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15 fevereiro 2016

Um dos meus maiores medos


Durante muitos anos me senti estranha e pensava que era sensível demais a tudo. O ambiente que me rodeava também me massacrava, tudo era considerado ''coisa de mulherzinha''.

Eu tinha que sobreviver no meio de tanta hostilidade masculina e machismo, então de alguma maneira achei um jeito, comecei a ignorar o que me parecia importante e mantinha silêncio em relação a isso.

E só depois de ler sobre o feminismo percebi que meu silêncio é igual ao de milhões de mulheres, o machismo trabalha com a ideia de que mulheres falam muito e demais, mas na verdade calamos tudo o que é importante.

Tive que passar dos trinta e cinco anos, ralar muito, para poder entender até onde esse silêncio estava me levando e o mal que me causava.

E faz poucas semanas que percebi quanto tempo perdi e a quanto sofrimento me vi exposta, simplesmente porque eu não abria a boca.

Há algumas semanas eu conversava com um ex-Romeu, mencionei um assunto, ele mudou e ficou nisso. Me incomodei muito e no dia seguinte resolvi voltar ao tema, disse a ele que queria falar sobre o dia anterior. E ele me perguntou ''por quê?'' e respondi ''Porque é importante para mim''.
Então Romeu muito gentil explicou seu lado, em menos de cinco minutos tudo ficou claro, sem ressentimentos.

É uma situação simples, mas eu nunca tinha vivido uma assim, porque no meu desespero de ser considerada e tratada como todos me calava e nunca dizia o que era importante para mim.

E tive oportunidades de entender e não o fiz.
Há uns anos eu frequentava as reuniões dos Vigilantes do Peso. Eu tinha uma amiga e íamos juntas, mas sempre acabávamos conversando com todas as que estavam por lá. Em uma reunião uma moça nos ofereceu carona e minha amiga e eu aceitamos. No carro, dirigido pelo seu namorado, a moça contou que tinha perdido um quilo e disse ao namorado ''pode me parabenizar?'' e ele na hora disse ''parabéns''.

Quando saímos do carro, eu e minha amiga, estávamos passando mal de tanto segurar a vontade de rir, nossa, quem era essa louca, mendiga do amor, que pede para um homem a parabenizar? Sabe aquele tipo de mulher que eu nunca seria? Pois é, ela era.

Na seguinte semana encontramos a moça na reunião, eu não disse nada, mas minha amiga comentou com ela o seguinte ''ô fulana, isso aí de mendigar elogio de homem é furada viu, a dieta é tua, a vida é tua e as vitórias são tuas''.
E fulana respondeu ''tem razão, mas para mim é importante que ele me elogie, faz diferença, mas ele não é vidente, então prefiro dizer a ele o que é importante para mim''.

Nem eu nem minha amiga entendemos a dimensão do que tinha sido dito. É apenas isso, o que é importante para nós.

Eu passo por isso desde pequena, tudo o que era importante para mim era coisa de menina, de chatinha, de sensível, de mimada, de estragada, de birrenta, coisas de Iara. Então me fechei acreditando que tudo que era importante para mim era apenas lixo, melhor ficar quieta.

E assim consegui complicar ao máximo minha vida, relacionamentos e amizades, porque eu não conseguia dizer o que era importante para mim.

Uma vez fiz uma festa, devia ter uns dezesseis anos, e naquela época essas festas eram a única oportunidade de beijar o namorado à vontade. Eu namorava um Romeu e gostava demais dele, todo o tempo que eu passei preparando a festa pensava nele.
No dia da festa eu estava no banheiro, me arrumando, quando minha prima me avisou que Romeu estava no telefone, corri para atender e ele disse que não iria à festa, tinha tido um imprevisto. Na hora minha garganta fechou e eu só consegui dizer ''poxa, mas não tem jeito mesmo?''. Ele percebeu que eu estava chateada e me perguntou se estava de TPM (tensão-pré-menstrual). Como eu era chorona já tinha escutado isso até em aula de pintura, então me fechei e disse ''tudo bem, meus amigos vão vir''.

Mas eu queria ter dito ''caramba, para mim é importante que você venha!''. Diante da ideia dele que eu estava de TPM me tranquei por dentro.

