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07 abril 2016

O dia que me enforquei com uma pulseira de ouro


Uma vez meu pai convidou minha mãe para ir jantar com um casal amigo dele. Minha mãe não conhecia todos os amigos do meu pai, estava recém-casada e lá foi jantar com esse casal.

Chegando no apartamento a empregada abriu a porta e minha mãe viu uma moça no chão da sala chorando, se aproximou para ajudá-la, então meu pai entrou no meio e as apresentou, a moça chorando era a esposa do amigo do meu pai, que naquele momento não estava em casa.

Minha mãe não disse nada, a moça se levantou, foi ao banheiro, lavou a cara e voltou normal, como se não tivesse acontecido nada. Disse que o marido tinha dado uma saída, mas já voltaria e eles poderiam jantar.

Uns minutos depois o marido chegou e todos jantaram normalmente, menos minha mãe que ficou com essa história na cabeça.

Minha mãe vem de uma família onde todas as mulheres preferem se jogar de um penhasco do que chorar em público. Isso é uma coisa que até hoje perturba minha mãe, ver alguém chorando na frente dos outros, talvez por isso Deus me mandou como filha, para que ela se acostumasse com esse tipo de expressão, porque hoje aprendi a me segurar, não choro nem por decreto, mas a vida inteira chorei demais, sem controle.

Em algum momento os homens se levantaram da mesa e minha mãe perguntou a moça porque ela estava no chão chorando quando ela chegou. A moça a levou até seu quarto, sentou na cama, começou a chorar e disse:

-Porque hoje é um dia especial para mim, é a data de quando nos conhecemos.

-E?

-E ele chegou em casa com rosas brancas!

-E?

-Rosas brancas são para defunto! Eu queria rosas vermelhas, sempre sonhei com um homem me dando rosas vermelhas, sempre! E cansei de dizer isso! E quando ele traz são brancas e ainda teve a cara de pau de me dizer que não pensou na cor, apenas chegou na loja, pediu rosas e a vendedora deu as brancas! 

Na época minha mãe não falava português e ficou pensando que talvez não tinha entendido o que foi dito, então não respondeu mais nada.

Minha mãe é um mar, parece calma, mas no fundo é agitada e sempre teve amigas expressivas, elas encontram na minha mãe o apoio seguro, a amizade sem julgamentos, e essa moça logo se tornou amiga da minha mãe.

E desde pequena eu escuto histórias sobre esse casal. Minha mãe diz que eles são super apaixonados, aquele tipo de casal que nasceu um para o outro, mas vivem nessa corda de tensão porque o marido nunca ''acerta'' nada com a esposa, tudo que ela pede ele faz ao contrário. 
Mas pelo o que entendi isso tem a ver com os desejos pequenos, parece que com os sonhos maiores eles conseguem estar de acordo, no resto não e as brigas começam.

Uma vez eles foram passar as férias em Paris, mas ele esqueceu que a data batia com a comemoração do aniversário de casamento deles, não falou nada e saiu para dar uma volta enquanto a mulher descansava no hotel. Ele voltou de mãos vazias, porque não lembrava o dia, e ela ficou esperando na maior expectativa, achando que ele deveria ter saído para comprar uma joia ou coisa assim. Eles foram jantar e nada acontecia, ele não tirava nada do casaco. Até que ela ficou impaciente e quis saber qual era a surpresa, ele disse que não tinha nenhuma, então ela lembrou que era o aniversário de casamento, estavam em Paris e não tinha nenhuma surpresa? Que porra de casamento era esse?
Acabou o jantar e os dois voltaram ao hotel brigados.

E passaram assim trinta anos, quarenta, brigando por coisas desse tamanho. Ele também batia o pé na mesma questão, se chegava em casa achando que a mulher  tinha preparado um bolo e ela tinha feito uma sopa, pronto, explodia o mundo. 
Fizeram terapia, tratamentos, mas o diagnóstico era sempre o mesmo: excesso de expectativas de ambas partes.
O casamento não era essa praia maravilhosa onde maridos chegam com rosas vermelhas apenas porque a mulher sonhou com isso, nem era a mulher preparar um pão caseiro, apenas porque é o sonho do marido.

