ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

17 junho 2016

A promessa do Prozac e sua filha bastarda (eu)


Apesar de parecer o contrário os tempos mudam, se transformam.

Na década de oitenta um remédio considerado revolucionário foi lançado, o Prozac, o mais potente dos antidepressivos, mas sem os efeitos colaterais tão pesados como seus antecessores.

Foi visto como uma das maiores mudanças comportamentais do planeta, o que tanto afligia o ser humano desde que o mundo existe, teria chegado ao fim, usando esse remédio todas as sensações ruins passariam.

E sem perceber um decreto se firmou, o tempo de sofrer, de sentir, tinha acabado, entregamos o nosso direito de ficar ''mal'' pela pílula mágica e seus efeitos maravilhosos.

Mas já se passaram quase quarenta anos e o Prozac não conseguiu cobrir todas as dores do ser humano, resolveu muito, mas não tudo e sempre foi alvo de todos os tipos de críticas e questionamentos, mesmo assim continua sobrevivendo, apesar de que hoje é considerado um antidepressivo, não mais um remédio milagroso.

De tudo o que esse remédio levou, tirou o mais importante, o nosso direito de sentir, graças a mentalidade ''Prozac'', já mencionada em livros e filmes, sentir qualquer coisa que não fosse alegria virou um pecado, um coisa de péssimo gosto.

Eu cresci no meio dessa febre Prozac, que chegou ao mercado uns anos antes de que eu começasse a ter minhas primeiras crises de pânico, mesmo assim meus pais não deixaram que eu usasse, apesar dos apelos do médico, pensaram que eu era muito jovem para experimentar remédios que eram recentes no mercado.

Mas vi muita gente usando, quem não queria ser feliz?

Apesar das décadas que já se passaram e todas as perguntas que foram levantadas, ainda assim continua sendo uma má ideia aceitar que nem tudo é perfeito e emoções ruins têm seu peso e não pedem licença para aparecer, muito menos se intimidam com remédios.

Eu disse uma frase aos quatorze anos, talvez quinze, não sei, no meio de uma crise de pânico que terminava em uma de depressão, falei ''não tenho vontade de fazer nada''.
Minha mãe respondeu:

-A gente que faz a vontade aparecer!

Já se passaram anos depois disso, mas nunca falei essa frase sem ser duramente criticada, como pode ser possível um ser humano ter a cara de pau de dizer ''não tenho vontade de fazer nada''.

Visitei médicos, bruxos, curandeiras, xamanes, fiz de tudo, procurei saídas e todos diante da minha frase de ''eu não tenho vontade de fazer nada'', me respondiam:

-Bom, vamos fazer isso ou aquilo para que a vontade volte.

Mas a danada não voltava!

Minha vontade era como um corpo magro, simplesmente não existia em mim.

Uma vez em um grupo de teatro me cansei de uma discussão e disse ''não tenho vontade de nada, vou embora''.
Na hora o assistente do diretor surtou e começou a dizer a ele:

-O quê, o quê? Quem essa menina pensa que é? Bota pra fora agora! Não tem vontade? Tchau!

É, naquela hora não tive e errei ao verbalizar. E fiz isso algumas vezes na vida, eu só queria ser sincera e dizer que não tinha vontade de nada, que estava empurrando minha vida com a barriga e só não parava porque era herdeira.

E às vezes acho que Deus pensou nisso, se eu fosse herdeira não gastaria meus milhões saindo e gastando, provavelmente seria como sou, de vez em quando sem vontade de nada.

O problema é que com o tempo a vontade de não fazer nada foi se agravando, passou de ser uma coisa de horas, para dias, meses, anos, décadas.

Já perdi horas conversando isso com um amigo, eu não era assim, costumava ter mais vontades, mas o mundo me cansou.

Cheguei a essa conclusão, o mundo cansa pessoas como eu, sensíveis e com excesso de empatia. A ignorância, a maldade, a loucura, tudo isso vai contaminando e me deixando exausta.

E a vida também tem seu ritmo própio, nem sempre colabora para que eu me levante cheia de vontade.

Me falaram que se eu me apaixonar isso passa, já me apaixonei e não passou, pelo contrário, me colocou em uma sinuca de bico, porque eu não tinha vontade de sair com Romeu.

E muito me surpreende viver na humanidade que vivo e que alguém ainda venha me dizer ''como assim não tem vontade de fazer nada?''.

E quem tem? Não é isso que eu vejo!

O que eu percebo são pessoas cada vez mais isoladas em suas casas, obcecadas com Netflix, comida por encomenda, internet e aplicativos. Não vejo tantas pessoas dispostas a fazer as coisas nem uma competência de ''vontades''.

E não culpo ninguém, o mundo está cansativo, chato, pesado, e a rua não mexe com a vontade de ninguém, se isolar parece uma boa ideia para manter a saúde mental.

