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06 junho 2016

O parâmetro do sucesso


Tenho uma amiga que luta há anos com uma depressão, perdeu muito tempo procurando um diagnóstico porque escutou a mesma coisa dita a mim: criança caçula faz de tudo para chamar a atenção.

Ela tem duas irmãs mais velhas, que são seu oposto, minha amiga é tranquila, caseira, suas irmãs são agitadas, vivem em movimento e não parecem se cansar nunca, as duas malham e tem um pé nos esportes radicais, herança de um pai atleta, já a minha amiga é gordinha e se joga no sorvete como eu, sem culpa.

Ela me contou sobre o novo emprego de uma das irmãs, um posto alto em Nova York, ligado a ONU.

Não entendo como se dá a inveja entre irmãs, porque não tenho irmã, mas já vi casos sérios na minha família, tenho uma prima que tem duas irmãs e se dedica a fazer a vida delas um inferno, movida apenas pela inveja, não admite que as irmãs façam nada melhor do que ela.

Há um bom tempo eu tinha vontade de perguntar a minha amiga como ela lida com o sucesso das irmãs, sempre tão bem sucedidas em tudo que fazem, enquanto ela ainda dá voltas em sua vida. Pensei nisso porque a relação que elas têm me parece profunda e sincera, não sinto más energias de nenhuma parte, pelo contrário, vejo minha amiga vibrando com as conquistas das irmãs e elas por sua parte sempre dão apoio a minha amiga, mas eu sou pessimista em relação ao ser humano e seus sombrios sentimentos, então perguntei a ela se o constante êxito das suas irmãs não a fazia sentir mal, e ela respondeu:

-Na infância não, porque elas me protegiam e davam as coisas, sempre me favoreceram, mas quando fiquei adolescente sim, elas cresceram magras, e era gordinha, ficavam na piscina com seus amigos e eu me escondia no quarto. Depois elas entraram na faculdade, eu nem sabia o que queria estudar, fiquei enrolando, elas viajavam e eu não, porque comecei a ter sintomas de depressão, enfim, foi tudo muito confuso, me sentia errada. 
Uma vez eu tive um surto, peguei uma faca e coloquei no pescoço da minha mãe, queria que ela confessasse que eu era adotada, não era possível que minhas duas irmãs fossem magras, equilibradas e eu fosse esse desastre em tudo. Elas acertaram desde o começo, na aparência, carreira e namorados, eu fracassei em tudo.
Mas então teve aquela viagem louca, lembra daquele Romeu surtado? Abriu uma empresa e fui com ele à China, atrás de fornecedores, então nos mandaram à Índia, e eu lá com ele, procurando quem pudesse nos garantir o fornecimento daquelas tampas de plástico do projeto dele.

É, eu lembro desse episódio....

-Foi uma fase que eu não estava deprimida, surtei no amor e fui, mas então rolou aquela conversa estranha no hotel com ele, eu já vinha querendo mudar minha vida, queria ser bem sucedida como minhas irmãs, comecei uma dieta, mudei de faculdade e decidi que queria me casar, mas não aguentava esperar Romeu dizer alguma coisa, então fui logo perguntando a ele se queria se casar comigo, naquele maldito dia. E ele respondeu ''nem pensar'', que o nosso era só namoro, jamais se casaria com uma ''mulher problemática'' como eu. Fiquei péssima, fui embora do hotel, e de repente percebi que estava na Índia, um lugar perigoso, não conhecia ninguém e não sabia a quem pedir ajuda. Liguei para minha irmã ir me buscar, olha o tamanho do meu surto! Nem que Índia estivesse na esquina da minha casa! 
Ela disse que chegaria em dois dias, então fui para o aeroporto e resolvi esperar por lá. E parece que desceu tudo na minha mente, me senti invadida pela depressão, pelo cansaço, e minha mãe ligando e dizendo ''pelo menos pega um voo para a Inglaterra, não faça sua irmã ir até aí''. Eu não conseguia me mexer, era só ir até o balcão, comprar a passagem e embarcar, mas eu não conseguia fazer isso.
Hoje percebo que no fundo eu estava esperando Romeu ir ao aeroporto, me pedir desculpas e dizer que tinha errado, que queria se casar comigo.
E de repente, do nada, comecei a ter um ataque de pânico, nunca tinha tido antes, e tive certeza de que iria morrer, fiquei gelada, corri para o banheiro e comecei a molhar o rosto na pia.

