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13 junho 2016

A pirâmide do sol e os dias longos de inverno


Quando era pequena minha abuelita me levou várias vezes a visitar a Pirâmide do Sol, em Teotihuacan, México.

Não era um passeio interessante para uma criança, nunca fui como minhas primas, que adoravam correr pelos lugares, eu preferia ficar observando e a Pirâmide do Sol é enorme, é preciso caminhar muito, debaixo do sol, e subir centenas de degraus, mas por um algum motivo que desconheço minha abuelita adorava ir lá.

Ela gostava de chegar até o topo, sentar na escada e ficar observando. Como sempre fui uma das netas mais quietas ficava ali, ao seu lado. De vez em quando ela dizia que os astecas foram um povo dedicado ao sol, o ''povo do sol'', tudo girava ao redor disso, os rituais, os sacrifícios, tudo acontecia para agradar o Deus do Sol e manter as colheitas.

Uma vez ela falou durante um bom tempo sobre todas as coisas boas que o sol trazia para a vida das pessoas e do planeta, tudo dependia de sua luz e calor. E de repente mudou o rumo da conversa e disse:

-Os astecas veneravam o sol, para eles era o centro de suas vidas. 
Uma vez me disseram que para se conectar com a parte divina do sol energias divinas temos que estar conectados com nós mesmos, sem nada interferindo, você entende isso? Você tem que encontrar o sol em você, essa energia que todos trazemos, então você vai poder se conectar com o lado divino do sol, aquele que aquece a alma.
Nunca se transforme em um eclipse por ninguém.

Depois de muitos anos voltei a pirâmide, a primeira vez sem minha abuelita. Fui com uns amigos, mas todo o dia virou, nos perdemos no caminho, atrasamos, começou a chover, quando chegamos na pirâmide ela estava fechada para restauração, parecia um lugar totalmente diferente do que eu lembrava e das fotos na casa da minha mãe.

Não percebi na época, mas naquele momento meus dias eram  turbulentos, tudo parecia fora de lugar na minha vida e nem sei porque aceitei o convite desses amigos, sabendo que bebiam e eu não. Tudo deu errado e acabamos voltando, pegamos muita chuva, trânsito e lembro que quando cheguei em me casa jurei que jamais iria a uma pirâmide de novo, porque tinha me parecido o pior passeio que alguém poderia fazer.

No dia seguinte contei a minha mãe o que tinha acontecido, falei que nem a pirâmide parecia a mesma e ela respondeu:

-Ah, mas você sempre ia com tua abuelita e as primas, era uma farra, nunca pegamos chuva, talvez foi isso, tivesse ido com uma das tuas primas teria tido uma sensação familiar.

Mas eu estava com uma das minhas primas! E nem ela gostou do passeio.

-Mas vocês não viram que o dia estava fechado?

Não, essa é a parte mais maluca, quando saímos fazia sol, no meio do caminho o dia escureceu e caiu o mundo. A ideia era passar a tarde lá em cima da pirâmide para ver o pôr do sol.....mas não deu....

Separava umas fotos quando reparei que a única pirâmide que minha abuelita me levou foi na Pirâmide do Sol. Tinha tantas pirâmides, mas ela só ia nessa e fazia questão de que eu subisse com ela, eu sempre me cansava antes, porque é uma subida pesada, mas ela dizia ''vem, Iarita'' e eu tinha que subir.  E várias vezes fiquei sentada ali com ela, vendo o pôr do sol, tentando entender sua fascinação pela pirâmide e a centenas de histórias que ela envolve. 
Também me deu de presente um calendário do sol, tudo que representava o sol fascinava minha abuelita.

Durante muitos anos pensei que essa paixão era ligada à sua vida no campo, ela cresceu vendo a dependência que as plantações tinham do sol, entendeu os ciclos da natureza muito pequena e sabia que a terra só produzia graças ao calor e a água.

E teve seus dias de fome, plantações perdidas por chuvas, secas e militares, imagino que tudo isso a empurrou mais ainda a acreditar que os astecas estavam certos quando diziam que enfurecer o Deus do Sol era acabar com o mundo, seria o fim de tudo.

E herdei dela essa obsessão pelo sol, que regula meus humores. Não sei o que é, mas quando sinto o calor do sol tudo melhora para mim, os dias nublados, cheios de chuva ou garoa fina, me deprimem, me empurram a abismos conhecidos.

