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14 abril 2016

Chapeuzinho vermelho e as consequências do despertar da consciência


Uma amiga sorriu e me disse:

-Já está superando o Romeu?

Já.

-Não acredito.

É sério. É um processo lento, mas seguro, já sei como é.

-E por que você não aceitou o convite do Júlio?

Não sei, mas não tem nada a ver com o Romeu, tem a ver com alguma coisas que estão acontecendo. Acho que é o que chamam de ''consequências do despertar da consciência''. Simplesmente não estou conseguindo fazer algumas coisas que fazia antes.

-Tipo o quê?

Por exemplo, o Júlio. Ele me viu no jantar na tua casa e me convidou para sair. Eu teria aceitado na hora, se fosse antes, mas me peguei pensando, bom, eu não conheço ele muito bem, enfim, não sei se posso confiar, então ele passaria por mim na minha casa, eu entraria em um carro com um estranho, iria jantar e depois voltaria com ele. Tudo isso agora me parece tão arriscado! Fiz isso a vida inteira e só Jesus na causa, mas hoje isso dispara todos meus alarmes.

-É culpa do teu blog! Você fica recebendo esses emails cheios de histórias e está ficando paranoica!

Mas esse é o ponto! São histórias reais! E não são aquelas histórias da Chapeuzinho Vermelho caminhando sozinha à noite pelo bosque, são de mulheres que são agredidas e violentadas por namorados e maridos! Não tenho como ler aquilo e ignorar, é uma realidade de abusos que eu nem sabia que existia. Foi só depois do blog e de ler outros que conheci essa realidade, onde mulheres são violentadas por seus supostos amores! 
E de repente me deu medo sair com o Júlio, porra, eu não conheço ele! Ah, mas ele é irmão do fulano, sei, e daí?
Depois que você acorda para a realidade você percebe como é perigoso entrar no carro de um desconhecido.

-E você vai fazer o quê? Nunca mais sair com nenhum homem?

É, venho pensando nessa possibilidade, principalmente depois do que aconteceu com a Rebeca.

-Nossa! Você está confundindo tudo! O namorado dela estava em um bar, ele sempre foi meio idiota, e nunca tinha cheirado cocaína, alguém deu e ele ficou louco.

Mas não é? E que loucura foi essa de voltar pra casa e bater a cabeça dela na parede? Não matou porque ela conseguiu correr. E não é namorado, é marido.

-Ela entendeu o que aconteceu.

Ótimo por ela! Eu não teria entendido! Tanta coisa para sair quebrando e foi justo escolher a cabeça da esposa?
A impressão que tenho é que os homens estão enlouquecidos, na verdade sempre foram assim, eu é que não tinha reparado. Não sei em que mundo eu estava, mas nunca percebi. Só hoje quando olho para trás lembro de histórias sinistras e mal contadas, de amigas e primas, mas na época não percebi o horror nem os abusos que aconteciam. Não vou ser ingênua e dizer que naqueles tempos eu confiava nos homens e isso me fazia feliz, mas a verdade é que fui ao outro extremo e não consigo mais confiar em nenhum. 
Toda a vez que penso que algum pode ser decente, aquelas centenas de emails começam a dançar na minha frente, lembro da Rebeca e penso que eles não são tão decentes assim. 
Só agora percebo a certeza que eles têm da impunidade, e talvez por isso me pareçam tão furiosos, porque as coisas começam a mudar.

-Sério, você não pode entrar nessa viagem......tem homens muito legais, que jamais seriam capazes de ferir uma mulher.....

E olha que horrível, o outro dia eu estava na casa da Marina e a filha dela tem quinze anos sabe? A menina estava se arrumando para ir a uma festinha, toda animada, se fosse antes eu teria dito para ela ir bem cheirosa, caprichar na roupa e arrasar, mas de repente me peguei dizendo para uma menina de quinze anos ''não sai de casa sem uma faca ou spray de pimenta, não deixa nenhum homem te puxar pelo braço, não beba nada aberto, não aceite bebida de ninguém, não vá a nenhum canto da festa sozinha, gruda nas tuas amigas''.
Você acredita nisso? Me senti péssima. Ainda bem que a menina é inteligente e me mostrou o canivete que carrega, mesmo assim sei que ainda não tem a maldade que esse mundo exige.

-São os novos tempos!

