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06 maio 2016

As rosas vermelhas, o penhasco e a cruz que carregamos.


Das milhões de coisas que não entendo neste mundo está aquela de gostar de alguém que não gosta de nós.

Não entendo bem essa parte, me parece que se alguém mexe com você é porque existe alguma ligação, então por lógica você deveria mexer com essa pessoa.

Mas o que sei é o seguinte, gostar de alguém que não gosta de nós é como se jogar de um penhasco, só sentimos o vazio e a descida. 

Um amigo me disse uma vez que tudo na vida era desencontro, as pessoas circulam no mundo, esbarram, mas não se percebem e no fim acabam afastadas de quem gostam.

Há muitos anos aconteceu uma coisa estranha na vida de uma amiga.
Nós estávamos em um grupo de teatro, nos mudamos a outro e ela parecia interessada em um dos atores, mas nada além do normal. Tinha outro grupo que ensaiava no mesmo espaço, cruzamos com eles milhões de vezes e tudo parecia tranquilo, até que um dia essa amiga veio me dizer que estava apaixonada por um dos atores, assim, sem mais nem menos. Todo mundo achou estranho, o rapaz era bem comum, sem graça e ainda por cima era casado.

Não lembro quanta saliva gastei ali para tentar convencer a minha amiga que era uma roubada, não só pelo casamento do rapaz, mas porque ele era um homem sem carisma.

Mas minha amiga surtou, só falava e pensava nele e o rapaz logo percebeu o interesse e a puxou, começou com convites para almoços e jantares e foi deixando a moça cada dia mais apaixonada.

Não sei até onde eles foram, porque na época ela começou a ficar tão obcecada com ele que foi cortando as amizades, inclusive eu.

O amor dela parecia não ter fim e ninguém entendia nada, foi a primeira vez que vi tantas pessoas fazerem a mesma pergunta, o que ela via nele? 
Ele tinha fama de antipático e isso o afastava de todos.

Um dia eu fui com minha amiga a casa de sua avó, que lia as cartas, ela queria saber se o rapaz iria largar a esposa e ficar com ela. A avó dela abriu o jogo de cartas e perguntou a ela se tinha aceito alguma comida ou bebida dele, bem no começo. Ela negou, mas eu lembrei que um dia nós estávamos sentadas em um banco de jardim e ele se aproximou oferecendo bolachas caseiras, eu não peguei porque não gosto de bolachas, mas minha amiga pegou várias.

E a avó disse ''ele te embrujou (enfeitiçou) com as bolachas''.

Achei que minha amiga iria pular da mesa, mas recebeu a notícia com a maior calma do mundo, não disse nada. Então a avó dela pegou um papel e escreveu um endereço, me deu e pediu que eu levasse sua neta ali, mas fosse sem falta.

Na saída eu disse a minha amiga que era bom ir de uma vez, até pra acabar com isso e ela respondeu:

-Iara, eu tenho o maior respeito pela minha avó, mas acho que todos vocês já estão me desrespeitando. Qual o problema? Me apaixonei por um homem feio, baixinho, um ator medíocre, mas caramba, a vida é assim, qual é meu crime?

Ele é casado.

-E vai se separar, é o amor da minha vida, e olha, já conversei com ele a respeito, ele está procurando outro lugar para morar e começar a tramitar o divórcio.

Mas você não acha nada estranho? Pensa bem, nós temos dois meses ensaiando antes do grupo dele, vocês nunca trocaram nenhuma palavra, talvez um ''oi'' e de repente você aparece apaixonada, totalmente fora de si, não é estranho?

-Tenho 22 anos! Você queria o quê?

Não sei, mas alguma coisa não faz sentido. É melhor ir com a pessoa que tua avó recomendou e virar a página.

-E você acredita que o amor faz sentido? O amor é assim mesmo! 
E acha que pode dar em alguma coisa ir a um bruxo? Minha avó lê cartas, não é profeta, vocês acham que podem fazer alguma coisa contra o amor?

Não, mas é bom ter outro parecer.

