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08 maio 2016

O silêncio que nos protege


Quando estava grávida de seis meses uma amiga da minha mãe passou por um incidente que a levou a perder o bebê. Ela tinha uma filha de cinco anos, a menina brincava no meio da rua, com outros amiguinhos, enquanto a mãe cozinhava o almoço. De repente a menina entrou na cozinha e disse que não queria voltar a brincar na rua, porque lá tinha um moço que colocou as mãos no meio de suas perninhas.
A mãe escutou isso e surtou, pegou uma faca e saiu correndo da cozinha, atrás do homem que tinha molestado a filha, assim que a viu ele começou a correr, ela foi atrás, mas depois de uns quarteirões o perdeu de vista. Pela corrida, o susto, a raiva, a impotência, tudo isso se juntou e ela perdeu o bebê que esperava.

O marido não ficou sabendo da história, foi melhor assim, era machista e a culpa acabaria em cima da mãe, que deixou a menina brincar sozinha em frente de casa.

A menina nunca ficou sabendo dessa história, a gravidez não foi comentada e a ninguém disse mais nada, eu sei porque escutei quando a amiga contou a minha mãe o que tinha acontecido.

Essa é outra história que se soma a milhões, a tantas que as mães escondem e tentam assim proteger seus filhos.

Minha mãe tem o mesmo temperamento da minha avó, as duas são índias, e como dizia meu pai de ''coração misterioso'', não falam delas, nem contam muito sobre suas andanças, parecem carregar no coração sempre a desconfiança.


Aprendi desde pequena a viver assim, minha mãe me ama, isso me parece suficiente e seu silêncio nunca me incomodou. Sei que esconde histórias e enterra o passado, mas não posso fazer nada se ela não gosta de falar.

Minha avó também era assim, minhas tias são assim, caminham nas sombras, evitando a luz, para não se expor.

E não sei bem como é esse amor de mãe, mas sei que protege e cala, tem coisas que os filhos não precisam saber, minha avó dizia isso, quando a gente perguntava alguma coisa pessoal ela respondia ''me conte primeiro porque você quer saber''.

E hoje que sou mulher percebo quantos segredos cabem na alma e não vão sair, entendo o silêncio de muitas e o sorriso que fazem questão de manter diante dos filhos.

Tive uma prima que foi estuprada, ficou grávida e resolveu ter o bebê. Lembro de um primo meu dizendo que era importante ela levantar uma denúncia e ela respondeu:

-Eu não vou dizer nada e ninguém aqui vai dizer nada, minha filha nunca vai saber o que aconteceu, ela é apenas minha filha.

Na época fiquei horrorizada, como parte da família, ninguém entendeu o silêncio dela e foi tanta pressão que ela se afastou de todos para ter seu bebê em paz. E já sabia que era uma menina. E hoje não me surpreende em nada essa história, ela estava certa, desde que resolveu ter a menina já sabia que não era culpa da bebê que o pai fosse um estuprador e não fazia o menor sentido a menina ficar sabendo dessa história. 

E um dia minha mãe viu a esposa do meu tio carregando o bebê e ela começou a discutir com o marido, minha mãe foi lá e pegou o bebê, que a essa altura já começava a dar sinais de que iria chorar.
Eu vi minha mãe com o bebê e disse a ela ''por que você está carregando ele?'' e ela respondeu:

-Você sabe o que mais assusta uma criança? É ela sentir a mãe  com medo ou em uma situação de tensão, principalmente os bebês, eles sofrem muito se sentem a mãe nervosa. Criança só depende da mãe, quando é bem pequena, e sentir a mãe em risco faz eles entrarem em pânico.

E se o silêncio da mãe fosse uma gota de água, quantos mares seriam? Tanto silêncio que elas guardam para nos proteger, silêncios que envolvem situações familiares, pessoais, amorosas, econômicas e sabe Deus quantas mais. Tudo o que elas calam para proteger os filhos.