Como a  grande maioria das pessoas eu assisti muitos filmes, uma espécie de educação indireta, e neles os presentes sempre são incríveis, então imaginei que a vida era assim e de uma maneira ou outra o mundo alimentava isso, eu lembro de quando tinha oito anos e umas meninas na escola já tinha seu namoradinho e ganhavam ovos de Páscoa deles. Aquilo me parecia o máximo, ganhar chocolate aos oito anos de idade!

Não tive essa sorte porque eu era a ''garota gordinha'', que não tinha nenhum namorado.
Na adolescência aconteceu a mesma coisa, também não tinha namorado, mas via minhas amigas ganharem presentes bem legais, pelo menos para a época.

Isso cria uma expectativa enorme, hoje entendo que não é a parte material da história, mas sim a concretização de que alguém se importa com nós e quer nos ver felizes.

Mas logo comecei a bater a cabeça na parede porque nada do que eu ganhava dos meus Romeus tinha a ver com o que eu tanto sonhava e não era o preço do presente, era o fato deles não pensarem como eu, alguma coisa não dava certo.

Passei anos me decepcionando quando abria a caixa ou o pacote do presente, e tudo, tudo, me parecia pequeno perto do muito que eu dava. Eu ficava atenta as coisas que Romeu gostava, e seguia a pista, e eles ao contrário pareciam se importar pouco com o que eu gostava ou não.

Ganhei muitos ursos de pelúcia, uma piada, levando em conta que sou virginiana e tenho ódio de objetos que acumulam poeira e sujeira.

E os chocolates? Parece que não escutavam o que eu dizia, não gosto de chocolates com amendoim, frutas ou menta. E pronto, lá vinham caixas gigantes justo com esses!

E cds? Sempre com a música que eu odiava!


Os presentes nunca chegavam na hora certa, no dia exato. 
E eu continuava trouxa, procurando para Romeu justo os presentes que ele gostava.

Um dia aconteceu uma coisa que deu um giro total. Eu estava muito apaixonada por um Romeu e ele me deu uma pulseira de ouro, muito delicada. 
Não consegui disfarçar minha cara, poxa, pulseira? 

Quando você me viu usando pulseiras? Eu não uso pulseiras! Por que não comprou brincos no lugar da pulseira? Passo o dia inteiro escrevendo, imagina a pulseira batendo na mesa? É de ouro? Poxa, que matéria prima politicamente incorreta! Tanta gente morrendo pelo ouro, se separando de suas famílias, sendo explorados, o México foi destruído pelo ouro, tantos países foram massacrados pelo ouro e a pulseira é de ouro? E eu vou usar essa energia no pulso? Usar ouro é dizer ao mundo que estou de acordo que meus antepassados tenham morrido por isso e eu não estou nem aí. Pode ser de ouro, mas parece bijuteria, o design não é dos melhores! Podia pelo menos ser mais bonita! 

Pode parecer incrível, mas eu disse tudo isso. Só lembro de Romeu ficando transparente, se levantou da mesa e nunca mais apareceu na minha frente. Eu sofri horrores, me puni pelo o que fiz e levei anos para entender o que tinha acontecido ali.

Pensei que eu tinha descarregado nele toda minha frustração por todos os anos de presentes ruins, eu nunca tinha ganho nem uma pulseira de plástico, achava que minha falta de autoestima não soube receber um presente tão lindo e caro.
Mas depois de algumas sessões com uma amiga psicóloga percebi que o relacionamento com esse Romeu me sufocava e eu não tinha coragem de terminar e procurei de maneira inconsciente algo que o ofendesse, para que ele fosse embora, e conhecendo sua maneira de ser eu sabia que a matéria era seu ponto fraco, ele não aguentaria que eu detonasse um presente seu.