Tenho uma amiga que comprou um apartamento e fez uma reforma, no lugar da sala fez um lugar para sua super televisão, sofá ligado a cozinha, parece casa de adolescente, perguntei a ela como faria caso sua família decidisse passar o Natal ali, porque não tinha nem mesa:

-Essas datas comemorativas a gente passa na casa da minha mãe, mas a verdade é a seguinte: o apartamento é meu, para mim, eu quero viver do meu jeito, não quis mesa, nem sala de estar, nem de jantar, quero ficar à vontade para ver minhas séries e me afastar do mundo, só saio a rua porque tenho que trabalhar, mas entrando aqui fecho a porta, é meu bunker.

É, parece que tem muita gente com seu bunker, até eu.

Todo esse isolamento me parece um protesto pacífico pelos direito de ''sentir'' que o Prozac levou.

Cada vez que eu digo ''não tenho vontade de fazer nada'', escuto:

-Você tem que reagir!

Mas que porra! Não ter vontade de fazer nada é um direito que os filósofos gregos defendiam, a importância do ócio, da observação, por quê sempre temos que ter vontade de fazer alguma coisa?

Eu quero mais é que se dane o que tem que ser feito, porque tem que ser feito! 
Cada dia essa ideia me sufoca mais.

Não entendo porque é tão condenável e execrável dizer ''não tenho vontade de fazer nada''.

E uma amiga budista me diz:

-Porque a vida é cheia de possibilidades! Como assim não tem vontade de fazer nada? Olhe ao seu redor, tantas chances de fazer algo!

É, não digo que não, eu apenas digo ''EU NÃO TENHO VONTADE DE FAZER NADA'', não estou dizendo que não tenha coisas para fazer.

E não digo que seja eterno, só gostaria de ter o direito de dizer isso novamente, sem ser linchada.

Por quê as pessoas podem dizer ''vontade de matar fulano!'' e ninguém diz nada?

Mas é só falar ''não tenho vontade de fazer nada'', pronto, lá vem o sermão, pode ser de padre, médico, amigo, amiga, enfim, a humanidade toda tem a receita para acabar com isso.

E não tenho vergonha de dizer que no momento só faço as coisas porque sou obrigada, se tivesse alternativa não faria nada. Estou assim com 99% das coisas que me cercam, o 1% estou no mesmo vício da humanidade, faço com vontade, dormir, comer e assistir filme, o resto empurro com a barriga e não me envergonho disso nem me desculpo.

Apesar de ser considerada da geração Prozac não fui seduzida pelas suas promessas e ainda luto de maneira lúcida pelo direito de sentir o que quiser, mesmo que sejam emoções ruins. Não me envergonho mais, nem falo baixo, estou sinceramente me lixando para essa humanidade tão contente e cheia de vontades, que sejam felizes, contam com meu apoio.

Depois de anos engolindo essa frase, evitando falar sobre isso, não tenho problema nenhum em subir na mesa e gritar ''faço as coisas porque sou obrigada, porque por mim podia explodir tudo, não tenho vontade de nada, que se foda''.

Minhas tias já me levaram até centro espírita, pensando que estava com um encosto preguiçoso e por isso eu andava meio pra baixo, mas o tempo passou e provou o que venho dizendo há anos, eu sou assim, minha essência é essa, sou mais quieta e observadora, não sou de esportes radicais, nem amores perigosos, sou uma pessoa caseira e hermética, coisa inaceitável neste mundo de pessoas agitadas e abertas a todas as possibilidades que o mundo oferece.

Meu jeito de ser era tudo o que o Prozac prometia curar, tiraria a dor da existência, a tristeza, o pânico, o medo, o isolamento, o afastamento. Tudo isso seria levado embora apenas usando Prozac.

Mas o tempo passou e mostrou que tudo isso era meu cimento, os tijolos no qual eu construiria meu edifício, o chão debaixo dos meus pés. Resisti bravamente defendendo meu direito de me sentir mal, aceitei de maneira precoce que eu era humana em um mundo desumano e cruel, entendi depois de muito sofrimento que tenho uma alma cálida perdida em um mundo gelado. 

Escutei que um um dia eu me apaixonaria e essa sensação, essa falta de vontade iria passar, se não fosse com um amor seria com um ótimo trabalho, talvez emagrecendo, viajando mais, mudando, acreditando, tentando uma nova religião, um dia essa falta de vontade iria desaparecer.

Mas não foi assim que aconteceu, pelo contrário, de maneira irônica e estranha, a falta de vontade me construiu e definiu, me fez forte, me obrigou a procurar saídas e não morrer nas curvas.

Pessoas são assim, algumas se constroem no excesso de vontades, outras na falta. 
E não nego que já tive meus dias de faminta, tinha mais vontade de viver do que dez tigres, mas as coisas mudaram e de repente voltou essa falta de vontade, talvez ela nunca me abandonou, eu é que a escondi por um bom tempo.

E tudo se transforma, parece uma ironia, uma coisa que tanto tempo escondi, ocultei, hoje escrevo tranquilamente sobre isso, minha falta de vontade de fazer muitas coisas, no momento tudo.

