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31 maio 2016

Foi castigo de Deus ou foi o teu Romeu?


Existem histórias que me perseguiram durante minha infância e adolescência.
Cresci nos anos setenta, o auge da pedagogia e suas novas técnicas, havia um pensamento novo dizendo que crianças eram seres humanos pequenos, com grande capacidade de entendimento, não deveriam ser tratadas como se fossem inferiores ou tontas.
Meus pais acreditavam nisso e permitiam que eu circulasse pela casa à vontade, sem importar quem estivesse ali ou o assunto jogado na roda.

E eu cismei com uma casinha de boneca, mas era muito cara e meus pais me deram uma ideia: para que ter uma casinha de bonecas, se minha boneca poderia morar pela casa inteira? 
Minha mãe me ajudou a montar uma mini-cozinha para minha Barbie debaixo da mesa da cozinha, em um canto da sala montei a salinha da minha boneca, tínhamos uma varanda e coloquei ali a piscina da Barbie, eu ficava quietinha brincando com minhas bonecas, por toda a casa, sem importar quem circulava, depois de um tempo todos se acostumaram a me ver debaixo das mesas e ao ter cuidado com minhas bonecas e suas casas.

Várias histórias eram ditas ali e se repetiam durante anos, eu escutava e guardava.

Hoje condeno abertamente essa pedagogia, acredito que crianças não podem escutar conversas de adultos porque ainda não têm discernimento suficiente para entender o que é dito.

Não acredito que as crianças devam ter acesso a todos os ambientes nem pessoas, mas minha infância se foi e as histórias ficaram.

Cheguei a escrever a mesma história em diferentes posts, com perspectivas sempre distintas, como se cada história tivesse mil lados.

Nos últimos dias uma amiga tenta me convencer sobre a punição divina, ela cismou com a fúria de Deus e quis me avisar.

E comecei a perceber que essa fúria divina parece direcionada apenas as mulheres, não vejo os homens sendo ameaçados por ela.

Pelo menos na minha infância nunca escutei nada a respeito, sobre Deus castigando os homens, mas quanto as mulheres, nossa, parece que o chicote está sempre pronto. Há uma misoginia intensa nessa escolha sobre quem punir, parece que Deus mantém apenas interesse em castigar as mulheres.

E voltei a pensar em uma história, que me acompanhou durante anos, mas agora vejo com uma visão distinta, percebo o quanto a imagem de Deus persegue as mulheres e suas decisões.

Há muitos anos uma amiga da minha mãe, muito próxima, entrou em um grande momento de sua vida. Teve quatro filhos, tanto ela como seu marido tiveram carreiras diplomáticas bem sucedidas e assim que os filhos entraram na faculdade ela resolveu dar um giro em sua vida. Os dois maiores tinham entrado em faculdades longe de casa e os menores decidiram fazer o ensino médio em outro lugar, então a mulher e seu marido pensaram em realizar um antigo sonho: vender tudo e correr o mundo.
Tinham o dinheiro e a liberdade, os filhos criados e uma carreira que poderia ter uma pausa, então começaram a planejar tudo com cuidado.

Venderam a casa, se desfizeram de tudo, escolheram cada lugar do mundo que visitariam, e uma semana antes de começar a viagem a mulher se sentiu mal e foi ao médico, lá descobriu que estava grávida de quase cinco meses, ela pensou que tinha engordado porque estava levando a vida mais solta e não pensou em gravidez porque tinha feito uma laqueadura.

Alguma coisa deu errado e ela engravidou, anos depois da cirurgia.
Na mesma hora ela e o marido pensaram em um aborto, mas era arriscado, já estava em um fase avançada e não poderia ser feito.

Voltaram ao hotel e passaram a noite pensando no que fazer, faltava uma semana para a viagem, que duraria pelo menos dois anos, sem casa, nem móveis.
Pensaram que o melhor seria cancelar tudo e começar de novo, mas estavam animados com viajar e não queriam mais saber de crianças pequenas. Então concluíram que o melhor era esperar o bebê nascer e dar em adoção, essa foi ideia do marido. Mas a mulher não quis, pensou que mais seguro deixar o bebê com sua mãe depois do nascimento e seguir a viagem.

Eles ficaram morando no hotel durante quatro meses, tinham recursos para isso e estavam decididos, quando o bebê nascesse o deixariam com a mãe da mulher e seguiriam seu curso.

