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05 março 2016

Nós, mulheres, não somos turistas (somos carne moída)

Duas turistas: Marina Menegazzo, de 22, e María José Coni, de 21.

Semana passada duas estudantes argentinas foram assassinadas durante uma viagem de turismo ao Equador.
O presidente do Equador, Rafael Correa, entrou no twitter e garantiu a família das moças que o crime seria solucionado. Dias depois a polícia fechou o caso, prenderam um suspeito e ele indicou seu amigo, os dois assumiram a autoria do crime.

A história contada pelas autoridades foi a seguinte: as duas moças estavam em um bairro perigoso e violento da periferia do Equador, entraram em um bar sinistro e contaram ali que tinha sido assaltadas, iriam esperar até o amanhecer para pegar carona ao aeroporto, onde voariam para o Chile e depois para Argentina. Elas ficaram de conversa com dois rapazes e os convidaram a beber, como não tinham onde ficar um deles ofereceu sua casa, elas aceitaram e chegando lá um deles tentou abusar de uma das moças, que reagiu e levou uma pancada na cabeça. A outra tentou fugir e também foi morta.

O que sempre me impressiona nessas histórias ''oficiais'' é a falta de interesse em fechá-las ou fazê-las parecer verossímeis, pelo menos.
Não apareceu nenhuma testemunha até agora que confirme que elas estavam no bar, mas várias pessoas já disseram que elas foram vistas na rota do turismo, em lugares conhecidos e distantes da periferia.
Fica difícil entender como elas foram parar em um bar, se foram roubadas por quê não estavam em uma delegacia? E se não tinha dinheiro como se ofereceram para pagar a conta do bar? E por que teriam dito que iriam embarcar ao Chile antes de ir para a casa se talvez, não tinham nem os passaportes?

Nada disso importa, o governo já considera o caso solucionado e sente muito pela perda da família.

Tudo tinha que ser resolvido logo, porque o Equador e a Bolívia recebem trinta mil estudantes argentinos por ano, para fazer turismo em suas praias. Mas o número de queixas sobre roubos é bem alto, e também as reclamações sobre embaixadas que não ajudam esses jovens quando são roubados.

A primeira reação das pessoas em relação as duas moças argentinas é sempre a mesma: por quê viajaram sozinhas?

Porque elas tinham esse direito. O dinheiro é delas, a vida também e a vontade de conhecer os lugares também.

A internet foi invadida por um movimento criado por feministas latinas que diz ''No viajaban solas'' (não viajavam sozinhas), querendo dizer que elas tinham o direito de fazer isso. Também espalharam pela rede o outro lema ''Ni uma más'' (nem uma a mais).

Como feminista apoio todos esses movimentos e penso a mesma coisa que todas elas, as mulheres temos o direito de viajar sozinhas e ninguém tem nada com isso.

Mas então tenho a sensação de que estou sendo ingênua e lembro de uma amiga que me disse uma coisa interessante durante uma conversa, ela falou:

-A declaração universal dos direitos das crianças foi escrita em 1959, ficava determinado que todas as crianças tinha direito a moradia, alimentação, água potável e estudo. E o que mudou nesses anos? Nada, ainda morrem milhões de crianças de fome, sede e maus tratos. E quem se importa? Quantas crianças imigrantes estão morrendo de frio na fronteira da França e nenhum governo se mexe? Quantas crianças estão atravessando fronteiras à pé, doentes, com fome e quem se mexe? Quem vai lá ajudar são as pessoas comuns, que se comovem e levam alimentos, mas o governo não faz nada.

Esse é uma das piores realidades que temos que enfrentar, entre uma declaração de direitos humanos em um papel e a vida real existe um mar cheio de tubarões.

E volto ao ponto, sempre lembro do meu professor (POST) dizendo que o feminismo é uma guerra que apenas começou, ganhamos umas batalhas, o direito a estudar, a votar, a caminhar nas ruas e a ter nossa própia conta de banco, mas de resto ainda estamos lutando e não fizemos o principal, a educação em relação a igualdade ainda não começou, ou seja, homens não estão sabendo disso e agem de acordo as ideias antigas, ainda mandam no mundo e pensam que mulheres são objetos.

Não sei na como é no triângulo nórdico, os países bem sucedidos em relação a igualdade, mas posso falar com folga da America Latina.

