ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

16 maio 2016

Dissolvendo teu amor


Há uns dez anos um Romeu terminou o relacionamento comigo da pior maneira possível e depois de ter me pedido em casamento.

Os primeiros dias foram terríveis, achei mesmo que iria morrer, foram momentos de tanta tensão que um dia acordei e não podia mexer o pescoço, acabei indo a um hospital, lá me disseram que era tensão, me deram remédios e colocaram uma espécie de coleira para não mexer o pescoço.

Mesmo com tanta dor física, não se comparava a minha alma, rasgando por dentro e não era uma época de celulares cheios de aplicativos nem páginas virtuais, eu não tinha como ''seguir'' Romeu, estava mergulhada no seu mais profundo silêncio.

Tive certeza naquele momento que eu nunca superaria a situação, e só me levantava da cama pela frágil possibilidade de que ele me ligasse. Foram meses assim, até que não aguentei e caí em uma depressão.

Levei um ano para me recuperar, mas continuava pensando que gostaria de voltar com ele, no fundo sonhava com isso, eu não dizia isso a ninguém, mas acreditava que o tempo mudaria o pensamento dele e acabaria voltando.

Quando melhorei um pouco me joguei no trabalho e acabei conhecendo uma fotógrafa, ficamos amigas e um dia eu contei a ela sobre o que tinha acontecido, eu ainda não estava na fase de ''nunca mais quero saber de homem'', ainda pensava que o amava e queria estar com ele, e ela me disse:

-Isso tem um tempo para acontecer. Você já viu aquelas pastilhas que se jogam na água e dissolvem? O amor não correspondido é assim, se dissolve com o tempo, some na água, muda o sabor, mas não faz mais efeito.

Passei horas argumentando com ela, imagina, amor é amor, ele resiste o tempo que for e ela respondia:

-Amor só dura quando é correspondido, caso contrário vai se dissolver, não se preocupe, o teu Romeu tem um tempo exato, se passar disso a vida vai dissolver ele e o que você sente.

E como eu vou saber se esse amor foi dissolvido?

-Ah, você encontra ele por aí e não sente mais nada, nem amor, nem dor, pronto, foi dissolvido. Não é o amor que se dissolve, é a atitude da pessoa que faz isso acontecer, ninguém mantém o amor sozinho, precisamos do outro lado e se ele fecha a porta as coisas se dissolvem, mesmo contra nossa vontade. Quando o namoro, o casamento, terminam de um modo que os dois deixam a porta aberta e saem de maneira elegante, o amor fica em pé, podem se amar a vida inteira, mesmo longe um do outro, mas quando alguém bate a porta e humilha quem ficou, o amor começa a se dissolver.

Não sei quanto tempo passou, um ano, um ano e meio, mas Romeu me ligou e pediu para conversar. Até o encontro eu não sabia o que sentia, tudo era confuso, mas ao chegar lá percebi que o amor tinha se dissolvido.
Inclusive eu tinha contado a história a minha chefe na época e ela disse ''vai encontrar ele e se não der para voltar depois, não volte, curta o momento''.
Eu tinha essa carta branca na mão e não precisei usar, porque não senti necessidade de ficar ali com ele mais do que o necessário, apenas o suficiente para cumprir com o protocolo e escutar ''me desculpe''.

Saí do encontro muito chateada, aquele amor que pensei que carregaria para sempre não estava mais ali, foi dissolvido pela atitude dele, de fechar a porta de maneira calhorda.

Depois disso comecei a reparar esse padrão do amor dissolvido na minha vida. Quando Romeu era decente, mesmo no final, o amor ficava, até hoje tenho dois Romeus que suspiro apenas de lembrar dos seus sorrisos, meus amores eternos, porque foram dignos no fim, corretos em todos os aspectos e mantiveram a elegância, preservando assim todo o amor que senti por eles.

Mas quando os Romeus foram canalhas, o amor começou a se dissolver, como essas pastilhas e de repente ao acordar ou ver um deles, eu já não sentia mais nada.

Fui me dando conta que algo acontecia dentro de mim, depois que o amor se dissolvia não conseguia mais voltar atrás, depois disso era Romeu morto e enterrado.

E cheguei a uma conclusão, nem sempre gosto dessa sensação, já me conheço o suficiente para saber que depois disso não posso mudar mais nada e minha alma se congela.

Entendeu? É isso. No começo contei as horas, os dias, pensei nos compromissos que atravessavam as desculpas e a falta de respostas. Marquei o calendário na geladeira, fiz apostas mentais e prometi que resistiria bravamente. E pensei em milhões de conversas que teria com você, das coisas que iria dizer, dos assuntos pendentes, mentalmente conversei com você por horas, todos os dias, algumas vezes eu estava brava e jogava os cachorros, outras eu cedia e te escutava. Desenhei tuas respostas, imaginei prováveis perguntas e dúvidas, pensei em pedras que teria que pular, em abismos que teria que cruzar e na distância que nos separa, que divide o que um dia fomos e o que somos hoje.

