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21 abril 2016

O fim do mundo


Há muitos anos morei na Cidade do México e conheci um Romeu por lá. 
A cidade é imensa e dividida por norte e sul, tão marcada a divisão que as pessoas se acham diferentes quando pertencem a um lado ou a outro.

Romeu morava no norte, e eu também, mas sua casa era bem mais longe. Fui algumas vezes e conheci o pai, a mãe e a irmã. Não conheci o resto da família, mesmo o México sendo mais tradicional que o Brasil, a presença dos avós é forte e muito mais constante do que aqui. 

Mas não namorei Romeu o suficiente para frequentar as festas e conhecer toda sua família, então de alguma maneira concluiu que eles deveriam ser todos da Cidade do México.

E há um bom tempo tive uma quase-discussão com Romeu, que dizia se irritar com meus áudios e meu feminismo. A postura dele não me surpreendeu, mantive a amizade com vários mexicanos e eles vivem barbarizando no meu Face, já me acostumei. 
Seria complexo dizer que os mexicanos são mais machistas do que os brasileiros, porque os dois crescem em culturas similares, mas vejo um certo pudor no brasileiro em assumir sua cafajestice, já os mexicanos têm a plena certeza de que assumir seu machismo os torna mais ''machos'', por isso insistem em piadas e falam grosso, deixando claro quem manda.

Seus ídolos ainda tem muita proteção, da mídia e do público, recentemente um famoso cantor declarou que ''mulher que não sabe pegar a vassoura e fazer faxina, eu nem perco meu tempo''.
Falou essa besteira e ninguém reclamou, pelo contrário, ele foi levado a glória por assumir o pensamento dos homens, ora, pra quê serve uma mulher que não sabe limpar uma casa?

Quando Romeu deitou e rolou em cima do meu feminismo dei menos bola do que quis, tive vontade de argumentar, mas logo lembrei que era o um 3MMM (três vezes macho-machista-mexicano), então resolvi deixar pra lá.

Ele ainda riu e disse ''eu como três 'tacos' com teu feminismo''.

Tudo bem, não tenho problemas com isso, não peço a ninguém a compreensão que suas mentes não alcançam.

Mas então aconteceu uma coisa interessante, o vovô (abuelito) do Romeu fez aniversário e a família comemorou com uma festa gigante. E Romeu encheu seu Facebook com fotos e amigos também as espalharam. Pelo que li nos comentários a família de Romeu é a única que se mudou para a Cidade do México, no caso a mãe de Romeu que ao se casar foi morar lá.

Estava vendo as fotos quando reparei em algumas coisas ditas e simplesmente não acreditei. A cidade da família do Romeu é a segunda maior cidade no México que registra desaparecimento, tortura, estupro e morte de mulheres, só perde para a temida Cidade Juárez. É uma cidade que ultrapassa todos os limites em relação aos direitos das mulheres, incluindo os baixos salários. Faz fronteira com outros países e mulheres que procuram uma vida melhor no México passam por essa cidade, por isso cresceu tanto o tráfico de mulheres.

Fiquei chocada porque dou de cara com outra realidade, aquela que me resisto em acreditar. Romeu tem irmãs, muitas primas, sobrinhas, amigas, enfim, uma família gigante, que mora na segunda cidade mais violenta do México e ele não sabe para que serve o feminismo?

Eu estava tão horrorizada que contei isso a um amigo, um daqueles que apoia a causa feminista e entende uma pequena parcela do horror que vivemos, e ele me respondeu:

-Qual a surpresa? Você é a primeira em dizer que não existe homem feminista, e vai esperar justo de um mexicano esse comportamento?

A surpresa é simples. Impossível descrever como funcionam as coisas no México no âmbito da lei. Impossível, impossível. E não se pode ignorar a questão econômica, os altos lucros que se obtêm do tráfico de mulheres. Sendo assim o México é um país que depende apenas dos ativistas para conseguir justiça, mas é um dos países que mais matam ativistas no mundo.