Sou em muitos aspectos uma sobrevivente desses dias onde se acreditava que um remédio curaria toda a dor humana e suas quedas livres, resisti a esse momento de loucura onde era possível dormir e acordar sendo feliz.

Fiquei na pista, nem sei como, aguentei as ondas passarem pelo meu corpo, algo me guiava e me dizia que não havia nada de errado em sentir, qual o problema de acordar triste de vez em quando? Isso me faria uma pessoa pior? O que tem de errado em acordar e não ter vontade de nada?

E não ter vontade de nada não é tão simples, exige resistência, não é para qualquer um.
Sair da cama cantando, isso é fácil, quero ver sair da cama quando não se tem vontade de nada, tem que ser um atleta e eu sou uma dessas.

Minha pouca ou zero vontade de fazer nada parecem feitas de aço, porque eu levanto da cama, apesar de não ter a miníma vontade disso.

E a melhor parte é pensar que por primeira vez na minha vida estou me lixando para o que pensem ou digam sobre minha falta de vontade de fazer as coisas, não estou nem aí, que exploda o mundo, inclusive se precisar de fósforo para botar fogo no planeta eu empresto.

O que já me disseram diante da minha falta de vontade de fazer as coisas? Fraca, mimada, boba, preguiçosa, manhosa, manipuladora, aproveitadora, débil, inútil, imprestável, incapaz, despreparada, covarde, medrosa, frouxa, mole.......

A pior coisa é que um dia eu acreditei em tudo isso que foi dito, só agora percebo que eu não era nada disso, nem fui, sou apenas um ser humano que aprendeu a aceitar sua condição, a existência nem sempre é para mim um dia de sol na casa da Moranguinho, tenho meus momentos, dias, meses e anos de quebra, de vacilo, de dor, de ferida que sangra.

Vivo na diferença, as pessoas tentam esconder que são humanas e sofrem, eu tento mostrar que sou isso, elas tentam mostrar que são felizes e suas vidas são muito ocupadas, porque são cheias de coisas para fazer.

Para mim acabaram os dias de dor onde eu me negava a aceitar quem era e como era, acabaram essas horas no calabouço me perguntando porque não sou como todos.

Sou a filha bastarda do Prozac, aquela que ele não quis parir, a que provaria que sua tese de felicidade estava errada e não seria possível alcançar a felicidade apenas com uma pílula.

E tem muita paz e vontade no fato de assumir quem eu realmente sou. 

Ah, eu adoraria ser como um dia fui, acordando as seis da manhã para malhar e me manter o dia todo ocupada, mas a vida mudou e emoções vieram à tona, derrubando qualquer vontade.

E não sei os critérios divinos para entrar no céu, se for vontade, já rodei, mas se uma das exigências for ter aceito sua condição humana, sua fragilidade e limites, bom, os anjos podem começar a cantar, porque eu sou boa nisso.

Queria poder dizer que sou triste, feliz, alegre, deprimida, contente, melancólica, exuberante, desanimada, mas todas essas são palavras longas e não me definem mais, não tem mais espaço para mim no meio das vírgulas.

Minha falta de vontade de fazer as coisas me mostrou uma coisa que eu sempre soube, no silêncio que me cercava, no frio da noite, na lua cheia: eu sou apenas humana e nenhuma pílula vai tirar isso de mim.



Iara De Dupont

4 comentários:

Daniela disse...

Uma vez uma amiga, com histórico sério de depressão, me disse que a depressão dela surgia da pressão de ser alguém que ela não era. Isso me marcou, porque sempre que as pessoas estão deprimidas, elas falam disso, que os outros cobram que elas sejam diferentes. E né, não dá, a gente é do jeito que é.

Acho que eu, clinicamente, poderia ser classificada como tendo distimia. Nunca quis tomar remédio, acho que isso é parte do jeito que eu sou. Mas dormir pouco, stress, gente me enchendo o saco, isso piora muito o jeito que eu me sinto. Então evito essas coisas, na medida do possível.

Eu também não tenho muitas vontades. Na maior parte do tempo, acho que se as coisas não derem errado já está ótimo (tipo, tudo sempre pode piorar e muito).

Patricia Gabriel disse...

nossa,super é isso,tanto é que assumo;estou sem von
tade de comentar muito...(sei que me entenderá agora!)

Ewerton Luiz disse...

Excelente texto.

Anônimo disse...

É muita hipocrisia! Vive execrando os homens "encostados" e "acomodados" enquanto defende a paralisia da vontade como alternativa existencial para si própria. Então ficamos assim: você tem todo o direito de ficar quieta no seu canto, sem vontade de fazer nada, apenas sofrendo com as suas limitações pessoais e as misérias do sistema; já os homens têm a obrigação de serem os campeões, de produzirem resultados, superando tudo com otimismo, paciência, bom humor e atitudes positivas.

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...