ADICIONE O BLOG SMM AOS FAVORITOS! OBRIGADO PELA SUA VISITA E LEITURA!

NOVIDADE!

NOVIDADE!

Nota:O formato PDF dos livros acima pode ser acessado em qualquer plataforma, inclusive Windows, Mac OS e plataformas móveis como Android e iOS para iPhone e iPad.

Os posts mais lidos viraram livros e não estão mais disponíveis no blog.

DESDE 2010. ANO VI. MAIS DE 2.000 POSTS.

GUEST POST NO ESCREVA LOLA ESCREVA

CURTA NO FACEBOOK


E-MAIL
sindromemm@gmail.com

28 abril 2016

Nossa única chance


Uma amiga me disse:

-Tuas primas, heim?

Qual o problema?

-Não vi nada delas no Facebook no dia 24.

É, também não vi. Sou contra criticar mulheres, mas às vezes me sinto com um soldado no meio da batalha vendo outros solados sentados em um canto, fumando maconha. Assim parece que a guerra não vai acabar.

Tenho umas primas que moram na Cidade do México, todas elas têm filhas e nenhuma vive em uma bola de cristal.

E no dia 24 de abril aconteceu em várias cidades do México a maior passeata já registrada de mulheres, pedindo o fim da violência. Foi organizada pela internet e os homens que se aproximaram para fazer gracinhas foram afastados, eram apenas mulheres e seus filhos.

Os números de violência contra a mulher no  México não deixam de aumentar, já são seis mulheres mortas todos os dias pelos maridos e namorados, sem contar as que desaparecem, vítimas do tráfico de mulheres e as quarenta mulheres estupradas por dia que conseguem fazer a denúncia.

E recentemente um caso tem feito muito barulho, a história dos ''Porkys'', um grupo de rapazes ricos, filhos de gente importante, que circulavam pelas ruas no seu carro de luxo, viram uma garota, a sequestraram e levaram a uma casa, para que fosse estuprada. Depois de horas deixaram a moça ir embora, ela procurou seu pai e foram a delegacia, mas ali foram informados que os rapazes eram ''intocáveis''. O pai da moça fez tanto escândalo que conseguiu que dois rapazes fossem a delegacia prestar depoimento, na frente do pai, que gravava tudo, eles assumiram o crime dando risada. E saíram livres. O assunto vazou e a imprensa começou a pressionar, então os rapazes foram tirados do México, estão todos na Europa, escondidos. E são famílias poderosas, mesmo diante da imprensa eles não se dobram, nem parecem preocupados.

Essa é apenas uma faceta do que é ser mulher no México. Não é só a violência do estupro, mas do sistema, de delegacias que não estão preparadas para receber as mulheres, de uma cultura machista que se nega a aceitar que a mulher foi ''estuprada'' e de todas as travas que são colocadas a quem tenta denunciar.

Recentemente uma repórter americana foi vítima de uma agressão sexual na rua e foi a delegacia para registrar a ocorrência. No artigo que ela escreve fala do horror que viveu ali dentro, a polícia percebeu que ela era americana e repórter, então deram um tratamento melhor, mas mesmo assim ela diz que foi colocada em uma sala, com outras cinco mulheres, que tinham sido espancadas e estupradas, estavam ali para registrar a queixa. E a repórter falou sobre seu espanto ao ver o desamparo das moças, que ninguém estivessem tomando providências, nem se preocupasse em mandá-las a um hospital. Foram abandonadas ali em um sórdido jogo de resistência, para ver se desistiam de prestar queixa. A repórter foi atendida, deu entrevistas ali mesmo, fez um escândalo e disse que cinco horas depois as moças ainda continuavam esperando o delegado, apesar dos machucados e da necessidade de cuidados.

E muita gente sempre me pergunta porque a polícia mexicana é assim, são dois motivos, o primeiro é o machismo doentio que se alastrou naquele país, o sistema é fechado para mulheres e o segundo motivo é a presença dos traficantes de mulheres, o México é um dos principais ''fornecedores'' de mulheres, então mexer em alguns casos irritaria os traficantes e ninguém quer se meter com eles, até porque o sistema já segue suas regras.

Não tem muito para onde correr, as mexicanas estão na parede diante de um governo silencioso, uma autoridade suspeita e os traficantes. Os meios de comunicação estão sob ameaça, e não há espaço para denúncias.

E no dia 23 de abril as mexicanas subiram a hashtag que já tinha sido colocado no Brasil #meuprimeiroassedio, foram tantas as denúncias que conseguiram derrubar a internet por uns minutos. 
E no dia seguinte saíram as ruas. 
Nada disso foi organizado em faculdades, nem nas ruas, foi pela internet. Conseguiram se espalhar e não tiveram medo de sair às ruas, pode parecer fácil sair em qualquer país, mas no México não é, nunca se sabe quando a polícia vai ir pra cima. E mulheres ali são carne moída.

Me vejo obrigada a dizer que no momento a única arma que nós, mulheres, temos é a internet. É ela que espalha as ideias, une as pessoas e determina os lugares.

E no caso das mexicanas é a principal e depois de muitas críticas de feministas de outros países, que as acusavam de não reagir, as mexicanas mostraram que já acordaram, perceberam o poder de ocupar as ruas e denunciar a violência que vivem. Conseguiram paralisar parte da Cidade do México e outros estados, e mandar seu recado, a tendência é que isso agora aumente, já que elas viram que podem contar umas com as outras na hora de marcar uma manifestação.