A conta não fecha, o feminismo no México já enterrou muitas mulheres e levou centenas à cadeia. Para uma mulher no México, a delegacia é a última opção segura, só se estiver acompanhada de ativistas e advogados.

Se alguns poucos casos chegam à imprensa ou são denunciados, é pelo trabalho incansável das feministas, que não são poucas, mas vivem ameaçadas e vigiadas. O feminismo no México não é uma questão apenas de direitos, mas de acabar com o tráfico sexual, fonte econômica vital para o país, por isso ser feminista no México é muito mais arriscado do que as pessoas pensam, tudo que mexe em estruturas econômicas é perigoso de ser denunciado.

E a polícia mexicana não esconde o lado que está e não tem pudores, nem reservas. Em 2006, sequestrou, torturou e estuprou uma das maiores feministas do país, Lydia Cacho. Fizeram horrores mesmo sabendo que ela era uma acadêmica e escritora famosa, que circulava por todos os meios de comunicação e não deixaria barato o que tinha acontecido. Mesmo assim a polícia não se intimidou, em um gesto de loucura quiseram mostrar o que são capazes de fazer com feministas que ficam ''denunciando''. 

E vejo muitas feministas aqui no Brasil, também acontece comigo, somos ameaçadas todos os dias pelos ''mascus'', mas não conheço nenhuma feminista brasileira que tenha sido estuprada e torturada pela polícia, também nunca li sobre feministas vigiadas por viaturas.

E meu horror com Romeu foi justo esse, não é possível, até pela matemática que ele não saiba de nenhuma história de horror envolvendo alguma mulher, mesmo assim despreza as feministas, esquecendo que se não fossem as feministas mexicanas as mulheres estariam morrendo nos sótãos de delegacias e nas mãos de traficantes, são as feministas as únicas que se atreveram até hoje a cruzar esse círculo de fogo e graças a elas que as histórias conseguem correr o mundo.

E meu amigo me dizia:

-Sério que você ficou chateada? Mas ele é homem e você sabe disso, homens estão se lixando para o feminismo, não acham que seja seu problema e odeiam feministas, eles disfarçam, mas não gostam.

Você também odeia?

-Não, mas acho o assunto chato, sempre fico pensado, ai que porra, o que eu tenho a ver com isso? Sou como alguns homens, eu jamais estupraria ou bateria em uma mulher, então todas as vezes que escuto sobre isso acho um assunto maçante, e como não sou dono de empresa não me atinge se as mulheres ganham menos. Entendeu? Tudo que vocês reivindicam não faz parte do mundo masculino, a gente nega que está se lixando para pagar de ''fofo'' com vocês, mas no fundo está se cagando para o feminismo.

Esse é o meu ponto! Vamos esquecer o feminismo e todas suas teorias, podemos entrar na simplicidade da empatia?

Eu não tenho cachorro, mas o ano passado o cachorro da minha vizinha fugiu e ela chorou por dias, eu fiquei chateada, pensando que era um cão de apartamento, bem cuidado, alimentado, como estaria se virando em uma cidade tão cruel?

Preciso gostar de cachorros ou ser um, para ter empatia e pensar no sofrimento do animal? Preciso de uma base política para pensar que não é justo o animal perdido por aí?

Não. Eu sei que não existem homens feministas e até entendo seus motivos, mas não entendo a falta de empatia, e olha, sem mencionar gênero, pensa em um ser humano privado de sua liberdade e sendo torturado, preciso ser Jesus para entender que isso é ruim? Não posso ter empatia, ou só pode ter empatia quem for igual a pessoa que está sendo torturada?

Queria- tudo bem- estou sonhando, um pouco de empatia dos homens, esquecendo o gênero.

Olha, tem uma senhora que todos os dias leva comida para um pessoal que mora na rua, eu vejo e tenho simpatia por ela, agradeço seu gesto. E a mesma coisa com Romeu, deveria agradecer que alguém faz um trabalho que ele não faz, deveria agradecer as feministas por darem a cara à tapa e enfrentarem o sistema. Você não precisa fazer parte das pessoas que fazem as coisas, mas não precisa ser do grupo que só detona!

