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01 maio 2016

As esfihas do amor (ou será do desamor?)


Minha mãe tem uma amiga desde a infância. A conheço desde que nasci, nunca me tratou mal, nem foi grosseira, mesmo assim jamais consegui gostar dela.

Muita gente dizia que eu tinha ciúmes da minha mãe, devia ter, não nego, mas essa é a única amiga dela que eu não gosto.

Com o tempo e a idade adulta comecei a perceber que essa amiga me irritava porque a considero uma pessoa ''dura'' e de decisões que me parecem extremas.

Mas hoje me dou conta que ela tem uma certa razão, cansei de ver ela discutindo com minha mãe, porque as duas são diferentes em tudo. Minha mãe parece que está ligada no botão da empatia o dia inteiro, tudo a comove, ela quer ajudar todo mundo e sempre sofre pelos outros. Já sua amiga bate a porta na cara de quem for, manda à merda e isso pode incluir até seus filhos, se precisar. Vi várias vezes minha mãe intercedendo e pedindo para a amiga ter paciência, mas ela respondia que a vida era assim, sem moleza.

Como o tempo já passou tenho que reconhecer: a amiga da minha mãe acertou na vida várias vezes, até quando parecia estar sendo cruel e sem sentimentos.

Uma das vezes que eu vi a confusão crescer e crescer, foi quando a filha dessa amiga engravidou, ela era bem jovem e não teve tempo de entrar em uma faculdade. 

O rapaz era vendedor e não tinham condições de alugar um apartamento, então se mudaram para a casa da mãe da moça. No começo a mãe deu todo o apoio, fez uma reforma na casa para ter mais espaço e para que todos tivessem um pouco de privacidade.

Mas sua filha sempre foi inquieta, dessas que não param quietas e mesmo grávida conseguiu juntar um dinheiro e mandou fazer um forno grande, iria começar a cozinhar esfihas e vender.

A mãe e a filha são muito ligadas, até hoje é comovente ver as duas juntas, na hora que a filha decidiu que faria as esfihas a mãe comprou a ideia com ela.

E começaram assim, faziam a massa, preparavam a carne, corriam atrás de lugares que quisessem comprar e levavam as bandejas. Nesse meio tempo a filha se casou com o rapaz, que continuava vendendo seguros de saúde.

Elas ficaram meses nesse trabalho de fazer esfihas e entregar, até que um dia um acidente mudou tudo. A casa delas fica em um terreno inclinado, é preciso descer escadas para chegar ali. A filha estacionou o carro, pegou a bandeja com as esfihas que tinham sobrado e desceu as escadas, no meio da chuva acabou escorregando, e rolou abaixo, com uma barriga de sete meses.

Foi para o hospital, nada aconteceu com o bebê, mas o médico aconselhou que ela ficasse de repouso até o nascimento.

A mãe deixou a filha no hospital e voltou para a casa, abrindo a porta, segundo ela conta, viu o genro assistindo televisão, ela teve um surto, subiu no quarto do filho, pegou uma barra de ferro que ele tinha ali, voltou a sala, quebrou a televisão e disse ao genro:

-Chega de vida mansa! Minha filha está no hospital e quase perde o bebê porque caiu na escada, carregando uma bandeja de cinquenta esfihas que não conseguimos vender. E tudo isso por quê? Porque ela tem um bosta como marido, que não consegue pagar um aluguel, deixa ela morando aqui e fica coçando o saco. Você é vendedor e tem meses sem vender nada, minha filha se mexeu e pelo menos consegue vender as esfihas. Você não paga água, luz, aluguel e muito de vez em quando faz um supermercado.
Amanhã você vai procurar outro emprego e tem quinze dias para sair daqui.

Então o genro se levantou e disse que iria embora, mas levaria a mulher junto e a mãe respondeu:

-Seu merda, vai levar para onde, uma mulher grávida de sete meses? Se quiser pode ir embora agora.

O rapaz não foi embora e no dia seguinte ela contou a minha mãe e outras duas amigas que tinha expulsado o rapaz da casa dela, e todas surtaram, disseram que ela não tinha direito de se meter no casamento da filha e era falta de respeito tratar o genro assim, minha mãe ainda tentou defender o rapaz, dizendo que estava começando a vida, que era assim mesmo.

Dois dias depois a moça voltou para casa e foi informada pelo marido que a sogra tinha dito para que ele saísse de lá. Indignada com a mãe, ela foi tirar satisfação e a mãe disse:

-É isso mesmo, quero ele na rua. E se você quiser ir junto, problema seu.

-Mas eu não tenho para onde ir.

-Então você fica e ele vai.

-É meu marido!

-E só vai ficar aqui se começar a agir como um! Que bosta de homem é esse, que não se mexe além do mínimo? Não o chamaram para organizar eventos? Por que não aceitou? Ah, porque não gosta de trabalhar à noite. Pois é, mas eu estou sustentando esse vagabundo e ele não é meu filho, minha obrigação é com você, porque é minha filha, não com ele.

