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18 junho 2016

Coveira de homem


Durante muitos séculos os homens saíram as ruas para construir o mundo. Iam para o mar atrás do óleo de baleia, lagostas, caranguejos, corriam terras para conquistar territórios e atravessam desertos.

Ficou marcado no inconsciente mundial que todos os homens são seres voluntariosos, com eles não tem erro, são fortes, corajosos e curiosos, sempre dispostos a correr o planeta, desbravando selvas e domando as feras.

Mas tudo isso aconteceu porque as mulheres estavam trancadas em casa, presas aos filhos, constantemente grávidas e não existia outra opção, os homens tinham que sair e enfrentar o que viesse.

Para o nosso azar, das mulheres atuais, ficou impressa essa sensação, homens são ambiciosos e querem fazer tudo, quando não é assim é culpa da mulher que segura e impede o homem de cair na vida e deixar sua marca.

Tenho uma tia que há uns anos abriu uma loja de roupa infantil, mas existe uma coisa em minha família que ninguém pode negar: a nossa total inaptidão para lidar com comércio, ninguém na minha família tem mão para isso, sempre dá merda.

Minha tia não sabia lidar, vendia as roupas muito caras e com o tempo se enrolou, quando não queria mais a loja sua filha se ofereceu para tentar levar o negócio.

Ela começou a arrumar devagar, mas o lugar onde está a loja também não ajuda, é meio perigoso e afastado, mesmo assim minha prima cismou e ficou ali.

Tempos depois se casou e continuou com a loja, engravidou duas vezes e mesmo assim não largava o trabalho. Quando seu segundo bebê nasceu, o marido perdeu o emprego, é professor de educação física, então começou a ajudar na loja enquanto encontrava outro emprego.

Parece simples lidar com a loja, mas minha prima não tem fornecedores diretos, eles não vão até ela, a maioria está no interior, ela tem que pegar o carro e ir comprar a mercadoria.

Essa é a história da minha prima, ela e o marido levando uma loja pequena de roupas infantis e criando dois meninos, ainda por cima moram longe da loja.

Por essas coisas da vida um dia encontrei com a sogra da minha prima em um supermercado, que eu conhecia de vista, passei perto e a cumprimentei, notei o sorriso falso e a frase cínica:

-Ah, você deve ser uma das primas da minha ''adorada'' nora!

Não defendo todas as minhas primas, mas deve ser herança do meu sangue italiano, não gosto quando se metem com pessoas da minha família que são decentes, e minha prima é, ela não se mete com ninguém, leva sua vida de maneira tranqüila e é como a maioria de todas nós, preocupada em fazer sua vida, não em perseguir os outros.

Não aguentei e respondi  ''é, adorada mesmo, eu gosto muito da minha prima, teu filho teve sorte de encontrar uma mulher com ela''.

E a senhora respondeu:

-Sorte? Ela acabou com a vida dele. Pelo amor de Deus! Até eu fui enganada! Também pensei que era boa pessoa, mas já vi que não é.

O que ela fez?

-Meu filho era um homem forte, decidido, pagou sozinho sua faculdade, o pai dele não prestou para nada, ele foi lá e se formou, tinhoso. E o que aconteceu? Tua prima cruzou o caminho dele e o enfiou naquela loja pequena e miserável, ele está lá, trabalhando como escravo, engordou, enfim, ela o enterrou vivo.

Mas peraí, tem uma coisa que não entendo. Ele foi trabalhar na loja porque perdeu o emprego, por que não achou outro?

-A que horas? Tua prima o controla! Não pode fazer nada sem autorização dela!

Tenho um amigo que fez educação física e hoje é personal trainer, ele se virou e tem alunos, o teu filho poderia fazer isso, está na moda.

-É? Então fale com a sua prima! Porque foi ela que acabou com a vida do meu filho, se não fosse por ela, ele já poderia ter sua própria academia, que era seu sonho!
Isso que dá da mulher errada na vida de um homem!

Ainda dá tempo de fazer uma especialização, mestrado, dar aulas no fim de semana e juntar o dinheiro, a vida dele não acabou!

-Você que pensa, parece que não conhece tua prima, puxa ele o tempo inteiro como cachorrinho, duvide que tenha algum interesse no progresso dele.

