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19 abril 2016

Autoestima em oferta


Conversava com o filho de uma amiga, de quinze anos, e o rapaz me contou que está apaixonado por uma garota da sua turma, Letícia.

Perguntei se já tinha dito algo a moça e ele disse que não, logo acrescentou:

-Eu gosto dela, mas tenho vergonha de dizer isso, porque ela é como aquelas caixas gigantes que ficam nas portas das lojas, cheias de ofertas.

Não entendi bem o que ele comentou e pedi que me explicasse;

-A Letícia é linda, poderia estar na ''vitrine de vidro'', mas está em oferta, naquelas caixas jogadas na frente da loja sabe?

Lembrei na hora de uma garota que estudava comigo, tinha um jeito pra frente, era divertida e logo foi taxada por todos os meninos da sala de ''galinha e arrombada'', mas ninguém ficou com ela. As meninas achavam ela ''exagerada e exibida'' e até os professores reclamavam do comportamento dela. 
Hoje quando lembro penso em como foi injustiçada, nunca vi nada de errado, era uma garota de onze anos, rebelde, que usava um batom forte e brigava para entrar com ele na escola, dizia já ter beijado ''muito'' e que só gostava de namorar ''meninos mais velhos''. Mas ninguém nunca viu nada, mesmo assim levou a  fama.

Tentei saber desse garoto se a menina que ele gostava tinha um comportamento diferente das outras, o que fazia ela parecer ''caixa de ofertas?''. Ele se enrolou, disse que ela usava a mesma roupa que as outras, postava as mesmas fotos no Facebook e não namorava com ninguém. 

Como vi ele atrapalhado expliquei o que era juízo de valores e que algumas mulheres estão mais atentas aos seus direitos e vão na frente, se vestem como querem, quebram regras e não estão nem aí, mas elas têm esse direito, e não podem ser julgadas por isso, se Letícia tinha um comportamento fora do comum para ele, então o problema não era ela, era ele, que estava julgando uma menina que tem direito de fazer o que quiser.

Ele pensou um pouco e disse que não era isso ''até que a Letícia é normal''.

Não consegui entender a sua explicação, nem ele conseguiu desenvolver a ideia, mas ficou na minha cabeça e lembrei de muitas coisas.

Nunca fui promiscua, e não foi uma decisão moral ou religiosa, os garotos sempre me ignoraram, então não fui por esse lado, mas muitas vezes me joguei na caixa de ofertas emocional, sem autoestima me larguei ali, imagino que fiquei a disposição de muitas coisas.

Me colocar na ''vitrine de vidro'', onde estão as coisas mais caras, que merecem cuidado, isso só comecei a fazer recentemente e ainda assim tenho que sair à noite, circulando pelos corredores, porque uma parte de mim volta sem querer a caixa de ofertas.

Talvez algumas almas são evoluídas e conseguem ficar direto na ''vitrine de vidro'', mas no meu caso tem sido uma luta constante.

A caixa de ofertas é cheia de coisas estranhas, diferentes, perdidas, que talvez ninguém quis, acaba sendo um lugar confortável, a gente acha que pode se esconder ali, no meio do lixo e ninguém vai perceber. O tempo passa e podemos apodrecer ali.

Outra coisa que pensei com a confissão do rapaz me foi dito há muitos anos, eu estava em um restaurante com um Romeu, era uma pessoa bem intensa, talvez até demais. Naquela noite eu disse que não estava feliz no namoro e ele se levantou da mesa, foi ao banheiro. Meia hora se passou e ele não voltava, chamei a garçonete e pedi que alguém fosse ao banheiro, ver se o rapaz estava bem. Ela foi, voltou e me disse ''ele já vem'''. Agradeci e ela me respondeu:

-Vá ao banheiro você e joga água fria nessa cara, dá para ver que você ficou apavorada.