E minha amiga dizia que não viu nada no Facebook das minhas primas, sobre esse fim de semana histórico, então eu resolvi ir lá. Minhas primas enchem seu Face de piadas, fotos dos seus amores e vídeos fofos, perfis bem adolescentes, apesar de serem mães e algumas (para minha vergonha) são professoras de humanas. Perguntei a uma se tinha ido a manifestação, me disse que não e depois emendou:

-Quem gosta de confusão é você, não eu.

É! Eu adoro confusão! Principalmente se tem a ver com meus direitos!

Depois perguntei a outra porque nunca postava nada sobre feminismo no seu Face e ela disse:

-Porque não adianta!

Esse é o ponto! Adianta e muito, as mulheres que saíram as ruas foram avisadas por redes sociais. E a causa tem que ser também visual, somos bombardeadas todos os dias com avisos e anúncios machistas, qual o problema de colocar posts feministas? É fundamental criar nossa identidade visual e derrubar todas as imagens machistas que são jogadas na nossa direção.

Não importa que seja um desenho, uma frase de empoderamento, não importa, desde que seja feminista. 
É no momento nossa única maneira de marcar o território e passar para as ruas. Vamos de uma maneira clara deixando a mensagem e dominando uma área que o machismo ainda não nos tirou, a internet.

Nenhuma mulher é obrigada a ser feminista nem a espalhar frases inspiradoras na sua rede social, mas me parece totalmente contraditório termos esse espaço e usarmos como se tivessem onze anos de idade e ficar postando fotos dos ''ursinhos carinhosos''.

De longe pode parecer pouco e sem sentido, mas imagine o poder de milhões de mulheres espalhando as ideias feministas pela rede? Isso tem uma poder de mudança incrível, foi o suficiente para convencer as mexicanas de que se fossem às ruas não estariam sozinhas e à mercê da polícia. Se todas as mulheres colocassem uma vez por dia um post feminista, uma foto, uma ideia, tudo começaria a se espalhar de uma maneira que o sistema machista não teria como combater, seriam milhões de mulheres invadindo a rede.

Não é crítica as minhas primas, que usam seu perfil de maneira ''fofa', é apenas horror ao constatar que elas têm filhas e deveriam se posicionar, porque elas não estão em castelos blindados e a realidade é muito parecida para todas.

Eu também adoro ''fofice'' virtual, coloco fotos dos meus musos e imagens lindas, não sou a favor de perfis apenas políticos, mas não posso esquecer que sou uma mulher em um mundo misógino e tenho que revidar parte do que recebo, a internet é livre para que cada quem poste o que quiser e eu aproveito meu espaço para deixar claro o que penso.

E perfis não tem regras, cada um posta o que quiser, mas como mulher não me parece que podemos ignorar o poder da imagem, das mensagens feministas e perder o tempo só postando fotos de gatinhos brincando. 

E nem assim somos tão livres, ainda é forte a misoginia na rede e os ataques constantes as blogueiras feministas, por isso eu digo, uma não faz diferença, mas milhões mudam a história.

E durante a manifestação no México, uma emissora entrevistava uma menina de treze anos, que dizia ter ido às ruas para acabar com a violência. Logo depois entrevistaram uma mãe, que já teve as duas filhas sequestradas e vendidas no tráfico de mulheres, a mãe dizia que estava nas ruas para denunciar a violência e que nunca mais nenhuma mãe passasse pelo o que ela estava passando.

Essa é a linha que define o feminismo, apesar da miopia de algumas, temos apenas duas escolhas no momento, ou estamos do lado da garota de treze anos que consegue perceber a dimensão da tragédia, imaginar a dor, e quer parar com tudo isso, ou estamos do lado da mãe, das que já viveram e sentiram a tragédia e a dor na pele. 

São apenas dois lados, duas escolhas. Não existe esse terceira opção de dizer ''vou ignorar tudo e ficar só postando foto da Minnie''. É um espaço muito grande para entregar de mão beijada ao patriarcado. 

No momento só temos a internet, e ainda há quem duvide do seu poder. E ela pode parecer uma arma descarregada, mas é uma metralhadora pronta para o uso. Trocar isso e a nossa chance de mudar a situação, por fotos meigas, é miopia social.

Somos nós, mulheres, que estamos na mira, não são os gatinhos fofos que postamos todos os dias, e a internet é nossa única chance, a última bala. É bom usar, porque do jeito que a coisa vai, um dia, talvez, nem isso vamos ter.


Iara De Dupont

Um comentário:

C.Belo disse...

Eu fico muito ressentida tb, pq no meu face, além de vc, só tenho outras 3 ou 4 mulheres, no máximo, q militam a favor da causa feminista. As demais, muitas delas mães de meninas, tb preferem ignorar, sem contar com as q além de ignorar ainda prestam desserviço à causa: apoiam bolsonaro, se doem com as críticas à matéria da veja, com o argumento BURRO de que as feministas estão repudiando as mulheres "do lar", entre milhares de outras ações que me fazem querer me matar ou sair metralhando todas elas.

Leia outros posts....

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...