ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

11 maio 2016

Quer saber a cor da minha calcinha? E eu quero chutar tuas bolas!


Talvez eu nunca deixe de me surpreender com a resistência feminina, e sem usar o clichê do gênero, só uma mulher sabe o horror que significa ser mulher neste mundo.

Fui a um teste com uma amiga e estávamos ali quando um diretor passou por nós e cumprimentou, conhecido de outros testes. Entramos na sala dele e estava saindo uma atriz, então o diretor me perguntou se eu tinha o telefone dela, falei que nem a conhecia, mas os telefones ficam anotados em um papel que os atores recebem para fazer o teste e ele me disse:

-Ah, mas ali está o telefone da agência que a mandou, eu não quero isso, queria o telefone dela. Fala sério, você viu que bunda maravilhosa?

Não, não vi, em geral quando venho a testes não fico reparando em bundas alheias.

Então minha amiga me puxou discretamente e disse:

-Cala a boca Iara, não vai começar com tuas conversas feministas porque ele é o dono desta merda, se cismar com a gente nunca mais colocamos os pés aqui.

Não sei se ele escutou, mas sorriu e me chamou para fazer o teste. E eu fui lá, quieta, mas fervendo por dentro, pensando como era possível que em pleno 2016 um homem de trinta anos não percebesse o terrível que é fazer comentários de baixo calão sobre uma mulher perto de outras. E não é porque sou uma santa, mas me parece asqueroso e totalmente fora de lugar, ainda por cima me deixou em uma posição constrangedora, de não poder responder à altura, porque isso ficaria sujeito a retaliação.

E posso falar mil coisas sobre o diretor, mas ele é igual a todos os homens que me cercam, sempre cheio de piadinhas sobre o feminismo, até homens na minha família ridicularizam o que falo sobre os direitos das mulheres.

Ah, mas minha amiga me mandou calar a boca, sim, tinha razão em algo, eu era capaz de dizer um monte a esse diretor e por uns segundos esquecer as consequências.

Já passei por isso quando morava na Cidade do México, tive uma discussão com um diretor, que me acossava e ele disse que ''fazia'' questão de pegar o telefone e fazer umas ligações, garantindo que eu não teria trabalho naquela cidade. Achei que era só ato fanfarrão de um idiota, subestimei o dinheiro de sua família e as conexões que um pai famoso consegue na vida de um filho perdedor e fiquei alguns anos à mercê disso, as pessoas batiam a porta na minha cara alegando não quererem brigar com ele.

E não estou em 1910, é 2016, e ainda somos obrigadas, nós, mulheres, a conviver com esse machismo nojento, disfarçado de ''gracinha''.

E não adianta me dizer ''eu conheço homens que não são assim''.
Ah, pode ser, eu também conheço uns poucos que se comportam perto de mim, mas não posso garantir que são assim sempre. 
É uma tragédia cultural não superada ainda.

O problema é que me faz ferver o sangue, depois que tomei consciência da gravidade dessas ''gracinhas'' comecei a pegar ódio.

Há pouco tempo tive um episódio que me mostrou como não existe homem acima da cultura machista.

Sou muito próxima ao irmão de uma amiga, ou era, pelo menos. Faz tempo que o conheço e sempre me pareceu um homem legal, decente e consciente dos horrores que comentários fora de tom podem significar.

Não há da minha parte nenhum interesse romântico nele, mas seria hipócrita dizer que ele não está de olho em mim. Já tinha reparado, mas ignoro de maneira elegante, para não magoar seus sentimentos.

E nunca houve nenhum comentário nem nada desagradável entre nós e já chegamos a viajar juntos sem nenhum episódio ruim.