A filha abaixou as orelhas e foi conversar com o marido.
No dia seguinte sua irmã trouxe um monte de tecidos, que ela pediu, tinha resolvido que já que estaria de repouso iria costurar roupa para que a irmã vendesse.
Quando a mãe dela ficou sabendo disso, o circo pegou fogo de novo, ela foi reclamar com a filha, e foi bem clara quando disse:

-Você não vai costurar nada, não vai fazer coisa nenhuma, chega de amenizar a vida do teu marido, acabaram de se casar, deixa ele pegar jeito agora ou aguenta depois, tem que virar homem, ele já percebeu que você é de agir, de se mexer, faz dinheiro e já encostou. Aproveita esse fim de gravidez para dar uma coça nele, eu te apoio.

A filha ficou na dúvida, mas teve outro problema na gravidez e abandonou a ideia de costurar, ficou as últimas semanas na cama.

O rapaz viu a mulher deitada, a sogra pressionando e não teve opção, se mexeu, aceitou o emprego noturno de promover eventos e de dia trabalhava como vendedor.

A criança nasceu muito frágil e com um problema respiratório, exigiu muitos cuidados da mãe. Ainda moravam todos na casa da mãe da moça e ficaram ali por mais quatro anos, até que o rapaz conseguiu alugar um apartamento.

Mas nesse período difícil a sogra não largou do pé do genro, exigiu que ele pagasse as contas do que gastava, não dava trégua.

E todas as amigas da minha mãe ficavam malucas com essa história, imploravam para que ela parasse de se meter no casamento da filha, que o rapaz acabaria indo embora e ela respondia:

-Se for embora vou achar ótimo! Eu gosto dele, é boa pessoa, mas minha filha permitiu que ele encostasse e olha onde deu. Sou dura com ele porque tem que aprender que cuidar de uma família não é opção, é obrigação.

O rapaz deu certo como promotor de eventos, se achou na vida, ele não sabia o que queria, o que gostava, enfim, vivia perdido, mas depois de aceitar o emprego descobriu que era o que tinha a ver com ele, as viagens, as pessoas diferentes, e trabalhou tão duro que ficou milionário, montando uma empresa gigante.

Nos primeiros anos a mulher não trabalhou, pela menina que tinha problemas de saúde, depois ela voltou ao trabalho e também era pé de boi, trabalhava muito, mas foi fundamental que ela não tivesse feito nada no começo, assim deu tempo do marido cair na real e acordar, ser responsável pela sua família.

E um dia a moça disse para minha mãe:

-Acho que meu marido era folgado porque ele se sentia mal perto de mim, eu vou lá e faço as coisas, ele se sentia diminuído, nunca liguei para pedir ajuda, nem quando usei o forno a primeira vez avisei. E quando eu tive que parar com tudo ele se viu obrigado a agir, isso ajudou na autoestima dele, começou a ver que também era capaz de levar sua família.

Esse nervo é bem conhecido da maioria das mulheres, na nossa ânsia doentia em sermos amadas, nos transformamos no que eu chamo de ''agentes facilitadoras'', parece que temos prazer em facilitar a vida do homem.
Colocamos o tapete no chão para que eles passem, nos filmes são eles que jogam seu casaco na poça de lama para que as mulheres não sujem seus pés, mas na vida real somos nós, mulheres, que jogamos o tapete e facilitamos a vida deles.

E o que eles fazem? Encostam! Fazem o que qualquer ser humano acaba fazendo, mas no caso deles sem culpa nem remorso. E ainda carregamos o sentimento de que se agimos, pisamos na autoestima deles!

Mas vejo tantas mulheres fazendo isso, amenizando a vida do marido.
E penso nesse caso, se a mãe da moça não tivesse entrado de maneira tão dura na história, tudo teria sido diferente, com certeza eles continuariam morando na casa dela, ele empurrando a vida como vendedor e ela subindo escadas com bandejas de esfihas, se matando na frente de um forno enquanto ele assiste televisão. Mas graças a pressão da sogra, que chegou a fazer coisas extremas, como desligar o chuveiro quente porque ele não tinha pago a conta de luz, mas foi por atitudes assim que ele reagiu, no fundo deve ter ficado muito puto da vida com a sogra e aproveitou a vida de promotor de eventos para ficar um pouco longe dela, mas deu certo, pelo menos se mexeu na direção correta.

Na época todo mundo condenou a sogra, até a família do rapaz que morava em um outra cidade, quando ficou sabendo a mãe do rapaz fez questão de ligar e dizer para a mulher ''você está tratando meu filho como lixo, queria ver se fosse tua filha, você acha que eu iria esvaziar a geladeira e colocar um recado dizendo ''ups, não tem comida porque você não foi ao supermercado''.

E a mulher respondeu ''queria eu ver se fosse tua filha, escorregando pela escada, grávida, enquanto seu marido assiste televisão, queria ver se fosse tua filha queimando as mãos no forno, pegando encomendas e fazendo duzentas esfihas com um barrigão de sete meses, porque o merda do marido não vendeu nada''. Quer que eu trate bem teu filho? Tivesse educado ele para ser homem e tratar minha filha bem.