O bebê nasceu e foi uma menina, o sonho do casal, acalentado por anos, depois do primeiro menino sonharam com sua menina, mas ela não vinha, vieram mais três meninos. A mulher surtou de alegria e decidiu que ficariam com o bebê, era seu sonho mais precioso, a menina, a princesa que ela tanto quis.

Dois dias depois do nascimento da menina uma enfermeira entrou gritando no quarto da mulher, ela foi pegar a menina no berçário para levar a mãe quando percebeu que ela tinha desaparecido.

O casal era de altas conexões, assim que o alarme foi dado as fronteiras foram fechadas, foi questão de minutos, é o que acontece quando alguém pode pegar o telefone e ligar para o Presidente da República.

Durante semanas a cidade foi varrida com um pente, atrás da menina, mas ela não apareceu.

Tudo foi feito, tudo. O casal tinha muitos recursos e não economizou, foram a televisão, ofereceram dinheiro a quem tivesse a menina e a devolvesse.

Um ano se passou e não encontravam a menina. A mãe começou a perder as forças, se deprimiu e começou a procurar religiosos, no caminho conheceu um Padre que disse a ela:

-Deus tem seus métodos. Você rejeitou a menina no ventre, pensou em deixar ela com tua mãe e ir viajar, não quis a bebê desde que soube que estava grávida, sentiu que ela atrapalharia sua vida. Pois é, Deus não gostou e o desaparecimento dela foi um castigo por tua atitude, peça perdão a Deus e talvez se ele tiver clemência, vai te dizer onde está tua filha.

Assim, em busca do perdão divino pulou de ser uma pessoa sem crenças a uma religiosa fervorosa, se convenceu de que o dia que Deus a perdoasse por ter rejeitado o bebê no ventre, poderia ter a filha de volta.

O calvário não parecia terminar nunca, mas cada vez mais a mulher foi se convencendo de que Deus quis assim, foi castigo divino, foi Deus que deixou isso acontecer.

A mulher ia a casa da minha mãe, sentava na mesa e dizia:

-Às vezes eu penso o seguinte: se ela sumiu é porque foi roubada, então deve estar com alguém que queria muito um bebê, deve ser amada.

Naquela época não existiam esses rumores de tráfico sexual de crianças, nem de roubo de órgãos, quando um bebê sumia as pessoas pensavam que alguém quis muito ficar com ele, para cuidar, não para judiar ou explorar.

Minha mãe sempre concordava com essa versão, dizia que quem rouba uma criança daquele jeito é porque surtou e quer um filho, então a menina deveria estar em boas mãos.

Não eram tempos de câmaras de segurança, nem de celulares, a mulher não tinha nenhuma pista, o máximo que conseguiu foi saber que uma mulher vestida de enfermeira foi vista pelos corredores e ninguém sabia quem era, não era de nenhuma equipe, nunca souberam quem era essa pessoa.

A vida da mulher acabou depois do desaparecimento da filha, o marido foi embora, fez sua vida com outra esposa e seguiu seu caminho. A mulher decidiu dedicar sua vida para encontrar a menina, mas era uma missão cada vez mais difícil. Não existiam registros de roubo de crianças, arquivos, nem computadores que cruzassem as informações.

Ela deu um nome a menina e eu lembro dela sempre na minha casa dizendo ''hoje fulana faria tantos anos'', ''hoje fulana deve estar entrando na escola'', ''hoje fulana já deve saber escrever'', ''hoje fulana já deve ser uma adolescente'', ''hoje fulana deve ser uma linda mulher''.

Escutei isso durante vinte anos. E escutei minha mãe, avó, tias, amigas delas, todas, dizendo a mesma coisa ''tenha fé e confie em Deus, ele sabe o que faz''.

Em algum momento ela viu uma moça, que cantava em um programa e pensou que poderia ser sua filha, foi atrás dela, mas não era.

Um tempo depois escutei ela dizer a minha mãe:

-Estou feliz de envelhecer, isso significa que estou um dia mais perto de morrer e finalmente saber o que aconteceu com minha filha. Deus não me perdoou porque a rejeitei no ventre, mas espero que ele possa ter clemência e me dizer onde ela está, sei que vou achar paz no dia da minha morte.

É, tudo era Deus, Deus, Deus que nunca a perdoou porque ela não quis o bebê no começo. Deus e sua dura punição.

Vinte e cinco anos depois a história deu um giro estranho. Seu ex-marido teve uma doença terminal e contou uma história estranha a uma enfermeira no hospital, ela chamou a ex-mulher, mas quando ela chegou ele já tinha falecido.

