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01 março 2016

Se precisar escrevo até em porta de banheiro.....

KATE DEL CASTILLO, SEAN PENN E EL CHAPO

Eu lia uma entrevista de uma conhecida feminista (me recuso a dizer o nome da figura, mas é de um portal grande) e ela dizia que ''blogueiras feministas não resolvem nada nem acrescentam algo à luta, que deve acontecer nas ruas, não detrás de uma tela de computador''.

Tenho bem claro que sou uma escritora com viés feminista, não sou uma feminista que escreve e amanhã esse viés pode ser substituído por outra coisa que me interesse.
Mas no momento que foi dito ''blogueiras feministas'', não gostei.

Não se pode, debaixo de nenhum pretexto, subestimar o poder da escrita, seja em um livro ou em um blog. Grandes movimentos começaram com papéis distribuídos pelas ruas e o conhecimento que temos do passado chegou a nós pelos livros, pelo o que foi deixado impresso.

Os tempos são outros e agora as coisas são colocadas na internet, mas continuam tendo seu peso e importância, não se pode descartar de maneira depreciativa e dizer que blogueiras não mudam nada. E se blogueiras feministas fossem tão sem importância não seriam perseguidas como são, o mesmo sistema já teria ignorado.

Também tive uma visão do mundo orientada para o patriarcado, assim que eles percebessem como as coisas são difíceis para nós, mulheres, eles mudariam tudo.

Mas isso foi uma ingenuidade da minha parte, homens não vão colaborar nem mudar a estrutura atual, até porque é bem conveniente para eles, sendo assim resta a nós, mulheres, quebrar as paredes que nos oprimem e escrever é uma dessas maneiras.

São séculos de silêncio e a história comprova isso, o número de escritoras, cineastas, pintoras, cientistas, é mínimo perto do número de homens nas mesmas profissões, temos que encarar isso, há séculos vemos o mundo debaixo do prisma que nos obrigaram a ver e nosso silêncio não é mais uma opção, queremos ver o mundo como ele é, não como nos é mostrado.

Jogaram em nossa direção centenas de livros românticos, filmes melosos, músicas pegajosas e a certeza de que se seguimos o amor tudo será maravilhoso.

A presença feminina ainda é tímida em diversos campos, isso nos leva a ler o que querem que seja lido por nós, sem poder de escolha.

E duas histórias mostram como o mundo ainda é fechado, machista e como somos obrigadas a engolir a informação que nos é dada.

A atriz mexicana, Kate Del Castillo é filha de um famoso ator, Erick Del Castillo. Quando Kate nasceu seu pai já era rico e estrela de televisão. E seguindo a lei da ''meritocracia'' no estilo latino, Kate pediu ajuda ao pai e entrou na mesma emissora, Televisa, aos quinze anos de idade. Lá começou uma trajetória bem sucedida, ela não é a típica loira, seu tipo físico é mais próximo das mexicanas, o cabelo escuro e a pele morena. Trabalhou durante décadas, fez carreira e foi capa de centenas de revistas, que falavam sobre sua vida amorosa e uma preferência dela, sempre namorava homens atraentes, por isso a história que segue é tão estranha.

Há poucos anos ela decidiu sair do México e fazer uma carreira nos Estados Unidos, acabou fazendo uma novela de muito sucesso ''La reina del sur'' e parecia levar uma vida mansa até um episódio que aconteceu há uns meses.

No começo do ano o traficante ''El Chapo'' estava foragido e era procurado pelo exército mexicano e americano. Conhecido por ser o maior traficante de todos os tempos e responsável por 67% da droga que sai dos México para os Estados Unidos, dirige um negócio de bilhões de dólares.
E mesmo escondido dos exércitos ele apareceu em uma entrevista e fotos com o ator americano Sean Pen. Quando o material foi publicado virou um escândalo, como assim um ator americano teve acesso a um traficante mais procurado do mundo?

A resposta foi Kate Del Castillo, foi ela que fez a ligação entre o traficante e o ator. Dizem que em 2012 ela publicou em uma página social que confiava mais no traficante do que no seu governo. El Chapo já era apaixonado por ela, pela novela e aproveitou o comentário para entrar em contato.