Disse a ela que tinha levado um susto, pensei que ele tinha me deixado no meio do restaurante sozinha e isso me disparou todos os meus alarmes de rejeição. E ela me disse:

-Se recomponha, homem é bicho, eles farejam a gente, sabem quando não estamos bem, se ele perceber que você ficou com medo de ser rejeitada, vai usar esse truque de novo.

Fui no banheiro e voltei toda metida, decidi que ele não iria perceber o que tinha acontecido, mas como eu ainda não sabia disfarçar as emoções, emendei logo uma briga pela demora, ele tentou dizer que estava nervoso e ficou no banheiro pensando no que ia me dizer, que também não estava feliz no namoro.

E desde esse dia comecei a perceber que era verdade, homens ''farejam'' as nossas emoções e manipulam baseados nisso. Eles sabem quando estamos na caixa de ofertas ou na vitrine de vidro.

De vez em quando a vida parece uma loja cheia de luzes, de pessoas entrando e saindo, de uma música que escutamos mas nunca conseguimos identificar qual é, de preços que sobem e descem, de produtos que chegam e no meio de tanta confusão estamos nós ali, tentando caminhar para a vitrine de vidro, arranhando as paredes para sair da caixa de ofertas. Quem vira as caixas de ofertas sabe que são produtos que todos já pegaram e devolveram, estão batendo no prazo de validade ou estão fora de moda.

Não sei qual é o problema da Letícia, mas o rapaz a ''viu'' na caixa de ofertas, o que é péssimo, não é um bom lugar para ninguém e existe uma trágica verdade atrás disso, as pessoas nos enxergam onde estamos parados, se nós ficamos na caixa de ofertas é lá que nos veem.

A lista das vezes que fiquei na caixa de ofertas é enorme, me atrevo a dizer que passei ali décadas, eu não tinha estrutura nem autoestima para sair dali e deve ser um lugar automático, porque tenho que me vigiar todos os dias para não voltar, estou atenta cada segundo e de vez em quando me pergunto quando ter uma boa autoestima vai ser algo rotineiro e orgânico na minha vida.

E a vitrine de vidro é um lugar ideal, ninguém nos incomoda, apenas observam de longe e quando realmente querem nos pegam com cuidado, fazendo o possível para não quebrar, nem deixar marcas. Ficamos ali porque valemos muito e quebrados damos prejuízo, precisam de nós inteiros.

A caixa de ofertas é sufocante e exposta a todos os tipos de pessoas, muitas maldosas que pegam apenas para quebrar o que encontram. Mas ela parece familiar e caminhamos muitas vezes na sua direção sem perceber.

É uma luta todos os dias reconhecer que ali não é nosso lugar, devemos estar na vitrine de vidro, aquela que é fechada com chave e ninguém mexe. 

E também temos que saber que se não estamos na vitrine de vidro é porque estamos na caixa de ofertas, não existe nada no meio e as pessoas vão nos ver onde a gente se posicionar. E a caixa de ofertas não é lugar para ninguém, talvez para os sabonetes e as escovas de dentes, mas fora disso ninguém merece passar a vida ali.



Iara De Dupont

2 comentários:

Mônica disse...

Olá, Iara! Fico encantada de como me identifico com as suas palavras!! Ficar na "vitrine de vidro" é muito difícil e quantas (e muitas) vezes fiquei na "caixa de ofertas" por pura falta de autoestima...Você me fez lembrar meu querido Gasparetto que diz: " as pessoas nos tratam como a gente se trata..." e é a mais pura verdade; não é só nos relacionamentos, mas no trabalho, em família, nas amizades... a todo momento temos que "vigiar" nossa existência... Somos diamantes, todas nós, e por isso devemos ser tratadas como tal...

Anônimo disse...

O que pareceu, pra mim, é que a moça não serve pra ser exibida como um troféu pelo rapaz.
Mas concordo com você, temos que nos vigiar e não nos colocarmos na caixa de ofertas.

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