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13 fevereiro 2016

Seu Romeu é um sobrevivente de campo de concentração? Não né!


Minha avó tinha uma vizinha que contava uma história linda.
Era sobre um senhor, que morava sozinho. Um dia uma senhora passou e bateu na porta, vendendo bolos. O senhor comprou um, gostou e começou a comprar todos os dias. Ela se apaixonou por ele desde que o viu, mas ele parecia indiferente, parecia interessado apenas nos bolos.
Ela ia sempre levar os bolos e um dia se ofereceu para fazer um café, então o senhor a deixou entrar em casa. Isso se repetiu durante meses, ela ia levar os bolos, entrava para tomar um café e ficava conversando com o senhor, um pouco mais velho do que ela.

A senhora nunca tinha se casado, nem tinha filhos, mas concluiu que aquele senhor era o ''amor de sua vida''. Conversando com ele descobriu que era polonês e veio ao Brasil depois da segunda guerra mundial para refazer sua vida, morava sozinho, sem amigos nem família, dedicava todo seu tempo ao trabalho de consertar relógios.

Um dia ele contou a senhora um pouco de sua história, nasceu na Polônia, era judeu e conheceu sua esposa na fábrica que trabalhava. Se apaixonaram e se casaram, mas quatro dias depois foram presos pela polícia alemã, a Polônia tinha sido invadida pelos alemães e o casal foi levado para o temido campo de concentração Auschwitz. 

Chegando lá eles passaram pela ''triagem'', mas a mulher era muito bonita e foi levada por uns soldados para ser estuprada por eles, sem que o marido pudesse fazer nada. Ele passou uns dias no campo tentando saber o que tinha acontecido com ela, mas ninguém sabia. Até que chegou aos ouvidos de um oficial que o prisioneiro estava perguntando sobre sua esposa, então o oficial foi atrás do prisioneiro, o levou a um pátio e disse:

-Você quer saber o que fazemos com judias aqui? Então veja.

Trouxeram a moça, amarrada e a jogaram no meio do pátio, em seguida soltaram uns cachorros que a devoraram viva, tudo na frente do esposo, que também estava amarrado.

Ele nunca entendeu porque não o mataram naquele dia, pensou que teria o mesmo destino da esposa, mas não foi assim. Foi devolvido a sua ala e ficou lá por anos, enquanto via os amigos sendo mortos por cachorros, câmeras de gás, fornos e experiências médicas. Conseguiu resistir a doenças, fome e frio, até que anos depois foi libertado pelos aliados, e ao sair descobriu que toda sua família tinha sido morta em campos, não tinha mais ninguém no mundo, então aceitou o convite de um conhecido para começar sua vida longe de tudo aquilo e se mudou para o Brasil.

A senhora se apaixonava cada vez mais, mas entendia a dificuldade que seria se aproximar de alguém com lembranças tão pesadas. Um dia não aguentou mais e disse ao senhor que estava apaixonada por ele, que eles poderiam tentar ficar juntos e o senhor respondeu:

-Muito agradecido pelos seus nobres sentimentos, mas eu não posso gostar de ninguém, não tenho mais coração para isso. Às vezes na vida alguma coisa entra pelos olhos e vai queimando todo o caminho até o coração, como se tivessem nos jogado ácido nos olhos, ele entrasse no organismo e fosse descendo por dentro. Eu nunca amei ninguém como amei minha esposa, mas ver como ela foi morta diante de mim me matou tudo por dentro. Não foi só o amor que havia em mim que aqueles homens destruíram, mas minha fé e crença no ser humano e em Deus. Que Deus teria permitido isso? Depois desse dia entendi que estamos aqui para sobreviver, é lugar para os mais fortes, não sinto mais nada, é como  se naquele dia os cachorros tivessem me comido por dentro.

A senhora entendeu, mas em silêncio resolveu que iria mudar aquela situação. Insistiu nas visitas, levava comida, conversava e um dia deu de presente um gato. Levou alguns anos, mas finalmente o senhor cedeu e eles se casaram.

Quando minha avó contava isso carregava no lado romântico da história e naquela velha versão que todas nós, mulheres, já escutamos, não existe homem que diga ''não'' a uma mulher, existem mulheres que não sabem conquistar um homem.

E todos os homens que resistem é porque foram magoados, machucados e ainda estão traumatizados, por isso precisam de amor e carinho redobrados, é preciso ser paciente para conquistar o homem que amamos e que por algum motivo resiste a nós, mas se a mulher sabe se aproximar, o homem vai ceder.