Depois disso a história se enrola, a polícia grampeou os telefones dela e soltou a história depois, são longas as declarações de amor dos dois lados, mas não fica claro se alguma coisa aconteceu ou se eles chegaram a se encontrar, mas a confiança era o forte o bastante para que ela fosse orientada a falar com ele apenas com um telefone que ele deu e quando Kate mostrou vontade de ter um negócio de bebidas, de tequila, ele mandou o seu advogado orientá-la e entrou de sócio.

As ligações foram gravadas e as mensagens de textos apreendidas, não se pode negar que alguma coisa acontecia entre os dois.

Tudo isso caiu nas mãos de uma imprensa machista e misógina, pegaram então Kate para Cristo. Tem sido julgada e barbaramente condenada pela opinião pública, mas ninguém conta a história inteira. Ela foi o elo entre o ator Sean Penn e El Chapo, mas para que a entrevista fosse realizada outras pessoas foram levadas até o traficante, em um avião particular.

Então falamos de um ator americano, um fotógrafo e outras duas pessoas que ninguém sabe quem eram, e Kate no avião, indo ao encontro de El Chapo. Todos eles estavam realizando um ato ilegal, estavam voando debaixo do radar para que o avião não fosse detectado pelos militares e estavam indo se encontrar com um foragido da polícia mexicana e americana.

E caiu em cima de quem a bomba? De Kate. 
Sean Penn percebeu a besteira, viu que poderia ser obrigado a depor pelo o que tinha feito e correu para a televisão americana para se desculpar e dizer que está arrependido. Mas ele é americano, branco e rico, jamais seria condenado por entrevistar um foragido.
Também se apoiou no direito de entrevistar quem quisesse, mas não explicou de onde tirou o direito de exercer a atividade de jornalista e que surpresa que essa tivesse sido sua primeira vez!

Os outros que estavam no avião ninguém chamou, nem sabem quem são.

Mas Kate! Ah, coitada da Kate! Está encolhida nos Estados Unidos, pagando fortunas em advogados, porque já foi citada pelo governo mexicano para depor e explicar sua relação com o homem mais procurado (na época, porque a polícia já o encontrou e prendeu).

Ela está tentando não deixar os Estados Unidos e se proteger com todas as leis, porque se entrar no México sua vida se complica. Virou meme, piada e música, teve contratos cancelados e sua vida profissional está em suspenso, entrou para a história como a mulher apaixonada por um bandido.

Tenho varrido tudo a procura de material sobre o assunto e não li nada até agora escrito por alguma mulher, todos são jornalistas homens e carregam no tom de desprezo, de burla e de surpresa, ora, uma menina rica com o maior traficante do mundo. Todos se horrorizam pelo fato dela nunca ter dito onde ele estava, a consideram cúmplice dele e carregam na tinta do julgamento. E não esquecem de dizer que foi Kate que acabou entregando seu amor, foi a troca de mensagens entre os dois que levou a polícia ao lugar onde ele estava escondido.

Toda a vez que sai material novo sobre o caso, mais mensagens, mais ligações, a imprensa se joga em cima dela, como se fosse a culpada de todo o tráfico no México.

Deles ninguém diz nada, do ator branco que foi até lá de maneira ilegal, entrou em outro país, ninguém diz nada. Do fotógrafo, assistentes, ninguém publica nem os nomes, bom, eles são homens, estão imunes do linchamento público e com certeza não faziam nada de errado, quem fez a besteira foi a Kate.

Mas ela os levou até o traficante! É, eles pediram e ela foi ingênua de achar que poderia negociar o encontro e não seria culpada por isso.

Kate tem sido vítima de uma imprensa machista por semanas, que não dá trégua, e eu não defendo a moça, se meter com um traficante procurado, ir até ele sabendo que isso é ilegal, enfim, ela procurou a encrenca, o que me irrita é que seja a única punida em uma situação onde todos os homens foram poupados. Ela errou em subir ao avião, mas tinha quatro homens naquele avião e todos foram se encontrar com um foragido, ou seja, ela não é a única que deveria ser chamada para prestar depoimento.