E lá fomos nós, atrás de um endereço distante, uma casa que ficava no meio do nada. Não tinha nem campainha, e veio um senhor atender, bem pequeno, parecia quase um anão. Nos recebeu e eu ia explicar a situação quando ele disse:

-Eu já sei o que é. Vá na esquina e compre uma dúzia de ovos.

Voltamos e entramos na casa, ele colocou minha amiga em um círculo de ervas e jogou álcool, depois prendeu fogo.

Quando acabou perguntou a minha amiga se ela acreditava que estava ''embrujada'' e minha amiga disse que não. Então ele me chamou e me disse:

-Pegue um ovo.

Eu peguei, ele passou em mim, quebrou em uma panela e o ovo estava normal. Pegou um ovo, passou ao redor do corpo da minha amiga, quebrou e o ovo estava podre, era além de podre, era um líquido preto nojento.
Na hora pensei que isso era apenas matemática, de vez em quando vem na caixa alguns ovos podres. Mas ele continuou fazendo, passava um ovo ao meu redor e quebrava, estava normal, passava na minha amiga e o ovo estava podre. Ele quebrou todos os ovos ao redor dela, até que eles começaram a aparecer normais.

E disse:

-Pronto, já tirei o ''embrujamiento''.

Eu saí de lá passando mal pelo cheiro, eu não como ovos há anos e o cheiro me virava o estômago.

Fomos a uma lanchonete para beber um pouco de refrigerante e passar o enjoo, e perguntei a minha amiga como estava se sentindo, e ela respondeu:

-Palhaçada né, Iara. São as oito da noite, estamos de lá pra cá desde o meio dia. Tudo bobagem, o que você quer ouvir? Eu ainda o amo.

Ela foi para sua casa e eu para a minha. Mas no dia seguinte combinamos de nos encontrar perto do local de ensaios. E fomos caminhando, de repente o rapaz atravessou a rua, veio nos cumprimentar, ela ficou olhando, cumprimentou e saímos andando.
Ele percebeu o gelo que levou, eu também fiquei um pouco surpresa com a atitude dela.

No fim do ensaio perguntei porque estava dando um corte no rapaz e ela disse:

-Por que deveria tratar diferente?

Porque até ontem era o amor da tua vida.

-Nem me fale! Mas agora penso nele e me dá enjoo.

Achei que ela estava brincando, mas foi assim durante semanas, não falava com ele e se tocávamos no assunto ela ficava irritada, dizendo sentir vergonha de ter gostado de um ''homenzinho'' daqueles.

Ele ficou chocado e me procurou, um dia apareceu na minha casa para conversar, queria saber o que tinha acontecido, eu disse que não sabia, mas ele não se conformava e começou a mandar flores, cartas e chocolates para a moça. E ela jogava tudo fora.

Eu cheguei a pensar que ela estava fingindo isso e talvez se encontrando com ele por fora, mas eu tinha uma convivência muito próxima a ela e percebi que algo tinha acontecido, o encanto tinha acabado, era mesmo um ''embrujamiento''.

Nunca soubemos o que aconteceu, se foi um surto dela, se foram as bolachas, mas a questão é que eu vi atitudes que nunca tinha visto antes.
Um dia antes de ir com sua avó nos vimos o rapaz no ensaio e minha amiga nem conseguia falar com ele, de tanta emoção, ela parecia hipnotizada e todos perceberam isso. No dia seguinte de ter ido ao bruxo ela era totalmente indiferente a ele, como se não existisse. 
Lembro de estar com ela estudando o texto quando ele passou por perto e ela nem se mexeu, se fosse antes teria ficado olhando.

Não sei o que aconteceu ali, não tenho a menor ideia. Depois de uns anos ela aceitou a teoria de que estava ''embrujada'', mas não entendemos o motivo do rapaz ter feito isso. Várias histórias chegaram aos nossos ouvidos, que ele era casado com uma ''bruxa'' e entre os dois gostavam de fazer essas maldades, que ele queria se livrar da mulher e resolveu enfeitiçar outra para começar uma briga e sair de casa. Muitas pessoas contaram histórias sinistras sobre ele, mas nunca confirmamos nada.
E faz pouco tempo ficamos sabendo que ele dá aulas de artes plásticas xamânicas, sei lá o que é isso, e continua casado com a mesma mulher.