Tenho vergonha desse episódio, lamento tudo o que foi dito e nada, nada, nada daquilo foi necessário, eu poderia ter sido mais digna e ter saído do namoro sem ofender tanto o rapaz, mas eu fui naquele momento um ser humano de comportamento reprovável.

Chorei muito por esse momento, lamentei e fiquei tão chateada com isso que peguei a pulseira e a vendi em uma dessas lojas que compram ouro e com o dinheiro comprei panetones para os moradores de rua. É a coisa mais boba a se fazer, mas naqueles dias me pareceu que era a única maneira do universo me perdoar, porque eu sempre me senti mal pelo o que disse naquela noite.

Foi uma experiência tão devastadora que aprendi a lição e abandonei as expectativas, mandei muitas coisas à merda e decidi que nunca mais daria nem receberia presentes do Romeu, eu simplesmente não sabia lidar com tudo o que isso envolve.

A todas as amigas que contei a história da pulseira, todas ficaram chocadas, horrorizadas, e uma delas me disse uma coisa que nunca esqueci:

-Você vê, tamanho não é nada! Você conseguiu se enforcar com uma pulseira minúscula!

É verdade, me enforquei, porque sempre me fez mal essa história.

Mas deixei de lado e resolvi não pensar mais nos Romeus e nos seus presentes.

Depois de um tempo conheci um que me apaixonei loucamente e mesmo sem querer sou uma pessoa de detalhes, mas me segurei. O máximo que fiz foi comprar seu chocolate favorito e uma vez passei em uma loja e vi uma agenda, que tinha tudo a ver, então comprei.
E o que eu ganhei dele? Nada, era daqueles Romeus que achava que presente era coisa de gente boba e romântica, que datas eram impositivas e ninguém precisa de presente para se sentir amado.

Eu preciso! Todo mundo precisa e não é o valor, é o gesto, a lembrança!

Mas desde que resolvi desencanar e largar tudo ao universo as coisas começaram a mudar, desde o momento que não esperamos nada as coisas acontecem de maneira leve e imprevisível.

Meses depois conheci outro Romeu, mas eu já estava naquela sintonia de não esperar nada, nem de dar nada.

E um dia ele apareceu com um colar com a pedra do meu signo. Fiquei tão encantada! 
Ele sabia a data do meu aniversário, isso quer dizer que foi ver que signo era e depois comprou o colar. Derreti como manteiga ao sol, me pareceu o presente mais incrível do mundo, parece que tudo vinha ali na caixa, a procura dele, o interesse, a energia do presente era essa.
E esse Romeu tinha detalhes assim, uma caixa de chocolate, um caixa de sabonetes, mas eram detalhes de alguém que me observava e era isso que me deixava tão encantada.

Quando alguém te percebe, te escuta, consegue acertar no presente, não importa o que seja.

Durante um tempo um estudante americano morou na minha casa e um dia eu ganhei  de uma amiga um anjo de biscuit, mas não sabia onde colocá-lo, então o deixei dentro da caixa. O estudante me viu falando sobre o anjinho e dias depois ele foi a praia e quando voltou me disse ''olha o que eu trouxe para você'' e tirou uma pedra grande da mochila, comecei a rir e perguntei o que faria com a pedra e ele disse ''é para você grudar o anjo aqui em cima, é da mesma cor que a pedra''.
Eu dei muita risada, mas fui pegar o anjo e a cola, e deu certo, ficou lindo o anjo de biscuit em cima da pedra. 
Até hoje tenho esse anjo em cima da pedra e me parece que foi um presente extremamente generoso, ele pensou na pedra e a carregou durante sua viagem, isso é o que sempre deixa comovida.

E desde que larguei a corda dos presentes deixei de pensar neles quando namoro, as coisas mudaram, não crio mais expectativas e entendi que cada pessoa faz uma leitura da outra, não podemos adivinhar o que pensam nem como nos veem.