E há pouco tempo eu fui a sua casa porque iria sair com sua irmã, ele estava no sofá da sala, eu passei, cumprimentei, e e de repente ele me chamou e disse ''olha, a tua calcinha está marcando na calça''. Agradeci, mas não dei corda, achei abusivo e podia ter dispensado o que disse. E de repente ele sorriu de maneira maliciosa e me perguntou ''qual a cor da tua calcinha?''. Então mandei ele à merda, o chamei de louco, libidinoso, e fui embora.

Lógico que ele mandou um ''textão'' no telefone, dizendo que foi inconveniente, que se desculpava, mas eu também era uma idiota por julgar uma pessoa por um comentário errado. E no fim da mensagem escreveu ''sempre te elogiei, e isso tudo bem né? Mas fazer uma pergunta besta, sem sentido, coisa de homem, isso não pode''.

Não, não pode, não é meu namorado, nem marido e não interessa a cor da minha calcinha.

E de novo me irrito com essa merda ''é coisa de homem''!

Quantos posts eu ainda vou ter que escrever para berrar que acossar uma mulher não é coisa de homem? Comentários libidinosos não são coisa de homem! Caramba! É coisa de gente desequilibrada e sem noção!

Por que os homens não entendem a diferença entre acosso e respeito? Que parte está criptografada?

Vou contar a história debaixo de outro ângulo. Eu entro na sala e meu namorado no sofá me diz que minha calcinha está marcando a calça, então eu agradeço, daí ele me pergunta a cor da calcinha. Vai depender do meu humor e das circunstâncias, mas é provável que eu mostre minha calcinha a ele, e talvez até acabe no chão da sala transando. Mas é meu namorado e faço isso se quiser! 
Não é conversa para ter com estranhos e chega dessa merda de ''é coisa de homem'', eu ouvi essa barbaridade a vida inteira, homens acossam e estupram porque é ''coisa de homens''.

E volto a estaca zero, a amizade que já durava um bom tempo com esse rapaz foi cancelada, me irritei profundamente com o comentário e o fato dele acreditar que tinha espaço para falar isso.

Já cansei de dizer, se homens falam besteiras entre eles, tudo bem, eu  não tenho nada com isso, mas deixem as mulheres em paz quando passam por perto e parem de acreditar que podem falar ''gracinhas'' e não ofendem com isso.

Não sei como as mulheres resistem a isso, eu tenho dias que não aguento, sonho em sair com uma arma e matar pelo menos uns mil, para tirar todo o ódio que eles me provocam com seus comentários estúpidos.

Muita da minha raiva vem da atual consciência, de perceber a agressão nas palavras e o cunho sexual constante que eles tentam disfarçar. Me cansam essas desculpas idiotas de que ''é coisa de homem'', essa resistência em aceitar a violência e querer diminuir o peso do acosso. 

É como se eu pegasse uma barra de ferro, batesse em um animal e me recusasse a aceitar que o que eu fiz foi violento, é assim que os homens agem o tempo inteiro, não quero pedidos de desculpas depois que eu reclamo de um comentário libidinoso, eu quero que eles reconheçam que isso é inapropriado e não é aceitável, é agressão.

Não aguento mais escutar ''não é para tanto!'', ''deixa de ser paranoica'', ''homens são assim'', ''homens fazem isso'', ''homens dizem isso'', ''não falou por mal''.

Nunca fazem nada por mal, mas morrem centenas de mulheres todos os dias nas mãos deles, imagina se fizessem as coisas por mal!

Minha amiga ainda defendeu o irmão, disse que ele sempre foi um doce, mas acabou sendo babaca, uma vez, coitado, uma vez! 
Pra mim foi suficiente! E minha amiga ainda me disse ''eu sei que Romeu já te disse coisas mais pesadas''.

É verdade, mas na época era meu namorado e eu decidia se iria aceitar o que ele dizia ou não, intimidade de casal não se discute, cada um sabe o que faz dentro de casa. E nunca me disse nada em público, mas imagina aceitar um amigo me perguntando a cor da minha calcinha!

