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20 junho 2016

Minha abuelita, Jorgito e a conversa do diabo

A esquina do Callejón del Aguacate, Coyoacán, Cidade do México

Fico fascinada quando descubro que uma coisa que eu pensava ter uma explicação lógica, na verdade tem outra, mais profunda e misteriosa.

Quando eu era pequena minha abuelita tinha uma mania estranha, não podia ver um acidente, alguém deitado no chão, que ela corria para ''tentar'' conversar com a pessoa, quando a pessoa não respondia ela ficava ao lado rezando.

Vi isso acontecer várias vezes, apesar da minha alma super sensível, fico facilmente impressionada diante de tragédias e pessoas sofrendo, mesmo assim minha abuelita algumas vezes me puxou e se aproximou da pessoa no chão, em geral acidente de carro e ficava ali conversando.

Uma vez viajávamos por uma estrada quando vimos um acidente, ela mandou meu tio parar o carro, desceu e foi conversar com o casal, que de longe parecia inconsciente, mas ela ficou do lado deles até a ambulância chegar.

Não sabia o motivo dela agir assim, mas anos depois namorei um paramédico e contei isso a ele, quando me falou sobre o terror que eram as pessoas que atrapalhavam os resgastes, comentei que minha abuelita era uma dessas pessoas, porque se aproximava e ficava de conversa com a pessoa no chão.
Ele me disse que isso era fundamental e graças a gente assim muitas pessoas eram identificadas, porque alguém se aproximava e perguntava o nome ou telefone da pessoa antes dela desmaiar e isso sempre ajuda o trabalho do resgate. Também é vital manter a pessoa conversando, ela tem que estar consciente, não lembro o motivo, mas esse namorado me disse algo sobre isso, a importância de manter a pessoa ''acordada'', evitando que ficasse inconsciente.

Pensei que minha abuelita sabia disso, tinha razão em tentar conversar com a pessoa, enquanto o resgate chegava.

Minha abuelita era reservada com seu conhecimento, mas isso era pelos seus complexos, ela vinha do campo e estava acostumada a escutar que pessoas de lá são ignorantes e cheias de superstição. 
Mais da metade da população no México é do campo, trabalha, vive e cresce ali. Mesmo assim são discriminados, maltratados pelas pessoas da ''cidade'', considerados inferiores e ainda por cima a grande maioria é indígena, o que dá margem a mais discriminação e preconceito.

Em algum almoço comentei com minha abuelita que meu namorado tinha dito que era uma boa ideia tentar manter a pessoa que teve um acidente acordada, sem mexer nela, apenas conversar. 
Minha abuelita me olhou e disse:

-Eu não sabia disso! Só tento conversar para que não aconteça com a pessoa a mesma coisa que aconteceu com o Jorgito.

A história do Jorgito nunca foi dita claramente, porque não era agradável de ser ouvida.
Ele era filho da vizinha da minha abuelita e amigo dela. Sua mãe era muito próxima a mãe da minha abuelita, a Dona Margarita.

Elas não moravam perto de um rio, tinham que caminhar muito para chegar em um. Mas minha abuelita sempre dizia que rios e mares são de ''dias'', nunca se sabe o humor que trazem e as pessoas que podem levar.

Minha abuelita não estava nesse dia e Jorgito corria de um lado para o outro do rio, apesar dos avisos da sua mãe e de Dona Margarita. Tanto fez que acabou escorregando e se afogando. Sua mãe correu para tirá-lo do rio, o menino estava inconsciente, ela correu atrás de um cavalo para levar o menino embora. Dona Margarita correu para o outro lado, para conseguir ajuda e o menino foi colocado deitado na beira do rio. Quando sua mãe voltou por ele o viu brincado na margem, com a roupa seca.

Dona Margarita voltou com ajuda e todos viram o menino correndo de novo, concluíram que o afogamento tinha sido ''impressão'' da mãe.

Todos voltaram para suas casas e durante algumas semanas ninguém viu a mãe, o pai e os irmãos de Jorgito no campo, viam apenas o menino correndo e brincando.

