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27 maio 2016

O corpo de Cristo, o corpo das mulheres.



Hoje, no feriado de Corpus Christi, uma menina de dezesseis anos, foi estuprada por trinta homens no Rio de Janeiro.
Para a maioria das mulheres o feriado morreu ali.

Para quem não conhece a origem do feriado de Corpus Christi é a seguinte, é uma procissão do povo de Deus em busca da terra prometida. 
Foi o que me disseram e na hora pensei, estamos na mesma caminhada, em busca da terra prometida.

Qual é para as mulheres a terra prometida? Um lugar onde respeitem nossa presença e nosso corpo. 
E tem sido uma longa e árdua caminhada, sem ver nem rastros dessa terra.

Tenho certeza que muitas mulheres, assim como eu, tiveram dor de cabeça e náuseas ao ler sobre o estupro coletivo, a rede foi invadida por protestos e textos, tanto de apoio aos estupradores como de repulsa pelo ato.

Tudo isso causa em nós, mulheres, uma enorme mudança de energia, faz mal ler sobre tanta maldade, nos afeta de maneira consistente. E por quê isso? Porque estamos todas ligadas umas nas outras e as feridas de uma atingem a todas.

Não somos mais seres individuais, não temos mais na ponta da língua a frase ''poxa, que pena, coitada'', hoje milhões de mulheres sentiram na pele a dor dessa menina, a impotência que isso gera e o ódio pelo mundo misógino que habitamos.

Todo o desconforto que sentimos ao ler sobre a menina vem do nosso novo estado de consciência, começamos a perceber a dor que nos rodeia e os estragos que fazem na nossa vida. 
Chegamos a um ponto irreversível, onde raiva, cansaço e ódio se misturam, eu mesma me peguei o dia inteiro desejando a pior morte a esses estupradores, fui de uma maneira ou de outra, envolvida na dor, porque minha alma se quebrou quando fiquei sabendo.

E o que pode ser feito? 
Quebrar todas as paredes de silêncio que nos cercam. No começo é difícil, a energia é densa, nos afasta, mexe com nosso corpo, traz a boca a vontade de vomitar, mas tudo isso é nosso cansaço diante de tantos horrores.

Não é apenas uma menina, são nossas irmãs, filhas, amigas e milhões de mulheres que seguram a mesma corda, paralisadas pelo medo, congeladas pelo pânico, e a frase que todas tentamos esconder ''podia ter sido qualquer uma de nós''. É essa frase que segura nossos passos no chão, que amarra nossas mãos, o medo que nos fragiliza diante da loucura masculina.

É, podia ter sido qualquer uma de nós, mas no momento as coisas chegaram a seu limite e nada vai continuar como está, mudanças serão feitas, sempre foi claro que a agressão a mulher era a mesma coisa que agredir o planeta terra, por isso pensamentos e ações devem ser modificados, as mulheres precisam despertar e perceber o seu valor, precisamos nos livrar do medo que nos imobiliza , o nosso medo tem alimentado a força contrária, o ódio dos homens e sua violência. É como um canal aberto, eles precisam manter o medo em nossas cabeças para assim garantir que não vamos avançar na direção deles.

Estamos suspensas no ar, como se estivéssemos crucificadas, e precisamos mudar a situação.
Despertar nossa consciência, tentar manter o medo fora do nosso sangue e entender nossa posição no mundo, somos mais fortes do que parecemos e mais capazes de mudar o planeta do que pensamos.

Situações como a de hoje servem para nos intimidar a todas, para fazer que recuemos, para manter o medo nos controlando. 

Muitas coisas podem ser modificadas, a primeira delas e mais importante, a nossa união como mulheres, apagar o silêncio que nos divide, começar a falar sobre tudo que nos afeta com amigas, irmãs, mães, primas, precisamos de maneira urgente fortalecer os laços entre nós, encontrar amparo umas nas outras, servir de apoio a todas, precisamos espalhar empatia entre nós e criar uma rede de suporte espiritual, onde possamos falar sobre nossos medos e as energias negativas que nos cercam e apertam.

Para enfrentar toda essa onda de violência precisamos estar fortes espiritualmente, fisicamente resistentes e dispostas a amparar nossas irmãs, todas elas, porque sabemos que apenas uma mulher entende a dor da outra e as consequências das feridas causadas pelo homem.

Se unam em grupos de oração, de igrejas que frequentam, de cultos, do que for, mas façam grupos apenas de mulheres, levantem os muros, fechem as portas e conversem entre vocês, percebam que sem essa união não podemos avançar nem nos proteger.

Toda a desunião das mulheres é fruto de uma cultura misógina que criou essa má vontade, nos ensinou desde pequenas a acreditar que mulheres não têm amigas, todas são invejosas, e fizeram isso porque sabiam que juntas seríamos mais fortes e não toleraríamos a violência.