Mas uns meses depois desse episódio minha amiga se apaixonou por outro rapaz, mas ele iria se mudar de país e ela teve uma ideia brilhante, me ligou e disse para que fôssemos novamente ao bruxo, para que ela desencantasse e esquecesse o rapaz antes dele viajar.

Naquele momento eu sofria por um amor não correspondido e achei a ideia ótima, também iria e tiraria o rapaz do pensamento.

Chegamos lá e veio o senhor abrir a porta. Perguntamos se lembrava de nós, ele disse que sim e perguntou o que queríamos, falamos que estávamos com umas pessoas na mente e os queríamos tirar dali. E ele respondeu:

-Eu não trabalho com isso, vocês duas estão apaixonadas, eu não lido com essa parte, apenas tiro os ''embrujamientos'' e não é o caso das duas, passar bem.

E bateu a porta na nossa cara. Minha amiga bateu de novo, insistiu, disse que precisava de ajuda, ele abriu a porta e disse:

-Não é ''embrujamiento'', é amor, seja adulta, o amor é a mesma coisa para todos, uma confusão, um nó, aceite as consequências de sua vida e se deixe levar pelo o que sente, não existe remédio para o amor. É a sina de todos, sempre vamos amar mais do que somos amados e nem sempre vamos amar quem nos ama ou ser amado por quem amamos. É a nossa cruz, carregue a sua com dignidade, moça.

E fomos embora.

E tantas vezes, tantas, eu pensei nesse senhor, vontade de ir lá correndo e pedir para me fazer o fogo das ervas, ou me limpar com ovos para tirar a pessoa do meu coração. Queria que tudo fosse tão simples como foi para minha amiga, que um dia acordou e não estava mais apaixonada.

E queria perguntar a ele se tem alguma coisa que me tirasse do fogo cruzado que estou vivendo no momento.
Por um lado arrasto correntes por um Romeu que não gosta de mim e por outro tento desviar de situações que outro rapaz cria.

E sinto o abismo dos dois lados, é terrível viver a mesma emoção em lados opostos, como se fosse um filme, onde tem aqueles gêmeos, um bom e o outro ruim.

Hoje tive a certeza de como essa linha que divide as emoções é amarga. 
De manhã conversei com uma amiga, que acabou deixando escapar algo sobre o Romeu, lamentei com ela que ele não tivesse me dito nada, não fez questão de contar o que aconteceu na sua vida, cada vez mais deixando claro que eu não existo para ele. Carreguei essa sensação durante horas, até que no almoço me chamaram e disseram que tinha uma encomenda esperando por mim. Desci para ver o que era e tinha um ramo de rosas vermelhas em cima da mesa. Na hora pensei nesse rapaz que vem me cercando e na minha mente cruzou ''por favor, que não sejam dele'', mas eram.

Meu chão se abriu, eu sabia que ao pegar as rosas teria que ligar e agradecer, mas como podemos agradecer um gesto que não chega no fundo da alma, porque não vem de quem amamos?

E a tarde inteira tive uma amiga ao pé da orelha me dizendo para ''tentar'' algo com o rapaz das flores e esquecer o outro, mas não é tão simples assim.

Eu não sou de ''criar'' amores, gosto desde o começo, o primeiro segundo, não gosto depois.

Mas a sensação de receber flores de quem não amamos é terrível, o chão fica frio. Já recebi flores de namorados e eu sempre pulo de alegria, ligo para todas minhas amigas, grito, berro, fico maluca, acho lindo qualquer gesto desses, quando estou apaixonada ou interessada pela pessoa, mas sem estar senti até as rosas pesadas.

As coisas são assim, por pior que possam parecer. De repente uma meia mensagem de uma pessoa muda teu dia, de repente uma mensagem de outra te deixa em uma situação constrangedora, como dar um fora sem magoar?

Também queria simplificar minha vida e correr aos braços do Romeu que teve a gentileza de mandar rosas e esquecer do outro, mas nada funciona assim. Não sou de esquecer um amor nos braços de outro, principalmente se é um amor que ainda mexe tanto comigo.