E não é frescura, mas até na intimidade existem limites, não é tudo que pode ser dito, mas pelo menos está ali o espaço aberto para a discussão. 

E se fosse meu namorado me olhando de maneira libidinosa e perguntando a cor da minha calcinha? Pode?

Não gosto de olhares libidinosos, mas quando estamos apaixonados a história é outra, lógico que quero meu namorado me olhando com vontade, ora, se não posso despertar nele um desejo sexual, então por que seria meu namorado? Todo mundo entende essa parte, queremos ser desejados por quem amamos, claro que sim, mas isso não se estende a outros homens, essa parte de olhar com tesão é reservado aos homens que amamos.

Minha vontade em relação ao meu ex-amigo foi de dizer para ele se aproximar e ver a cor da minha calcinha, então eu daria um chute nas suas bolas, para que aprendesse a se comportar como um ser humano decente.

Fica difícil explicar, não aguento mais falar sobre isso, nem escutar piadas ou comentários de baixo calão. Não é engraçado e nós, mulheres, não achamos o homem mais ''fodão'' só porque ele fala besteira.

Mas todo mundo fala besteira! É verdade, mas isso não quer dizer que todos podemos falar besteira na frente de pessoas que podem se ofender e comentários sexuais ofendem as mulheres.

Tem algumas mulheres que dizem ''eu nem ligo'', ah, que bom, ótimo, seja feliz, mas eu ligo e não gosto, não aceito e não tolero mais viver em um mundo onde ''gracinha'' de homem é normal, coisa de ''homem''.

É sempre chato voltar a esse assunto, até porque conheço alguns homens que têm mantido um comportamento decente perto de mim, mas os comentários agressivos são tão constantes que me pergunto como vou resistir a todo esse lixo energético, porque antes eu não tinha consciência de como tudo isso fazia mal, mas agora sei e sinto na pele essa estupidez masculina. 

E cansa viver assim, escutando merda de amigos, namorados, chefes, colegas e conhecidos. E não adianta dizer que circulo no meio errado, o machismo é uma gota de veneno que contaminou o mar e não sobrou nenhuma gota livre disso.

E sempre lembro o caso de uma amiga, que estava preocupada comigo, dizendo que eu estava exagerando e beirando a paranoia, que seu marido era um homem ótimo, que respeitava e existiam homens assim.
Então um dia eu fui comer a sua casa, um almoço, estávamos na sala quando seu cunhado comentou sobre o ''espetáculo que era aquela mulher verão'' e o marido da minha amiga começou a falar sobre isso, como aquela modelo era uma coisa de outro mundo, de bunda e peitos duros, isso na frente de quatro mulheres, eu, sua esposa, sogra e cunhada.

Eu apenas olhei para minha amiga e ela me disse ''homens são assim, mas não quer dizer que sejam más pessoas''.

Né? Ainda bem que seus comentários não querem dizer que sejam más pessoas, talvez só são engraçadinhos!

Mas eu dispenso essas gracinhas perto de mim, ainda penso que o melhor seria viver em um mundo onde os homens pudessem respeitar as mulheres e entender como o acosso é humilhante e horrível, perceber a violência que eles cometem dizendo ''coisas sem malícia''.

E esse argumento de ''é coisa de homens'' não os vai salvar por muito tempo, porque um dia dizer ''coisa de homens'' vai ter outro significado, vai remeter a um tempo onde os homens eram uns animais desgovernados, idiotas, que desrespeitavam as mulheres e não assumiam isso.
Não sou otimista, talvez isso aconteça em 500 anos, não sei, mas talvez se as mulheres aprendessem a dar chutes nos sacos deles cada vez que são acossadas poderíamos acelerar esse processo de aprendizado.

De maneira pacífica a mensagem não está ficando clara, eles acham que acossar é brincadeira, talvez está mesmo na hora de começar a chutar suas bolas.



Iara De Dupont

Nenhum comentário:

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...