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25 março 2016

As donas do mundo


Estamos todos no meio de um furacão de informações, nunca houve tantas fontes, versões e teorias.

Entendo quando alguma mulher me diz  ''eu não sei bem como o feminismo funciona''.
De vez em quando nem eu sei, porque o feminismo é uma ideia política, por isso mesmo mutável e orgânica. O que se procura hoje talvez amanhã fique obsoleto.

Mas dizer  ''eu não preciso do feminismo'' é quase uma ofensa a todas, pelo menos eu sinto a frase ir diretamente ao meu coração e congelar minha alma.

Para que o feminismo existisse milhões de mulheres morreram antes de mim, antes de todas que estamos aqui. E quem está agora esquece, até porque não viveu, não tem ideia do medo que todas essas mulheres enfrentaram, mesmo sem saber o que eram direitos, apenas guiadas pela sensação de que alguma coisa não estava bem.

Poucos sentimentos são mais próximos a mim do que o medo, restos de vinte anos vivendo com síndrome do pânico, eu e o medo éramos a mesma pessoa, alimentada pela mesma fonte, cheguei a um ponto de ter medo de tudo e não sabia mais onde ele começava e onde terminava, parecia dominar desde meus pensamentos até minha alma.

E quando me vejo diante de situações que despertam meu medo lembro das mulheres da minha família e em tudo que devem ter passado e sofrido. Porque o medo no dia de hoje é assunto em cima da mesa, se pode falar disso abertamente, mas antes era a saliva que todas engoliam, sem dizer nada.

Uma das minhas tias morava em uma parte isolada da cidade, no meio do nada e tinha uma arma. Um dia estávamos comendo quando ela escutou um barulho, pegou a arma, saiu e deu dois tiros para o alto. Ela tremia de medo, mas segurou a arma e disse a minha prima ''quando a gente tem que resolver as coisas, engole o medo''.

Tantas engoliram o medo e agora uma nova geração vem dizer ''não preciso do feminismo?''.

Que fácil é minha vida e de tantas, apenas pelo feminismo. Que fácil é subir na mesa e dizer ''me sinto melhor solteira''. Pois é, mas para que isso acontecesse mulheres da minha família foram obrigadas a se casar com doze anos.
O medo que elas devem ter sentido, engoliram. 

E que simples é dizer ''eu escolho com quem quero transar'', sim, é bem rápido dizer isso, posso entrar em um lugar e escolher, não fui estuprada pelo meu marido aos doze anos!

Todas as minhas frases e maneira de viver estão ligadas a época, mas antes de que eu passasse por aqui, mulheres foram estupradas e morreram. E algumas eram da minha família.

A prima da minha avó tinha onze anos quando foi raptada por um vizinho e ninguém achou nada de errado nisso, ora, era mulher, que outro destino poderia ter? 

É, eu aos onze anos andava de bicicleta e pegava ônibus, ninguém me sequestrou em um cavalo, nem escutei minha mãe dizendo ''se vai abusar pelo menos que se case com ela''.

Dizer  ''não preciso do feminismo'' me parece a mesma coisa que dizer  ''que se dane quem morreu antes''.

Ah, sim, o feminismo é bem agradável agora, porque está dentro do que se pode discutir, as leis estão em aberto e as pessoas receptivas, mas e naqueles tempos, onde dizer ''eu tenho os mesmos direitos que um homem'' queria dizer ''estou pedindo para morrer?''.

Para ter o que temos hoje e ainda é pouco, muitas morreram antes. Tenho uma amiga lésbica, que um dia me contou sobre sua avó, ela também era lésbica, percebeu sua condição sexual e resolveu assumir, então a família correu para casá-la, porque assim ela seria ''corrigida'' pelo marido.
Parece que o marido a ''corrigiu'' tanto que um dia a acabou matando.

E vendo uma cena de parto no meio do campo em uma novela, uma pessoa me disse ''ah, antes era melhor, as crianças nasciam de maneira natural''.

É? Minha avó pariu seis crianças na cama, como era antigamente. E posso ser uma idealista, mas me parece que parto em casa é melhor, é a melhor solução para todos, mas hoje é possível pensar nessa possibilidade sabendo que existem hospitais e qualquer coisa é só correr para lá, porque nem sempre o bebê vem na posição ou tempo certo. Mas na época da minha avó os hospitais estavam distantes e não tinham recursos, então ela rezava para ter um bom parto, engolia o medo e seguia a vida. A maneira como uma mulher vai parir hoje é sua escolha, na época da minha avó não tinha alternativas, era na cama, na sorte, sem recursos.

É triste ver como tantas mulheres ignoram o sofrimento das mulheres de sua família, como sabemos tão pouco sobre todas e seus medos, como se nada daquilo existisse.

No alto da nossa certeza urbana tudo parece fácil e simples. Eu posso discutir com meu namorado, tenho pelo menos a certeza de que existem leis e delegacias, ou seja, ele não pode avançar nenhum sinal comigo. Ah, mas eles avançam! É verdade, mas na época da minha avó a mulher apanhava quieta e sem lei que a amparasse, todos diziam que era ''assim mesmo''.