Mas os dias se passaram, começaram a virar meses e meu amor está se dissolvendo mais rápido do que eu gostaria. E não gosto da sensação, não queria te ver na água, sumindo pelo ralo da existência, não queria que você entrasse de maneira tão ordinária a esse lugar, onde meus amores vazam e somem nos canos do planeta, misturados com o esgoto.

Nunca te quis ali, mas não posso mudar o curso da história, me consola pensar que a decisão foi tua, se você tivesse sido decente, correto, e elegante, eu teria conseguido evitar dissolver todo meu amor, talvez teria conseguido salvar uma parte, mas com essa atitude eu não posso lutar.

No fundo eu só queria isso, salvar um pouco do amor profundo que senti por você, mesmo sem te ter por perto, apenas queria salvar o amor.

Não é ódio, nem indiferença, é a água encostando na pastilha, que não pode fazer nada além de se dissolver.

E digo o quê, uso o clichê de ''a vida é assim''?
Não, ela não é assim, ser decente com a pessoa que um dia amamos é uma escolha nossa, não da vida.

Te quis em qualquer gaveta da minha vida, qualquer canto da minha casa, qualquer espaço da minha alma, eu teria te cuidado o resto dos meus dias, preservado cada segundo que vivi com você, mas vejo a pastilha se dissolvendo na minha frente e não posso fazer nada.

Bater a porta sempre é uma atitude covarde e mesquinha. Sempre se quebra a maçaneta ao fazer isso.

Dizer ''um dia a gente conversa, Iara''. 
Não, não, eu não converso com meus amores, e quando eles deixam de ser meus amores, não quero nem ver o nome deles na minha frente.

Minha mãe diz que o amor aguenta muitas provas, que tanto amor não morre assim, ela tem razão, ele não morre, se dissolve quando batem a porta na tua cara.

E já me disseram ''deixa as coisas esfriarem e depois você procura por ele e resolve''.

Ah, essa parte é engraçada! Eu não deixo nem meu chá esfriar, imagina um amor! Pra quê correr atrás do amor quando está frio? E faço o que com isso? 
Não sou mulher de água morna, nem de chá que esfria, muito menos de amores que congelam.

Se meu amor existe ele é quente, ferve pelas bordas, faz a panela queimar. Não jogo gelo nem coloco na pia para esfriar, não jogo em outras xícaras.

No dia que você bateu a porta na minha cara eu pensei ''vai dar merda''. Deu. Se dissolveu, se perde na água, na raiva que se mistura com a surpresa, sim, eu me pergunto, como você foi capaz disso? 
Ah, o ser humano é sempre uma surpresa! Mas é difícil aceitar quando estamos apaixonados pela pessoa.

Não tenho doze anos para riscar na porta do banheiro ''não te amo mais'', nem escrever no caderno ''tchau''.
Mas vejo os dias passando, os meses, e sinto o amor se dissolvendo, caminhando para um abismo sem volta, enquanto meu cérebro luta e se pergunta ''poxa, por quê você?'', tantos Romeus que poderiam sumir e eu não choraria nem em suas tumbas, mas por quê você? De todos os amores que eu dissolvi ou quis dissolver, você jamais foi um deles, pelo contrário, para mim você sempre foi meu amor intocável, aquele que seria eterno, mesmo no caos.

Te queria para sempre, nem que fosse na minha memória, nem que fosse naquela varanda, nem que fosse a última coisa que eu lembrasse nessa vida.

Você, meu amor, o maior de todos meus amores, virou um estranho que se dissolve na água? Você e teus olhos castanhos, o sorriso de garoto, tudo isso some na minha frente, de maneira irremediável e sem retorno. Justo você, o mais amado, o mais cuidado, o mais protegido. Aquele que nunca escutou da minha boca nada que meu coração não dissesse, aquele que guardei o nome durante décadas debaixo da minha almofada, porque diziam que isso iria te trazer de volta a mim. Meu amor de tantas frustrações e noites longas, dias curtos e meses arrastados. Meu amor, esse que pensei que sempre chamaria assim, de ''meu amor'', ''meu amor'', ''meu amor''....... 

De todos os amores dissolvido já vi que você vai ser o mais dolorido, o mais chorado, o mais perdido. O que nunca pensei que estaria ali, no meio da água, sumindo na minha frente. Ter te amado por tanto tempo me convenceu de que as coisas nunca acabariam assim, mas acabaram.

São os dias que passam, são os meses que arrancam a folha do calendário, é a vida, são os amigos que me avisaram, é a pastilha que vai se dissolvendo e minha única certeza ao assistir isso: nunca quis que terminasse assim, nem nos meus piores pesadelos pensei que poderia acontecer, mas aconteceu.




Iara De Dupont

Nenhum comentário:

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...