Não tem, posso apostar que não tem! Se ele quer progredir por que não pega alunos no fim de semana? Por que não estuda na loja? Dá para fazer isso porque tem horas vazias, não entra nenhum cliente, se ele mexesse a vida poderia melhorar, talvez abrir uma academia.
Mas minha prima não quer isso, ela quer continuar na vida dela sabe? Se diverte horrores acordando as seis da manhã, levando as crianças na escola e depois indo para uma loja de roupas infantis  pequena, sempre apertada de dinheiro, pegando o carro e as estradas perigosas para comprar roupa no interior, lá onde o pessoal costura e vende um real mais barato, no fim de semana abre a loja até o meio-dia, depois volta para casa e faz faxina, no domingo vai ao supermercado e separa a roupa das crianças da semana. De vez em quando vai no sábado comer com sua mãe na casa dela, bom, resumindo, minha prima tem uma vida muito boa, divertida, esplêndida, por que ela iria querer trocar essa vida por uma melhor? Não, jamais faria isso, tenho certeza de que quer o marido afundando, sem trabalho, é mais legal assim.

-Você chama aquele buraco de loja de roupas infantis?

Mas não é? Buraco generoso sabe? Pagou a comida quando seu filho perdeu o emprego, o convênio médico das crianças, a luz e água quente em casa, a gasolina do carro e ainda pagou o local, porque minha prima comprou, buraquinho bom esse viu!

-Meu filho teria encontrado outro emprego logo, mas ela não deu tempo, o enfiou na loja.

É, ela tinha acabado de parir e não podia abrir a loja muito cedo, então ele ia, mas eu lembro de ter ido lá e a ter visto amamentando o bebê em um quartinho nos fundos.

-Você defende porque deve ser igual a ela, uma coveira de homens!

A história tem outro lado? Tem.

O marido da minha prima, um homem ótimo, simpático, boa praça, bom pai, de trocar fraldas e lavar a louça. Um homem doce, divertido, mas com um porém, que nem sua mãe viu: é um homem acomodado.

Como eu sei disso? Porque o vi na casa da minha avó várias vezes, não levantava nem para pegar um copo, via minha prima chegando, carregando os filhos e nem se coçava.

Na loja dizia que era melhor minha prima lidar com qualquer perrengue porque ela ''é durona'', os clientes também sobravam para ela, porque é mulher e sabe mais dessas ''coisas'' (roupa infantil). Nunca o vi carregar caixas, mas é ótimo para ficar na mesa com o computador jogando o dia inteiro enquanto minha prima despacha os clientes.

Em casa me parece a mesma coisa, uma vez o telefone tocou e ele chamou por ela, não se deu o trabalho de atender, eu perguntei porque ele não tinha atendido e me respondeu ''pra quê? sempre é pra ela''.

Pois é, mas mamãe não viu, achou que ele era ''homem'' e então era destemido, corajoso e cheio de vontade de conquistar o mundo.

Não é, e isso tem uma explicação simples, nem todos os homens são assim, alguns tem o impulso e resolvem a vida, outros encostam.

Já tive amigos que estudaram educação física e não pararam, foram atrás, abriram academia, têm alunos, já outro amigo também se formou, mas acabou indo trabalhar de corretor de imóveis, cada um é cada um.

Mas não existe  tolerância com as mulheres, ainda nos jogam nas costas a culpa dos fracassos masculinos, as pessoas ignoram que existem homens ''parados'', que não querem porra nenhuma na vida e dizem que é culpa da mulher o homem ser assim, sem vontade, culpa daquelas bruxas, como minha prima.

O marido da minha prima é assim, lerdo, parado, tranqüilo, não parece sentir falta de educação física nem de nada, pelo contrário, agora que já achou uma trouxa como ela que faz tudo e ainda por cima pariu os filhos, vai se mexer pra quê?

Para a minha prima sobrou o mesmo lixo que sobra para todas as mulheres, um homem encostado, um negócio a beira da falência, dois filhos para criar e ainda por cima o ódio líquido da sogra, que carrega a certeza de que minha prima é a coveira do seu filho.

Não somos coveiras de homens, eles que são nossos coveiros.
Está cada vez  mais chato continuar explicando isso, não somos nós, mulheres, são eles, os homens. Não somos nós, mulheres, que enterramos carreira de marido, são eles os frouxos que encostam e não querem saber de mais nada.

