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02 março 2016

''Feliz daquele que sabe a hora de sua morte''


O pai da minha abuelita morreu muito jovem, não tinha nem trinta anos e ela era uma menina de três anos.

Dali para frente sua vida mudou, a mãe ficou viúva e com uma filha pequena, e a família do marido fez de tudo para afastá-las das terras e não deram o dinheiro que correspondia a elas. 
O irmão do pai ajudou no começo, escondido, fez o que deu para fazer, as manteve por perto em um sítio, nas terras da família. E ainda por cima elas enfrentaram a revolução no México, complicando mais ainda suas vidas.

Depois a mãe da minha abuelita se casou e a mandou sozinha para a cidade, sempre tive a impressão de que ela se livrou da filha.

Não sei se foi por isso, mas minha abuelita tinha um trauma, sempre dizia que não importam nossas escolhas na vida, nossos erros, mas temos que honrar nossa família.

Ela falava constantemente nisso e acredito que puxou a energia contrária, porque a família se encheu de homens covardes e fracos, que nunca honraram sua família.

Levei alguns anos para entender a mensagem e apenas consegui isso observando as famílias ao meu redor, minha abuelita não falava de parentes, falava de família próxima, como pais, irmãos e filhos e como era importante assumir o seu lugar na família e honrá-la, sem importar o que acontecia ou deixava de acontecer.

No seu conceito honrar a família era permanecer no núcleo da melhor maneira possível, respeitando e lutando pela integridade de todos.

Eu tinha a impressão de que era uma visão conservadora, mas hoje entendo como as pessoas entram e saem da vida de todos e apenas a família próxima permanece, é a que acompanha a maior parte da jornada. E os núcleos são diferentes, alguns são compostos por pai e mãe, dois pais, duas mães, em outros apenas uma irmã, ou irmão, algum tio (a), mas o sentido é o mesmo, honrar a família que por algum motivo que desconhecemos nos foi dada e com ela vamos seguir de mãos dadas a maior parte do caminho.

Conheço pessoas que não têm uma boa relação com seus pais, mas são próximos dos irmãos, não importa a combinação, mas a decisão interna de honrar o compromisso assumido, principalmente se envolve crianças.

E de repente o mundo girou e defender um núcleo familiar virou coisa de gente retrógrada, velha e antiquada, pessoas querem ser livres e largam tudo sem pensar.

Eu consigo entender pessoas que largam casamentos, mas ainda foge a minha compreensão quem abandona um filho, tragédia vivida por várias pessoas da minha família.

E sou a favor de todas as escolhas, mas deixar a família para mim é desonrá-la, se afastar de um núcleo que permanece como base é uma atitude que tem um preço muito alto. Sei de pessoas que se afastam de suas famílias por saúde, mas depois caem no mundo, constituem outra família e a abandonam.

Não importa o tamanho da família nem sua composição, o importante é honrá-la. Tenho uma amiga que é mãe solteira, ela se afastou dos pais depois de uma infância de abusos, mas teve uma filha, e tem um gato, essa é sua pequena família e ela honra de maneira comovente, totalmente devotada a filha e ao gato, construiu assim sua base e a certeza do seu caminho.

Nem sempre temos tempo de pensar se queremos construir uma família ou não, muitos caem de surpresa na função de mãe ou pai, mas depois que aconteceu a melhor coisa é esfriar a cabeça e lutar para preservar e honrar o núcleo que surgiu.

E talvez vem disso meu desprezo pelo gênero masculino em alguns casos, eu cresci vendo homens desonrando as famílias e abandonando seus filhos.

Um dia eu conversava com minha abuelita sobre um assunto que sempre ferveu seu sangue, uma nora que abandonou a casa e largou meu tio com quatro filhos. Minha abuelita chorava de raiva dessa história, ela dizia que nem um animal abandona suas crias, que a mulher tem o direito de fazer o que quiser, mas jamais se abandona um filho.
Era tanta raiva que hoje penso que talvez ela lembrava da própia mãe, que não foi muito decente ao mandá-la longe de casa para se casar novamente.

