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23 março 2016

Não são eles, é ele..........


Tenho mais de vinte primas e cada uma é de um jeito. Poucas são transparentes, a maioria aprendeu rápido a se movimentar fora da mira de todos, difícil saber o que pensam ou sentem, mas outras se revelaram com o tempo.

Uma delas, a caçula, sempre foi fechada, mas um dia apareceu dizendo que tinha conhecido o homem de sua vida. Gritou isso para todos e foi um amor tão avassalador que ela logo se mudou a casa do Romeu.

É uma história cinzenta na família, porque envolveu rumores de violência, diziam que Romeu batia nela, justo a mais pequena e frágil de todas nós. A qualquer prima sobre altura, gordura e tamanho, mas a caçula puxou a família do outro lado e nasceu pequena.

Talvez por isso ou pelo seu temperamento doce e direto, sempre franca, foi uma das netas preferidas da minha abuelita, que nunca escondeu o amor profundo pela neta. E quando esses rumores de que sua neta apanhava do namorado chegaram a ela, o mundo quase caiu. 

Mas o mundo ''cair'' na família da minha mãe quer dizer um ''terremoto em japonês'', tudo no silêncio, nas portas fechadas, nos rumores que circulam pela escada, nas palavras jogadas ao vento e nas indiretas ditas no meio do almoço.

Vi o tempo passar e ninguém interferir, enquanto os rumores cresciam a ponto das irmãs da minha prima caçula romperem a relação com ela.

Naquela época eu já seguia a risca minha ideia de não me meter em rolo de primas, já que sempre sobrava para mim, mas sempre tive muito carinho pela minha prima caçula, talvez por isso insisti várias vezes em conversar com minha abuelita sobre o assunto.

Se fosse hoje eu jamais teria dado tantas voltas, teria puxado minha prima em um canto e dito o que pensava, mas naquele momento não senti espaço para nada mais radical, achei que se ela fosse escutar alguém essa pessoa seria minha abuelita, não eu.

E fui com minha abuelita falar sobre essas histórias que eram nuvens circulando pela casa, a caçula que apanhava de um homem de quase dois metros. E minha abuelita escutou tudo o que eu disse e me respondeu:

-Já conversei com ela, disse tudo o que pensava. E que mais posso fazer? Ela me disse chorando: ''abuelita, é o amor da minha vida''. 

Mas que amor é esse?

-Não sei, mas amor ou o que achamos que é amor, é como açúcar, é melhor dissolver na água e ver no que dá. 

Por isso que eu tenho medo do ''amor da minha vida''!

-Não tenha medo do amor de sua vida se ele aparecer e você viver o que tiver que viver com ele, tenha medo se isso não acontecer, porque então você vai alimentar um fantasma para sempre e cada vez que ele aparecer tua vida vai girar na direção errada. Amor é como pilha, é bom gastar até a última gota, nem que leve mil vidas, mas se isso não acontecer ele vira uma nuvem que te segue.

Mas isso não vale para a prima! Vai apanhar até morrer?

-E alguém consegue tirar isso da cabeça dela? Ela sabe quem ele é, mas insiste no erro, então te digo o que disse a ela, gaste toda a energia, acabe com a pilha, deixe o açúcar se dissolver, depois vai acordar e sair disso, mas se todos a pressionarem para deixá-lo ela vai colocá-lo em um pote de formol e carregar sua sombra para sempre. É bom conviver com as pessoas, a magia acaba, ninguém resiste a conhecer o outro, o amor se acaba. O amor é frágil, mas é como um pouco de mofo, se for abandonado acaba crescendo e ocupando todo o espaço.

Deus me livre!

-Que te livre mesmo de não viver o amor, quando conhecer alguém e pensar que é o amor de sua vida, se jogue. Não permita que ele amarre teu pulso ao seu coração e suma, depois cada vez que ele aparecer teu coração vai se agitar e a história começa a dar ré. Amor que não se vive é como planta que cultivamos, sempre vai estar ali na nossa frente, nos lembrando que aquilo não foi levado ao seu limite e nos deixa parado no tempo, estacionados, sonhando e idealizando.

E ninguém vai falar com a prima? Vai deixar ela assim?

-Ninguém fala com quem está surdo, ela não quer ouvir e está no seu direito, é maior de idade e ninguém segura água que quer descer, se ela quer isso, então o que podemos fazer? A única coisa que eu posso fazer é rezar e pedir a Deus que passe logo esse sentimento, mas acho bom ela conviver com ele, porque a convivência mostra os humanos e ausência cria os deuses. Não temos que ter medo do que vivemos, mas do que pensamos que poderíamos ter vivido, é essa sensação que nos devora. Não ame ninguém na parede, na sombra, não cultive a areia que pode ser levada com uma onda. Amor não vivido se transforma em areia movediça, cada vez que se aproxima novamente nossos passos são engolidos e ficamos presos a uma situação.
Amor é açúcar, joga na água, se deixar fora ele cristaliza e te persegue.

Ah, e esse dia eu falava sobre minha prima! E só agora percebo como minha abuelita tinha razão, que terrível podem ser os amores não vividos, não levados ao limite. Nosso pulso fica amarrado ao coração da outra pessoa e vice-versa, de longe não sentimos os movimentos, mas quando se aproxima tudo parece mexer e nada faz sentido.