E de nada adiantam os conselhos ''tenta um novo amor'', ''desapega'', ''esquece'', ''cai na real'', ''não perca oportunidades'', ''Romeu já te deu o fora'', ''você está perdendo tempo'', ''Romeu não vai voltar''....

Minha mãe passou perto, viu as rosas e disse:

-Não preciso nem perguntar de quem são. Fossem do teu Romeu amado você estaria beijando cada pétala até agora.

É. Mas Romeu não tem esse perfil, nunca mandaria rosas.

-Não manda porque não precisa, não está interessado, se estivesse mandaria. 
Já agradeceu ao rapaz que mandou?

Já! Mas esse é parte do meu conflito, rosas não são como mandar ''oi'' no celular, quem manda rosas espera um agradecimento mais intenso, se fosse o Romeu eu teria corrido a sua casa, estaria nua na sua cama, teria jogado as pétalas por toda sua casa, mas como não é ele e quem me mandou não me interessa, faço o que? Disse ''obrigado'', mas me pareceu tão vazio dizer isso.

Passei a noite pensando nisso, como é vazio amar sem ser amada, ser amada sem amar. É como estar na beira de um abismo e jogar as rosas ali, sem conseguir ver elas caindo. Todo o amor dado a uma pessoa que não nos quer é como se jogar nesse abismo, uma viagem sem volta, sem rede de segurança.
Todas as rosas arrancadas do pé e enviadas a alguém que não nos ama é tanto amor perdido, amor vagando sem rumo, como dizia o bruxo, a cruz que todos carregamos.

É tudo um grande desencontro, uma maneira estúpida de complicar a vida, mas será que temos essa escolha? Posso escolher fabricar um sentimento pelo rapaz das rosas? Como faria isso se nem consigo esquecer do Romeu?

Não entendo porque tanto desperdício de amor! Tão simples se Deus fizesse as pessoas que vão se amar se encontrarem logo, para acabar com esses atalhos.

Fiquei com pena das rosas que foram cortadas e não chegaram aos meus braços cheios de amor, não sentiram minha gratidão nem alegria. Foi um gesto gentil, mas recebi com educação, não com um coração pulando de felicidade. 
E não foi uma indiferença fabricada, foi falta de amor mesmo.

Assim como ao saber de Romeu, minha amiga me perguntou se eu o parabenizei por uma situação que ele passou, eu nem sabia, e disse a ela que não falo com ele há semanas e não tenho motivos para falar. Caso eu ligasse meu parabéns seriam para ele tão distantes como foram para mim as rosas que o rapaz me mandou.

E tenho inveja profunda de quem sabe pular no penhasco e sobreviver, consegue dizer ''bom, Romeu não me quis, tudo bem, eu vou cair pra dentro com o rapaz das rosas''.

Ah, como eu queria ser assim! Mas meu amor é chão que sinto ao pisar, não consigo caminhar nas nuvens, nem criar amores como se fossem sucos de maracujá no meio da tarde.

É uma sina ser assim, amor de penhasco, aquele que se joga ao vazio, mesmo sem ser amado. É a cruz que alguns de nós carregamos, dividindo o caminho entre quem amamos e quem nos ama.

E vejo as rosas na minha frente e lamento por todos os envolvidos, pelo rapaz que gosta de mim e eu não gosto dele, pelo Romeu que amo e não me ama, pelas rosas que foram cortadas, pelas palavras que eu nunca disse ao Romeu. Parece que cada um carrega uma cruz e os caminhos são separados, apenas ligados por segundos. Todos nos desencontramos e a noite ficou gelada.

Eu queria ter tido outro final, gostaria de contar que as rosas vermelhas e lindas que recebi no final da tarde vieram do Romeu, que eu tanto amo e sinto falta, e que daqui pra frente tudo vai ser diferente. Queria dizer que essas rosas foram cortadas, mas são amadas por mim e são sinal do homem que mais amei até hoje. 
Mas minha história não termina assim, é apenas outro conto sobre uma mulher que ama um homem, que não a ama, mas ela é amada por outro rapaz. E as rosas foram cortadas à toa, perderam a vida por nada, para morrer lentamente em um vaso de água podre, junto com meu coração. 


Iara De Dupont

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