Podemos bater o pé e garantir nosso direito à viajar, eu posso sair agora da minha casa, ir ao aeroporto e embarcar direto ao Peru, lugar que sempre tive vontade de conhecer e nem preciso avisar ninguém, sou livre em todos os aspectos. Posso fazer isso? Posso. Eu faria isso? Hoje não.
Para quê ser hipócrita? Para quê fingir que o Peru é um lugar seguro apenas porque eu tenho o direito de ir e vir?

O Peru é um país machista, fechado e violento. Só porque eu sou feminista, conheço meus direitos, e posso pagar a passagem vou achar que todos os homens peruanos sabem disso? Só porque eu posso fazer o que quiser da minha vida vou achar que todos os homens vão respeitar isso?

E algumas coisas são ligadas a idade, há dez anos quase fui para a Guatemala com uma amiga, só não fui porque meu pagamento atrasou e ela teve que ir embora, mas a gente iria no esquema mochilão, ficaria na casa de uns amigos dela e depois iria conhecer o lugar. 

Hoje percebo que era péssima ideia, imagina, um lugar como a Guatemala não é uma ideia tão simples. 
As pessoas mais jovens adoram o mochilão pela America Latina e isso vale a pena, são lugares lindos, mas não podemos ignorar que todos são lugares violentos, machistas e com números altíssimos de feminicídio, a vida da mulher nesses lugares não vale nada.

Muita gente reclama quando falo isso, me dizem que sou machista e estou reforçando a ideia de que mulheres não devem viajar sozinhas pela America Latina, mas eu penso o seguinte: se é uma guerra, por que porra eu entraria nela de peito aberto?
Não me parece uma estratégia inteligente agir assim, ficar presa a crença de que apenas porque eu tenho meus direitos o mundo já sabe disso.

E não sou a favor de viajar com homens, se minha filha quisesse viajar com um grupo de amigos eu também subiria pelas paredes, pensando naqueles casos de amigos que estupram amigas durante essas viagens. A única solução que me parece viável é mulheres viajarem em grupos de seis, sete, é mais difícil sequestrar e matar sete mulheres do que pegar uma ou duas.

Falta estrategia ao feminismo e mais consciência que de os homens não estão falando a mesma língua, não sabem que não somos objetos e eles sabem que saem impunes de qualquer coisa. Tenho certeza que esses ''suspeitos'' pegos no Equador não tem nada a ver com a história, devem ter sido escolhidos pela polícia e obrigados a assumir a culpa para amenizar a fúria da imprensa e a pressão internacional. Aposto que o culpado está dando risada de tudo isso.

E o machismo não aparece apenas na maneira como elas foram mortas, mas no resultado da investigação. Fica claro a proteção ao homem, ora, elas estavam em bar, de madrugada, pagando bebidas para estranhos! 
O sistema é claro, não é só morrer como puta de rua, mas ser enterrada como uma delas, sem direito a dignidade e com a verdade debaixo da terra.

Esse é o mundo, adianta jogar flores e dizer que tenho direito a viajar? Adianta me dizer que sou dona da minha vida? 
Não sou, pelo menos não nesse esquema.

E já escutei milhões de situações parecidas, que nunca ouviu?

Quando eu morava no México um conhecido que era arqueologista me contou que fizeram um trabalho de grupo em umas pirâmides e entre eles tinha uma estudante espanhola. Depois de três dias o trabalho foi encerrado, mas a espanhola insistiu em ficar mais uma noite. O rapaz disse a ela que o lugar era isolado, perigoso e não poderia ficar, a moça ficou nervosa, disse que tinha anos estudando e era a primeira vez que estava ao lado do seu objeto de estudo e não iria sair dali, ficaria mais uma noite.

Se passaram dois dias e ela não apareceu na faculdade, então um grupo foi procurá-la e encontrou seus pertences, mas nunca acharam a moça.
E quando esse conhecido me contou a história ele babava de ódio, se referia a ela como ''aquela histérica'', tudo porque a família da moça foi ao México exigir uma investigação e a faculdade se viu pressionada, esse rapaz era assistente do professor e caiu nele a culpa de ter deixado a moça no lugar e ainda perderam a verba e o trabalho foi suspendido. A moça nunca foi encontrada, mas é bem lembrada porque depois dela os trabalhos de campos em lugares isolados começaram a ter medidas mais rígidas e todos os machos da faculdade ressentiram isso.