Não são! Sempre foi assim. Eu lembro de ter ido a uma festa, eu tinha quatorze anos e uma das meninas da sala estava lá, de repente apareceu chorando no banheiro porque um fulano a puxou pelo cabelo e a beijou. E sabe o que todas no banheiro disseram? Nossa, nem era para tanto, fulano é um gatinho, qual o problema?
Porra! Qual o problema em ser puxada e beijada à força?
Mas quem de nós sabia disso? Nenhuma! Todas éramos ignorantes, não sabíamos o que era abuso e estupro, talvez teríamos tido empatia com a menina se ele tivesse sido agarrada no meio da rua por um estranho, mas naquele momento nos pareceu normal um colega da mesma turma puxar e dar um beijo!
Na hora que você acorda para todos os tipos de abusos, nossa, você pensa que nunca mais vai querer estar sozinha na frente de um homem!

-Mas não dá para achar que todos os homens são uns abusadores, eu tenho irmãos, primos, amigos, enfim, não acredito que todos sejam estupradores.....

A questão é essa! A tragédia da consciência é quando você descobre que homens pensam que abuso é uma coisa e mulheres pensam que abuso é outra, não estamos na mesma página, o significado é diferente!
E pior ainda, nós, mulheres, nunca sabemos como os homens vão reagir em momentos de tensão. Eu sei de mulheres que pegam uma barra de ferro e quebram o carro do namorado, uma das minhas primas botou fogo na motocicleta do marido, algumas surtam e ligam mil vezes, choram, enfim, quando elas perdem a cabeça fazem coisas como rasgar toda a roupa do cara, jogar o celular na água ou quebrar o computador, mas não matam os homens? Entendeu? Esse é o ponto, mulheres não partem para o estupro, tortura e morte, elas se limitam a arrebentar o videogame deles!

-A minha irmã está em uma neura parecida, o outro dia ela me disse que saiu com um rapaz, acabaram no motel, e ela começou a lembrar de um monte de histórias e foi grudando na parede, achei muito engraçado! 

Você como mulher não entende?

-Percebo a situação, mas você conhece minha vida, tenho o mesmo namorado há cinco anos, confio nele, entendo tua desconfiança em relação a todos, mas no meu caso eu já superei isso. Ele já teve tempo de me mostrar quem é, como é quando surta, enfim, o que posso te dizer? Que sou uma privilegiada e peguei um homem legal, que me respeita? E olha, até no respeito se paga o preço. Meu namorado é calmo, educado e toda minha família diz que ele é um banana, que eu mando nele e o trago na coleira. 
Tudo isso porque nunca o viram gritar comigo e ele me respeita, pra você ver como as ideias estão distorcidas, quando o cara presta todos dizem que é frouxo.

Pois é, isso acontece......

-E se Romeu viesse aqui? Você confiaria nele só porque já o conhece?

Essa é a parte mais difícil da minha existência. Existem dois Romeus na minha história e passei situações tensas com eles e nunca vi nada errado, por isso quando penso que jamais vou sair com um homem de novo, lembro deles, minha memória vai sozinha para esse canto, procura pela imagem dos dois. Um deles eu posso jurar de pés juntos que jamais encostaria a mão em mim, o outro posso ter quase certeza.

-Mas vocês eram muito jovens, talvez nem eles soubessem abusar de alguém.....

Pode ser, mas prefiro acreditar que está na essência, e eles dois são ótimas pessoas, posso me ver no quarto com qualquer um deles e me sentir em confiança. Mas teve uma construção ali sabe? Não é confiança à toa e não acho que seja idade.
Olha o caso desse Romeu, o conheci em uma escola de artes cênicas e tínhamos um colega da nossa idade. Não lembro que peça estávamos ensaiando, mas esse colega fazia par romântico com uma menina e eles se beijavam, na verdade tinham que fingir o beijo. A menina começou a reclamar que ele colocava a língua e a beijava e os diretores da peça levavam na brincadeira, o pessoal dava risada nos ensaios quando ela reclamava, ficavam todos urrando como animais, porque ela tentava se desvencilhar e ele a puxava de volta. 
Bom, a menina ficou revoltada e levou a mãe para a escola, que passou um sabão no diretor e no ator. E sabe o que aconteceu na estréia? O rapaz foi lá, beijou a moça e no fim mordeu o lábio dela e disse bem baixinho ''isso é pra você aprender a deixar de ser fresca''.
Ela contou isso para todo mundo e sabe quem deu bola? Ninguém, todo mundo deu risada.
E no dia seguinte tinha outra apresentação da peça, nós estávamos nos bastidores, prontos para começar quando a menina desmaiou, assim do nada. Lembro do diretor dizendo ''aposto que pelos nervos não comeu nada''.
Tinha outra atriz que sabia o texto e a escolheram para substituir a moça que tinha desmaiado, eu fui até o camarim para ajudar com a troca de figurinos, quando entramos lá vimos a moça vomitando e o figurino acabou não sendo usado.
E sabe, eu não pensei nada, achei que estava nervosa, hoje percebo como aquela menina deveria estar apavorada, se o rapaz mordeu seus lábios um dia antes, o que faria agora? E quem deu apoio a ela? Ninguém, era uma piada na escola a frescura dela apenas porque um ator dava ''uns pegas'' durante uma cena.
E esse ator tinha dezoito anos! Você vê a maldade da pessoa!