Bom, acabou a parte romântica, vou dizer o que realmente aconteceu. 
A história da senhora que levava os bolos e investiu cinco anos de sua vida em conquistar um homem triste e traumatizado, sobrevivente de um campo de concentração, é real, aconteceu mesmo.

O resto é mentira da minha avó, das pessoas e da sociedade. Ninguém conquista o que não quer ser conquistado e homens não são esses coitadinhos de coração quebrado que precisam de mulheres ao seu redor tentando fechar as feridas.

No caso do senhor do campo de concentração os argumentos são outros. Ele realmente viveu esse trauma, que não se pode medir, ter a esposa morta na sua frente de uma maneira tão cruel, deixaria qualquer um congelado na vida. E todos os elementos que o seguiram, a luta pela sobrevivência, assistir a tantos horrores, o frio, a fome, enfim, esse senhor tinha todos os motivos do mundo para viver sozinho e não querer saber de nenhum outro ser humano. 
Mas imagino que depois de tantos anos isolado seu coração amoleceu um pouco com a senhora, que dava atenção e se mostrava apaixonada. É fato isso, eu acredito que todos os seres vivos reagem ao amor, é uma energia poderosa e sempre vale a pena investir nela.

Porém, é um caso isolado e por quê falo sobre isso?
Porque estou vendo uma quantidade enorme de Julietas investirem em homens que não querem saber delas e elas os tratam como se eles fossem sobreviventes de um campo de concentração e tivessem a alma dilacerada, precisando de cuidados urgentes.

Não são!

Não precisam do nosso amor durante cinco anos para reagir, isso não é viável.

Escutei esse absurdo ontem de uma amiga, que insiste em defender meu amado Romeu, dizendo que ele não me procura, mas continua gostando.

Porra nenhuma! Chega dessa mentira! Romeu não é sobrevivente de campo de concentração! Não procura porque não quer! Acabou, ponto.

Minha amiga diz ''é culpa da última namorada dele, você sabe o trauma".

Que trauma? Que a mulher é miss e largou ele por um homem mais interessante e rico? Nossa, que puta trauma! Quase comparável ao do senhor que viu a mulher ser morta na sua frente.

Chega de tratar homens como traumatizados da ''guerra do amor'' e que precisam de tempo para entender que nos amam. Não é verdade! Não ligam porque não querem, não procuram porque não querem!

Chega de tratar homens como vítimas de outras mulheres e por isso não querem saber de outro relacionamento.

Não é assim, não querem saber de outro relacionamento talvez com alguma de nós, mas outra vai chamar a atenção deles.

Não dá para continuar fantasiando de que eles são a parte confusa, perdida e assustada, que é só chegar de mansinho que vão se apaixonar por nós.

E eu não faço isso na  frente de Romeu, mantenho meu silêncio e dignidade, mas quando estou com meus amigos me jogo no chão e pergunto ''por quê, Jesus, ele não gosta de mim como eu gosto dele?'', ''por quê, Deus, ele não me liga?'', choro, sofro, me arrebento.
E o que meus amigos dizem? Um, o único honesto, me disse ''ele não te procura porque não está a fim'', mas os outros ao me consolar tiram a lista do bolso ''é que vocês moram em países diferentes e ele fica inseguro com isso (é? avisa a ele que existem aviões), ''é porque ele não te vê faz tempo e fica confuso (é? existem fotos e câmeras), '' é porque ele trabalha muito e não tem tempo'' (é? eu também trabalho e tenho todo o tempo do mundo para gastar com ele), é porque ele ficou traumatizado com a miss (é sobre trauma? Também tenho os meus e acho que nessa categoria tô ganhando dele).

É só lixo, nada mais. Não liga, não procura, porque não quer, não é um sobrevivente de campo de concentração que está traumatizado e precisa do meu carinho para abrir o coração novamente.

Uma amiga romântica me disse:

-Você desiste de tudo fácil, faz assim, tenta se aproximar dele como amiga, finge que está namorando alguém e só quer saber dele como amigo, vai cercando, conquistando, vai dar certo!

É? E quanto tempo essa merda vai levar? Porque eu tenho pressa e não posso investir mais de uma semana nesse assunto!

-Tá vendo porque não dá! Poxa, vai devagar, olha, você tem que pensar nas vantagens, já foi teu namorado, um dia gostou muito, esse sentimento pode estar lá, mas você precisa saber puxar para o teu lado.

Já deu. Aceito que estou loucamente apaixonada pelo Romeu, mas me dói menos escutar a verdade, que ele não está nem aí para mim, do que escutar essas teorias de como os homens são traumatizados e não sabem o que é o amor, até a gente chegar lá e ensinar.