Vi quando entrou uma moça e pedi que chamasse uma ambulância, eu não sabia que número marcar, a moça se aproximou, era uma americana, segurou meu rosto e disse ''você está bem'', eu insisti que estava morrendo, ela me pediu para que me sentasse em um banco que tinha no banheiro e começou a medir meu pulso e disse ''se isso não passar em cinco minutos, te levo ao hospital''. Me contou que era americana, médica, e passava pela Índia várias vezes ao ano, para estudar a medicina deles.
Depois que meu ataque de pânico passou, não sei porque, mas contei a ela toda minha vida, disse que era uma fracasso, uma perdedora, uma fraca, que não podia nem pegar um avião a Inglaterra, precisava que a irmã ou mãe fosse buscar. E ela me perguntou:

-Para você afirmar que é um fracasso, você tem que ter um parâmetro de sucesso, qual é?

-Minhas irmãs! Magras, felizes, bem sucedidas, ricas e bem casadas!

-Você quer a vida delas?

-Não! Apenas quero ser bem sucedida nas minhas escolhas, como elas são nas delas.

-Mas tuas escolhas são diferentes e isso traz consequências distintas e analise com calma o que é ser bem sucedida. Eu sou americana, o país dos bem-sucedidos, lá é uma obrigação ser bem sucedido. Tenho um irmão que também fez medicina, se formou e trabalha em um consultório particular, já começou a pagar sua casa de 500 mil dólares, se casou e é considerado no padrão americano, bem sucedido. Eu tirei o mesmo empréstimo bancário que ele, para estudar, ele já liquidou a divida, eu não, não tenho casa, não tenho namorado e viajo pelo mundo, porque acredito em unir a medicina ocidental com o conhecimento da medicina oriental.
Meus pais me dizem que estou velha para ser hippie, que já é hora de parar com isso e não desperdiçar meu dinheiro, tempo e diploma com pacientes que não podem me pagar a consulta.
E se eu estou nos Estados Unidos e vejo minhas amigas médicas, me sinto um pouco fracassada, não consigo nem pagar meu cartão de crédito em dia, e elas têm vários, no fundo sinto que tem pena de mim.
Me senti inferior muitas vezes, até que encontrei um guru que me perguntou qual era meu parâmetro de sucesso, se eu levava a vida que queria. Disse que ainda não, mas no fundo sentia tranquilidade de saber que estava fazendo as coisas do meu jeito, não por imposição.
E ele me disse ''teu parâmetro é o mesmo que da maioria dos ocidentais, a casa, o emprego e família, dando certo nisso vocês pensam que estão bem. Mas esses três elementos formam um triângulo e a vida é um círculo, alguma coisa está errada, vocês estão montando a vida com as peças erradas.
Vamos mudar teu parâmetro um segundo, pense o seguinte, eu sou Deus, me aproximo e te digo:

''O teu sucesso está baseado em resistir a quem você é, sim, algumas pessoas conseguem lidar com elas mesmas de maneira simples, outras se ignoram, mas digamos que tua missão é resistir dentro da tua pele, sem fazer besteira, pensando nisso, me diga qual é a tua margem de sucesso nisso?''.

-Quase 100%, eu diria que 99%.

''Então sua missão estaria no caminho certo''. 

-Entendeu?

-Não.

-O guru me disse isso, se o parâmetro fosse a resistência, eu resisti e resisto, só eu sei o que já lutei e aguentei, meu irmão conquistou coisas que eu não tenho, mas eu resisto na minha pele. Não é questão de ser melhor ou pior, apenas de resistir, se esse for o parâmetro do sucesso, então eu sou bem sucedida. Você acha que é fácil ser você? Tem resistido?

-Ah, pelo amor de Deus! Se o parâmetro for esse, eu quero minha coroa e os anjos cantando. Tenho depressão há anos e nunca me empurrei em nenhum abismo, eu me seguro pelas bordas, todos os dias me levanto, nem sei de onde tiro forças, mas tento agarrar o que posso e seguir em frente. Se o sucesso é resistir dentro da própia pele, então sou tão bem sucedida como minhas irmãs.