Eu não tenho culpa pelas decisões do meu Romeu, a vida é dele. É claro que a vida em comum exige de vez em quando algumas adaptações, como do marido da minha prima ter que ficar na loja enquanto procurava um emprego, mas eu nunca o vi amarrado a mesa, nem com uma faca no pescoço, tenho certeza que minha prima apóia o marido e quer o melhor para ele.

E por quê tenho essa certeza? Ora, porque sei que nós, mulheres, somos otárias, damos o que não recebemos e apoiamos os homens sem vacilar, somos ótimas em arrumar vida alheia, principalmente se for do Romeu.

Tudo, tudo, tudo é nossa culpa! Se eles erram é culpa da mulher, se eles acertam é porque são bons, apesar da mulher que tem.

Mas o nosso lado ninguém vê  e todos fingem que não existe.

Pior ainda, foi uma mulher, a sogra da minha prima que reclamou, ela mesma vítima de um homem omisso, tanto que seu filho pagou a faculdade sozinho. Mas na sua cabeça de mãe o filho é de espírito vitorioso e aventureiro, se não fosse casado com a opressora da minha prima seu verdadeiro espírito teria vindo à tona.

Cansei dessa visão de que as opressoras somos nós, as que capam os maridos, as castradoras e dominadoras de homens. O nosso lado não é confortável o suficiente para ainda por cima ter espaço para dominar um homem.

Não aceito levar fama de coveira, sendo que não sou eu a coveira, nem minha prima.
E nem deveria dizer, mas apesar do marido da minha prima ser uma boa pessoa, eu sinto pena dela, empurrando esse marido e ainda escutando horrores da sogra.

E a biologia vai me apoiar em uma questão, tenho certeza de que minha prima não fez os filhos sozinha. Também não acabou com a vida do marido nem o oprime. 
E digo de maneira sincera, se ela tivesse um marido melhor, um homem mais dedicado ao trabalho, focado, a essa altura já teria tido condições de melhorar a loja, investir um pouco mais ali e talvez contratar alguém, mas com o marido lesma que tem só consegue pagar as contas básicas.

Já passou da hora de reconhecer quem são as mulheres na vida de muitos homens, graças a minha prima o seu marido tem dois filhos, casa e comida quente, queria ver onde ele ia estar sem ela, na casa da mamãe? E mamãe não iria reclamar de ter o filhinho ali arrastando as bolas?

E as mulheres da minha família tem tido os piores coveiros do mundo, a maioria delas foi enterrada viva pelos seus maridos. E ainda tem gente que diz que as coveiras somos nós, as mulheres.


Iara De Dupont

Um comentário:

Anônimo disse...

Pior de tudo é uma mulher falar isso da outra, por mais que relações entre sogra e nora na maioria das vezes sejam repletas de ciúmes. Sim a maioria das mães parece querer o filho homem em casa, se podessem colocariam no berço de chupetas. Enquanto nos EUA, Europa os pais rezam para os filhos sairem de casa.
Aqui é fulana roubou meu BB, fulana estragou meu BB é uma cultura feia e que põe uma mulher contra outra sem necessidade.
Minha sogra não me ama, mas quando vê que o filho está vacilando senta e fala: ela é do jeito dela mas sei dizer que gosta de você, faz o dela. Isso pq ela não é minha fã e já tivemos desentendimentos, quase não frequento a casa dela, sou bem na minha, mas a respeito, acho que relações entre sogra e nora deveria ter o mínimo de respeito, poxa é o mínimo, as mães precisam saber criticar e reconhecer que os filhos homens têm defeito. Porque o contrário não acontece as mães vivem detonando suas filhas, minha mãe é uma que sempre fez tudo por mim, porém nunca cuidou assim da minha auto estima, sempre arruma defeito fala do meu peso, da minha aparência, dos trabalhos que tive, enfim vive botando defeito em tudo, gostaria de ver mais igualdade para as meninas dessa nova geração mães enchergando mais seus filhos homens, vendo seus defeitos pois eles tem e sendo mais amáveis com as meninas.
Espero que um dia cheguemos lá.
Pq fala se tanto de sororidade hoje em dia mas a geração das nossas mães, tias, sogras ainda só sabe massacrar suas filhas, sobrinhas e noras.
Mais uma vez você foi certeira no texto
Abc da anônima de todo os dias.

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