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30 março 2016

Porquê as cozinhas fazem barulhos estranhos à noite


Minha abuelita tinha umas primas, ou talvez irmãs, eu não lembro bem, que moravam no campo.
Quando eu era pequena e me levavam lá parecia o lugar mais distante do mundo.
Eram plantações e plantações de milho, mas era a mesma história de sempre, camponeses à mercê da chuva, do sol, sem apoio do governo, explorados pelo mercado.

Nunca me disseram, mas eu sabia que toda a família da minha abuelita era muito pobre e cada vez que íamos lá ela pedia que juntássemos alguns brinquedos e roupas para levar para as crianças que moravam ali.

Meus primos adoravam ir, para eles era um espaço para correr e perseguir os animais. 
Eu nunca gostei por muitos motivos, era um lugar quente, a casa da prima que nos recebia era de chão batido e tinha dois cômodos, era de uma pobreza extrema, não tinha banheiro, apenas o fogão a lenha e uns tapetes feitos de bambu, para sentar no chão.
E a comida era farta, mas eu sempre tive um pouco de resistência a comer carne, então sofria quando vi aqueles pedaços gigantes de carne de boi ou galinhas na panela.

Eu fui criança de prédio, não sabia brincar subindo árvores, nem entrando em rios, meus primos eram mais soltos e se divertiam, eu não gostava. E hoje entendo que essas visitas me faziam mal, minha abuelita sempre voltava deprimida, com o coração apertado, apesar de meu tio insistir em um argumento real, essa parte da família não era tão pobre assim, eram donas das terras e vendiam seu milho, se não quiseram construir uma casa melhor, não foi por falta de dinheiro, mas de visão. Eles compravam ouro, não tinham contas de banco, todas às vezes que fomos ali as primas nos deram lembrancinhas de ouro, pulseira, ou uma medalha.

Mas suas filhas não saiam dali, então ficavam fascinadas com nossas bonecas e mochilas, no fim ficava tudo ali, minha abuelita arrancava da gente, com promessas de comprar outra depois, até tênis a gente deixou ali.

A última vez que fui até lá minha abuelita estava muito velhinha e muito, muito doente. Um dia ela acordou e quis ir, apesar de ser uma viagem de três horas. Minha mãe aceitou levá-la e me pediu que eu fosse junto, mas foi um dia estranho, eu trabalhava em uma emissora e carregava no carro uma mala cheia de maquiagens, esse dia tinha um monte de perfumes, porque estava tudo misturado, na correria eu não tinha separado nada, passei o dia gravando e quando eu fazia isso levava tudo o que tinha. 
Minha abuelita levava uns doces e chocolates para suas sobrinhas, as filhas das primas. 
Chegamos lá um pouco tarde, mas como sempre nos receberam muito bem.

As sobrinhas ficaram felizes com os doces, mas viramos adesivos na minha mala e perguntaram o que era, eu disse que eram maquiagens, então elas pediram para ver. Eram todas meninas, entre doze e dezoito anos e ficaram malucas com a mala, nunca tinham visto tanta maquiagem, nem experimentado perfumes. Eu vi o olhar da minha abuelita atravessando o lugar, pude ler o seu pensamento e sem pensar dei a mala inteira para as sobrinhas. Minha mãe ficou pálida, me puxou em um canto e disse ''mas até os perfumes?''. É, até os perfumes.

No caminho de volta minha abuelita agradeceu meu gesto e me disse que pagaria cada batom que tinha naquela mala, cada perfume, eu disse que tudo bem, mas sabia que ela não tinha dinheiro para comprar tudo o que estava ali, até porque eu tinha levado anos para juntar, não foi uma compra de um dia.

Foi a última vez que minha abuelita foi até lá, meses depois ela faleceu. Eu não pude ir ao velório, mas uma das sobrinhas foi e disse a minha mãe ''eu sou muita grata a abuelita porque antes dela eu não conhecia perfume''.

Elas ficaram com a ideia de que a mala foi presente da minha abuelita, gravaram na mente isso e sempre achei engraçado, não lembro o que disse quando dei a mala, mas elas estavam acostumadas aos presentes da minha abuelita e devem ter pensado que ela que levou.

