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06 março 2016

A incrível coragem que uma mulher pode ter


No dia 2 de julho de 2012, em Culiacán, Sinaloa, México, um homem foi assassinado.
Oito dias depois sua mulher, Yecenia, dirigia acompanhada de sua irmã quando foi cercada de carros da polícia e obrigada a descer. Foi levada a um galpão e torturada durante horas, acusada do assassinato de seu esposo. Depois foi levada a uma delegacia, encaminhada a prisão e dias depois assumiu a autoria do crime.

Graças a presença da Anistia Internacional e do seu nobre e duro trabalho para decifrar os meandros da tortura policial no México, alguém reparou que a moça não estava bem, pediram então ao perito da polícia que desse uma olhada, ele foi e voltou dizendo que ela ''estava ótima''. Sem acreditar nesse relatório, pessoas ligadas a Anistia pediram autorização para levar dois médicos, peritos em tortura, e eles concluíram que ela tinha sido selvagemente torturada e estuprada e assinou a confissão de olhos vendados. Ao conversar com as pessoas da Anistia, Yecenia disse que não tinha matado o marido e resistiu à tortura, não pensava assumir um crime que não tinha cometido, mas os policiais se cansaram depois de horas de torturá-la e disseram que caso ela não confessasse o crime eles iriam sequestrar e torturar suas duas filhas, que acabariam mortas diante dela. Diante disso ela assinou a confissão na hora.

O caso foi fechado e ela foi condenada a passar alguns anos na prisão. Mas graças a Anistia o caso veio à tona e se tornou um símbolo da quantidade enorme e vergonhosa de mulheres que ''mataram'' seus maridos no México. E parece que todas seguem o mesmo padrão de confissão, assinam os papéis de olhos vendados.

Yecenia é de Sinaloa, terra de traficantes, um dos lugares mais perigosos do mundo. E diante de tantos assassinatos é conveniente ao sistema essa epidemia de ''mulheres assassinas'', é melhor uma mulher que ''confessa'' e é presa, do que outro morto achado na estrada e que ninguém sabe dizer quem matou.

Na semana passada a Anistia Internacional divulgou um relatório, falando do excesso de tortura no México por parte dos policiais e que 64% da população mexicana tinha pavor da polícia, por medo de sofrer torturas. O governo reagiu e saiu dizendo que o relatório é tendencioso e obedece a ''interesses de inimigos''.

Yecenia com a ajuda da Anistia reconheceu e denunciou os policiais que a torturaram, mas seu caso não avança. Emperra porque o Procurador Geral da Justiça, chefe dos policiais, alega que ela confessou o crime, então não tem como soltá-la. A Anistia tem gritado ao mundo a história de Yecenia, ela confessou o crime mediante tortura e a possibilidade de que matassem suas filhas, qualquer pessoa teria feito o mesmo que ela.

As torturas que ela sofreu levaram três anos para serem denunciadas, os policias não foram afastados e o Procurador insiste em dizer que não pode abrir o caso novamente, por respeito a família do marido falecido, mas também não existe no expediente de Yecenia nada que a ligue ao crime. As investigações ficaram paradas, ninguém sabe o motivo do crime, nem existem suspeitos.

Policias já insinuaram que o marido de Yecenia tinha uns problemas pendentes e ela como mulher deveria saber disso, mas não explicam porque ela está presa, sem nenhuma prova ou evidência de que tenha sido ela.

O caso já rodou tanto o mundo que Yecenia recebe setecentas cartas por semana, de diferentes lugares. Recentemente um repórter espanhol fez questão de levar até a cadeia as oito mil cartas de apoio direcionadas a ela.

E o que o Presidente da República, Peña Nieto diz? Que não é problema do seu gabinete, isso é uma questão do Procurador, ele que resolva.

E o caso de Yecenia Armenta não é o único que mostra a face real da polícia mexicana, há alguns anos aconteceu um dos casos mais inacreditáveis que eu já li e que deixa claro que a polícia mexicana não teme julgamentos, nem pressão, eles levam as questões que aparecem a sua maneira.