Mas agora parece que melhorou um pouco para Kate, porque de repente, depois de semanas, seu nome sumiu dos jornais e revistas, e alguns rumores dizem que El Chapo se irritou ao ver sua musa sendo massacrada e mandou que parassem com isso. O México é um país onde mais se matam jornalistas no mundo, a imprensa está proibida pelos traficantes de dizer o que acontece, então não fica difícil concluir que o assunto foi resolvido da maneira como sempre se resolve, com alguém avisando o jornal ou a revista que tal coisa não pode mais ser publicada.

E ninguém tem a versão da Kate nem a versão de nenhuma jornalista, tudo escrito até agora foi dito pelos homens, na versão machista deles.

O ponto é que eles aprontam, torturam, matam e ainda tem o poder de contar a versão deles, silenciando a nossa.

E outro caso mostra a mesma coisa, uma jornalista Anabel Flores, que trabalhava em um jornal pequeno, na cidade de Orizaba, Veracruz, México, foi assassinada no último fevereiro. Ela estava em casa, amamentando seu filho de três semanas, quando um grupo de quatro homens entrou no lugar e a arrastou até o carro na entrada. 
Uns dias depois o cadáver foi achado na estrada, amarrada e seminua, com sinais de todos os tipos de violência. Anabel era responsável pela página de crimes, mas não dava sua opinião, apenas se limitava a informar quem tinha morrido.

A pressão da Anistia Internacional é enorme no México quando matam um jornalista, chama muito a atenção e a polícia tem que mostrar serviço.
No começo diziam que a história de Anabel era a mesma a centenas de jornalistas mortos, deve ter publicado algo que irritou os traficantes e foi morta, mas mesmo assim era necessário uma investigação.

Virou uma batata quente para o governo e a polícia, até que a polícia decidiu soltar na imprensa uma informação secreta, Anabel tinha uma caminhonete Patriot, que custa uma fortuna, não era compatível ter esse carro com o salário tão baixo que recebia.

Entendeu? É, é isso, ela deixou de ser vítima e virou suspeita! 

A Anabel tinha um carrão, mesmo morando em um bairro de classe média baixa. E a polícia ainda disse mais! Que ela foi vista uma semana antes de ser assassinada conversando com um rapaz conhecido por ser um delinquente! Mas ela era jornalista, alguém perguntou se estava entrevistando o rapaz? Não! Ela era mulher e mulheres só fazem besteira e se envolvem com bandidos!

Varri a internet atrás de mais informação, mas não achei nenhuma jornalista que tinha escrito sobre o caso da Anabel e nos portais que aparece a notícia, escrita por homens, a versão é a mesma, a caminhonete da Anabel foi presente de quem? Ela tinha alguma relação com algum traficante?

E a família? Apavorados, sumiram do mapa. Abandonaram a casa com tudo dentro, só Deus para saber onde estão.

E ninguém perguntou se ela ganhou o carro do marido, se comprou parcelado, se juntou durante anos o dinheiro da caminhonete, se vendeu algum terreno e comprou, ninguém, ninguém, ninguém foi atrás de saber da onde vem esse carro, todos os homens que escreveram sobre isso concluíram que ela deveria estar se relacionando com os traficantes e ganhou o carro de presente.
Isso é fato! Mulher só tem carro novo se for presente de macho! Não existem no mundo mulheres capazes de comprar seu própio carro!

Fui atrás de ler histórias sobre jornalistas mexicanos mortos e achei um detalhe incrível, em nenhum caso o carro deles foi mencionado! Mas como é que pode! Eles não têm carro? Ah, mas não deve ser novo e se for, eles devem ter comprado........

E que sorte a polícia mexicana deu, ao decifrar a morte de Anabel tão rápido, foi só concluir que se ela tinha um carro que seu salário não pagava, então ela era parte do esquema!

E em um momento brilhante, de enorme eficiência, a polícia prendeu um menor de idade, que dizem era o delinquente que ela foi vista conversando, o rapaz confessou o crime e a história foi encerrada. Não disse os motivos, nem como entrou na casa dela com quatro comparsas, mas tudo bem, essa parte já estava decifrada. E também não explicou porque torturou e estuprou a moça, enfim, o inquérito foi fechado.

Essa é a versão da imprensa machista e misógina, dominada por homens. 