E não são eles, os que amei, que me atormentam, é ele, o amor não vivido, que mexe no meu pulso de vez em quando e faz meu chão de cimento virar areia movediça. Os tempos se misturam e nem tudo parece real. Não sei em que momento não joguei o açúcar na água, não misturei e tudo cristalizou fora. E não fiz isso por medo, sem saber que a situação iria me perseguir anos depois, até ser resolvida. 

E amores vividos são amores resolvidos, pilha acabada, açúcar dissolvido. Quem nos persegue é quem está na parede, no pulso, mas não na nossa vida.

E eu falo sobre meus Romeus, escrevo sobre eles, desenho o que restou e começo de novo e muitas pessoas pensam que sofro por todos, mas não é verdade, sofro apenas por dois, as duas sombras que eu cristalizei, acreditando que nunca mais teria que lidar com o que sentia. Um deles se perdeu no mundo e agradeço por isso, mas o outro aparece de vez em quando, me provando que minha abuelita estava certa, amor não vivido nos persegue.

E quantos fantasmas podemos carregar durante a vida, além dos nossos mortos? Sou como todo mundo, um mosaico de pessoas que passaram pela minha vida e que ficaram, ou foram embora, mas ele, ele navega, transforma meu dia ensolarado em dia nublado, afasta o sol e aproxima a lua, sempre tão distante de mim.

E já me disseram para ir atrás e finalizar a situação, viver o que não foi vivido, mas como posso fazer isso, se já não sou a mesma? É água parada que nos divide, é mar que secou. Era para ter vivido naquele dia, naquele momento, naquele ano, não agora, tanto tempo depois e com seu desenho na minha parede.

E me dizem ''deixa de gostar então''.
Ah, quem consegue deixar de gostar de um amor não vivido? Que história pode ser mais perfeita do que aquela que nunca se escreveu? Que noite pode ser mais marcante do que aquela que nunca aconteceu?

O tempo nos separa, estamos unidos apenas pelas sombras do que nunca aconteceu, do que perdemos, do que tivemos medo de fazer. Criamos um abismo entre os dois, ligados por um pulso a um coração, a um movimento sinistro e cheio de falhas.

E me dizem que o amor é assim mesmo, mas o amor não vivido como é? Me parece pior, mais apertado, mais cheio de curvas e a água sobe gelada pelas costas.

E são tantas nuvens que nos separam que não falamos sobre isso, agimos como se fôssemos dois adultos em uma situação já resolvida. Fingimos não perceber que de vez em quando a saudade nos aperta e um sai procurando o outro com desculpas esfarrapadas.

Somos cínicos, capazes de dar risada e concluir que a situação foi vivida e hoje são outras circunstâncias. Escondemos nas mãos o açúcar que cristalizou, a pilha que nunca gastamos. E somos infelizes.

Iara De Dupont

4 comentários:

Poeta da Colina disse...

Quando vi o filme 500 dias com ela e entendi o lado dela, muitas coisas mudaram na minha cabeça. Ficamos tentando esconder, e esquecer o nosso passado, quando na verdade o desafio é transformá-lo em paz. Olhar para algo e perceber que seu tamanho não é assim tão grande perante a vida. Pode ser uma sombra agora, mas acredito que nuvens passam.

E sua prima?

Iara De Dupont disse...

Ai, meu Deus, que alegria ver meu poeta favorito por aqui! Infinita honra sua presença na minha casa!

Ah, minha prima! Ainda está dissolvendo o açúcar na água, continua casada com o amor de sua vida, mas dizem que os episódios de violência acabaram, não acredito, mas tudo pode ser neste mundo.......

Seja sempre bem vindo e que felicidade vê-lo aqui, foi um dia feliz hoje, tenho que confessar e sua volta me prova mais uma vez que o sol ainda aparece na minha janela........

C.Belo disse...

Sua avó era uma mulher muito sábia. Acho que tanto é verdade isso de que amor tem q ser "gasto" que deve ser por isso que algumas mulheres ainda se voltam contra quem tenta abrir os olhos delas para os abusos q vivem.

Anônimo disse...

Parece a história de uma moça que estudou comigo, muito jovem se apaixonou pelo sobrinho do vizinho, o rapaz era de outra cidade e vinja a passeio, ficavam sempre que ele vinha, eles tinham seus 15 e 18 anos consecutivamente. O problema é que esse jovem era mecânico, trabalhava na ofinica da família e ela era a filha mais inteligente, adiantada na escola e mesmo nós morando em bairro pobre poderia sim ter ido a faculdade (família dela poderia ter ajudado caso ela quisesse). Não foi o ocorrido, nos crescemos e mudei de colégio mas sempre via a irmã mais nova, anos depois todas já adultas,encontro essa irmã fazendo curso e trabalhando, começamos a falar sobre trabalho e falta de oportunidade ela me diz que é mais complicado pois sua menina fica na creche, aí no calor das conversas ela fala: olha mesmo com as dificuldades estamos bem, eu a pergunto o porque se estou desempregada e ela me fala: lembra da minha irmã? Eu sim a que só tirava 10? Já está formada né porque eu trancar faculdade paga é uma coisa, mas sua irmã deve estar numa federal. Ela me diz, não infelizmente ela mal terminou o ensino médio casou com o fulano e foi para a cidade dele. Chegando lá ele passou a usar drogas e agredir a ela e ao filho que nasceu doente, rouba tudo dentro de casa, meus pais que ajudam, inclusive vivem tentado trazer ela, ela responde que é maior e ele é a vida dela e que um dia vai parar de usar drogas. Fiquei pasmem com as palavras da irmã. E quando a pessoa cisma com uma coisa, não tem família que ajude.

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