Uns anos depois minha mãe voltou lá, foi levar algumas coisas e reparou que na parte da casa onde seria a cozinha, com um armário e fogão a lenha, tinha um vidro de perfume fechado e ela perguntou porque estava ali e a prima respondeu:

-Ah, a gente esqueceu um dia ali e acho que o Toñito gostou! Você acredita que desde que colocamos o perfume ali ele parou de fazer barulho à noite?
Resolvemos deixar ali, assim ele sossega!

O Toñito é outra figura que fez parte da minha infância.
Ele era o filho de uma prima da minha abuelita, mas morreu quando era pequeno, foi em um momento onde a safra de milho não valia nada, eles tinham pouca comida, Toñito ficou doente e não resistiu e desde sua morte dizem que ia à cozinha procurar comida.

Minha abuelita levava essa história a sério, sempre dizia que não podíamos dormir com fome, porque poderíamos morrer durante o sono e depois ficaríamos como almas penadas vagando pela comida. Ela dizia que a pessoa pode morrer de qualquer coisa e mesmo assim consegue encontrar a paz, mas se morre de fome ou de sede, as necessidades primárias do ser humano, não consegue abandonar o planeta e fica vagando atrás de comida. Esse era o motivo pelo qual é muito comum escutar barulhos nas cozinhas quando não tem ninguém, segundo minha abuelita é quando os fantasmas aparecem para comer, desesperados com fome. Ela dizia que a dor da fome é tão grande que marca a alma da pessoa, por isso mesmo depois de morta ela ainda lembra da sensação de fome e procura comida.

E chegou um ponto que Toñito fazia tanto barulho que sua mãe colocava um prato de comida todas as noites, em cima da mesa, para quando ele viesse comer.

Minha abuelita morou em um apartamento, no qual passei parte da minha infância, bem assustador, e os barulhos na cozinha eram frequentes, barulho de panela, de gente pegando garfos, abrindo a geladeira, então ela tinha que levantar e fazer um prato ou colocar um copo de leite e os fantasmas sossegavam.

Também minha abuelita dizia que eles poderiam ficar muitos bravos, se entrávamos na cozinha para comer de madrugada e não colocássemos nada a eles, então eles derrubariam o que estivéssemos comendo. Minha abuelita cansou de dizer ''já reparou como de noite toda a comida cai no chão do nada, parece que temos mãos de manteiga? São eles com fome e irritados, que empurram nossa comida''.

Já morei em muitos lugares onde escutava barulhos na cozinha, às vezes passos, ou armários que se abriam, então eu levanto rezando e coloco umas bolachas para os fantasmas, para que me deixem dormir.

Meu tio achava tudo isso uma bobagem e comia a comida dos mortos, mas não se pode fazer isso, até porque o sabor muda, quando os fantasmas se aproximam eles puxam a energia da comida e ela perde sabor, por isso comer a comida depois não adianta, não tem gosto de nada.

Uma vez estávamos na casa da minha tia, todos na sala, quando escutamos umas colheres irem ao chão, ficou todo mundo se olhando, sem saber o que fazer, mas minha abuelita se levantou e foi até lá, o filho do meu primo, com uns dois anos a seguiu, viu quando ela ligou a luz, colocou as colheres de volta ao seu lugar e pegou um prato, separou a comida e deixou ali. Quando ela voltou a sala, meu primo, um ser de péssima qualidade, disse:

-Abuelita, aqui é minha casa e não quero ver meu filho participando dessas superstições, nós temos que andar para frente e não alimentar a ignorância.

E ela respondeu:

-Na minha frente ninguém passa fome.  

-E quem está passando fome abuelita? Umas colheres caíram no chão, foi só isso, de repente estavam na beira da pia.