Lembro de uma garota durante um vestibular, ainda pensando na carreira que gostaria de seguir. É, graças ao feminismo que essa escolha existe. 

Nossos medos urbanos não se comparam a quem viveu em épocas anteriores, não é questão de ser menos ou mais, mas de ser justa.

Eu não consigo imaginar o medo de parir sozinha em uma casa, sabendo que não existem hospitais nem médicos, não me imagino fazendo sexo com um marido aos doze anos, não consigo pensar no que é uma vida cheia de dor e sem nenhuma explicação, condenada ao silêncio.

Tenho visto algumas mulheres poderosas dizendo que não precisam do feminismo, e estão certas, não precisam porque a mesa já estava posta quando chegaram, mas se tivessem sido sequestradas e estupradas com onze anos, poderiam entender a dimensão da importância do feminismo.

Minha avó não terminou a escola, na verdade nem sei até onde foi, acho que apenas aprendeu a ler e a escrever, não sabia o significado da palavra feminismo, nem o que era ter ''direitos'', nem estava amparada por nenhuma lei, mas quando apanhou pela primeira vez do meu avô fugiu de casa, estava grávida e sozinha. Correu para os braços de sua mãe, que a expulsou de casa, dizendo que não queria ''ter problemas'' com o genro. Pediu ajuda a algumas amigas, mas ninguém naquela época se envolvia em briga de marido e mulher. 
A sorte dela é que tinha um emprego fixo, trabalhava em uma fábrica e conseguiu se esconder ali por um tempo, dormia debaixo da mesa, o dono sabia, mas não disse nada.

Ficou ali um mês, grávida, sozinha, dormindo no chão e trabalhando durante o dia, mas conseguiu dobrar meu avô, ele foi atrás e ela disse que voltaria, mas só se ele nunca mais batesse nela. De uma maneira estranha ele aceitou, limitou a agressão ao verbo, mas ela nunca mais apanhou.

E não era feminista, nem consciente de seu papel, nem estava pensando que abria o caminho para as netas, nada disso passou pela sua cabeça, fez o que lhe pareceu. Mas se agora eu estivesse em uma relacionamento abusivo e quisesse sair não precisaria dormir em chão de fábrica, teria apoio de muitas pessoas, porque as coisas mudaram e hoje a violência com a mulher não é mais aceitável, continua acontecendo em grande escala, mas já existe punição.

Uma moça me disse ''sinceramente? Acho o feminismo um porre!".

Eu também acho, principalmente quando entra naquelas discussões politizadas onde tudo parece tão denso que não se entende nada. Mas eu acho o feminismo um porre no alto da mesa, bebendo uma caipirinha e contando sobre minhas aventuras e sonhos. Sim, desfrutando uma liberdade que minha avó não conheceu, porque não podia sair de casa sem homem. Eu posso bater a com a mão na mesa, beber, gritar e ainda voltar para a casa sozinha.
Não é seguro fazer isso, é verdade, mas estou um passo a frente da minha avó, porque sei que ao abrir a porta da minha casa não vou apanhar do meu marido por estar de ''vadia'' na rua.

Não sou obrigada a cozinhar para homem, nem vou no supermercado comprar comida para um, mas lembro da minha avó escravizada aos desejos do meu avô, se ele cismava de comer uma coisa ela tinha que correr e preparar. Mas que se dane o feminismo, eu não preciso, não preciso nem cozinhar, posso pedir uma pizza e comer sozinha!

Ninguém é obrigada a ser feminista, nem a respeitar as mulheres de sua família, porque isso sim, todas temos em comum a mesma origem, todas viemos de famílias de mulheres escravizadas, todas conhecemos uma parte da nossa raiz.

E algumas esquecem! O outro dia uma amiga estava agitada, pensando na noite, porque iria sair e transar com seu Romeu pela primeira vez e eu fiquei pensando ''nossa, ela já tem trinta e dois anos, já transou antes e está ansiosa, imagina na época da minha avó onde não existia nem a palavra ''transar'', eram obrigações conjugais!".
Isso dá medo, pode parecer engraçado agora para nós, mas imagino que tantas devem ter sofrido demais, sem ter a remota ideia do que estava acontecendo.

A muitas essa realidade nos parece distante, é tão normal hoje ir para a cama com um Romeu e falar de maneira direta o que quer ou não, podemos parar a relação, mudar de ideia ou pedir mais, mas antes as mulheres nem abriam a boca, ficavam paralisadas.

E justo por ter sido guiada pelo medo tantos anos posso imaginar o terror que muitas mulheres deveriam sentir diante da vida e me surpreende o forte que conseguiram ser.