Não é mais sobre feminismo, é sobre empatia.

Um casal, amigos da minha prima, sumiram no começo da semana, foram ao um shopping, almoçaram, entraram no carro e sumiram, então todos estão pensando na hipótese de sequestro. 
Ah, mas eu nem conheço eles e o rapaz é homem né! 
Podia ser assim? Não! Não conheço, mas tenho sentimentos e imagino o horror que as famílias devem estar passando. A moça que sumiu é amiga de infância da minha prima, mesmo que não fosse, meu coração se quebrou, e não preciso ser feminista para isso.

Ter empatia por um ser humano, pensar no terror que pode estar vivendo é algo que não depende de ideias políticas, cartazes nas ruas, nem discurso estruturado. É apenas empatia.

Não se precisa ser feminista para pensar no sofrimento de um ser humano que foi privado de sua liberdade.

Entendo que pela educação que os homens recebem, ainda olham para as mulheres como animais, seres inferiores, mas caramba, nunca tiveram empatia nem por um animal? É tão grave a situação assim?

Isso vem me chateado há meses, homens que batem o pé e reclamam do feminismo, e eu só escuto a falta de empatia com outro ser humano.

Eu não quero respeito nem empatia porque sou mulher, mas porque sou um ser humano, igual a outros, igual a todos, inclusive homens.

Não espero que mudem as leis nem me devolvam os direitos apenas porque sou mulher, mas porque eles reconhecem que sou um ser humano igual.

O feminismo trouxe muitas realidades à tona, e essa é uma das piores, homens não sentem empatia por nada que não se pareça a eles.

Adoraria dizer que foi só um Romeu, lá do passado, que disse uma coisa idiota e eu fiquei magoada, mas a verdade é que isso vem se arrastando há anos na minha vida, a constatação da falta de empatia dos homens em relação as mulheres, talvez isso explique a frieza que se exige para administrar o tráfico de mulheres, a violência e a resistência deles em mudarem.

E o feminismo me parece um assunto que está um degrau acima, primeiro precisamos entender de onde vem essa falta de empatia, de reconhecimento da mulher como ser humano, depois podemos sentar e começar a falar sobre direitos.

Às vezes tenho vontade de sentar na calçada e chorar, canso de dizer que feminismo é uma ideia política, que luta pela igualdade, mas caramba, do que adianta dizer isso se não há empatia do outro lado?
Me parece que estamos diante de um problema bem maior do que direitos iguais, a falta de empatia é um sinal de que o diálogo nem começou e talvez nem comece, porque é o fim do mundo. 



Iara De Dupont

2 comentários:

Anônimo disse...

Empatia é o que falta e sempre faltou na humanidade. Hoje em dia intolerância é o que impera. É o fim do mundo mesmo, Iara... Se o inferno existe, fico imaginando se consegue ser pior que isto aqui.
Na infância escutei muito minha mãe dizer o que a minha avó sempre ensinou: "Sempre se coloque no lugar do outro!" (ter empatia). E isso ficou gravado na minha memória. Assim como a sua abuelita, minha avó era muito sábia.
O curioso é que parece que isso (de ter empatia) só se aplicava a mim, pois minha mãe mesma era extremamente preconceituosa e ainda criou um filho mascu, da pior espécie.
SY

Cristina disse...

Dá muito trabalho ter empatia, aparentemente. Ainda mais se isso significa sair do seu mundinho confortável onde outras pessoas podem ser tratadas como coisa sem dor na consciência... não, as pessoas não querem ter empatia. Pra quê? Vivemos num mundo onde a sociopatia traz mais vantagens, é estimulada, louvada, ensinada desde pequena às crianças por pais que não querem ter o trabalho de se importar com o outro. Sim, esse mundo vai se acabar logo... pelo menos o mundo da humanidade, que vai se extinguir pelas suas próprias mãos.

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