E da vida de nossas mães sabemos tão pouco! Apenas as gotas que nos dão, o resto não temos acesso.

E agora penso em minha mãe como uma mulher, antes era só minha mãe, mas o feminismo me permitiu ver isso, a mulher que foi e é, e volto ao mesmo ponto, sabe Deus o que aconteceu com ela no meio do caminho, as coisas que deve ter sofrido por ser mulher em um mundo machista. O que passou eu não sei e talvez nunca vá a saber. A mulher se escondeu detrás da mãe, a poderosa, a forte. O preço que pagou e paga, não sei. Na verdade não sei nada.

E tive uma amiga que durante um tempo de sua vida teve que se prostituir e escondia isso do filho. Um dia ela me disse:

-Ele nunca vai saber, é uma criança, o que importa é eu colocar ele na cama para dormir e o pão na mesa, o resto é comigo, como eu me viro é meu problema, jamais vai ser um fardo para ele.

É mãe. É mãe que faz isso. Capaz de sair às ruas, se prostituir e voltar sorrindo para que o filho de manhã não perceba o inferno vivido à noite.

E não é guerra de gênero, mas eu só vi essas atitudes por parte de mulheres, não dos homens, mas tudo bem, eles não são mães, aqueles seres fantásticos que esquecem seu passado e caminham em cimas das feridas, tudo para que o filho não perceba a dor da realidade.

Sei de alguns sacrifícios que minha mãe fez porque eu vi, mas ela nunca me contou nada. Manteve o mesmo comportamento de minha avó, acreditando que o silêncio da mãe protege os filhos do barulho do mundo.

Deve ser assim. E de repente parabenizamos as mães por todo o trabalho, o sacrifício que fazem e as coisas que deixam de fazer, mas ninguém agradece as palavras que elas tiveram que engolir nem as situações que tiveram que esconder para proteger os filhos.

O silêncio delas nos parece natural porque como filhos nem pensamos que existe, mas é esse silêncio que nos dá segurança para dar nossos passos, para pensar por um tempo que o mundo é generoso e nos espera com alegria. É o silêncio das mães que nos dá a sensação de que nossos gritos serão escutados e atendidos. É o silêncio delas que nos faz acreditar que o mundo é bom. Não as vemos chorar, reclamar, nem contar seu passado.

Mas no meu caso alguma coisa deu errado, todo o silêncio da minha mãe eu transformei em barulho, grito o que tanto ela calou. Talvez um dia eu tenha filhos e aprenda a ficar em silêncio, para protegê-los assim como fui protegida, porque minha mãe tem razão, filhos precisam do silêncio da mãe para acreditar que estão seguros. 

E só Deus sabe o que elas calam.



Iara De Dupont

2 comentários:

Cristina disse...

É, as mães acabam tendo que calar muita coisa pros filhos não sofrerem. Por isso que é importante sermos unidas, por isso nossas irmãs são tão importantes, porque quando as mães se calam pros filhos precisam de alguém que grite por elas, que grite as dores e os sofrimentos delas. Quando todas nós gritamos juntas permitimos que as mães mantenham o silêncio pelos filhos e ao mesmo tempo denunciamos suas tragédias para o mundo. Feliz dia das mães a todas as mães do blog.

Patricia Gabriel disse...

Iara,querida,este texto tem sangue,nervos ,hormônios,úteros e corações encravados nele,gemendo suas dores...é muito verdade,o que passamos,o que resistimos,e muitas das vezes,temos que suplantar a nossa própria dor,para poder tratar da dor deles...não,não podemos chorar ou berrar na frente da família,marido,filhos,pois somos a coluna moral da casa,se a gente desaba,quem será por eles,abaixo de Deus??E isto não trata de machismo ou feminismo,é coisa da intuição,do instinto,se revelarmos toda a exuberância da dor que suportamos,eles se assustam,e não serão mais os mesmos,seguirão desorientados e inseguros mundo afora...

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