Ele contou que na época do sumiço da filha, meses antes, ele se envolveu com uma moça que trabalhava no mesmo prédio que ele. Foi uma paixão louca e ela queria se casar, mas para ele era só uma aventura. A sua viagem pelo mundo com a esposa já estava organizada, então ele pensou que seria uma ótima oportunidade de se livrar da amante, que naquele ponto estava grávida.

Mas assim que a viagem se atrasou pela gravidez da esposa, as coisas se complicaram, a amante começou a apertar mais e mais, querendo que ele pedisse o divórcio. 
A amante teve uma menina, poucos meses antes da esposa parir e começou a dizer ao homem que iria acabar com sua carreira, levar a história a público. Pela sua carreira diplomática e conexões, isso seria péssimo, então ele resolveu ignorar a moça.

Um dia antes da esposa ter a filha, a amante ligou e disse a ele que faria ''algo terrível'', do qual faria ele se arrepender para sempre de não ter ficado com ela.

A esposa teve a filha no hospital e a menina foi roubada, mas o homem não ligou os cabos, não pensou que a amante pudesse fazer algo assim, mas reparou, uns meses depois, que a amante estava quieta demais, tinha desaparecido, então resolveu procurar a moça.

Quando chegou a casa da amante a mãe dela disse que não morava mais ali, tinha ido embora. Ele então perguntou pela filha que tinha tido com ela e a mãe disse que a moça deu ''as duas meninas'' para um casal australiano.

Então ele percebeu o que tinha acontecido, a amante entrou no hospital, vestida de enfermeira, roubou a menina, talvez pensando em fazer alguma chantagem, mas ela se assustou com a repercussão do caso, sabia que se fosse pega acabaria morta nas mãos da polícia, desesperada resolveu se livrar das duas meninas, a que tinha tido com o homem e a que tinha roubado.

Quando a enfermeira contou tudo isso a mulher ela entrou em estado de choque, ficou maluca ao perceber que o marido tinha escondido durante vinte e cinco anos a pista mais importante sobre o desaparecimento da filha.

Ela foi atrás de registros, queria conseguir o nome dessa amante, e foi bem fácil, porque ela tinha trabalhado em uma empresa no mesmo prédio que seu marido e algumas pessoas que estavam ali ainda se lembravam dela. Depois de conseguir o nome foi atrás, mas descobriu que ela tinha morrido em um acidente de carro, sua mãe também tinha falecido, não havia ninguém que pudesse confirmar a história ou dar alguma pista sobre o casal australiano que levou as duas meninas.

Mesmo assim ela não parou, se mudou para a Austrália e começou a abrir expedientes, mas esbarrou com aquele problema comum, e se fosse uma adoção ilegal? Não achou papéis, nem registros, ela ficou dois anos na Austrália e teve ajuda do governo, mas não conseguiu nada.

Voltou para sua casa e fechou a história, não havia mais onde procurar, nem elementos perdidos, ela tinha perdido a principal pista há anos, porque seu marido se calou, tentando evitar um estrago na carreira e o fim do seu casamento.

A vida inteira escutei que tudo nessa história foi culpa da mulher, ela desafiou as leis divinas quando duvidou querer a filha, quando titubeou foi barbaramente castigada por Deus, que quis mostrar seu poder sobre os humanos e o que acontece quando uma mãe rejeita um filho.

Tudo foi Deus que quis assim, que permitiu que isso acontecesse, que a puniu.

Sempre acreditei nessa versão, quem mandou ela rejeitar a menina? Deus castiga mesmo e sem dó.

Foi Deus que fez a história tomar esse rumo.

E hoje, com meu conhecimento do coração humano, vejo que Deus não teve nada a ver com o sofrimento dessa mãe, Deus não mexeu as peças para castigá-la, nem para que fosse devidamente punida.

É apenas aquela história que eu conto em todos meus posts, de maneira diferente, o Romeu irresponsável.

Foi o marido dela que se meteu com uma desequilibrada, mentiu para a moça, enrolou e a levou a cometer uma loucura, roubar uma criança.

Não tem Deus na história, é um Romeu que preferiu ficar quieto para não prejudicar a carreira, mesmo vendo a mulher definhando e enlouquecendo. 
Posso imaginar as cenas que ele deve ter visto, porque cansei de ver essa mulher na casa dos meus pais, chorando, surtando, querendo a filha. Várias vezes minha mãe teve que chamar uma ambulância, porque ela chorava tanto que começava a engasgar.