Uns anos depois eu namorava outro Romeu e se aproximava o dia dos namorados, ele me disse que achava a data besta e me perguntou se eu queria alguma coisa, eu disse que não, mas era mentira, para mim naquela ocasião era importante, eu queria estar com ele, queria comemorar a data, mas fiquei com medo de ser ridícula e sentimental, então me vesti a armadura e disse ''também acho a data uma merda''.

E fiz isso milhões de vezes, até no trabalho, eu queria uma coisa, me diziam outra e para não parecer emotiva, nem ''menininha'', eu aceitava o que me diziam.

Conforme cresci descobri que existia uma palavra mais forte ''mulherzinha''. Eram sempre as ''mulherzinhas'' as loucas, com pedidos e vontades estranhas e pouco confiáveis.

Na estréia de uma peça eu namorava um ator, que não gostava de estreias, me disse desde o começo que não iria e eu disse ''tudo bem''. Fiquei tranquila e banquei a durona como sempre, até que vi o namorado de outra atriz entrar no camarim e beijá-la, então eu sentei e chorei, poxa, para mim era importante que Romeu tivesse ido e ele não foi!
Mas eu não insisti com ele porque não queria parecer chata nem ser dessas namoradas que pegam no pé e o preço disso é engolir tudo em seco.

E quando eu trabalhava em uma emissora uma vez estava em uma reunião e alguma decisão foi tomada, não lembro qual, mas um dos rapazes não gostou e disse ''prefiro tal coisa, para mim é importante que meu trabalho seja mostrado assim''. Eu pensava a mesma coisa, então repeti o que ele tinha dito, da diretoria ele recebeu a garantia que seu trabalho seria do jeito que queria, já eu recebi a resposta que não estavam de acordo e continuaria tudo como estava. Não falei mais nada, mas meses depois um dos diretores disse que minha mudança nunca foi aceita porque eu não fui ''enfática''.

Em algum momento um estudante americano morou na minha casa, ele era meio avoado e tinha a mania de chegar em casa e não cumprimentar. Um dia eu disse a ele que se eu estivesse no meu quarto ele não tinha porque ir lá e me dizer ''boa noite'', mas que era muito fora de tom me encontrar na sala e passar reto. Então ele me abraçou e disse ''tá carente?'', respondi que não era carência, mas me parecia importante que uma pessoa que morasse na minha casa e cruzasse na sala comigo, me desse um ''oi''. E ele começou a se divertir com isso, me apelidou de ''Girlie'', sempre se referia a mim como Girlie, que é uma expressão americana para se referir as ''menininhas''. E se chegava alguém em casa ele logo dizia ''abraça a Iara senão ela reclama''. De vingança eu comecei a fazer uma coisa que ele odiava, quando me abraçava eu o abraçava bem forte, os americanos não gostam de tanto contato físico, são mais distantes, e ele se irritava, mesmo assim continuava dizendo que eu era sempre ''too girlie''.

Durante muitos anos tive medo de dizer o que era importante para mim, até na cama eu resistia em dizer qualquer coisa, tinha medo de ficar com a imagem de ''mulherzinha''. Eu tinha um medo constante de expor minhas ideias e sentimentos, tudo parecia anormal e sempre haviam os homens por perto para tirar sarro.

Foi tanta pressão que eu mesma duvidava das coisas que eram importantes para mim. Um Romeu que tive era meio seco, um dia disse a ele que era importante para mim que me dissesse o que sentia, se estava apaixonado e ele respondeu:

-Eu falo o que eu quiser, a hora que quiser, e não é você que vai determinar isso.

É fato!

Mas para mim era importante saber como ele se sentia no relacionamento, mas engoli a resposta, foda-se o que era importante para mim, desde quando eu existo?

Eu sentia o constante julgamento no qual todas nós, mulheres, somos submetidas todos os dias da nossa vida e como tudo o que falamos é desprezado e diminuído, sem importar o conteúdo, é considerado besteira.

E lembro de um episódio que passei aos doze anos, eu caí e machuquei a coluna, me levaram para o hospital e chegando lá um médico me atendeu. Pela idade e situação, minha mãe não estava lá, eu tentava me cobrir com o lençol, enquanto médico examinava as costas. De repente entrou outro médico, e ficou parado em um canto, conversando com o médico que me examinava, que em algum momento se irritou com minhas tentativas de me cobrir com o lençol e me disse ''olha, está atrapalhando''. O médico que estava no canto se aproximou e me disse ''você ficaria mais à vontade se eu saísse? É importante para você?''. Eu disse que sim e ele saiu.

