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22 março 2016

Insistir, persistir, ir......


No meio das dúvidas e incertezas, no meio do mar revolto que às vezes é minha vida, fico na espera, de vez em quando silenciosa, nem sempre barulhenta ou constante.

E desde pequena misturo palavras e seus significados. Meu pai adorava dicionários e sempre me corrigia quando eu repetia uma palavra, me dizia que poderia usar outras dez para dizer a mesma coisa. Mas sou virginiana, apegada as coisas, grudada em palavras que descrevem o que sinto ou deixo de sentir.

E até hoje, mesmo desmontando os dicionários do mundo, me perco entre ''insistir e persistir''.

Não são a mesma coisa, não significam a mesma coisa e ainda são divididos por explicações espirituais e conceitos divinos. Insistir não é bom, é coisa para gente teimosa, que perde seu tempo, mas persistir é divino, ação dos valentes, corajosos e que tem certeza da recompensa de Deus, persistir aparece tantas vezes na Bíblia que é quase um mantra, persistir é sinônimo de espírito forte, que não desiste diante das dificuldades, insistir é atitude de gente burra.

Mas minha vida se divide entre essas duas palavras e arrasta minha alma pelo chão, até quando insistir e por quê persistir em algo?

Porque a recompensa vai chegar. 
Bom, isso é teoria, não é fato.

E se estou persistindo em algo errado ou insistindo no lado equivocado?


Já me disseram que a alma avisa, mas não conhecem a minha, cheia de questões, minha alma é como um departamento de trânsito de uma cidade enorme, dividida em setores, cheia de papéis, de tramites burocráticos e cada vez que entro lá dentro me perco, nunca sei onde estão os departamentos que procuro. Se chegou algum aviso sobre o que devo insistir ou persistir, está parado em alguma mesa, perdido no meio da burocracia que me ocupa por inteiro.

E sem respostas me devoro por dentro e por fora, procuro sinais em Júpiter que se aproxima da lua, no chão que piso e nos desenhos que vejo nas nuvens.

E não é de agora que a falta de avisos e sinais sobre o que devo ou não persistir me persegue, quando eu era pequena minha abuelita contava a história de um casal e eu sempre me perguntava, poxa, por quê Deus não mandou um sinal para eles?

Esse casal era amigo da minha abuelita e logo depois de se casaram decidiram alugar um apartamento em uma área um pouco afastada e perigosa, a ideia era morar ali até economizarem para comprarem sua casa. O apartamento era antigo, grande, espaçoso e iluminado.

A moça contou que assim que entrou no apartamento sentiu uma energia diferente, teve a certeza de que ali dentro tinha alguma coisa que mudaria sua vida, mas era o começo de uma nova etapa, estava casada e não pensou mais no assunto.

Quando eles se mudaram o apartamento só tinha sido limpo, não tinha nada além dos armários e as peças do banheiro, estava completamente vazio.

Ficaram ali durante dez anos e parece que foram muito felizes, mas depois desse tempo resolveram que era melhor comprar sua casa e começaram a procurar onde morar, queriam sair dali porque era um bairro perigoso, os parentes e amigos não gostavam de ir ao apartamento, apesar dele ser espaçoso e bonito.

Acharam uma casa e deram a entrada, era um casal simples, com dois empregos estáveis, mas sem grandes recursos. E a moça contou a minha abuelita que assim que começou a arrumar as caixas da mudança e as malas voltou a ter a sensação estranha, sentia que havia alguma coisa ali no apartamento que não poderia ser abandonada. Já tinham sido muitos anos lá dentro e mesmo sendo alugado o casal tinha feito algumas melhorias, estavam apegados ao lugar.

Foram tantas as dúvidas da esposa que o marido procurou o proprietário e perguntou se ele queria vender o apartamento, fizeram uma proposta e foi aceita.

Mas a família do casal entrou no meio, para quê viver em um lugar perigoso, e se eles um dia tivessem filhos? O apartamento era lindo, mas não tinha garagem, era antigo, cheio de problemas, cercado por ruas abandonadas e longe do centro.