Quando vinha essa história à tona ela dizia a todas as netas:

-Nunca, nunca façam isso! Não importa o que aconteça, uma mãe não abandona o filho nem no meio de uma guerra, vocês se viram, mas o filho fica grudado, não larguem, pensem nisso antes de terem filhos, porque depois são duas pessoas, não apenas uma. 

Naquele dia eu disse a minha abuelita que a nora dela tinha embora porque quis e não parecia ter acontecido nada de errado, meus primos seguiram com sua vida e ela me respondeu:

-Família é um núcleo, depois que quebra porque alguém desonrou todos pagam por isso. Não sai barato para ninguém! Leva tempo se recuperar do tombo que todos levam e nem precisa ser da família do Juan Manuel!

Juan Manuel é outra das histórias que minha abuelita escutou, em um bairro que morava, sobre uma casa abandonada.

Contavam que Juan Manuel era um comerciante, com uma família grande e em algum momento as coisas começaram a dar errado, ele tentava, mas não conseguia se recuperar economicamente, dizem que comprou uma casa grande, justo a que hoje está abandonada e começou a fazer uma reforma, mas gastou mais do que podia e ficou a beira da falência.
Desesperado e sem saber a quem recorrer, ele tomou uma decisão drástica depois de uma conversa no bar, onde um conhecido o sugeriu vender a alma ao diabo.

Naquela época, o ano de 1897, existia um lugar, um bar onde diziam que o diabo aparecia para negociar almas. E sempre era bem recebido, era um homem alto, atraente e gentil, passava de madrugada no bar perguntando se alguém gostaria de vender sua alma.

Juan Manuel estava agoniado e correu ao bar, precisava do dinheiro e se encontrou com esse senhor, que diziam que era o diabo. Contou a ele seus problemas e disse precisar de uma quantidade enorme de dinheiro e o diabo fez um trato, daria a ele muito ouro, mas viria buscá-lo em vinte anos, combinou o dia e o horário, as duas e vinte da manhã, mas havia um porém, o diabo iria bater na porta, caso Juan Manuel não atendesse, ele levaria quem tivesse aberto a porta.

Voltando a sua casa Juan Manuel fez o que o diabo o orientou a fazer, foi até o porão e começou a cavar, de maneira aleatória, até que encontrou um baú cheio de moedas de ouro. E como dizia minha abuelita ''acordou pobre e foi dormir milionário''.

A vida mudou completamente, Juan Manuel tinha mais dinheiro do que jamais tinha sonhado, sua família se converteu em uma das famílias mais ricas e poderosas da cidade, sua  pequena loja se transformou em dez lojas e o dinheiro não parava de entrar.

Foram anos felizes, de dinheiro, saúde e boa vida familiar, mas quando passaram os vinte anos Juan Manuel começou a ficar preocupado, sabia que tinha uma dívida com o diabo e ele viria buscá-lo.

Um pouco antes de que o prazo chegasse Juan Manuel juntou um pouco do dinheiro e saiu de casa sem avisar ninguém, tinha medo de envolver a família na sua transação com o diabo. Dizem que ele correu para o porto e subiu no primeiro barco que o levasse longe.

Minha abuelita sempre que contava essa história nos explicava que existem ''diabos'' de terra, eles não podem se aproximar da água, por isso o diabo não foi atrás de Juan Manuel. E anos depois li alguma teoria sobre isso, pessoas que são perseguidas por almas ou demônios são orientadas a ''cruzar água'', parece que isso impede de que continuem sendo perseguidas.

Juan Manuel sumiu no mundo, mas no dia marcado o diabo bateu à sua porta, as duas e vinte da manhã, como foi combinado. O filho de Juan Manuel abriu a porta e o diabo perguntou que horas eram e o menino respondeu:

-São as duas e vinte da manhã.

E o diabo disse:

-Feliz daquele que sabe a hora da sua morte.

E um barulho se escutou e o menino caiu duro no chão.

Então o diabo foi embora e voltou no ano seguinte, no mesmo horário, bateu à porta, a mulher de Juan Manuel abriu e ele fez a mesma pergunta, queria saber que horas eram, quando a senhora respondeu, ele disse a mesma coisa:

-Feliz daquele que sabe a hora de sua morte.

