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25 março 2016

Tuas pegadas me perturbam


Minha abuelita se mudou para a cidade e morava em um quarto, no alto de um prédio. No México não existem ''quartos de serviço'' nos apartamentos, ficam no último andar, com um banheiro em comum, é lá que as pessoas que trabalham nos apartamentos ficam e como não é todo mundo que pode pagar uma empregada, alugam os quartos para pessoas de fora.

Ela foi morar em um desses quartos, na ''zotea'' e tinha uma moça que morava ao lado. Minha abuelita via sua vizinha nas noites de lua cheia deitada no chão, ficava ali um tempo e depois entrava no quarto. 
Um dia minha abuelita perguntou porque ela fazia isso e a moça respondeu:

-Não gosto de rastros, quem deixa pegadas, deixa saudades e pode ser encontrada pelos inimigos. Eu gosto do sol, mas ele deixa rastros, indica horários, por isso prefiro a lua, posso ficar olhando e admirando e ninguém vai saber disso, mas se eu adorar o sol, todos vão saber. E não quero que ninguém saiba nada de mim, nem chore nas minhas pegadas.


Várias vezes minha abuelita dava bronca as netas dizendo para não deixarmos pegadas, não sermos adoradoras de nada que alguém pudesse saber, que fizéssemos as coisas sem deixar rastros. 

Uma das minhas primas odiava essa história, sempre cheia de si, foi a primeira que cismou tanto com isso que trocou seu tênis por botas militares, todos sabíamos quando estava chegando, pelo barulho. E não tinha pudor em enfrentar minha abuelita, batia a mão no peito e dizia ''eu faço questão de deixar pegadas até em cimento de construção''.

Minha abuelita escutava e suspirava, tentava explicar que deixar pegadas faria outra pessoa sofrer por nós, nunca sabemos que sente nossa falta e ver nossas pegadas traria a lembrança a essa pessoa, por isso a vizinha dizia que não queria ninguém ''chorando nas suas pegadas''.

Era uma dessas teorias que minha abuelita tinha sobre ausência, que às vezes era melhor não saber nada, não ver as pegadas de quem um dia amamos. E talvez por isso, não sei, ela se recusava a ter fotos de mortos em casa, dizia que a sombra deles era suficiente, que a lembrança se carrega tatuada na alma e que olhar a imagem faz mal, porque a lembrança volta na hora.

De vez em quando alguma das minhas tias perguntava sobre um parente e minha abuelita dizia ''não sei''. E se alguém insistia ela dizia ''gente morta pra mim é gente enterrada, não sigo suas pegadas, a lembrança me basta''.

E de repente no meu mundo tudo fez sentido, entendi o que ela quis dizer com ''não seguir pegadas, nem chorar nelas''. 

Me encontrei de maneira estranha presa na modernidade, onde nada faz sentido, mas as histórias da minha abuelita explicam a pouca lógica do mundo e do que acontece.

Há vinte anos perdi as pegadas de um Romeu. 
Um dia subi ao teto da casa que morava com minha prima, estávamos tentando nos esconder de outros primos, ficamos ali deitadas olhando a lua, então eu disse a ela:

-Será que Romeu está vendo a mesma lua?

E de uma maneira mágica, inesquecível, minha mãe gritou que Romeu estava no telefone. Nem lembro como desci do teto, mas fui correndo para atender e no meio da conversa comentei a ele sobre a lua, ficamos ali falando disso, a lua que nos cobria e separava ao mesmo tempo.

Algum tempo depois nos perdemos um do outro. Anos depois entre erros e decisões estúpidas, resolvi ligar e sua mãe me disse que Romeu estava casado e morava em outro país.

E nesse momento perdi suas pegadas, uma parte de mim gritou ao vento, a outra se conformou, Romeu tinha sumido no mundo.

E não foram poucas as vezes que olhei para a lua e me peguei pensando se ele também estava olhando.
Uma vez eu suspirava olhando uma linda lua cheia e minha prima me perguntou se eu estava pensando no Romeu, naquele momento não estava, mas parecia suficiente olhar e lembrar dele, como a vizinha da minha abuelita, fazendo uma coisa sem deixar rastros.

Não ter visto as pegadas do Romeu, nem seus rastros manteve meu coração sossegado durante anos, triste, mas tranquilo diante do que não podia ser mudado.
A lembrança do Romeu parecia suficiente, minha abuelita tinha razão, eu sumi com as fotos dele e fui viver minha vida, guardei apenas o que cabia no meu coração e segui meu caminho. O transformei em um pedaço na alma que eu podia carregar sem dor, sem remorsos.
A sua ausência era uma presença leve, sem apertos nem sonhos de reencontro.