Dias depois Dona Margarita foi até a casa deles, ver como estava a mãe de Jorgito, bateu na porta e ninguém atendeu, ela entrou e viu a família inteira no chão, todos tinham sido atacados e mortos com um machado.

Ela percebeu que Jorgito estava de pé em um canto da sala, correu a tampar os olhos dele, pela época pensou que tinha sido um ataque dos militares, porque naquele momento havia uma briga entre os camponeses e o poder público, que gerava ataques e mortes constantemente.

Ao se aproximar de Jorgito, o menino disse:

-Me larga, sua bruxa.

E ela respondeu:

-O que é isso Jorgito, sou tua madrinha!

-Que Jorgito? Não sou Jorgito.

Então ela percebeu o gelo no olhar dele, o ambiente pesado e perguntou quem ele era e escutou a resposta, em uma voz de adulto:

-Eu sou o diabo, sua bruxa.

-Cadê o Jorgito?

-Não está mais aqui, levei embora. O dia que ele estava se afogando no rio me aproximei e disse ''acho que você vai morrer, mas eu posso te ajudar, me entregue tua alma agora e você vai sobreviver''.
O menino aceitou na hora.

-Onde ele está?

-Vagando por aí, você sabe, crianças são mais difíceis de levar, na maioria das vezes o senhor de lá (Jesus) intercede, não posso levar e ainda por cima o menino era batizado.

-Você mentiu para ele, sabia que não poderia salvá-lo e ainda assim ofereceu uma suposta ajuda.

-Não são vocês que dizem que sou o pai da mentira? 

Dona Margarida saiu da casa e avisou os vizinhos sobre o que tinha acontecido e tudo isso sem tremer, era uma mulher de campo, grande, forte, acostumada a fome, frio, ficou viúva cedo, não tinha medo de nada e vivia em um campo disputado a tiros por militares e camponeses, estava acostumada a ver pessoas sendo mortas na sua frente, viu gente torturada, mulheres sendo estupradas, como ela dizia a sua filha, que era minha abuelita ''vê lá que eu vou me cagar de medo do diabo, não tenho medo de nada nessa vida, está para nascer demônio que vai me assustar''.

O que minha abuelita disse é que talvez, talvez, se a mãe do menino tivesse ficado perto o diabo não teria se aproximado dele, mas isso aconteceu porque ele estava sozinho, por isso minha abuelita dizia que não podemos deixar ninguém sozinho depois de sofrer um acidente ou algo parecido, porque o diabo se aproxima tentando negociar a alma, engana a pessoa, diz que sabe que a pessoa vai morrer e ele pode dar mais uma chance, a maioria no desespero se assusta e aceita a a troca, ele mente dizendo que se não for isso a pessoa vai morrer.

A história do Jorgito sempre me pareceu estranha, pensei na minha ignorância que os fatos eram contados dessa maneira para esconder a dor que a morte de uma criança causa, mas quando eu morava no México um dia caminhava pelas ruas com um amigo que é bruxo, quando chegamos a uma rua ele disse ''vamos atravessar porque ali é o callejón del aguacate'', perguntei  o que era e ele respondeu:

-Está vendo aquela esquina ali? Dizem que uma menina de sete anos foi atropelada ali há anos, ela estava no chão sozinha e agonizando quando o diabo se aproximou e disse a ela que não se salvaria, mas ele poderia ajudar, em troca de sua alma. A menina na sua inocência aceitou, mas não foi levada porque os anjos intercederam, mas a menina ficou presa em uma espécie de limbo e aparece na esquina dessa rua todos os dias as três da manhã, pedindo ajuda.
Alguém se comoveu com a menina e mandou construir um altar na esquina do acidente, colocando uma imagem da Virgem de Guadalupe, mas dizem que o diabo ficou irritado e arranhou o rosto da Virgem, por isso essa imagem é conhecida como a ''Virgem sem rosto'', as pessoas passam e deixam velas, flores e brinquedos para a menina, mas resolveram não mandar refazer o rosto da Virgem, porque acreditam que é melhor ela não ter que olhar o mal de novo.