-E o guru ainda me perguntou uma coisa ''você acha que teu irmão aguentaria ver tudo o que você já viu ou viver na tua pele?''.
Não. E ele respondeu ''por isso não foi escolhido para viver na tua pele'', existe ordem no caos e nenhuma pele está errada, todas carregam o espírito que precisam dentro. É evolução espiritual, cada pessoa vive a sua do seu jeito, a sua maneira e ninguém está errado nem certo, ninguém é melhor do que ninguém, mas algumas pessoas já superaram umas provas e a vida parece mais simples, outras ainda estão lutando, mas todas estão dentro dos seus limites. Para algumas peles o vento não incomoda, o sol não queima, para outras é necessário se proteger''.
Penso muito nisso quando olho meu irmão e sua casa de 500 mil dólares, que eu não tenho vontade de ter, mas sinto o seguinte: tudo bem, ele conquistou isso porque era importante para seu espírito, que bom, mas minha vida é diferente, talvez menos ligada a coisas materiais e mais ligada a resistência, ser eu é uma prova de resistência e todos os dias percebo como sou forte e boa nisso, me impressiono quando olho para trás e penso o quanto já resisti, tenho orgulho, porque Deus sabe o que me custou e me custa ser forte.

-Mas a gente não olha para trás pensando nisso.....

-Porque nascemos e vivemos em outra cultura! Nossa vida no ocidente é concreta, a prova do nosso sucesso é o "C", casa, carro e casamento. Ninguém olha para trás e pensa ''puxa, não tenho carro, casa, nem casamento, mas caramba, eu resisti, consegui ficar dentro da minha pele sem me jogar de um penhasco''.
Tem peles difíceis de ficar dentro, só quem está ali entende.
No ocidente nossas vitórias são externas e concretas, apesar de saber desde o começo que ao morrer não vamos levar nem o carro, a casa, ou casamento, vai só nosso espírito, aquele que vive dentro da nossa pele, aquele que nos faz campeões de resistência.
E o fracasso na vida não é o carro, casa, que não se tem, fracasso na vida é dobrar os joelhos e não resistir, porque temos que ir até o final.

-Mas, e se eu quiser a casa, carro e casamento?

-Tudo bem, a vida é um momento de liberdade, corra atrás, não tem nada de errado nisso, faz parte ser feliz com coisas materiais, mas não jogue sua autoestima e amor própio em cima de coisas externas, honre seu caminho e sua luta, pode ter o carro, a casa, o casamento, mas não se esqueça de como tem sido boa e forte em resistir.
O guru me disse isso ''e se a grande prova for ficar em pé, apesar dos ventos? Você aguenta?''.
Não sabemos qual é a grande prova, mas e se for essa?

-Tenho certeza que passo e com menção honrosa.

-Você não é como tuas irmãs, elas seguem seu destino e você tem o seu, coisas materiais não melhoram nem pioram ninguém, talvez a grande questão para todos nós seja a mesma, resistir dentro da nossa pele e continuar de pé.
Talvez um dia a gente possa viver em uma cultura onde o sucesso, o êxito, é resistir a tudo que passamos e os momentos que nos seguramos sozinhos, no meio do mar. Pode ser que um dia isso seja a marca dos bem sucedidos.
Não olhe mais para tuas irmãs pensando no que elas conquistaram, isso é parte da vida delas, pense em você, nas situações que já viveu e como foi forte ao sair delas, como resistiu. Você está na Índia, conversando com uma desconhecida, poderia ter fugido do hotel e feito alguma besteira, mas resistiu e veio ao aeroporto, um lugar seguro. Amanhã vai estar embarcando para sua casa e não chegue lá pensando que fracassou mais uma vez, que perdeu um Romeu, que  ficou paralisada no aeroporto e que pediu ajuda a uma estranha. Na hora de desembarcar pense ''poxa, eu sou boa nisso mesmo, mais uma vez resisti, mais uma vez podia ter feito besteira, mas fiquei em pé e já passou a tormenta''.
Nem todas as vitórias são pedras preciosas que carregamos, na maioria das vezes e nas maiores vitórias somos os únicos que sentimos o vento, como o do topo de uma montanha, não podemos ver, mas sentimos que ele passa por nós. Vitória não é subir a montanha, nem descer, vitória é resistir em pé ao que cruza nosso caminho. 
E resistir não é para qualquer um, muitos ficam no meio do caminho.
O carro, a casa, você compra. O casamento pode aparecer um dia, mas resistir, resistir, bom, isso é uma coisa que só você pode fazer por você. Resistir é a maior vitória interna que um ser humano pode ter, olhar pra trás e pensar em todas as vezes que resistiu e não desistiu e ainda por cima saiu da cama no dia seguinte, caramba, só Deus sabe a força que isso exige. Se você resiste, sai da cama, respira fundo, e começa tudo de novo, pode ter certeza, você é um vencedor.