E não era barato, pelo tamanho o preço era um pouco alto.

O marido resolveu esquecer a proposta, achou que seriam mais felizes em outra casa, perto da família e longe de um lugar desses, mas a esposa resistia e enrolava para sair dali, dizendo que sentia que alguma coisa a puxava.

Foi tanta a insistência que chamaram uma médium, para saber se a moça tinha algum encosto grudado, fizeram uma sessão e não aconteceu nada, então descartaram a ideia de que tinha algo no apartamento.

A moça acabou indo ao psicólogo e concluiu que como era filha de vendedor e tinha se mudado muito durante a infância talvez desenvolveu um trauma secreto e resistia em se mudar mais uma vez.

E era tanto o sofrimento dela que a mudança foi cancelada várias vezes, deram entrada na casa, mas não se mudavam, até que o marido não aguentou mais e disse a esposa que não poderiam mais pagar o aluguel do apartamento e a prestação da casa nova ao mesmo tempo.

Minha abuelita dizia que o casal era muito cuidadoso com o dinheiro, vinha de muita pobreza, do interior do interior, gente que passou muita fome, que ia de um lado a outro tentando melhorar a vida, até que conseguiram estudar um pouco e entraram em empregos estáveis.

A esposa insistia na sensação, tinha alguma coisa no apartamento que mudaria sua vida, mas o marido dizia que isso era apenas o apego, tinham sido felizes e a alma humana é assim, resiste em abandonar os lugares onde se sentiu bem.

Eles saíram, mas ela jurou que voltaria e compraria o apartamento, pelo menos até saber porque se sentia tão ligada a ele.

Meses depois ficou sabendo que um casal comprou o apartamento, mas pensou que na hora que tivesse dinheiro iria negociar com eles.

Se passaram alguns anos e ela não esquecia o apartamento. 
Um dia resolveu voltar, tocou a campainha, mas ninguém atendeu, até que uma vizinha a reconheceu e chamou para conversar, contou uma história inacreditável.

O casal que comprou o apartamento se mudou em uma segunda-feira e tinha resolvido fazer uma reforma. As únicas peças originais eram os armários da cozinha, que estavam feitos de ferro e as peças do banheiro, a privada, a pia, a banheira e o tubo nas paredes que segurava as cortinas do chuveiro. Como era tudo feito de material nobre estavam bem conservadas, mas o casal resolveu arrancar tudo e ao puxarem o tubo do chuveiro perceberam que era muito pesado, pensaram que era de ferro sólido, mas ao arrancarem viram que estava cheio de moedas de ouro, alguém tinha escondido centenas e centenas de moedas de ouro por dentro do tubo que segurava a cortina do chuveiro.

Isso transformou o casal em milionários, cada moeda valia muito dinheiro, não apenas pelo ouro, mas porque eram moedas históricas, dessas que qualquer museu paga o que for para ter no seu acervo. Eles não tinham nem passado vinte e quatro horas no apartamento e já estavam ricos.

A mulher achou a história fantasiosa demais, o casal assim que se descobriu milionário fechou o apartamento e sumiu no mundo, então a mulher resolveu investigar a história do apartamento, queria ver se era possível mesmo que alguém tivesse escondido tantas moedas de ouro em um tubo.

Ela nunca conseguiu ir muito longe, o máximo que conseguiu saber foi que o proprietário do apartamento, o primeiro, tinha sido um homem que também construiu o prédio, era dono de tudo, morava sozinho, nunca se casou, nem teve herdeiros. E parece que sua família tinha encontrado um ''tesouro'' há mais de cem anos, mas nunca se confirmou essa história. A única hipótese é que ele tenha tido acesso as moedas de ouro e achou que o melhor lugar para guardar seria o tubo do chuveiro.