A moça estava no seu direito? Sim, pagou sua viagem e estava estudando, era seu direito, mas escolheu o México, uma das taxas mais altas de feminicídio do planeta.

Não adianta ser ingênua, temos que aceitar que a realidade ainda não foi modificada e ir de peito aberto a lugares desconhecidos não é a decisão mais inteligente do mundo. E vou ser sincera, porra, corremos tantos riscos em nosso país, imagina fora!

Minha amiga me diz que eu reforço a ideia do medo, que faço o que o patriarcado quer, que fiquemos em casa, mas não é nada disso, eu só quero que algumas mulheres entendam que estamos no meio de uma guerra e temos dois inimigos na cola, o sistema e os homens. Não vamos vencer entrando no campo de batalha de peito aberto, é preciso mais do que isso, estratégia e posicionamento.
E não me parece inteligente viajar por países machistas e violentos, por mais terrível que seja dizer isso.

Lembro de um caso que aconteceu há dez anos quando eu trabalhava em uma emissora. Um casal iria passar sua lua de mel em um país árabe, não lembro qual. A moça passou mal depois da festa do casamento, teve intoxicação alimentar e foi orientada pelos médicos a esperar uns dias antes de viajar. Não sei o motivo, mas o marido decidiu ir antes. Ela marcou sua viagem para três dias depois, mas quis fazer uma surpresa e embarcou um dia antes.
As câmeras do aeroporto pegaram a imagem dela desembarcando, indo até um local de informações, depois se aproximou de um ponto de táxis, mostrou um papel com o endereço do hotel e embarcou em um.

E não chegou ao seu destino. No dia seguinte o marido foi ao aeroporto buscá-la e quando viu que ela não desembarcou ficou preocupado e ligou para sua família, foi informado que ela já deveria estar ali.
Esse caso foi um escândalo e dado o fato do casal ser bem relacionado até o governo do México se meteu exigindo explicações sobre o desaparecimento da moça. Nunca acharam o taxista, todos no ponto vieram com aquela história de ''ele não era daqui, não o conhecemos'' e o mais perto que chegaram foi de um rumor, uma testemunha diz que via a moça sendo puxada por dois rapazes e vendida aos beduínos.

E sobrou para o marido, dizem que ele ''sumiu'' com ela de propósito ou ela que fugiu, mas foi a única figura decente na história, largou tudo e procurou pela mulher durante quatro anos, se enfiou em todos os desertos, conheceu todos que andavam por ali, mas nunca achou nenhuma pista, ficou doente e acabou voltando para casa.

E eu estava lendo sobre as turistas argentinas e uma blogueira chilena me disse que na Bolívia já ligaram o alarme, porque sumiu outra turista argentina. É, pois é, eu digo o mesmo, caramba!

Direitos no papel não imunizam ninguém e nem precisa sair do país para isso. As estudantes argentinas tiveram um azar enorme ao encontrar o assassino no Equador, mas poderia ter acontecido também na Argentina, outro lugar com um número alto de mulheres assassinadas. Não importa o lugar, estamos cercadas e temos que ser mais inteligentes do que o sistema, achar que só porque é feminista está protegida não é uma atitude lúcida.

E colar adesivos em malas dizendo ''eu posso viajar sozinha'' não me parece que vai resolver muita coisa, e ainda por cima avisa que está viajando sozinha!

Não sou eu que digo, é o desenho atual do planeta, o auge do machismo, da loucura, da violência e de um sistema desenhado para proteger os machos.

Eu vejo essas meninas argentinas e meu coração se quebra, tão meninas ainda e uma morte tão brutal! Fiquei devastada com a notícia e com o horror das declarações da polícia, tentando discretamente justificar a morte pelo comportamento delas! E quem vai continuar investigando a morte delas? Ninguém, caso fechado. 

Mas me recuso a cair nesse lago de ilusões e pensar que somos livres, se minha filha me dissesse que vai viajar com uma amiga para o Equador, eu diria o quê?  Vai, pode ir, você é livre, tem direito de fazer o que quiser, aproveite a liberdade conquistada e o o direito de poder viajar sem autorização do marido!