E curiosamente, apesar de ter entrado na era digital, nunca procurei esse Romeu, de tão guardado que estava, ou talvez eu já soubesse que mexer nessa água só faria minha cidade inundar.

Mas eu mudei o destino, virei em uma curva quando era para ter ido reto, atravessei a noite evitando o dia, usei a ponte para cortar caminho e tudo voltou a mim. Vinte anos depois respondi uma mensagem dele e agora sonho com minha abuelita me dizendo sobre as pegadas.

O que eu não sabia de Romeu nunca me atormentou, mas a vida digital tem seus dilemas e cruzes para serem carregadas, de um jeito ou de outro todos acabamos acompanhando a vida alheia e as pegadas de quem amamos. Vi seus rastros, segui suas pegadas e chorei nelas.

Abri páginas, conheci seus amigos, seu prato favorito, as férias no seu país preferido, as declarações da mãe.

Não tem lua na internet, aqui tudo é sol, aberto a todos, aqui caminhamos em cima das pegadas alheias.

E tudo isso voltou a mim, ou melhor, arrebentou na minha vida como uma represa desgovernada, que vai descendo sem avisar. Sua presença virtual se mostrou mais dolorosa do que sua ausência real. 

Resolvi que não poderia viver assim, então apaguei as páginas e o tirei da minha lista, que voltasse ao silêncio, onde meu amor não me perturba, que retornasse a lua e abandonasse o sol. Mas de nada serviu, como em uma teia de aranha fomos ligados por outras pessoas, amigos em comum, e de repente ele aparece no mural de um amigo e mais uma vez o sol bate no meu rosto como se fosse um tapa.
Não consegui fugir também das mensagens que me manda, nem dos avisos.

E que melancólico dizer isso, mas minha abuelita tinha razão, sua ausência me machucava menos. Sem seus pegadas eu não tinha onde chorar, sem seus rastros eu não tinha o que lamentar, mas sua vida, tão exposta na rede, tão aberta diante de mim, como um sol forte de verão, me faz mal.
Não foi sua ausência que me entristeceu, são suas pegadas que provocam meu choro.

Eu podia viver com a lembrança e ela me bastava, mesmo que eu mentisse para mim de vez em quando. Podia negar a história, mesmo que implicasse mentir sobre ela, pensar que estava casado, perdido no mundo, me soltava no ar e eu era livre. 
Mas ele se constrói diante dos meus olhos na vida virtual, mesmo sem eu querer, ele aparece, volta, coloca tijolos onde só existiam nuvens, muda a lua, deixa o sol aparecer.

Minha abuelita dizia que não gostava nem de fantasmas porque eles aparecem, ela preferia apenas a lembrança. Dizia que depois que sua mãe morreu ela podia sentir o perfume dela, cada vez que a sentia por perto, e isso era melhor do que ter fotos ou ir ao cemitério. 

Para minha abuelita as pessoas que não estavam mais na nossa vida deveriam ficar apenas na lembrança, na imagem que temos delas, minha abuelita dizia que a mente não tem lugar para guardar tudo, por isso escolhia as melhores lembranças e as mantinha, com isso era suficiente.

Em algum momento voltei a essa história com minha abuelita, o que tem de errado em acompanhar as pegadas dos que amamos? Por quê sempre choramos nelas? 
E minha abuelita respondeu:

-A gente só vê as pegadas de quem amamos se eles estão a nossa frente, isso quer dizer que eles já se foram deste mundo ou não caminham ao nosso lado, por isso nos causa tanto sofrimento, porque não estão no mesmo passo que nós. Por isso te digo, quem ama e nós amamos, não deixa pegadas nem rastros, some como em uma nuvem, se guarda na lembrança, no coração, mas não pisa mais o chão a nossa frente, porque isso poderia fazer com que mudássemos nosso caminho e acabássemos prejudicados. Amor não deixa pegadas, deixa a eternidade e o caminho aberto.



Iara De Dupont

2 comentários:

Mônica disse...

Oi, Iarinha! Muito sábia sua abuelita! Concordo plenamente... E sentimentos mal resolvidos é tão ruim... 10 para seu post.

C.Belo disse...

Sua avó, mesmo depois da morte, ainda tem muito a te dizer né.... A sabedoria é um legado fascinante!

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