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01 março 2016

É um palco ou um picadeiro?


Há um tempo os especialistas (psicólogos, psicanalistas) estão alertando para um comportamento novo.

Estamos dividindo nossa personalidade em duas partes, uma real e outra online. Pesquisas tem mostrado que não somos a mesma pessoa nem agimos da mesma maneira quando estamos diante de alguém ou na internet, onde por alguma estranha razão nos sentimos blindados.

A vida online exige menos protocolo e temos centenas de possibilidades de fugir do confronto ou das respostas ao que escrevemos, é só desligar o computador, celular ou bloquear a pessoa. Não somos obrigados a lidar com o dia seguinte, na verdade nem com o momento seguinte, podemos dizer alguma coisa terrível e sair correndo.

Somos menos gentis e menos preocupados com a reação alheia, abusamos do direito de não usar filtro.

Li sobre uma pesquisa em relação a um homem bonito, pesquisadores pediram as mulheres que se aproximassem dele e comentassem sobre sua beleza, a maioria ficou tímida e quem cruzou a linha e se aproximou manteve a educação. Mas todas receberam a página virtual dele e poderiam fazer qualquer comentário ali sobre sua beleza e todas, sem exceção, todas, subiram o tom e falaram tudo o que pensavam do rapaz, indo além de comentar sobre sua beleza, mas chamando-o para um encontro sexual.

Depois que comecei a ler sobre essa ''nova personalidade'', que muitos exaltam, dizem que o ser humano sem hipocrisia e verniz social é mais interessante, comecei a perceber que sem querer e de maneira não consciente acabou acontecendo isso comigo.

Não é que eu me sinta mais à vontade na vida virtual, mas de alguma maneira incorporei a facilidade de não ter um confronto e acabei assumindo essa posição, já me vi escrevendo coisas que não sei se teria coragem de dizer em pessoa. Uso mais o ''foda-se'' aqui do que na meu dia dia.

Uma amiga disse no Facebook que faria outra tatuagem, eu não ia dizer nada, mas no fundo não me conformo, ela faz uma atrás de outra e não estão tão incríveis, então coloquei no Facebook que já estava começando a estragar seu corpo com tanto desenho. Suas amigas não gostaram e reclamaram, ela entendeu o meu ponto de vista, mas mesmo assim me passou um sabão dizendo que o corpo era dela, e eu respondi ''então pra quê porra vai no Facebook e comenta?''.

Minha amiga não ficou chateada porque me conhece, mas outras já têm ficado e eu entendo.

E apesar da positividade não fazer parte das minhas crenças, vejo nessa nova personalidade mais uma possibilidade de saber com quem estamos lidando, se abriu uma janela real e podemos aprender a ler as entrelinhas e decifrar o que não conseguimos ver de outra maneira.

Quando eu comecei a namorar havia apenas uma chance de comunicação, o telefone. E as coisas tinham que coincidir, porque pessoas moravam na mesma casa e usavam o telefone. Podia levar meses para você conhecer a família do namorado, os amigos, os gostos.

Hoje com a internet isso é questão de minutos, é só varrer as redes sociais, dá para levantar a ficha da pessoa em menos de uma hora, seus gostos, seus amigos e o que anda fazendo.

Lembro de um rapaz que conheci, fiquei encantada com ele e assim que cheguei em casa corri para o Orkut, anterior ao Facebook e vi que o rapaz era fanático de caça, de corridas de touros, enfim, só coisas que torturavam animais. Diante disso resolvi sumir, me horrorizou pensar que um ser humano desses tivesse cruzado minha vida.

E também já aconteceu o contrário, conheci um cara legal e tudo na sua vida online indicava ser uma pessoa equilibrada, mas era um louco, doente, com certeza planejou milimetricamente cada coisa que postava.

Mas ele era uma exceção, a maioria de nós escorrega na vida online e entrega o ouro, até porque caminhar sem olhar para os lados deixa a pessoa acomodada e pensando que está protegida.

E tenho percebido que a vida online é uma das melhores coisas que poderia ter acontecido para muitas pessoas, outras reclamam e dizem que estraga o relacionamento, que homens ficam online com outras mulheres praticando o sexting ( encontro sexual na internet), dizem que a maioria dos divórcios hoje é motivado pelo excesso de tempo que a pessoa fica online, mas no meu caso posso dizer, a vida online tem me ensinado a abrir os olhos e perceber avisos que antes passavam batido.