E durante os quatros anos, cinco, que todos moravam na mesma casa o ambiente não era dos melhores, mas com o tempo se acostumaram, principalmente quando o rapaz começou a colocar dinheiro em casa.

Minha abuelita sempre dizia isso ''homem é bicho de costume, se você fizer o jantar todos os dias, ele vai pensar que é assim e o dia que você não fizer, ele vai reclamar, então não faça nada todos os dias''.

Já cansei de ver tantas mulheres no mesmo ritmo que essa moça, capazes de cozinhar centenas de esfihas, mas sem se incomodar com o marido assistindo televisão. Eu nunca entendi porque ele não ajudava a moça nem para entregar as esfihas, sempre dava um jeito de sair fora.

Na época que tudo isso aconteceu essa amiga ia muito a casa da minha mãe, eu acompanhei de perto esse drama dela perseguir o genro e me parecia terrível, meu pai dizia horrores para ela, a chamava de ''bruxa'' e ''sogra maldita''. Todos diziam que ela era péssima pessoa e  tinha inveja da filha estar casada e ela ser divorciada, mas ela dizia que apertava o rapaz porque queria proteger a filha de ter um casamento como o dela, que também se virou nos trinta enquanto o marido empurrava a vida com a barriga. Ela sempre argumentou que jamais quis prejudicar o rapaz, apenas proteger a filha de um vagabundo, que no fim não era vagabundo, estava apenas perdido na vida.

E tenho um amigo que me disse que os relacionamentos dão certo porque o desespero por ser amada leva a mulher direto ao encontro do homem, que está desesperado por uma vida mansa e comida quente. Então essas duas forças se juntam e começa o caos.

Mas o caos só nós, mulheres, conhecemos. Somos a única espécie no universo que trabalha com uma barriga de sete meses enquanto o homem descansa. Somos as únicas neste mundo de Deus capazes de fazer uma loucura dessas, totalmente cegas e sem a menor noção da realidade.

Eu digo a mesma coisa sempre, se a mulher quer cozinhar mil esfihas para ter uma vida melhor, que o faça, mas que acorde e não faça isso enquanto Romeu assiste televisão. Temos que recuperar nossa dignidade, não podemos mais estar mendigando amor dessa maneira e tratando os homens como objetos adorados, que devem ser cuidados e preservados.

Não podemos mais gastar energia em relacionamentos que funcionam nessa dinâmica, onde apenas um se mexe.

E a moça da história não acordou porque caiu da escada grávida, ela teve a sorte da mãe estar ali e defendê-la, foi a mãe que colocou os limites e mudou a história.

Mas quantas temos mães assim? A grande maioria, incluindo a minha mãe, teria dado um espaço enorme ao genro, entendendo que não é fácil vender, que o rapaz faz o que pode e blá, blá, blá....

E fica aquela velha regra, se vai cruzar limites, que o outro o faça também. Se a moça podia cozinhar quinhentas esfihas, o rapaz também poderia encontrar outro emprego, era questão de querer.

Não importa a situação, nem o Romeu, mas você está se ralando enquanto ele assiste televisão, bom, essa história todos sabemos como termina.

Prefiro a outra, do rapaz que era vendedor, a sogra apertou, ele pegou outro emprego e ficou milionário. Gosto mais desse final.



Iara De Dupont

4 comentários:

Mônica disse...

Adorei! Se todas as mães fossem assim, talvez, a misoginia e o machismo fossem muito menores. 10 para seu post! 10 para essa mãe!

Cristina disse...

Pois é, ensinar o filhinho a ser um adulto responsável parece ser uma tarefa hercúlea pra maioria das mães. Felizmente tem as que assumem essa tarefa, inclusive com os filhinhos dos outros. Sorte dessa moça que teve uma mãe sem medo de educar macho, mas quantas outras tão por aí se ferrando e a mãe ainda passa a mão na cabeça do genro vagabundo? Vamos todas aprender com essa sogra maravilhosa e tornar nossas vidas menos sufocantes.

C.Belo disse...

Por trás de um grande homem, existe uma grande sogra? Parece q sim rs

Anônimo disse...

Complicado, ensinam a mulher que ela tem que ter homem, aceitar, a ponto de uma mulher grávida levar o namorado/marido pra casa da mãe. E esse nem pagar as despesas de casa,gente pra ser assim melhor ficar só. Se um cara não tem dinheiro pra pagar um quitinete e nem se esforça pra isso, imagina com filho. Achei que isso só acontecia com famílias como a minha bem humilde, onde se a moça com 30 não tiver um macho é uma encheção de saco, foi assim que fez com que minha mãe e tias se casaram super mal e todas ficaram sem assistência. Eu vi tudo isso e pensei ou eu paro com alguém interessado oh fico solteira, interessado porquê, pq eu creio que não precisa ter dinheiro, carro. Até pq na minha família mtos maridos tem carro, casa às custas do suor da esposa o que pra mim não quer dizer nada, não foi o sangue deles naquele carro/casa. Gozar com pau dos outros é moleza (desculpa a expressão).

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