Quando meu pai morreu eu estava no enterro, era um dia onde o sol aparecia e desaparecia, mas de repente o sol voltou, lembro que senti o calor do sol, a luz, e comecei a me sentir melhor, depois de tantas horas chorando. Fiquei ali um bom tempo, só sentindo o calor e aquilo me aqueceu a alma.

E tentei conversar com minha mãe algumas vezes, queria saber a origem da paixão da minha abuelita pelo sol, mas ela nunca soube dizer.

E estes dias vi uma menina com uma fantasia diferente, indo a uma festa junina, ela parou do meu lado em um sinal fechado e perguntei a ela ''do que você está vestida?'' e ela me respondeu ''eu sou o sol''.

E não sei porque, essas coisas que não tem explicação, lembrei na hora da minha abuelita, uma frase que nunca me foi dita, mas estava ali o tempo inteiro.

Tive a sensação que minha abuelita percebeu, tinha plena consciência do caminho que as filhas e algumas netas tomaram, os atalhos cheios de curvas sinistras e noites longas.

Nenhuma delas nunca se olhou no espelho e viu seu reflexo real, era um sol. Era isso que minha abuelita tentava dizer a cada uma de nós, seja um sol, nunca um eclipse, jamais uma sombra. Mas quase todas se apagaram, sumiram com o seu sol, secaram a plantação, congelaram a água. 
E tudo isso aconteceu porque amaram os homens errados, aqueles que exigiram em troca do seu amor, que elas apagassem o sol que eram, o calor que levavam, a luz que traziam.

Minha família tinha tanto sol! Eram mais de vinte mulheres, um sol de cada maneira, um luz diferente da outra, mas todas eram o sol, aquele que conhece o norte, o sul.

Todas viraram noite, se transformaram em eclipses, para que o apenas o sol do marido brilhasse, todas se converteram em sombras de um homem, escondendo seu sol.

E minha abuelita uma vez disse:

- O sol é o centro, tudo acontece porque ele existe.

E quando a gente deixa de ser sol? Tudo morre, começando por nós.

O sol sabe seu ponto, seus movimentos, sua importância, seus ciclos, sabe que não existe nada na escuridão e no frio.

E as mulheres da minha família enterraram seu sol, em troca de um amor, um amor fraco, de dias de chuva e meses de neve.

Sol transforma, faz a natureza se mexer, controla as estações e mantém o calor que todos precisamos, é um ponto de orientação para qualquer um, até no meio do mar.

Não sei se minha abuelita via o futuro, as vizinhas comentavam que sim, e algumas mulheres na minha família herdaram isso dela, a capacidade de ''sentir'' o futuro. Não tenho como saber se é verdade ou não, apesar das minhas tias confirmarem, mas me pergunto se ela viu alguma coisa em mim e por isso insistia em me manter na linha do sol, que eu entendesse que sem ele eu perderia meu rumo e os dias ficariam escuros.

Penso nisso porque me assusto ao lembrar quantas vezes fui eclipse, quantas vezes me transformei em sombra por umas migalhas de amor. Quantas vezes me escondi e anulei, com medo de mostrar meu sol, fosse a quem fosse. Tantas situações que não quis me posicionar, tentava me manter afastada, como se fosse possível um sol do meio dia ser com um sol as cinco da tarde.

E fiz tudo isso por opressão, porque aprendi desde pequena que mulheres que se posicionam e mostram sua força interior são umas ''exibidas''. 
Muito cedo entendi que ''sol'' alheio queima, machuca os olhos dos outros, irrita a quem vive na sombra.

Mas hoje sou obrigada a ver algumas mulheres da minha família e pensar no sol que elas enterraram, tanta vida, tanto potencial perdido! Tantas coisas poderiam ter sido feitas por elas, pelo mundo, pelas suas filhas, mas sol enterrado não dá colheita, e tudo se perdeu.

Nenhuma mulher deveria se apaixonar antes de se conhecer e saber seu potencial em todos os setores da vida, nenhuma mulher deveria soterrar seu sol antes de conhecer sua intensidade, seu calor, sua luz.

Não tem coisa mais triste do que isso, ver uma mulher, um sol caminhando, se transformando lentamente em um eclipse que acaba se tornando uma sombra.