E de vez em quando tenho dias ruins e lembro dessa história da minha amiga, não penso mais no que não tenho e talvez gostaria de ter, mas sim em como tenho resistido, às vezes nem eu acredito. Penso que a casa na praia um dia posso comprar, mas minha resistência é uma coisa que não poderia comprar em nenhum lugar. Resistência parece uma coisa fácil, mas não é para todos, uma casa na praia exige dinheiro, uma nota em cima da outra, mas resistência exige tirar fôlego sabe Deus de onde. Resistir é mais do que uma vitória pessoal, é uma maneira de viver diante de tantas coisas que acontecem com todos. E no fim talvez a vida seja isso, uma prova de resistência.



Iara De Dupont

3 comentários:

Andréa K. disse...

Olá Iara!

Uma das melhores postagens que já tive o prazer de ler. Tenho depressão e as coisas para mim estão bem ao estilo da sua amiga, vendo as pessoas ao meu redor ajeitando suas vidas enquanto eu, todos os dias, tenho que encontrar forças para sair da cama. Realmente a vida é uma prova de resistência.

Cadê os seus audios maravilindos? Estou com saudades.

Anônimo disse...

Que mensagem, tbm tenho irmãos sendo dois por parte de pai,os dois são tipo you consegue! Você é vencedor, o rapaz chega a ser deslumbrado, tudo é fácil e cai no colo dele, nunca teve depressão, escolhe namorada,tem a pachorra de dizer bostas do tipo não namoro com negras ou gordas (sim ainda é desses). Enfim ainda assim tudo pra ele é fácil. A mais nova é mais doce mas tbm tem esse jeito. Eu e a mais velha nossa tudo pra gente é o suplício, difícil de ser conquistado ou sequer conseguimos ou demora mil anos, mas nossa história é outra. Nos dormimos de barriga vazia os mais novos nunca, nos sofremos a ausência de meu pai, os mais novos não, enfim foi tanta dor emocional , eles não passaram metade, eu sempre tive essa corda pra me levantar quando estou nessas bads: O que meus irmãos Win, vencedores, passaram?
O que meus irmãos corretos e religiosos tem (alem da religião hipócrita deles que separa as pessoas por suas sexualidades?)
Nada, se sua vida é repleta de facilidade é mole ser o vencedor.
Já pra quem se sequer tem motivo pra se levantar e levanta talvez o levantar já seja essa vitória.
Meus irmãos são a prova viva que você pode levantar discurso anti gay, jogar a bíblia como discurso pra tudo, pagar de gatinho e se dar bem. Tem emprego,tem estudo.
O mundo ta mais pra esses, do que pra mim é fato, a mim so cabe a resistir.
Não me cabe mais medir a sorte deles. Sorte ou a gente tem ou não tem.
No mais em geral quem tem muita sorte tem 0 empatia. Deixo eles de lá com as vitórias deles, enquanto eu fico aqui tentando aprender com as minhas derrotas.

Patricia Gabriel disse...

anonimo,voce não está sozinho nessa...eu bem queria que certas situações não fossem verdade,mas elas estão aí,para provar que a gente tem sido resistente e ainda será.,por longos anos...!ara,esse foi um dos post mais realistas que já li,não vejo ninguém tocando esse nervo exposto como voce fez,em toda web!

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