Me vigio muito porque sei que existe essa tendência na maioria das mulheres, somos mais detalhistas e preocupadas em agradar os Romeus do que o contrário. E largar mão teve suas vantagens, nunca mais gastei dinheiro com quem não vale a pena e simplifiquei minha vida, não me desgasto mais pensando.

E uma vez eu estava com minha prima em uma feira de joias de prata e ela se apaixonou por uns brincos e me disse ''imaginou se Romeu me compra um desses?''.

Dei uma bronca ali mesmo! Imagina o quê? Por acaso está namorando um vidente? Ele vai adivinhar?

E minha prima respondeu:

-Todos os homens sabem que mulher adora joias, um dia vai ter que me dar uma!

Vai ter que nada! Isso é expectativa tua, coisa da sua cabeça, bobagem que se aprende vendo filmes românticos.
Você gostou dos brincos porque gostou mesmo, ou porque começou a sonhar que poderia ser um presente do Romeu?

-Porque eu gostei mesmo!

Então a gente vai voltar lá e vai comprar, nem que tenha que parcelar em mil vezes!

E voltamos, juntamos o dinheiro das duas e levamos os brincos que ela tanto queria.

Depois de muitos anos fiz um curso de agradecimento, que nos ensinavam a agradecer tudo nesta vida e falaram sobre isso, os presentes que geram expectativas nos casais e sempre dá errado, o melhor era soltar no mundo e agradecer a lembrança, não importa o que fosse, porque qualquer movimento, fosse uma joia ou uma ligação no meio da tarde, mostrava que a pessoa lembrou de nós e o importante era isso, a vontade da pessoa de nos dizer de uma maneira ou de outra que estávamos em sua mente.

Claro que não pertenço a ala das românticas incuráveis, não posso ignorar a questão material, uma ligação no meio da tarde pode significar muito, mas também existem coisas materiais bem interessantes, não é só a ligação que faz efeito, um bom presente na hora certa muda muitas coisas.

O que apenas aprendi é a não esperar nada dos Romeus e para não me sentir injustiçada preferi me retirar da ala das generosas, até dou um presente, mas só depois de receber, não saio mais agradando Romeu sem saber se ele também está preocupado em me agradar. 

Entendi a lição mais valiosa de todas, quem tem que me agradar sou eu mesma e só eu sei do que gosto e o que quero comprar. O dinheiro dos presentes do Romeu hoje gasto comigo, vou à forra, porque sei que é um dinheiro bem investido, não tem erro e sempre fico feliz. E na vida o importante é isso, eu, eu e eu e depois eu. Romeu é secundário e não vem antes de mim. Reservo os melhores presente para mim e compro sem dó, não espero mais nada dele, aprendi a esperar só de mim e por incrível que pareça até hoje não falhei comigo, sempre compro o presente certo e me agradeço pela gentileza, pelo amor, pela lembrança, pela existência. 
Depois de tanta dor veio a resposta: sou eu que tenho que me dar os presentes que tanto sonho.


Iara De Dupont


2 comentários:

C.Belo disse...

Reflexão interessante e verdadeira. Por mais q uma pessoa nos conheça, ela tem sua própria leitura de nós e nem sempre bate com a nossa realidade interna. Agradecemos o presente e bola pra frente. Os presentes q realmente queremos, vamos atrás nós mesmas.

Anônimo disse...

Todo homem ruim da péssimos presentes ou nenhum, pelo menos é minha teoria.
Acha que não precisa, ou faz de pouco caso nessa vibe já ganhei sandália falsa (e olha que a marca original era r$ 100,00), brincos que nada tínham a ver comigo e uma série de convites a lugares que detesto: comer sushi, show de banda que eu já tinha dito que era blé. O presente a lá caralho consegue ser pior do que não dar nada, juro. Ambos demonstram a falta de interesse em agradar, soa como: ora não já estamos juntos? Pois leva a mal não eu fujo de homem assim.

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