Uma jornalista e escritora, Lidya Cacho, publicou em 2005 seu livro ''Demonios del Edén'', onde denunciava uma rede de pornografia e prostituição infantil com base em Cancún. Estava dirigindo quando foi parada pela polícia, colocada em uma viatura e suportou bravamente vinte horas de tortura e estupro. E não foi a primeira vez que passou por isso, uns anos antes, quando ela começou a fazer denúncias sobre a violência contra a mulher no México foi agredida em um banheiro de uma rodoviária, foi estuprada e seus ossos foram quebrados.

Felizmente Lydia é dessa classe de pessoas que não existem nem palavras para descrever a coragem que carrega, saiu viva e denunciou a polícia. Leva anos processando o governo, mas também aguenta desde esse dia ameaças constantes, escutas telefônicas, perseguições e a certeza de que sempre está sendo seguida pela polícia mexicana.

E Lydia não é qualquer pessoa, é uma das maiores escritoras e jornalistas mexicanas, com um enorme trabalho de direitos humanos direcionados a crianças e vários livros publicados. Com certeza a polícia sabia que se meter com ela seria uma péssima ideia, mas é tanta a certeza da impunidade que a polícia mexicana tem, que não se intimidou em torturar durante vinte horas uma mulher conhecida no mundo inteiro. Ela já sofreu até agora pelo menos três tentativas de morte.

Não conheço ninguém que represente melhor o feminismo no México, Lydia é incansável e onde a maioria de nós teria se rendido, ela continua.

E hoje conversava com uma moça e ela me disse ''Eu adoro o México, acho a Anahí a melhor representação da mulher mexicana''.

É, com todo o respeito, até porque a Anahí é casada com um governador de uma família sinistra, mas enfim, o México não é feito de mulheres como a Anahí, nada contra ela, tem sua carreira, trabalha desde criança e é uma moça bonita, simpática, mas não é só de mulheres como ela que o México se constrói, aquele país ainda está de pé porque existem mulheres como Yecenia e Lydia que tem a coragem de denunciar seus agressores e estupradores, mesmo eles fazendo parte da polícia mais assustadora do mundo.

Quando penso em Yecenia e Lydia, percebo como uma mulher pode ser uma fortaleza diante de um sistema bruto e covarde, como é incrível ver a força dessas duas mulheres diante das piores coisas que podem acontecer com um ser humano. Nenhuma delas saiu da mira da polícia, uma está presa e a outra é vigiada.

Nessas horas tenho inveja das americanas, se elas fossem do lado de lá da fronteira suas vidas já teriam virado filme e elas estariam ricas, bebendo martínis na piscina. Mas como são do lado de cá, são mexicanas, ainda estão tentando ficar de pé no meio da tempestade que as cerca.

Alguém matou o marido de Yecenia e é ela que paga por isso, no auge do pensamento machista. Não é suficiente tudo o que uma mulher passa, agora também pagam pelos maridos assassinados por outros.

Para algumas feminismo é um acessório, um artigo de luxo, para outras é a única saída do inferno que vivem. Mas para todas nós o feminismo é como um mapa que nos mostra a situação real do mundo e como ele reage a nós. E graças a esse mapa que podemos entender o que está acontecendo e a importância de apoiar umas as outras. As cartas que Yecenia recebe na cadeia são de mulheres, chocadas com o que ela está passando. E essa empatia acontece porque todas sabemos a verdade que nos cerca: não importa o que acontecer, a culpa é nossa.

Maridos estão morrendo nas mãos de estranhos? Joga a culpa na esposa.
Tem uma rede de pornografia infantil? Joga a culpa na escritora.

O sistema continua vindo na direção de todas nós e a única coisa que podemos fazer é nos unir e entender que somos nós contra eles, sem trégua.


Iara De Dupont

Um comentário:

Cristina disse...

Ódio é só o que dá pra sentir quando aparecem esses casos. Mas fazer o quê né, mais fácil torturar, estuprar e obrigar quem é mais frágil diante da lei e do sistema a assinar uma confissão de olhos vendados do que mostrar competência investigando e prendendo o verdadeiro culpado. Policiais corruptos são a mesma coisa no mundo inteiro, pena que em alguns lugares como México e Brasil eles tenham mais liberdade de ação do que em outros lugares do mundo. Será que isso tudo só vai terminar quando as mulheres agirem como homens e já chegarem matando? Quando matarem e torturarem, sem nenhuma piedade pelos seus carrascos? Bom, se isso acontecer eles não vão poder dizer que não fizeram nada pra elas...

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