Eu era pequena quando me contavam essa história, não tinha a menor noção do que era ouro ou se tornar milionário da noite para o dia, mas sempre que escutava essa história me invadia uma sensação enorme de injustiça, poxa, por quê Deus não ajudou e iluminou a moça para que ela achasse essas moedas antes do casal? Desde que ela entrou no apartamento ela sentiu que tinha alguma coisa ali que mudaria sua vida e nada muda mais a vida da pessoa do que dinheiro.

Sempre senti muita revolta com essa história, minha abuelita diz que a moça nunca quis reformar o banheiro porque achava as peças originais lindas e precisaria de autorização para mudar, porque era inquilina. Mas caramba, penso o seguinte, por que ela um dia não escorregou no chuveiro, tentou se segurar no tubo, ele não aguentou o peso dela, então caí e ela recebe essa chuva de moedas?

Essa história ainda me atormenta, não é só o valor econômico, mas a injustiça em si, ela morou dez anos ali, sentindo que alguma coisa poderia mudar em sua vida, por que não se deu um sinal a ela?

E se ela tivesse insistido e comprado o apartamento? Talvez faria uma reforma no banheiro e encontraria as moedas.

Não sei, mas anos fiquei mais perturbada quando li o livro ''O alquimista'', de Paulo Coelho, a história de um rapaz que corre o mundo, quebra a cara e no fim volta a sua casa e encontra o tesouro debaixo de sua cama.

E sempre tem gente que vai dizer ''mas eram apenas moedas de ouro, dinheiro, quem se importa?''.
Não! Não era apenas isso, era uma mudança de vida, e por que o ouro não tem o mesmo respeito de outras coisas? Caramba, se a moça vinha de uma situação tão difícil, imagina o que teria sido para ela achar essas moedas?

Me pego pensando nessas moedas e em tudo que representam, até quando insistir, até quando persistir? E se existe esse ''tubo'' na vida das pessoas, aquele ouro que está acima de nossas cabeças, por quê nem sempre se recebe um sinal? E a metáfora de ficar no mesmo lugar, esperando que talvez um dia o tubo arrebente e caiam aos chão as moedas, ou largar tudo e cair no mundo? É melhor ficar ou se mexer?

Cansei dessas história de que ''o que é teu te encontra'', pois então tem o endereço errado, porque estou esperando!

Minha abuelita dizia que a moça não achou as moedas porque não eram para ela, mas caramba, ela ficou ali dez anos, sentindo a energia, sentindo a proximidade e no fim outros acharam em menos de vinte e quatro horas? 

A vida é assim! Meu irmão diz ''a vida não é justa, é o que é''.

Por que ela não sonhou com as moedas e saiu quebrando tudo? Posso me imaginar no lugar dela, se eu entro em um apartamento vazio como poderia adivinhar que existe uma fortuna no tubo do banheiro?

Esse é o ponto da vida! Nenhum de nós sabe onde está o tubo com as moedas, mas tantos persistimos e insistimos em tantas coisas, caramba, onde está o sinal?

Não sei se eu insisto e persisto no que penso fazer, não sei se quebro o chão até achar as moedas ou faço como a moça, abandono a sensação e começo outra coisa. Minha mãe se desespera quando minha alma começa a bater nas paredes e sempre me diz ''vai indo, depois você pensa no que fazer, o importante é não parar''.

Mas eu me pergunto, indo pra onde?



Iara De Dupont

3 comentários:

C.Belo disse...

Menina.... Que reflexão, essa! Eu posso agora dizer: estou esperando o dia em que vou encontrar o meu "tubo"!

Anônimo disse...

Que texto, não só sobre o dinheiro mas sobre tudo, insistir em trabalhos, relacionamentos, insistir ou desapegar, nossa.

Poeta da Colina disse...

A velha dúvida. Quando esperança, vira apenas espera? Eu peço todos dias sinais, paz para saber enxergar e encontrá-los, mas vejo nisso tudo também uma decepção muito grande, pois todo dia esperamos que algo incrível vai mudar nossa vida, nos fazer felizes, ou apenas dar mais sentido para esse nosso caminhar. A vida é sem norte, rio sem mar. O onde é uma pobre criação humana, o caminho é uma espécie de infinito.

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