Eles sabem o que querem e quem eles querem, vão atrás sem erro, sem traumas. Quando querem acham, fazem e acontecem, é assim que o mundo gira.

E só escrevo sobre isso porque estou apavorada de ver tantas mulheres que eu conheço investindo nessa teoria de ''sobreviventes de campos de concentração'' que tem o coração congelado e precisam de nossa atenção para descongelar. E hoje não vou nem encostar na teoria de exploração deles, que sabem quando a mulher quer e eles não, mesmo assim se aproveitam.

Não existe uma pessoa no mundo que nunca tenha tido seu coração quebrado, isso me leva a concluir que os homens não são os únicos traumatizados da história, todos somos, por tanto não precisamos aceitar migalhas e correr atrás de quem não nos quer, alegando que é um sobrevivente que precisa do nosso amor.

Mulher não tira trauma de homem, nem homem de mulher. No caso da senhora dos bolos é uma história excepcional, fora de série, e eu acredito que o senhor estava tão sozinho e sofrido que acabou se envolvendo, no fim foi bom para todo mundo.

Mas ao menos que seu Romeu seja um sobrevivente de campo de concentração, que tenha visto sua mulher ser morta na sua frente, não precisa de você correndo atrás dele e esperando que ele acorde e perceba o quanto te ama.

Eles amam essa atenção, mesmo quando não estão interessados na mulher, por isso carregam nas frases de ''eu gosto de você, mas preciso de um tempo'', ''não estou pronto'', ''tenho problemas no trabalho'', ''depois da minha última namorada fiquei receoso de entrar em outro relacionamento'', ''não é o momento de ficarmos juntos'', ''estou confuso''. Todas essas frases são sinônimos de ''você não me interessa''.

No meu caso prefiro a verdade, não me liga porque não gosta. Assim tenho o espaço mental para dizer horrores dele na minha cabeça, eu penso que não gosta de mim porque é um otário e isso me faz sentir melhor, por mais terrível que pareça ser assim, mas sou, paciência. Mas esse jogo de pensar que não me liga porque é um ''traumatizado do amor'' não funciona mais comigo, já caí nessa ladainha de achar que eu era ''enfermeira do amor'' e que com alguns cuidados, ele reagiria e perceberia que gosta de mim.

Dói demais gostar de alguém que não gosta de nós, mas é melhor aceitar isso e pensar que homens são adultos e sabem o que querem, do que ter que viver fantasiando com essa lenda de que eles são uns coitados, vítimas, que um dia amaram muito, quebraram o coração e agora precisam de tratamento, de maneira lenta e gradual, doses de amor de alguma amiga apaixonada.

A vida é simples, quando um homem quer, ele vai atrás, liga, se mexe. 
Ah, mas ele pode ter medo! Ora, e quem não tem? Ainda assim somos obrigados a sair da cama todas as manhãs, medo não é desculpa para não procurar quem nos interessa e no caso dos homens nunca foi.

Coração quebrado todos nós temos e ainda assim nos remendamos por dentro e continuamos gostando das pessoas. A vida segue, seguiu até para quem conseguiu sobreviver a um campo de concentração, por que não seguiria para todos nós? 

Nenhum Romeu ''traumatizado'' merece nosso tempo, nossa atenção, nem nosso carinho. Não existe essa categoria de ''enfermeiras do amor''. Mas para variar nós, mulheres, nos colocamos ali. Já está na hora de sair.


Iara De Dupont

2 comentários:

Patricia Gabriel disse...

...mas estou entendendo o teu ponto de vista...Iara,é bem por aí mesmo,abrir os olhos da mulherada,porque,se não dá pra correr,dá pra maneirar,se esconder do mal pelo menos,e,claro,nunca fazer papel de mãe,enfermeira...isso tira deles o desafio que de fato precisam para virarem homens de verdade,a gente não tem não,que ficar fazendo coisas por eles,e isso é fato;quando querem,sabem o endereço,não são cegos nem mudos,muito menos surdos!

Andrea disse...

Poxa Iara, podia ter feito esse post há uns 7 anos antes. Cairia como uma luva. Naquela época, eu com 23 anos (hoje com 30), descobri em primeira mão que essa brincadeira de 'enfermeira do amor' eu não jogo nunca mais nessa vida.

Gostaria muito de sugerir que falasse sobre o 'fantástico' partido da mulher brasileira que declaradamente é antifeminista (contradição oi?) e vai lançar uma candidata à prefeitura de SP. Veja a que ponto nossa politica chegou.

Um beijo!

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