Quando penso nos meus últimos Romeus me cruza essa imagem pela cabeça, na vida real, ao vivo, eu não percebi os sinais do que Romeu andava fazendo ou querendo fazer, mas na vida virtual estava tudo lá, seus recados diziam tudo. Mas eu ainda não lia entrelinhas e pensava que alguns recados eram curtos devido ao fato de Romeu não ter paciência para escrever.

Uma vez combinei de viajar com Romeu, no telefone ele cancelou a viagem, disse que não estava se sentindo bem. Eu desliguei e insisti no Facebook e ele respondeu ''eu não estou à fim de viajar''.
Aquilo caiu como gelo, na minha frente ele não tinha dito nada, no  telefone inventou outra desculpa, mas online me disse isso. 

Fiquei de olho nas redes sociais dele e não achei nada, até que entrei na página de uma vizinha, que cuida o gato dele quando viaja, e para minha surpresa ela tinha postado uma foto do gatinho dele, com a legenda ''quando papai viaja eu faço a festa''.

Papai viaja? Pois é, ele voltou, levou uma prensa minha e acabou me contando, via internet claro, que tinha se apaixonado por outra e tinha viajado com a moça.

Na vida real quanto tempo eu demoraria para perceber? Não sei, mas internet é uma benção.

E cada vez mais acostumo meus olhos a ler entrelinhas, parece que tudo ficou claro e nem sempre gosto do vejo.

Há um bom tempo conheci um rapaz músico, ele era amigo de outro amigo e acabamos trabalhando no mesmo projeto. Ele frequentou muito minha casa e a impressão que tive dele era de um rapaz sério, introvertido, focado na música. Não lembro dele de maneira ''ligeira'', fazendo brincadeiras, nem contando piadas. E tive um episódio com ele que nos aproximou mais. O projeto que estávamos era enrolado, eu tinha acabado de levar um fora do Romeu, minha vida estava virada e a síndrome do pânico tinha voltado.

Eu tive uma crise de pânico durante um ensaio e fui para o banheiro, no caminho o encontrei e não sei porquê, talvez pelo seu temperamento discreto, acabei contando a ele o que tinha acontecido. Ele me deu muito apoio aquele dia e uma semana depois me contou que também tinha síndrome do pânico. Ficamos muito próximos e mantivemos a amizade por anos, mas depois ele mudou de cidade e nos perdemos no caminho.

Acabamos como muitos, nos encontrando no Facebook e retomamos a amizade. Soube que ele se casou há cinco anos e semana passada aconteceu uma coisa estranha.

Eu abri meu Facebook e vi as fotos dele comemorando os cinco anos de casamento, com outra festa. A esposa colocou um texto gigante, contando a maravilha que esses cinco anos tem sido, os dois filhos, os sonhos que eles ainda têm para realizar, os concertos que querem ir, os países que querem visitar.
É o típico texto de uma mulher apaixonada, na crença da eternidade e na certeza do amor, é o começo de uma jornada.

E ele foi no post e respondeu a mulher o seguinte:
''Cinco anos que se sentem como vinte. Te amo''.

Na hora que li não gostei, tive uma sensação ruim. Eu defino o que gosto ou não, pensando em como reagiria se fosse comigo o assunto. Se eu coloco um texto gigante para meu marido, dizendo o quanto o amo e como esses cinco anos com ele tem sido a melhor coisa da minha vida, não vou gostar de ler ''cinco anos que se sentem como vinte''.

Isso quer dizer o quê? É bom ou é ruim? Não sei, no meu conceito dizer que uma coisa se sente como se fossem vinte anos, não me parece agradável.

Comentei com uma amiga e ela me disse:

-Você é sempre dramática! Pode ter sido uma piada.

É, então resolvi abrir meu celular para que ela visse a frase do rapaz e surpresa, não estava mais lá, tinha sido editada e só sobrou o ''te amo''.

Tive a sensação de ''já deu merda'', aquela coisa que a gente sente e não sabe explicar o motivo.