A história dessa menina se cruza com a história do Jorgito, minha abuelita dizia que pode acontecer com qualquer pessoa, por isso era importante saber rezar, para evitar que em um momento de dor e desespero o diabo se aproximasse para fazer ''negócios''.

Também dizia que cada pessoa que chega ao mundo vem acompanhada de cem mil anjos, mas as crianças batizadas recebem um exército de um milhão de anjos. Por um tempo pensei que esse argumento estava ligado a religião católica e sua herança sufocante, mas depois que estudei um pouco percebi que a ideia de batizar crianças, não importa a religião, tem sua lógica, não podemos saber até que ponto é verdade, impossível saber se alguém chega ao mundo com cem mil anjos ou um milhão de anjos o acompanhando, mas os bebês devem de ser protegidos espiritualmente pela religião dos pais, seja qual for.

Há muito tempo parei de ver todas as histórias da minha abuelita como fruto de uma educação católica forçada ou uma superstição de pessoas do campo, me parece que tudo tem um motivo e os ignorantes somos nós, que pensamos que é apenas crendice de gente de ''campo''.

E lembro da minha abuelita dizendo:

-Jesus não oferece ajuda, ele se aproxima e resolve, como foi com o teu tio.

Ah, meu tio, ateu, rebelde, contra tudo e contra todos e alérgico a regras religiosas, teve um acidente de carro, desbarrancou, estava quase desmaiando quando um homem se aproximou, como estava vestido de branco meu tio pensou que era um enfermeiro ou do resgate, o homem o ajudou a subir o barranco e chegando na estrada parou um carro para que o levasse ao hospital.

Os médicos nunca acreditaram na história, meu tio disse que foi ajudado por um homem a subir um barranco, mas ele tinha as duas pernas fraturadas, não poderia ter se mexido e além de tudo estava em uma estrada deserta, no meio da madrugada, mesmo que as pessoas passassem ali não poderiam ver o carro no fundo da barranca.

Meu tio depois de passar por isso virou crente, acho que já foi a todas as igrejas de joelhos, porque cismou que foi Jesus que o salvou.
Não duvido da história dele, porque de outra maneira ele teria morrido no barranco, teriam se passado horas, talvez dias, até que fosse encontrado.

Me parece que isso fecha com a teoria da minha abuelita, Jesus se aproxima e ajuda, o diabo se aproxima e começa a negociar a alma.

Perguntei a minha abuelita porque ela sempre perguntava o nome da pessoa acidentada e depois começava a rezar e ela respondeu:

-Porque somos batizados com nosso nome, ao dizê-lo em voz alta chamamos os anjos e eu só começo a rezar se a pessoa não me responde, inicio com o Pai-Nosso, para afastar o diabo, que não se aproxime da pessoa.

E ele sempre se aproxima?

-Muitas vezes, por isso têm tantas almas no limbo, tanta gente perdida, porque eles aceitam o trato sem saber o que está acontecendo, no meio de uma tragédia, depois se recusam a ir embora com o diabo e ficam vagando pelo mundo, sofrem demais. 
Se você ver alguém acidentado comece a rezar na hora para afastar o diabo, ele não gosta porque cria uma barreira espiritual na pessoa e ajuda a descida dos anjos que vem proteger quem está ferido e precisando de socorro.
Não importa quem seja a pessoa, se você conhece ou não, reze para que todo o mal se afaste da pessoa, não podemos mais viver em um mundo com tantas energias misturadas, com tantas almas sofrendo.
Todos somos enganados em vida, imagina no meio de um acidente, quando nem sabemos o que está acontecendo e muitas vezes estamos fisicamente machucados e fragilizados.
Reze, reze muito, só isso afasta o mal. E nunca se esqueça de perguntar o nome inteiro da pessoa, para que os anjos escutem. 

É, e meu namorado dizia que não se pode mexer na pessoa, porque podemos prejudicá-la, temos que esperar o resgate....