É um momento tenso, onde o corpo de Cristo crucificado se converteu no corpo das mulheres estupradas, violentadas duas vezes, pelo homem e pela sociedade. 

Mas nós resistiremos, não quebramos antes, não quebraremos agora. E temos boas armas na mão, mas separadas não podemos ir longe.

É a hora de rezar, meditar, fortalecer os laços, tentar controlar o medo e encontrar sua força interior, aquela que o sistema sufocou em todas.

O mundo não conhece ainda o poder de uma mulher que desperta, a força que nasce das entranhas, aquelas que são capazes até de parir um ser humano.
Não sabem que nosso ódio é do tamanho do nosso amor, infinito. Não imaginam que nossa raiva move montanhas, nem pensam que nosso cansaço quebra paredes. Não sabem nada de quem somos nem do que somos capazes. Conseguimos durante séculos, a base de opressão, esconder quem éramos e quem somos.

Mas nada é eterno, a violência não parou e agora chegamos ao ponto onde despertar não é mais uma opção, mas nossa única saída. Não temos como dar ré, só caminhar para frente.

E a todas as mulheres que hoje ao saber da menina se sentiram mal fisicamente, temos que cortar essa corda do medo, eles estão nos controlando com isso e conseguem afetar nossos corpos sem encostar neles.
Tudo isso é energia negativa, é controle, é ameaça velada, o constante aviso de que podem fazer o que quiserem.

Sou obrigada a dizer, toda a energia que envolve essa questão é terrível, baixa e forte, de maneira ruim, por isso digo que chamem suas deusas, rezem, façam o que acreditam, mas se protejam espiritualmente.
Sei que é uma luta terrível e muitas de nós estamos exaustas, mas a tragédia dessa menina nos mostrou a necessidade imperativa de reagir, de modificar a sociedade.

Estamos em uma boa época para reagir, temos a internet e podemos nos comunicar entre todas, coordenando ações, mas nada é mais importante do que fortalecer os laços e segurar na mão das mulheres que nos rodeiam, fechando esse círculo energético nenhum homem pode nos fazer mal. É a lei da defesa, levantando a ponte, fechando a porta e nos fortalecendo vamos poder modificar a sociedade, esse lugar que ficou intolerável para uma mulher viver.

Ainda temos uma caminhada longa para nossa terra prometida, mas vamos chegar, e que o ano de 2016 seja aquele ano lembrado por uma tragédia onde trinta homens estupraram uma menina e acordaram a milhões de mulheres.

Somos milhões, bilhões, mas separadas não somos uma. Juntas somos onipresentes e infinitas, mas precisamos nos dar as mãos e lembrar que apesar do nosso cansaço é necessário lutar pelas nossas filhas e netas, que a nossa presença ao redor delas as proteja e seja mais forte do que o ódio que nos persegue. Que nossa luta se transforme em dias seguros para elas e seus caminhos estejam protegidos. Que seja o ano do despertar das mulheres, da força que rege o planeta, da força que nasce do cansaço. 
Queremos chegar logo a terra prometida e garantir que nossas filhas não passarão pelo mesmo que passamos, que elas amem e respeitem as mulheres que as rodeiam desde o primeiro dia, que elas saibam que são amadas e não cresçam como nós, acreditando nas mentiras dos misóginos que diziam que todas as mulheres se odeiam, eles sabem que o ódio afasta uma das outras e quebra o círculo, assim fica mais fácil plantar o medo nas nossas cabeças.


O mundo não vai nos dar folga, nem os homens vão recuar, mas conscientes do nosso poder podemos avançar sem erro, é apenas darmos as mãos umas as outras e fechar o círculo, aquele que nos protege de todo o mal. E que o mundo conheça nosso poder. Já demorou demais para isso acontecer.


Iara De Dupont

Um comentário:

Andrea K. disse...

Olá Iara!

Prova viva do que você fala é o site do Superela (e tantos outros "portais de colunistas") que eu já falei pra você... Cadê os textos de indignação do estupro feitos pelos colunistas homens e fofos???? São 20:42 e eu só vi dois caras falando sobre isso no Superela... Taí... Muito fofos pra dizer e cagar regra sobre o amor e os relacionamentos, mas quando a coisa fica séria, nego faz a egípcia e finge que não é com ele. Aliás, um bom tema pra você subir com audio é isso: homem que paga de gatinho mas ri da piada misógina que o amigo conta, que não se sente na obrigação de policiar o amigo que sempre julga uma mulher pelo numero de caras com quem ela tenha transado, que usa e abusa de gaslighting e mensplaing quando ninguém está olhando. #homemfofoéocaralho

Bjo sua linda!

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