E as donas do mundo que não precisam do feminismo esquecem que existe outra geração chegando e elas também precisam de mudanças, dependem de nós para melhorar seu futuro. O medo que eu tenho de sair nas ruas à noite não quero que minhas netas tenham.
Memória não mata ninguém, respeito também não. Minha avó dormiu em um chão frio para não apanhar de um homem e hoje nenhuma neta precisa fazer isso, podem se separar se quiserem.
A ela não foi dada a oportunidade de se separar, mulheres decentes não podiam fazer isso, eu posso me separar quantas vezes quiser.

E as donas do mundo, eu pergunto, em que plataforma vocês estão paradas? Porque o mundo ainda é dos homens, o feminismo não avançou tudo o que precisa avançar e não entendo essa certeza de gritar  ''eu não preciso do feminismo'' em um mundo onde morrem tantas mulheres todos os dias, mortas pelos homens!

Ainda precisamos e muito. E não existe chão sólido debaixo dos nossos pés, ainda é areia. Ainda não podemos olhar nossas mortas e dizer ''foda-se''. Ainda estamos aqui porque elas morreram antes. Só existimos porque elas resistiram a violência. Só caminhamos, pensamos, escolhemos, mudamos, fazemos, queremos, somos, porque elas entregaram a vida para que alguém pudesse ter um destino melhor do que o delas. E não falo de mulheres famosas e revolucionárias, falo daquelas heroínas que existiram e existem em todas as famílias, as avós, as bisavós, as que nem sabemos que existiram.

Nenhuma mulher é fruto de um mundo justo ou harmônico, todas carregamos as cicatrizes na alma de gerações passadas, somos pedaços de mulheres que foram mutiladas antes, somos parte de um mosaico de sobreviventes.

Se posso colocar à mão na cintura e  falar sobre meus direitos é porque tive mulheres na família que me ensinaram a fazer isso, depois das surras que levaram, se me ensinaram a ficar em pé é porque elas tiveram seus joelhos quebrados, se posso falar é porque outras tiveram a língua arrancada, se posso escrever é porque muitas foram mortas apenas por pensar.

E talvez seja um fator cultural, mas eu tenho respeito pelas minhas mortas, não perco a noção de que graças a elas estou aqui. E agradeço a quem começar a completar a frase, se vai dizer ''não preciso do feminismo'', por favor, termine dizendo ''mas mesmo assim obrigado a todas que morreram para que eu fosse livre de dizer o que penso''.

Iara De Dupont

5 comentários:

Anônimo disse...

Um dia eu estava comentando isso com a minha filha de 19 anos , um outro texto seu sobre esse assunto , que devemos ser gratas pelas que vieram , sofreram E morreram antes de nos , falei que foi preciso muito sacrifício para que ela tivesse os direitos que tem , muitas romperam com o sistema para que ela hoje desfrutasse das conquistas , então ela me disse que era uma pena que eu não tivesse enfrentado o sistema machista, pois na época eu era dona de casa , me casei cedo é tal , na hora foi como um soco no estômago mas logo depois falei pra ela que eu havia sim enfrentado o sistema , silenciosamente na maneira como eu a criei , dando a ela liberdade de escolha , oportunidade de estudar , viajar e principalmente decidir sobre a própria vida. Eu enfrentei o machismo criando minha filha de uma maneira diferente , eu ainda enfrento colocando em pratica muitas coisas que leio aqui no blog, ela me pediu desculpas e me agradeceu por tudo , falei pra ela o que você disse uma vez , para ela honrar as mortas, aquelas que pagaram com a vida o que tempo hoje .
Bjs
Ana

Iara De Dupont disse...

É verdade Ana, muitas pessoas acham que só se enfrenta o sistema na rua, mas não é assim, donas de casa também fazem a revolução, exatamente como você fez,criando uma filha livre. Ainda bem que ela sabe disso, porque cada uma tem seu tempo,não podemos julgar ninguém por decisões que não teve, em um momento que nem tinha consciência do que estava fazendo, mas a sua maneira todas enfrentam o sistema, por isso que ele vem mudando. Beijos!

C.Belo disse...

Sinceramente? Pra mim, mulher que fala isso, aliás, mulher que fala isso é vota em Bolsonaro merece apanhar muito, Deus que me perdoe!

Cristina disse...

Quer ver essas donas do mundo surtarem? Digam a elas que o feminismo conquistou pra elas, inclusive o de aprender a ler e escrever, e voltem a viver como na época das avós, casando aos 12 anos, sendo estupradas, espancadas, traídas, pegando DSTs do marido e tendo dúzias de filhos porque "mulher decente" não precisa se prevenir. Diga isso e veja as madames "feminismo é chato!" surtarem.

Cristina disse...

Ai, engoli as palavras de novo... Quer ver essas donas do mundo surtarem? Digam a elas que se são contra, que abram mão do que o feminismo conquistou pra elas, inclusive o direito básico de aprender a ler e escrever, e voltem a viver como na época das avós, casando aos 12 anos, sendo estupradas, espancadas, traídas, pegando DSTs do marido e tendo dúzias de filhos porque "mulher decente" não precisa se prevenir. Diga isso e veja as madames "feminismo é chato!" surtarem.

Melhor parar de comentar quando estou com fome...

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