E muitas vezes o interfone tocava e minha mãe me dizia ''se for fulana some no teu quarto'' e eu sumia. Levei anos para fazer as contas e perceber que tenho a mesma idade de sua filha, a menina nasceu em agosto e eu em setembro. Acho que minha mãe pensou que sua amiga ficaria abalada de me ver, de acompanhar meu crescimento e preferia me esconder, mas a mulher nunca me disse nada, pelo contrário, se sentava para brincar comigo e minhas casinhas debaixo das mesas, me dava brinquedos, sempre me tratou bem.

A minha mãe foi com ela a centenas de videntes, médiuns, enfim, rodaram a cidade, mesmo ela sendo religiosa e procurando o perdão de Deus, continuava atrás de qualquer luz que a pudesse levar a filha.

Às vezes penso nessas histórias que escutei e acredito que vem dali minha desconfiança nos homens, minha pouca fé nos Romeus, coisa que nem disfarço. 
Talvez no fundo da minha alma eu já percebia o dano que um homem pode causar a uma mulher, as mentiras que destroem vidas, os segredos que enterram uma pessoa viva.

Deus foi mencionado como responsável do desaparecimento da menina por anos, décadas, mas o responsável foi o pai, de maneira indireta, ao esconder uma informação que poderia ter mudado o curso da história.

Sei que destinos mudam sem prévio aviso, que caminhos se desviam, e atalhos são erros que todos cometem, mas na minha alma nada me parece mais terrível que tirar um bebê dos braços da mãe, não consigo imaginar nada mais doloroso, não me parece uma destino que foi modificado, mas sim um destino destruído. Condenar uma mãe a vagar pela terra em busca do seu bebê, como alma penada, me parece o fim dos tempos. E pior do que isso é olhar para trás e saber que não foi Deus, foi o Romeu.

E não sei como são esses castigos seletivos por parte de Deus, mas sei que a mulher aguentou a gravidez, não quis dar a filha em adoção, ao contrário do marido, teve o bebê, foi roubado e ela se dedicou a procurar pela filha. E durante anos essa mulher escutou que foi castigo divino, apenas porque ela duvidou se queria ou não o bebê, como se a mulher não tivesse direito a duvidar, como se gravidez fosse certeza de tudo. Foi o céu que caiu sobre a cabeça dela, o pior castigo de todos, condenada a procurar a filha, até hoje diz que sonha com ela.

E qual será o castigo de Deus para o homem? Será que teve ou os castigos divinos se direcionam apenas as mulheres?
Ele mentiu, traiu a mulher, enganou a amante e ocultou a única informação que poderia ter levado a filha, por quê não apertou a mãe da amante na época para saber onde estava a bebê? Deve ter ficado com medo da mãe arrebentar um escândalo, então achou melhor deixar quieto.
Será que tem castigo para quem mente e fica quieto, vendo a mulher definhando todos os dias e chorando pela filha? Um ser humano é capaz de ver isso e ficar quieto?
Tem castigo divino para isso? Cadê a fúria divina diante da traição, do silêncio, das mentiras? Homens não são castigados? Não tem punição para eles?
Nunca escutei ninguém dizer nada sobre o castigo do pai da menina, sempre era em cima da mãe, porque ela era a que estava grávida. Sobre ele ter dado a ideia do aborto ou dar a menina em adoção nunca disseram nada, parece que Deus não estava interessando em castigá-lo por bobagens ditas, mas a mulher sim seria punida, porque era mulher e carregava a criança, então ela seria punida duplamente.

Queria voltar no tempo, quando eu tinha uns seis anos a mulher foi visitar minha mãe e não sei porque ela me disse:

-Iara, seja uma boa menina sempre, nunca, nunca, nunca faça nada que irrite Deus, porque se ele resolver descer a mão, acaba com tua vida. 

Eu queria mudar a história, queria estar naquela sala, com seis anos, escutando isso e poder responder a ela:

-Não foi Deus que acabou com tua vida, foi o teu Romeu.


Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Que história triste e revoltante...
SY

Patricia Gabriel disse...

MAS QUE CARA MAIS MALDITO!NOJO!

Iara,sou crente,e nunca diria que foi Deus quem castigou essa pobre mulher,e tem mais:eu acredito que Ele pune,sim,mas a balança Dele é justa,e esse cara vai arder!

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