-Não sei onde estavam, mas só sei que quem tem fome vai para a cozinha e faz barulho. Isso me basta. E ninguém escolhe morrer de fome ou não comer antes de dormir, tem gente que vive assim, dormindo com dor na barriga de tanta fome. E depois a pessoa volta e eu vou negar comida? Nunca. Só Deus sabe o sofrimento que a fome causa. A pessoa só volta a esse mundo por duas coisas: vontade de se vingar ou porque não superou a fome que passou.

-E a senhora vai ensinar meu filho de dois anos a respeitar fantasma?

-Eu vou ensinar ao teu filho o que não te ensinei, a respeitar o sofrimento dos outros, a fome que muitos passam e se ele pode amenizar colocando um copo de leite para um fantasma, que faça isso. E você vai lembrar de mim, porque não existe casa sem barulho na cozinha, todas as casas têm seus fantasmas, seus mortos e eles aparecem toda madrugada.

-É normal escutar barulhos, a maioria mora em cidades e todos têm vizinhos, isso não quer dizer que são fantasmas famintos.

-Não é assim, a gente sabe bem quando o barulho é na nossa cozinha, alguns deles até ligam a luz. E o que te custa colocar um prato?

-Mas por que eu vou colocar um prato para um fantasma que nem sei quem é?

-Você tem que saber quem é para matar a fome da pessoa?

-Aqui faz muito barulho à noite, mas é pelo Mister (o gato).

-Mentira, os gatos não fazem barulho, são cuidadosos, eles percebem os fantasmas e ficam olhando, mas não são os responsáveis pelo o que acontece na cozinha.

Então minha prima se meteu e disse:

-Abuelita, deixa ele pra lá, daqui a pouca a gente vai embora e tomara que todos os fantasmas do mundo invadam a cozinha dele, façam um festival de música tecno lá dentro! 

A discussão se encerrou ali, é triste dizer isso, mas para uns primos minha abuelita sempre foi vista como ignorante e supersticiosa.

E toda essa história veio a mim porque minha mãe me disse ontem que queria me comprar o perfume que eu deixei com as primas, não sei porque ela lembrou disso agora, sei que sempre achou um gesto extremo, entendeu que fiz aquilo pela minha abuelita, mas que ficou chocada de ver minha maleta de maquiagens ser deixada ali. Me falou que queria saber que perfume era, eu não lembrava, mas ela me descreveu o frasco, era uma estrela, o Angel, que na sua composição tem notas de chocolate, baunilha, caramelo e algodão doce.
Então lembrei do Toñito e do que minha abuelita dizia que quando vamos embora deste mundo só deixamos a pele, mas continuamos sendo os mesmos, é engraçado pensar que o perfume sossegou ele, deixou de procurar comida, talvez se encantou como qualquer criança com o cheiro do chocolate, da baunilha e do algodão doce.

E minha abuelita tinha razão, se podemos amenizar a dor de alguém, por que não fazer isso? O que custa deixar um pouco de comida se os fantasmas pedem por isso? Já não passaram o suficiente morrendo de fome antes? 

Toño continua lá, mas agora parece que a fome passou, ficou só o encanto do cheiro do algodão doce. É uma criança, sempre vai ser. E nunca deveria ter conhecido a fome na sua passagem pelo mundo. E agradeço a Deus pelo dia que deixei o meu perfume sem pensar, sem lembrar que paguei parcelado, sem remorsos, talvez se eu tivesse consciência do que significava teria deixado de propósito.

Era uma mala cheia de maquiagens, mas minha abuelita foi sábia ao me olhar e pedir que eu deixasse tudo ali. Perto do que o Toñito passou neste mundo, deixar minha mala não foi nada. Ele morreu com cinco anos e nessa idade eu tinha comida farta na minha casa e acesso a médicos, se precisasse.

Fantasmas são pessoas que um dia existiram aqui. E não fazem barulhos à toa, às vezes querem apenas isso, um prato de comida. E minha abuelita tinha razão, não se nega um prato de comida a ninguém.


Iara De Dupont

2 comentários:

C.Belo disse...

Meu Deus Iara, mais um motivo pra eu não ir na cozinha beber água à noite kkkkkkkkkkkkkkk

Alessandra Tofoli disse...

Huuuum Angel, adoro esse perfume!!!

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