-Eu entendo tudo isso, mas a questão é a seguinte, não é saudável para você ficar pensando nisso, caso contrário nunca mais vai sair com nenhum homem!

Pois é, mas às vezes nem é pensar por querer, vem à minha mente sabe?
E não sou a única, o outro dia estava em uma loja, olha que situação louca, fui com minha mãe ver umas bolsas e tinha uma bem pequena, essas de festa. E eu disse para a vendedora ''aqui não cabe nem um celular'' e ela respondeu ''mas cabe uma faca, que é mais importante do que o celular''.
Fiquei olhando para ela sem acreditar! Meu Deus, que mundo é esse? O que deu na cabeça dos homens para criarem uma energia ruim dessas, onde todas as mulheres daqui pra frente vamos ter que sair armadas? Que merda o gênero masculino, que fez deste planeta um campo de concentração!
E do que adianta dizer que não são todos, se a maioria é assim?
Do que adianta dizer que existem os bons, se nós, mulheres, não sabemos quem é quem?

E sempre me dizem que eu sou radical, extremista e costumo generalizar, mas todos os dias abro as notícias e sempre tem uma mulher morta por namorado ou marido, então me pergunto, quem é radical? Quem reclama da violência ou quem mata?

E as pessoas dizem ''calma, não são todos iguais'', é verdade, mas achar o diferente pode te custar a cabeça!

Não tenho saudades de ter sido ignorante, mas sinto uma profunda tristeza quando lembro de algumas situações e penso que nunca mais vou viver elas com a mesma intensidade.
Fui a muitas festas e não dirigia ainda, cansei de ver alguém dizendo ''pessoal, a Iara vai para tal lado, alguém pode dar carona?''. E eu ia.

-Tudo isso só vai te complicar na hora de esquecer Romeu, você vai ficar lembrando em como ele é fofo e os outros podem ser maus, vai acabar mais apaixonada ainda por ele, mesmo sabendo que não vai dar em nada.

Não acho isso, pelo contrário, vejo como providência divina, Deus deveria saber que eu um dia passaria por esse estágio de consciência, por isso me mandou dois lindos Romeus, para que ficassem na minha memória. É só pelo que vivi com eles que acredito que existem homens decentes, se não os tivesse conhecido nem amado, pensaria que todos são umas bestas desgovernadas.  
É só porque eles existem que eu ainda resisto e acredito que nem todos são uns monstros. É graças a esses Romeus que meu coração não se quebrou por inteiro nem desistiu dos homens. Mas sinto cada vez mais a corda se rompendo, a água subindo e as coisas apertando. Eles são dois, apenas dois, na minha memória, alma e coração. Mas o mundo é gigante e existem milhões de pessoas. E penso como vai ser possível apenas dois Romeus, duas lembranças, segurarem minha fé nos homens?

E quando eu era criança nunca gostei da história da Chapeuzinho vermelho, eu fechava o livro e pegava outra. Mas parece que na vida adulta aprendemos que todos os livros sobre mulheres sendo acossadas e agredidas são iguais, não adianta fechar um e pegar outro, a história é a mesma.




Iara De Dupont

2 comentários:

Cristina disse...

A analogia da tigela de MM's. 10%, digamos, dos MM's estão envenenados. Você mete a mão na tigela e come um punhado? Não. Ninguém com um mínimo de bom senso faria isso. Mas se as mulheres se atreverem a desconfiar de todos os homens por causa de uma porcentagem (que tá mais pra 90% que 10%) de homens violentos a Cantareira enche só com lágrima de macho doído. Ainda bem que eu já me lixo pra sentimento de machocho.

Anônimo disse...

Essa analogia do M&M é maravilhosa.

E olha, de vez em quando, eu me pego pensando em como a ignorância é uma bênção. Acho que nunca mais, depois do feminismo, vou me sentir à vontade sozinha com um homem.

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