É apenas isso, uma frase, mas que eu nunca usei e não tinha no meu vocabulário, o que era importante para mim. Não interessa sobre o que vou falar, mereço o mesmo respeito destinado aos homens e se é importante para mim é importante para mim.

Já passei por isso até em apresentação de trabalho acadêmico, de um professor me cortar a fala e dizer ''isso não é importante''.
Pra mim é, porra!

E não dou uma de mulher perfeita, minha escala de importância é pessoal e medida pelos meus valores, muitas coisas não fazem sentido para algumas pessoas, mas para mim são importantes e podem ser simples e vão desde o vital até o superficial. Se Romeu viaja, para mim é importante que me ligue ao chegar, pode ser besteira para muitos, para mim é importante. Na cama, no amor, é importante que Romeu me pergunte se estamos na mesma página, isso é importante para mim. Não ser desrespeitada no trabalho, nem nas relações é importante para mim.

Mas já aprendi que o mundo não vai me dar esse espaço, sou eu que tenho que chegar quebrando a parede e me posicionando com mais determinação e força.
E tem sido difícil, às vezes mal abro a boca e já escuto ''lá vem frescura de mulher'' e minha espinha gela, então tenho que lembrar minha mente que o mundo sempre vai dizer isso, sou eu que tenho que subir o tom de voz e dizer ''isso aqui é importante para mim''.

Sempre foi um dos meus maiores medos, o constante julgamento e rebaixamento no qual o mundo me submetia, mas nos últimos tempos venho percebendo que me posicionar tira a complicação da minha vida, em todos os aspectos. As pessoas vão reclamar, o planeta misógino vai gritar, mas é assim mesmo, não tem de outra, ou são eles, ou sou eu, e neste caso não tenho duas vidas para ensaiar em uma e acertar na outra. Daqui para frente só me interessa o que for importante para mim e falar a respeito, comparto a teoria da moça, ninguém é vidente para adivinhar o que é importante para nós, temos que ser claros e dizer com todas as letras o que é. E o segundo passo é aguentar firme as críticas e as queixas, mas posso garantir que tudo isso é melhor do que engolir em seco o que é importante para nós, porque engolir o nosso silêncio nos devora por dentro, a gritos.


Iara De Dupont

4 comentários:

C.Belo disse...

Engraçado, eu nunca tive dificuldades em entender q minhas ideias e minhas vontades eram importantes, apesar da criação q tive, na qual eu não fui ensinada sobre isso em nenhum momento e minha mãe nada carinhosa e maternal nem sequer pensava sobre nada além do almoço, jantar e das roupas a lavar e passar; pra começar eu nasci acidentalmente, cheguei numa família onde já existia um casal de filhos, não fui necessariamente desejada e tampouco planejada. E nesse ritmo seguiu minha vida, portanto é um mistério a forma como eu cristalizei dentro de mim a certeza do que eu queria para minha vida e de que isso era mais importante que estar com qualquer pessoa apenas por estar. Mas, assim foi. Que bom, eu não sei se suportaria ser um fracasso em tudo, inclusive na vida amorosa.

Patricia Gabriel disse...

quando falarem lá vem coisa de mulherzinha de novo,diga,sim,eu sou mulherzinho,mulherzona,o que voce achar,mas falo o que quero,na hora que quero e não são voces que vão mudar isso!

Anônimo disse...

Quando a gente se coloca em primeiro lugar, a vida fica uma delícia e bem melhor de se viver. O que é importante pra gente deve sim ficar em primeiro plano e opinião cada um tem a sua, seja homem ou mulher, paciência, nem Jesus agradou a todo mundo, eu não estou nem ligando o que acham de mim...O que é importante pra mim é o que está valendo...rsrsrs...Estou caminhando rumo a vida leve e feliz...Mais uma vez você foi ótima!!! Mônica.

Cristina disse...

Concordo com absolutamente tudo e assino embaixo. Apanhei muito quando era fedelha pra aprender que, na família, eu era bibelô e não gente. E se dependesse daquelas pragas que se dizem minha família eu continuaria um objeto mudinho sem vontade própria nem nada a dizer até o fim da minha vida. Hoje o primeiro que tentar me calar ouve muito, se for preciso eu grito, mas não me calo mais. O que eu quero, o que eu penso, o que eu considero importante é importante e ponto. Quem não gostar sempre pode ir se atirar de cabeça do alto do Empire State.

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