Quando nos apagamos pelos outros é uma vida que se perde, quando nos ofuscamos por um amor é um inverno tenebroso que chega e não vai mais embora.

Talvez minha abuelita me levou tantas vezes a pirâmide para que eu pudesse ter isso bem gravado na minha mente, talvez ela sabia, por instinto, todos os invernos que eu enfrentaria, as crises de baixa autoestima, a falta de amor própio, a quantidade enorme de momentos onde meu caminho ficaria confuso e assustador.

Eu devia ter uns cinco anos quando subia e descia essa pirâmide com ela, mas talvez ela viu meu futuro de algum modo e quis me avisar, me manter na linha, tentar me alertar sobre a importância de manter meu sol no ponto mais alto que eu pudesse, que jamais ele se apagasse por nada nem por ninguém. 
Ela sabia que ser sombra não mexe nada no mundo, nem melhora a vida de ninguém.

Ela dizia que a vida humana era o reflexo da vida do sol, uma estava ligada a outra.
E viu como as mulheres da família foram se apagando, de maneira lenta e gradual, conforme se apaixonavam e resolviam se diminuir para caber nos sonhos dos seus Romeus.

Vi isso com algumas primas, enquanto cresciam pareciam estrelas, brilhavam, cantavam, dançavam, viviam e de repente foram se apagando, por diferentes circunstâncias, sumindo com o propio potencial.

E não tem nada demais se apaixonar, nem amar uma pessoa, é parte do que se vive neste mundo, o problema é se apagar, querer desaparecer, para que tua luz não incomode o Romeu.

O problema é quando deixamos de ser o sol, que todas somos, nos transformamos em uma sombra e não conseguimos mais gerar nada na vida, tudo congela, não dá frutos, apodrece a terra.

Quando isso acontece lembro da minha abuelita e da importância de localizar o sol, sentar na escada da pirâmide e ver ele nos olhando direto nos olhos.

Os astecas sabiam que sem o sol não ficaria nada, seriam apenas longos dias nas trevas. 
E me parece incrível que tantas mulheres ainda não saibam disso, que se não assumirem seu sol vão continuar vivendo em dias de escuridão e noites frias.

Eu perdi muito, quase tudo, quando escondi meu sol no bolso, preocupada em agradar, em ser amada, em ser aceita, em viver sem incomodar ninguém. Mas isso me custou todas minhas plantações, meus dias cálidos, minhas noites mornas. Não gerei nada, porque no inverno nada surge.

É verdade que sol queima, é fato. Mas o gelo também e não produz nada, não mantém a vida.

Viver sem aceitar o tamanho do seu sol, seu potencial, é se condenar a dias longos de inverno, aqueles que são escuros e gelados. É como viver fechada em uma congelador.

Minha abuelita me fez subir a pirâmide do Sol várias vezes, talvez para que eu nunca esquecesse que me ver refletida no sol, aceitar que sou o sol, essa seria a única chance de salvação para mim neste mundo.

E só sai das sombras porque percebi que ali o inverno não acabava e as plantas não cresciam.

Minha abuelita me deixou claro que sou um sol, e talvez viu meu futuro e sabia que eu iria escrever um dia sobre essas idas e vindas a pirâmide, era a chance que ela tinha de passar sua mensagem pra frente, assim como ela me lembrou que sou um sol, que não posso ser eclipse nem sombra de ninguém, venho aqui dizer isso a todas as mulheres, acordem, não sejam sombras, aceitem o sol que são, o poder que carregam, a luz que trazem, o calor que aquece.
Corram ao espelho e digam ''eu sou um sol! Chega de ser sombra''.

E é nessa hora que o sol aparece, o sol mais incrível do planeta, aquele que faz plantações inteiras surgirem do nada.



Iara De Dupont

2 comentários:

Patricia Gabriel disse...

que lindo Iara,quanta vida,quanta experiencia bonita viveu junto de tua abuelita!

Thaís Mendes disse...

Iara parabéns!
Sou leitora do seu blog a um tempo (desde antes de você ter que se afastar) e sou fascinada pela sua escrita, seus textos me prendem do começo ao fim.
Obrigada, de verdade obrigada mesmo por dividir suas experiências e história da sua avó.
Parabéns pelo blog 💜

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