-Curioso isso, eu só sabia que não podemos mexer na pessoa para não interferir com o trabalho dos anjos, quem tenta encostar na mão das pessoas para olhar nos seus olhos é o diabo, por isso não podemos nos aproximar, para não bloquear os anjos.
Já escutei tantas histórias vestidas de milagres e que não são! Um homem e uma mulher, misteriosos, se aproximam da pessoa e de repente a pessoa fica bem, abre os olhos e não parece machucada, bom, eu já vi esse casal, fiquei de longe tentando rezar, mas percebi quando o casal olhou para mim e deu um sorriso cínico. Você não pode fazer nada se a pessoa aceita o trato com ele.

E se for a gente no chão, o que fazemos?

-Bom, já te avisei, você reza e chama pelos teus anjos, se o diabo se aproximar você diz ''vai embora em nome de Jesus''. 
E talvez ele diga ''mas eu quero te ajudar porque você vai morrer'', não acredite!
E também pode chegar parecendo Jesus, ele adora brincar com isso! Mas Jesus não fala, apenas o sentimos, quando ele se aproxima de você a paz se sente em todo o lugar, teu coração fica cheio de amor e você vibra na energia dele, tudo isso sem falar, mas se abrir a boca e disser ''eu posso te ajudar'', bom, você já sabe que é o diabo.
Jesus não negocia, não conversa, apenas ampara e protege, não fica de conversa mole.

E quem não acredita em Jesus, como se salva?

-Ele ajuda de qualquer jeito, todos são seus irmãos, filhos do mesmo pai, olha teu tio, um ateu que dava escândalo em porta de igreja, ele o salvou.
Você não acredita em muitas coisas porque teu pai é ateu e fica enchendo tua cabeça de minhoca.

Ele diz que é tudo ópio que a igreja dá para as pessoas acreditarem, que não existe Jesus, nem o diabo, é tudo um texto bem feito para controlar a humanidade.

-Eles existem desde que o mundo é mundo e o caos está aí porque a briga é eterna. 

Essa parte não entendo, porque Jesus não briga de uma vez com o diabo e o bota pra correr do mundo, não seria um lugar melhor?

-Já é um bom lugar porque temos a opção de escolher, o diabo não força ninguém a nada, é a pessoa que pega esse caminho. Essa é parte da bondade de Jesus, que permitiu isso, que ele só se aproximasse de quem o quer, mas não conseguiu expulsá-lo do mundo, mesmo assim construiu essa parede, ele não pode fazer nada sem autorização da pessoa.
E não se esqueça, o diabo está sempre de olho em todos, é nos teus momentos de fraqueza que ele se aproxima e oferece um trato. Não pense apenas em acidentes, existem milhões de maneiras de tua alma cair ao chão e você estar perdido, sentindo o frio do cimento e sem conseguir se levantar. É nessa hora que ele vai se aproximar, por isso eu digo, reze muito quando estiver em pé, mas reze mais ainda quando cair.


Iara De Dupont

2 comentários:

Patricia Gabriel disse...

Isto mesmo,Iara,e acredite,sua abuelita está corretíssima,,muito me admiro dos conhecimentos dela!Na igreja,também somos ensinados exatamente assim...

C.Belo disse...

Iara, tua avó de ignorante não tem nada! Ela apenas tem de forma natural e puramente empírica o conhecimento que muitos só adquirem lendo a Bíblia e fazendo diversos estudos sobre ela. Eu só diria para sua avó, se ela estivesse viva, que não se preocupasse com o Jorgito nem com a menina atropelada, nem com nenhuma outra criança, pois está escrito na Palavra: deixai vir até mim as crianças, pois delas é o meu reino (e isso independente de batismo, que é um ritual mais para dar uma segurança emocional aos pais). Mas o diabo de fato aproveita brechas para agir e persuadir as pessoas, e quem dá estas brechas não são os mortos, e sim os vivos que ficam e sofrem por eles e não se fortalecem espiritualmente, ficando espiritual e emocionalmente frágeis. Aí, o diabo aproveita e se manifesta, confundindo as pessoas. O que provavelmente foi o caso do jorgito.

Mas é claro que o diabo deve tentar as pessoas no momento de quase morte tb. como tudo na vida é questão de escolha, pq na morte deveria ser diferente? só que, como tb está escrito n bíblia, Deus não considerará se momento de ignorância.

Conclusão: nosso Deus é maior que todos os males existentes no mundo.

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