Eu diria isso? Hoje não. E me quebra a alma dizer que não diria isso, pelo contrário, sentaria com ela e faria de tudo para tirar essa ideia de sua cabeça, explicaria que países machistas são países machistas, tanto para cidadãs como para turistas.

Não me sinto bem escrevendo isso, preferiria fazer um texto lindo e comovente dizendo que todas as mulheres podemos usufruir dos direitos conquistados, mas me recuso a ser hipócrita e tratar o feminismo como uma guerra que já vencemos. É um campo de batalha em aberto e ainda morremos como formigas neles, em todos os países.

Bater a mão no  peito e gritar ''tenho o direito de viajar'' e grudar adesivos na mochila não é suficiente, é bom que seja feito porque todo o barulho vale a pena, mas não  resolve a questão.

Precisamos ser mais inteligentes e entender bem o desenho do mundo, sem essa noção não vamos saber nos mexer de acordo a nossa segurança.

E deixo uma coisa bem clara: nós, mulheres, temos que enfrentar uma realidade, NÃO SOMOS TURISTAS NO MUNDO.
Não somos bem vindas em nenhum lugar, turistas são os homens que podem viajar para onde quiserem, podem se perder, dormir no mato, atravessar a estrada e ninguém vai encostar neles, o máximo que pode acontecer é que serão roubados, mas jamais estuprados e mortos. 
Mulheres não são turistas neste mundo, não somos vistas dessa maneira porque nossa vida não vale a mesma coisa que a vida de um homem. Nós não somos respeitadas em nenhum lugar, por tanto não somos turistas.
Nós não somos turistas, então antes de arrumar a mala, principalmente para visitar outro país machista e violento, é bom lembrar, não somos turistas, somos carne moída circulando pelo planeta, aquela carne bem fresca que faz os lobos salivarem e começarem a uivar.

Iara De Dupont

4 comentários:

Ella disse...

Excelente post, Iara! Nada mais a dizer... só sinto a dor de viver num mundo perigoso para a mulher.

damaris disse...

Marinas e Marias...
Dizem que vocês foram mortas porque viajavam ''sozinhas''??!!
Como assim? Vocês não estavam acompanhadas Uma da Outra?
Dois seres humanos do sexo feminino são considerados sós.
Isso ainda acontece no planeta Terra.
Essas meninas distraídas esqueceram-se de levar na bagagem músculos e testosterona.
Mas onde estavam com a cabeça diriam alguns?
Que tragédia ainda precisarmos cercear a liberdade de ir e vir porque sempre haverá monstros no caminho a interromper a viagem da vida?!!
Não, meninas! Vocês não são responsáveis por terem morrido jovens.
Tampouco por serem mulheres.
Vocês não têm nenhuma culpa por despertarem desejos sexuais nessas criaturas misóginas monstruosas que interromperam as suas existências físicas.
Interromperam a vossa viagem, meninas...
... Mas intensificaram as nossas forças!!

Voem meninas! Agora sem dor!

Cristina disse...


Minha mãe viajou pra Argentina com a mãe, as irmãs e tias, umas 10 mulheres e graças a Deus voltaram todas vivas e bem. Foi pra Gramado ver o natal luz com minha tia e um grupo de outros turistas; graças a Deus as duas voltaram vivas e bem. Eu viajei com toda a minha turma da escola e quatro mulheres pra tomar conta de todos. Voltamos todos vivos e bem, embora essa viagem tenha sido uma das piores experiências que tive (por causa dos bullies babacas). A resposta é e sempre será a união; nem o mais violento dos machos pode contra um grupo unido e atento umas às outras. É por isso que o patriarcado e os machistas como um todo morrem de medo da união feminina, eles sabem que se as mulheres se unirem não tem chance, quem vai terminar no chão (e se preciso morto) é o homem que chegou perto com más intenções. Portanto, irmãs, deixemos pra trás todas essas mentiras sobre inimizade "natural" feminina e vamos sempre juntas. Que os machistas se borrem de medo ao ver os nossos batalhões.

C.Belo disse...

A VERDADEIRA igualdade só virá através da educação desde a escola, meninos desde cedo sendo doutrinados a respeitar as mulheres e tendo suas atitudes perante elas fiscalizadas dentro e fora da sala de aula. Só assim, mas isso ainda me parece muito distante.

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