E já cansei de falar aqui sobre derramar ''amor'', me parece normal fazer isso, também sou um mar de amor, mas estou aprendendo a ser com quem merece e com quem demonstra merecer, já reservo minha água como se fosse a última do planeta, não gasto mais meus litros de amor com quem não parece se importar comigo. 

E penso o seguinte: se vou escrever um texto gigante na frente de todo mundo, direcionado ao Romeu, vou tentar de todas as maneiras ter certeza de que não estou falando ''cás paredes''. 
Estou vendo isso em vários perfis de amigas, elas derramando declarações e Romeus respondendo de maneira apática.

Tudo o que o for dito é desculpa, Romeu não tem tempo para escrever, não gosta disso, é discreto, não se manifesta, não faz isso, não faz aquilo. Tudo isso é mentira e nós, mulheres, sabemos que é assim, escondemos quando não somos amadas com a mesma intensidade e fingimos que Romeu é travado e não gosta de se declarar online.

Resumindo, estamos sendo otárias na vida online, derramando amor sem perceber que o outro lado não está tão envolvido quanto pensamos.

Na minha cabeça a conta é simples, se Romeu me diz que cinco anos ao meu lado se sentem como vinte anos, não gosto, parece que o tempo se arrastou para ele.


E a desculpa de que Romeu não disse nada online, mas me disse ao pé da orelha ou ele não é tão bom escrevendo como eu posso ser, é mentira. Na hora que quis Romeu postou poesia para outra mulher, não foi um problema de ''eu não sei me expressar''.
Ora, todos sabemos nos expressar quando nos interessa.

Quem nunca passou pela situação de Romeu enrolar para mudar o status, não querer foto, mas de repente termina o namoro e no dia seguinte aparece com outra mulher, muda o status na hora e ainda enche o perfil de declarações de amor?

E sou uma romântica encubada, adoro textos longos e cheios de curvas, sou apaixonada por frases que definem uma situação e palavras que revelam. Quem me conhece e passa por aqui sabe que meus Romeus são assunto constante e não escondo quando derramo amor por um deles, mas me dei conta de como pode ser vazio jogar amor em vasos fechados, não leva a nada, por isso tento prestar atenção e grudar na modernidade, essa que está permitindo que o ser humano se solte mais e diga as frases que realmente pensa.

Como mulheres não temos como saber o que os homens pensam, na verdade nem me parece questão de gênero, nenhum ser humano consegue ler o outro a perfeição, por isso aprender a ler entrelinhas pode ajudar muito e nos dar a certeza de uma situação que talvez já acabou e não percebemos.

Cansei de abrir meu Facebook e ver tantas mulheres amando em textos, jogando frases e enchendo a vida do Romeu de flores. Quando vejo isso tento entrar no perfil de Romeu e até agora nenhum deles me surpreendeu, parece que a conta continua a mesma, mulheres amando na mais alta intensidade homens que não parecem merecer esse amor.

E uma vez eu estava em um ensaio de uma peça, não lembro o motivo, mas eu estava bem ''engraçadinha'' esse dia e o diretor me disse:

-Iara, primeiro defina o lugar onde você está. É um palco ou um picadeiro?

É fato, precisamos primeiro definir o lugar onde estamos e o que fazemos ali, estamos amando de maneira séria e sendo correspondidas, ou estamos amando e fazendo papel de palhaças virtuais?

Sim, porque é deprimente escrever textos longos e receber uma resposta monossilábica. Já passei por isso e tenho vontade de sumir no mundo quando lembro, não tenho vergonha do quanto amei, tenho vergonha das vezes que amei achando que estava sendo amada e isso não acontecia, não ter percebido a situação ainda me atormenta.

Nada contra textos gigantes, fotos, declarações, apenas um conselho: se certifique primeiro de que Romeu está na mesma sintonia, caso contrário, na dúvida, mande o texto via email, se Romeu não responder, então tudo ficou claro.

Ser otária é uma doença crônica que muitas de nós temos que lidar durante a vida, a contaminação acontece quando nascemos mulheres e somos tratadas como idiotas, convencidas de que ser amada por um Romeu é nossa única salvação e cura. É uma doença tão devastadora que vivemos ao redor dela e pensamos estar amando, mas apenas somos umas otárias sendo usadas diante de todos. 
Por isso digo, perceba onde está parada, no palco ou no picadeiro.



Iara De Dupont

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