E vem uma feminista me dizer que blogueiras não acrescentam nada de útil, poxa, se não fosse pelas blogueiras mexicanas eu não teria acesso a tanta informação (gracias chicas!). 

E não me interessa se é um blog, eu digo que todas as mulheres têm que escrever, temos que deixar impresso no mundo nossa versão, chega de tantas mentiras e tanta falta de dignidade ao relatar a morte de uma mulher. 
É nauseante pensar que na hora que morre um jornalista homem é um fator de respeito, mas quando morre uma mulher correm para incriminá-la, como se sua vida não valesse nada. Como diz uma amiga ''para o sistema todas somos umas putas de rua, que não fazem falta''.

É, somos putas, tratadas como putas e agora querem nos enterrar como putas, sem respostas dignas. E não quero ofender as putas, pelo contrário, não existe um grupo de mulheres mais oprimidas do que elas, mas digo ''putas'' no sentido que os homens veem assim a todas as mulheres, que estamos ali apenas para servi-los sexualmente e não somos nada além disso.

E tudo isso porque quem segura a caneta é um homem, um macho, que jamais pensaria em outra opção, ora, se uma mulher tem um bom carro é porque deve ser amante de bandido! 

Nossa versão não existe porque não escrevemos ainda sobre ela. E que me desculpe essa feminista, mas blogs têm sua importância, não só blogs, tudo o que uma mulher escreve, não interessa o lugar, é parte de uma revolução, porque estamos finalmente, depois de séculos de mãos amarradas e bocas costuradas, dando nossa versão dos fatos.

Verbo muda, verbo transforma, tudo o que puder ser escrito por nós vai mudar o mundo e a visão que todos têm dele. 

E nos portais e jornais dominados por homens, Kate é culpada por se encontrar com um foragido e Anabel era parte do tráfico. Mas nos blogs, aqueles que a feminista despreza, nesses blogs a vida das duas foi respeitada, Kate tem sua parcela de culpa, como todos os que estavam envolvidos e a morte de Anabel não pode ser justificada por uma caminhonete.

A caneta não está mais longe dos nossos dedos, a história nunca mais vai ser contada apenas por olhos masculinos e jamais vamos novamente ler apenas a versão que eles querem nos dar.

E não importa onde nossas palavras sejam escritas, podem ser livros, blogs, cadernos, papéis ou portas de banheiro, não importa, mas vai estar lá nosso ponto de vista, chega de morrer nas mãos dos homens e eles ainda terem o poder de decidir o que vão dizer a respeito disso.

Não estamos mais desenhadas na  parede nem quietas, vamos rabiscar o mundo, encher de frases e textos, deixar claro que não são mais eles que vão escrever sobre nós, não tem mais esse direito.

E meu recado a feminista que disse que blogs não mudam nada: senta e assiste, porque você vai ver o que as mulheres atrás da tela de um computador são capazes de fazer.



Iara De Dupont

2 comentários:

Cristina disse...

Abandonei de vez os sites de notícias agora. Os blogs são mais informativos, falam a verdade que as autoridades tem vergonha de contar, as vítimas não são culpabilizadas e o machismo não consegue contaminar tudo. Faz tempo que ser jornalista não garante absolutamente nada a respeito da competência da pessoa que publica uma notícia. Amigo jornalista, quando os blogs particulares estão fazendo seu trabalho melhor que você é hora de mudar de emprego.

E não é surpresa nenhuma que queiram culpar as mulheres. Homens machistas são uns frouxos que nunca assumem responsabilidade nem pelas menores cagadas do dia a dia, quanto mais por erros sérios. E com uma imprensa ameaçada e\ou mancomunada com traficantes a culpa é sempre de quem não pode se defender. Nojento, e quando eu digo que não se confia no que homem machista diz o pití é digno de um pirralho de seis anos fazendo birra.

Erres Errantes disse...

Concordo com seu post. Tudo o que sei sobre feminismo hoje, eu li em blogs. A internet é uma fonte riquíssima de informação, e desprezá-la é uma atitude que chega a ser ingênua. Se dependermos dos grandes portais de notícias, teremos uma visão do mundo totalmente equivocada. Nesse sentido, os blogs militantes são de fundamental importância.

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