E a mulher caiu morta.

E assim foi durante anos, o diabo voltou por cada pessoa da família, até que não ficaram mais descendentes.

De algum modo Juan Manuel ficou sabendo do que estava acontecendo e voltou a cidade, chegando foi logo procurar o diabo no bar e começou a discutir, alegando que levar toda sua família não era parte do trato e o diabo disse:

-Você não honrou o acordo e quer saber por que eu não honrei sua família? Quem tinha que ter honrado sua família era você, se estivesse naquela porta quando combinamos nada disso teria acontecido. Quem os abandonou a sua sorte foi você, não eu. Eu apenas cobrei minha dívida, que não teria ficado tão alta se você tivesse sido homem para cumprir o combinado.

E Juan Manuel insistiu que o trato era que caso ele não estivesse na porta, a pessoa que tivesse aberto iria no lugar dele, por que o diabo não levou apenas um e deixou o resto da família em paz? E o diabo disse:

-Você os abandonou a todos, ou abandonou apenas um? Eu tinha um trato com você, não com eles, mas como você não cumpriu o acordo, eu fui pela tua descendência inteira, porque é assim que acontece, quando caí a peça principal, todas caem.

No dia seguinte Juan Manuel correu para pedir ajuda a um Padre, já tinha perdido toda a família, apenas restava a casa, já em ruínas, mas ele queria cancelar o acordo. O Padre avisou outros amigos padres e foram todos conversar com o diabo, mas não houve acordo, o diabo insistia que Juan Manuel ainda devia sua alma. E o Padre dizia a Juan Manuel que talvez Deus não poderia ajudá-lo porque ele tinha abandonado sua família e isso era para Deus uma das maiores ofensas que um ser humano pode cometer.

Mas o Padre queria ajudar Juan Manuel e resolveu marcar um horário para que o diabo fosse por ele na sua casa, preparou o jardim com velas, rosários, encheu a casa de água benta. Foram vários padres, pensando em salvar Juan Manuel do diabo, pedir pela presença de Deus e sua misericórdia.

E dizem que na hora marcada o diabo chegou e ficou no jardim, então apareceram uns anjos, com recados de Deus, dizendo que não poderiam ajudar porque Juan Manuel ao abandonar sua família quebrou seu elo com o divino, desrespeitou a autoridade divina e ficou frágil no mundo, sem cordas que o segurassem. Mas Juan Manuel gritava por clemência e Deus resolveu aparecer no jardim e conversou com o diabo, de qualquer maneira Juan Manuel iria morrer, pelo trato feito, mas Deus conseguiu convencer o diabo a não levar a alma de Juan Manuel e o diabo aceitou. Então Deus foi conversar com as almas dos filhos de Juan Manuel, que estavam revoltados e queriam que o pai fosse levado pelo diabo, para pagar o mal que tinha feito a família. Juan Manuel implorou pelo perdão dos filhos e eles o perdoaram, assim ele morreu e sua alma foi levada pelos anjos até o céu.

Essa história resiste há duzentos anos, a casa ainda está no mesmo lugar e na porta tem a placa com o nome da família, mas ninguém sabe a quem pertence, está abandonada.

Eu não lembro bem da casa, era pequena quando minha abuelita me levou ali perto e contou a história de Juan Manuel, que na minha cabeça de menina era sobre um homem que tentou enganar o diabo, mas hoje como mulher entendo tudo o que a história carrega, a importância de honrar nossa família e nunca abandoná-la a sua sorte, não sabemos que diabos vão bater à porta e é nosso dever estar ali para defender nossa família.

Se pode brincar com tudo neste mundo, menos com o núcleo que nos sustenta emocionalmente, família é sagrado, o elo que nos une a Deus, que nos garante uma jornada mais prazerosa. E minha abuelita tinha razão quando dizia que ao abandonar a família a pessoa abandona a vida. Todos precisamos de um núcleo para sobreviver, nem que seja um cão e um gato, mas precisamos pertencer e honrar nossa pequena família, como se fosse o universo inteiro, porque na verdade é.


Iara De Dupont

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