizem que de madrugada dá para ver as chamas das fogueiras acesas.

Meu Deus! Então minha abuelita tinha razão e agora percebo como deve ser irritante para as almas dessas bruxas ver o lugar cheio de luzes e crianças no natal.

É, parece que minha abuelita estava certa, onde as bruxas pisam ninguém mais deveria pisar, caso contrário só desperta o pior que existe no lugar.

Bruxas deixam pegadas, abrem caminhos, indicam atalhos, avisam sobre os perigos. Mas seus caminhos são invisíveis, muitas vezes parecem traiçoeiros ou que já chegaram ao final e nem sempre é assim, às vezes estão apenas começando em outra direção.

O caminho das bruxas só segue quem consegue ver as pegadas invisíveis, não tem placas avisando, nem gente gritando nas esquinas, é apenas um caminho, diante de muitos, aberto a milhões de possibilidades, de infinitas estradas e largos passos. É o caminho da bruxa, aquele que marca o chão sem avisar, afunda na areia e o mar leva embora.

Por onde uma bruxa passa ninguém mais pisa, às vezes não fica nem a memória, nem se escutam os gritos e não se veem as chamas das fogueiras, mas a bruxa passou por ali, indicando os caminhos que muitos podem seguir.

A história de uma bruxa não se apaga, não se escreve, não se inventa, nem se conta, apenas se vive. O que foi dito por ela, as nuvens escondem, a lua traz de volta de vez em quando. Tudo o que se entendeu no que foi escrito, será mantido, tudo o que se leu no que não foi escrito, será revelado. 
É parte do caminho das bruxas riscar o chão e mostrar algumas portas, mas também é parte do caminho ser um sol que se esconde depois de um dia quente, uma onda que volta ao mar.

Minha abuelita dizia que bruxas são parte da natureza, mulheres que sabem ser parte de tudo sem ninguém notar, se transformam em árvores, animais e água. Podem voar, se converter em bolas de fogo que atravessam o ar, podem ser muitas coisas ou podem escolher ser nada, durante uns segundos. Dizem uma coisa pensando outra, fazem uma coisa querendo outra, parte da dualidade de quem vive no meio de dois mundos, o de cá e o de lá.

Bruxas são assim, estranhas, sem explicações, mas com todas as respostas necessárias para abrir caminhos e passar por eles.

E caminhos gostam das bruxas, se abrem aos seus passos, acordam aos seus suspiros. Caminhos e bruxas sempre estiveram juntos, são séculos na mesma direção, elas pisam e eles se abrem.

Mas não se pode pisar duas estradas ao mesmo tempo, não se viaja em duas nuvens nem se mantém um pé aqui e outro lá, é necessário ter o eixo no mesmo lugar e os caminhos vão se abrindo, fim de um, começo de outro. E no meio só fica o chão, esse que as bruxas passam e ninguém mais pisa.


Iara De Dupont

                       

Um comentário:

Anônimo disse...

Nossa!!
Quero ficar bem longe desse caminho 😬
Os mais velhos sempre nos ensinam algo.
Lindo texto! 👏🏼😘
Elaine

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